É Surreal Que Tudo Isso Seja Real
Há anos que eu não ouço The Smiths e, devido a quarentena, acabei colocando sem querer no aleatório do Spotify. Loucura pensar que, há não sei quantos anos quando comecei a escrever por aqui, nunca seria capaz de imaginar que fosse existir algo como o app “Spotify”.
Eu sou do tempo do analógico digital. Essas duas palavras nem combinam, mas quem passou por isso, vai sentir a referência. A gente fazia playlists com os vídeos de músicas disponíveis. Outros baixavam e passavam para seus iPods, mp3′s e/ou celulares (com câmeras de até dois megapixels). Os filmes eram pirateados pelo “The Pirate Bay”. E olha que eu não tô indo tãããooo longe assim, a ponto de citar o eMule, Napster ou outro aplicativo que tenha ficado para trás junto com o sonho de sermos hexa.
A maior questão aqui, a ser discutida, é sobre o quão surreal é o que estamos vivendo. E o pior: é real. Eu lembro de estudar com afinco as passagens mais icônicas da nossa sociedade e, por uma fração de segundos, desejar estar lá, naquele momento, só para ver como era. Me arrependo profundamente. É como o Morrissey diz, né: “-So, Please, Please, Please, Let Me Get What I Want (…)”.
Tá feliz, Lucas Salles da quinta série? Satisfeito? Você sempre quis entrar para a história e, bom, bem vindo! Você está nela agora. Vivendo, morrendo, vendo os outros morrer e, infelizmente, vendo gente sendo negligente. Acredito eu, assim como eu juro que o mesmo Lucas da quinta série acreditava, que o problema do mundo nunca foi e nem nunca será o mundo em si. Tá na gente. Nessa gente negligente. Na pessoa que não se solidariza pela dor do próximo, mesmo sabendo que o próximo a se doer será ela mesma…
O problema tá naqueles que pensam que o mundo são deles, e não que o mundo também é deles. É nosso, p*rra!
Será que não existe uma maneira da gente criar uma consciência coletiva nesse momento tão único? Será que a gente tá pedindo demais? Cito aqui, sem muita dó e com muita certeza, os principais pontos que nos separam: a ignorância. A ignorância é inimiga do avanço. Mas não relacione “ignorância” com “burrice”. Jamais. Tô falando no sentindo mais fiel ao Aurélio. Tô falando no sentido de ignora, mesmo. Aqueles que optam por ignorar, pra mim, são os piores. E podem ser adolescentes, adultos, de esquerda, de direita, asiáticos, europeus, latinos, enfim, a ignorância não é uma “doença” que tem muitos critérios para existir. Na verdade, quanto menos critérios alguém tiver, mais chances desta pessoa sofrer por ignorância ela estará sujeita.
A outra coisa é a falta de empatia. Isso, pra mim, é infelizmente pior que a ignorância. Porquê a ignorância é energúmena, mas você acaba cedendo quando vê um outro alguém passar por uma situação deplorável, certo? Ainda mais “se esse outro” for alguém que você ama, né? Mas, infelizmente, acompanhando a roda da vida (que gira numa velocidade nunca vista antes), receio que algumas pessoas, que representem uma alta porcentagem da população, aos poucos, vem perdendo (ou, pior, nunca tiveram) a empatia pelo seu semelhante. Talvez o “semelhante” precise ter a mesma classe social, usar as mesmas roupas e ter as mesmas posses para, aí sim, criar preocupação nos outros. Se não usar as mesmas roupas, se não morar no mesmo condomínio, se não fizer as mesmas viagens, aí, não é digno deste sentimento “tão nobre”. Talvez, “nobre” até demais…
David diz que todos nós podemos ser heróis, mesmo que por um dia. Então, que tal sermos? A gente pode fazer a diferença na vida de tanta gente, mesmo sem saber. Você não precisa ter dinheiro para ajudar. Você nem precisa ajudar para, de fato, ajudar. Eu sempre detestei a frase “de boas intenções, o inferno tá cheio”. É a frase mais idiota do universo. Tudo na vida é motivação e intenção. Você tá sujeito a errar e, infelizmente, talvez isto aconteça. Então, como ver se o que você fez/faz/fará vale, realmente, à pena?
Pela caralha da intenção. Tenha boas, então. Queira ser um herói, mesmo que por um dia. Eu tenho certeza absoluta que você consegue. Não seja um ignorante. Tenha empatia. Já vai ajudar pra caramba. Então, quer ser um herói? Comece se preocupando com aqueles que estão perto de você. Isso vale para “família”, “amigos”, “funcionários”, “vizinhos” e até mesmo “sogra”, tá?
Vamos deixar esses erros, de sermos ruins, para o passado. A gente tem a chance de mudar o mundo. Perdão. Me equivoquei. A gente tem a chance de mudar as pessoas.
E, essas pessoas, vão mudar o mundo.