Intervenção Cultural Underground IV
Feriadão prolongado, nada melhor do que emendar uma distração sossegadx no fds , curtir o que resta do seu salário suado numa bela e tranquila pousada a beira-mar, esticar uma rede num coqueiro paradisíaco e tomar aquele Dry Martini chiquetoso. Certo?? Óbvio que NÃO. Pois o que mais pode ser levado em consideração digna da sua maior atenção quando se tem um role histórico rolando num balneário cheio de gente bem afortunada, como esse que houve em Rancharia no dia 02/05? Um GRIND dia!!! Perfeição é a palavra que melhor define, sem mais, nem menos, sem choro, sem vela acesa/apagada, sem por, sem tirar, sem nenhum defeito e com qualidade indescritível. Com direito a vista pro lago enorme que ficava bem atrás do palco. Quer mais? Entrada FREE.
Essa é a tenda que foi montada, não se engane, era um espaço enorme
Um cast monstruosíssimo reunindo bandas lindamente majestosas (algumas que percorreram uma loooonga distancia pra colar), reencontro de camaradas, recepção acima da média com estrutura acima do esperado, mais bródagem, ambiente altamente apropriado e espetacular. Uma esbórnia promovida por um cara totalmente respectivo e incansável chamado Fernando Shi, que vem trazendo a alegria da algazarra desatinada desde 2013 com o I.C.U. Não preciso nem mencionar o fato evidente, de que não é sempre que eventos animalescos como esse acontecem, inclusive no interior, outro detalhe básico sobre as dificuldades costumeiras que nos deparamos com uma localização envolvida por um paradoxo consequente da falta de apoio por parte dos órgãos representativos da cidade (primeira edição ocorreu numa sexta-feira santa com direito à um interrompimento sutil da procissão que passava pelos arredores do local onde acontecia o evento). Nós, meros mortais que fazemos parte desse universo intenso do subterrâneo estamos mais do que acostumados às precariedades e desvantagens quando o assunto é estrutura (e nem é preciso explicar o que todo mundo já tá saturado de saber), aparelhagem bixada é o trosso mais broxante depois da falta de consideração de organizador pela-saco. O que já não era o caso, nenhuma banda foi prejudicada com problemas de regulagem, dava pra ouvir tudo direitinho, absolutamente TUDO estava impecável desde o local até o equipo. Isso sem contar a ideia genial do CARBONO ZERO, um esquema ecológico que se baseava na venda de kits de CDs beneficiando uma instituição filantrópica de combate ao dióxido de carbono.
Era possível notar através da euforia contagiante que tomou o lugar, uma vibe que fez com que muitos ficassem com uma sorrisão estampado escancarado no rosto e um brilho ofuscante nos olhos. Aqui vai uma pequena nota de como foi a festança ruidosa.
O power trio de Birigui deu inicio ao I.C.U IV sem cerimônia com seu thrash metal tradicional. Devido à algumas correrias que estava envolvido no começo do fest, (tipo carregar, descarregar coisas, corre pra lá, volta pra cá) não consegui assistir a apresentação com mais atenção, contudo a retidão do som apresentado demonstrou bastante entrosamento e maturidade . Apesar de não manjar o som do caras, pelos poucos sons que tive a oportunidade de conferir, deu pra se certificar de que estão no caminho certo. Ainda não possuem um material gravado em estúdio, mas você pode se manter informado das atividades da banda através do perfil no face: https://www.facebook.com/nucleartrashband?fref=ts
Impressionante como me surpreendo a cada show dos caras, que mais parecia uma demonstração instigante de interação esmagadora enquanto o público pirava. Agitaram a galera mostrando a verdadeira razão e motivo do aprimoramento que obtiveram pela experiência adquirida, provando que todos esses anos se fudendo como banda pode gerar bons resultados. O novo vocal Vitor Machado (Desgraceria, ex-Obliteração) acompanha o ritmo dissonante numa linhagem crustzera admirável e íntegra. Ironicamente, seu 2º nome faz total sentido ao que faz com suas arrebatadoras cordas vocais, já que seus berros soam como uma machadada no meio crânio. Depois que mais uma guita foi adicionada, as passagens inescrupulosas do som, além de mais audíveis, ficaram com uma característica mais nítida, não para preencher espaços vagos, mas acrescentando mais brutalidade ao que antes já era um atropelo violento. Crust/HC/Punk mal-educado e mal-humorado do jeito certo que deve ser, sem espaço e sem tempo pra virtuosismo e fuleragens descartáveis.
Mais uma banda relativamente nova que também não conhecia e fui pego de surpresa . Fastcore/Punk bem enérgico, lembra um pouco a pegada do Discarga e Charles Bronson, quesito bem notório inclusive, o que evidencia o puta potencial desses rapaizess de Campo-Grande. Destruição sem rodeios num pique torto, discurso engrandecedor e atitude D.I.Y realizada na prática, livre de qualquer demagogia barata. Foi empolgante pra cacete, a consistência era completamente perceptível e o entusiasmo dos caras demonstrou a satisfação de estarem fazendo parte do acontecimento marcante que estava rolando. Pessoalmente não é o tipo de som que piro, mas o show foi bem massa. Se continuarem assim, dá pra afirmar tranquilo que eles tem futuro bem sucedido.
Se fosse pra dar o parecer da procedência devida do crédito merecido pra esses humanos brilhantes, teria que estender o texto pra mais de um post pra ao menos tentar descrever o que é a sensação surreal de ver esses bródas tocando. Por ser da mesma cidade do vocal Bruno Ternoval (vulgo galã do crust), tive a oportunidade prazerosa de acompanhar a evolução do Reiketsu desde os seus primeiros dias de vida e underground. Caralho, a cada show fico mais maravilhado, sou bem suspeito pra falar desses manos. A mescla de segmentos estimados faz com que a musicalidade num todo fique sincronizadamente bem variada, criando uma série de texturas atmosféricas, balanceando entre o post-rock denso e o crust paulada, porém transformando a junção numa singularidade própria (se não entendeu porra nenhuma , escute imediatamente), despertando sentidos alucinantes enquanto seu corpo entra em outro plano de existência através de uma manifestação melódica. Foi a hora em que o tempo fechou dentro da tenda, esfriando na plenitude da má vontade. Uma versão brazuca de um filho bastardo do Isis que assumiu compromisso com o Neurosis, deu uma escapadinha com o Tragedy e pulou a cerca novamente com o Cult of Luna.
Como não tenho costume de fazer média das bandas que faço parte (não é descaso, muito pelo contrário, é apenas um lance pessoal que sempre carreguei comigo), jamais fiz questão de me gabar nem que essa exaltação fosse aceitável (nunca curti isso), portanto vou narrar a experiência de cima do palco quanto a perspectiva impressionante que foi vivenciada. Fiquei orgulhoso pra caralho em participar de um fest tão esperado. O som dos PA’s não chegava tão bem aonde a batera estava posicionada, mas nada que atrapalhasse o andamento do set. Foi demais tocar pra um público tão fervoroso e receptivo, ver a galera se descabelando com a apresentação que fizemos é o tipo de coisa que dá mais animo pra continuar seguindo adiante com nossa expressividade , não existe nenhum valor estimado que pague por isso. Vlw a todxs de coração!!! Gratidão eterna.
O Obitto já entrou descambando com um turbilhão massacrante efervescente. Falar bem delxs seria um pleonasmo dispensável, mas rasgar uma seda comprida pra esses monstros nunca é demais, pois nunca decepcionam. Chegaram descendo a madeira numa quebradeira abusiva, o que ficou parecendo que todos os ossos do nosso corpo estavam sendo trucidados feito ovos sendo pisoteados, foi quando o circo todo começou a pegar fogo e o pessoal se soltou de vez botando o local a baixo, puta banda presença de dar gosto. A sonoridade dinâmica pra caralho, variada pelo grind marreteiro ao hardcore rápido e cadenciado. Destaque pro batera Will que é um demente e não se cansa de espancar o instrumento descendo a martelada sem dó. Nunca me canso de ver/ouvir ao vivo! Always TOP \m/ !!!
Chama o SAMU!!! Trata-se de uma das maiores bandas de grindcore que infestam o cenário desse pais, se bobear, de todo o sistema solar. Deram continuidade à arruaça soando como uma voadora de 2 pés na caixa toráxica, esmerilhando a nossa carcaça e danificando os tímpanos alheios. Que fúria amigxs!! Que apelação!!! Desarmonizado, dispensa qualquer formalidade que se prese, desenfreando a pancadaria aperiódica numa aula de grindcore despudorado, endoidando qualquer um que estivesse por perto. Carregado de uma malcriação sem tamanho, agressividade contínua repleta de hostilidade sonora, se for pra colocar numa escala de medida de peso, diria que dá umas 90 toneladas pra mais. Puro requinte grindista. JÓIA !!!!
Dado o fim da brutalidade atordoante do Hutt, chegou o momento de realizar o sonho de ver uma banda fenomenal que jamais imaginei que veria ao vivo, muito menos por essas redondezas interioranas. Após um pequeno hiato longe dos palcos, os mestres do Death/splatter velha guarda retornaram as atividades com muito mais energia que já tinham. São experts no assunto e representaram o dethão gore 80’s a lá Autopsy/Impetigo com maestria, acima de qualquer limite determinado daquilo que pode ser considerado extremamente fudido, death metal tocado por quem entende de verdade sobre o conteúdo. Ver de perto os caras mandando petardos como Trial of the Undead e Anal-thorized Autopsy foi algo que fica bem difícil relatar, só quem viu pra saber. Se não viu, perdeu, se fudeu. Quando a primeira música citada começou chamando na guita o bagulho saiu do controle e foi difícil manter a decência. Mas quem quer saber de decência??? Fiquei estagnado com a qualidade, sonzera perfeita pra moshar e deslocar o pescoço da vértebra enquanto sente seus órgãos internos apodrecerem. Performance fora de série. Classe!
Um dos principais expoentes do goregrind nacional estava prestes a apavorar. Era como se eu estivesse revisitando uma fase dahora da minha vida em que exerci algumas tentativas frustradas de montar uma banda do mesmo nipe, época de ouro quando tudo sobre entretenimento gore, sick-fuck e 100% bizarro era prioridade pra mim. Pessoal que ficou atento assistindo quase nem piscava. Talvez por ser a primeira vez que vi a banda confesso que esperava um pouquinho mais, mas não tenho muita moral pra falar porque a essa altura do role eu já estava envolvido pelos efeitos consequentes do consumo excessivo do suco de cevada santa, podem até me chamar de mulecóide juvenil, mas o fato é que a desgraceira não me prendeu tanto. Independente do que eu acho ou não, no geral o show foi legal, e deu pra matar a vontade que eu tinha de ver os caras ao vivo há tempos. Um detalhe interessante que deu pra notar durante a apresentação, é que eles acabaram desenvolvendo um estilo característico próprio, baseado nas inúmeras influencias (claro), mas que com o passar do tempo acabou se transformando numa alçada única, um riff lembra isso, uma marcada lembra aquilo, mas nunca ouvi nada até hoje que seja totalmente semelhante ao som dos “Moedor de Carne” . Splatterzaum de gente que adora contemplar uma tumba cheia de vermes, pra depois dançar um arrasta-pé no bailinho repulsivo. Nojento, visceral, pútrido e com saborsinho de sangue coagulado.
Na ativa desde 1991, o Noise faz total jus ao nome literalmente, mantendo essa proposta definitiva por 24 anos, propagando seu ruído bestial ensurdecedor, cagando em cima do modismo e cuspindo na cara daquelxs que vivem achando que pra formar uma banda é preciso ter uma baita técnica elaborada e destreza. Esqueça tudo que você já ouviu sobre musicalidade, pegue a sua carteirinha da CRMG e enfie no rabo. Porra, ali o cabrito encharcou de vez, o clima azedou que foi uma delicia, ótimo pra enlouquecer na chucrise absoluta, 3 maluko, meias notas, bate bate frenético nas cordas soltas, MUITO barulho pra deixar o zunido no tímpano estourado, curto, tosco, sujo, emaranhado e caótico, é isso, PQP!!!! Fodão demais, o grau do divertimento foi estratosférico. Isso sim é anti-musica, barulheira descontrolada pra alegria geral, não como esses projetos de banda ambulante que tentam forçar uma pose desleixada só pra camuflar toda a podreira com a desculpa esfarrapada do experimentalismo. De qualquer forma...CHOCRÍVEL! JÓIA.
Banda velha de guerra sempre é sinônimo de responsa, o som calejado conduziu a mocidade e velharia badernista num instante. Representantes persistentes do grind old coeso, de porte turbulento, tarimbado e maquinado na medida correta. Não tem muito o que falar, é grindera feita na fórmula exata pra ecoar feito uma surra interminável que seu corpo esta levando e ainda pedir por mais. Bordoada desgracenta absurda envolvida em bases cavalares precisas, blast 1/1 seguido de levadas hardcore punk atravessando as pausas. Subcut sendo Subcut.
Um dos shows mais esperados por vários ali presentes e um dos melhores que vi nessa vida, sem dúvida. Geral não arregou nenhum segundo e ainda continuou balançando o cabeçote sem parar, o que não é tarefa fácil pra ultima banda num role dessa proporção, após varias horas de barulho constante. Todo mundo parou pra ver sem tirar os olhos do palco. O espetáculo freak dos “mortovivo” havia começado e a sanidade foi assassinada, esquartejada, devorada e regurgitada de volta em forma de chorume cadavérico. Disseminando o alvoroço zombisítico e fazendo todos pularem de alegria como crianças psicopatas dando passeio num circo de horrores fazendo um agrado grotesco extraordinário. Belezura exibida de cadáveres em decomposição, vocal benzendo a galera com cusparadas de sangue e o deathbangueamento necroso e purulento comendo solto. Fecharam o role com chave de platina. Simplesmente formidável amigxs.
O fest deixou uma sensação de satisfação inexplicável além de deixar um gostinho saboroso de “quero mais, preciso de mais, anseio por mais”, sucesso do inicio ao fim. Quem estava presente sabe que meu comentário raso e emocionado não é exagero, e assim como eu, também não vê a hora esperada da próxima edição ser anunciada, até porque a proporção alcançada durante esse tempo desde a primeira realização, só mostra que o evento tem de tudo e mais um pouco pra crescer e continuar mais firme, forte e perpétuo por vários anos pela frente.
Fotos: Régis Garcete & Gustavo Santos
*PS:O Ministério do Coveiro Cascorento adverte, não existe remédio que cure os sintomas da calamidade pós-role, muito menos o arrependimento de perder uma festividade de magnitude estratosférica. Comparecer sempre é um sinal de boa saúde e ajuda a combater os males causados pela adversidade do “olho grande”.