Toda manhã em casa era a mesma rotina. Quando eu decidia finalmente acordar, minha mãe já estava há muito tempo em pé. Enquanto eu ainda bocejava e arrastava chinelos, ela já tinha ares de meio-dia. E de manhã era assim, eu tomava o café com leite e comia um ou dois pães, minha mãe assistia o jornal matutino. Meu pai, nessa hora do dia era figura ausente, pois saia de casa para trabalhar quando ainda estava escuro. Minha rotina era mais fácil. Estudava à tarde e portanto tinha a manhã inteira para fazer o que eu bem entendesse, porém o que realmente me interessava eram os desenhos que passavam após o "Jornal da Manhã". As coisas para nós garotos, e também garotas, por que não, eram bem diferentes naqueles tempos. Não tínhamos um cardápio variado para nos deliciar a qualquer hora do dia. Eram apenas dois episódios de quinze minutos cada e fim. Se por algum motivo eu me afastasse da televisão por meia hora, pronto! Ficava o dia todo sem desenhos! E essa, naquela boa época, era a minha grande tragédia, meu maior drama, pois minha mãe quase sempre me pedia para fazer algo assim que o Jornal chegava ao fim. Nunca entendi o motivo de ele não me pedia algo durante o Jornal, nem tampouco entendi o motivo de eu nunca haver sugerido isso a ela! Ou talvez fosse o seu comportamento que me desencorajava de sugerir algo tão sábio, já que durante o Jornal minha mãe entrava numa espécie de transe. onde ficava lá. sentada na ponta do sofá, mexendo em seu avental enquanto absorvia as novidades da cidade e do mundo. Perguntar algo nesse momento era um desperdício de tempo, já que qualquer tentativa de comunicação era frustrada por um enérgico "chiu". E naquela manhã, obviamente, as coisas não foram diferentes. Assim que o apresentador libertou minha mãe do seu feitiço hipnótico, ela se virou e me pediu que fosse até o Seu Henrique comprar meio quilo de carne moída. Eu sabia que era inútil protestar, torcer o nariz, bufar ou fazer cara feia. Não porque minha mãe fosse brava ou algo assim, coisa que na realidade era não era, mas sim porque ela sabia como quebrar magistralmente minha insatisfação nesses momentos. Geralmente era com algo como "Vamos, vamos! Quando seu pai não está aqui quem é o homem da casa?", e pronto, com meu ego inchado todas as minhas possíveis barreiras desmoronavam. Mas não nesse dia. Nesse dia algo diferente, algo inédito aconteceu. Minha mãe foi até seu quarto, abriu uma das gavetas de sua máquina de costura, pegou dez cruzeiros para a carne e então disse:
"Pode ficar com o troco."
Não acreditei naquilo! Ela nunca havia me deixado ficar com o troco! Aliás, aquela era uma possibilidade tão remota que eu nunca em minha curta vida havia sequer cogitado que um dia isso pudesse vir a acontecer!
"Posso?" Perguntei sem muita convicção.
"Pode, e não demore. Ah e cuidado com a rua!"
Era verdade! O troco dos dez cruzeiros seria meu, para fazer com ele o que eu bem entendesse! Saí pelo portão sem sequer ouvir suas recomendações sobre segurança, afinal eu já tinha dez anos, era o homem da casa quando meu pai não estava e além disso estava a ponto de me tornar o garoto mais rico da rua! Enquanto caminhava pela calçada, uma preocupação, uma boa preocupação, diga-se de passagem, tomou conta da minha alma: O que fazer com minha futura pequena fortuna? A opção óbvia eram figurinhas. Faltavam poucas para completar meu álbum e se conseguisse seria o primeiro da escola e da rua a vencer esse desafio! Porém, lembrei-me da quantidade enorme de figurinhas repetidas que eu tinha e percebi que seria muito mais inteligente trocar com algum garoto pelas que faltassem para mim do que investir em algo que depende tanto da sorte como um pacote e figurinhas! A outra opção eram guloseimas. Me entupir de pirulitos, chocolates, balas e todas aquelas delícias que continham quantidades exageradas de açúcar! Mas isso era algo efêmero! No fim do dia ou mais tardar no dia seguinte já não teria mais nada. Nem dinheiro, nem doces! Eliminando então essas duas opções, o que restava era algo que me pareceu muito óbvio então:
Duráveis, divertidos e fáceis de trocar por qualquer outra coisa quando terminasse de ler! Me surpreendi por não haver pensado nisso antes! Então, enquanto caminhava despreocupado pela rua em direção ao açougue, fui percebendo todos os outros motivos que me levavam a investir meu rico dinheirinho em histórias em quadrinhos: Eram baratos, colecionáveis, duravam mais que doces e tanto quanto figurinhas, não dependia de sorte para serem escolhidos, e como estávamos no primeiro dia do mês, a banca do seu Paulo devia estar repleta de números recém lançados! Não havia mais dúvida. Minha rica e inesperada recompensa materna seria investida num ou mais exemplares de "revistinhas", como costumávamos nos referir às histórias em quadrinhos. Cheguei finalmente ao açougue e como era de se esperar, lá estava Seu Henrique atrás do balcão. Homem balofo de bochechas rosadas, Seu Henrique era aquele tipo de pessoa que estava sempre rindo e esbanjando bom humor e simpatia. Outra característica dele, e essa bem misteriosa para mim, é que apesar de estar lidando o dia todo com carne, seu avental e suas mãos sempre estavam limpas e impecáveis!
"Ora! Bom dia Fernando! Como está seu pai?"
"E que o senhor vai levar hoje?"
Ele sempre me chamava de "senhor" e eu adorava. Reforçava a ideia de que quando meu pai não estava eu era o adulto em casa.
"Meio quilo de carne moída Seu Henrique, por favor."
Com a habilidade que a rotina e o amor ao trabalho abençoam certas pessoas, em poucos segundo Seu Henrique havia moído a carne, embrulhado em plástico transparente e finalmente, com uma folha de jornal, embrulhado habilmente o pacotinho vermelho uma segunda vez e finalmente me entregado.
"Aí está senhor." Disse com seu sorriso natalino.
"Muito obrigado Seu Henrique! Quanto é?"
E naquele momento eu percebi o quanto o Seu Henrique era um homem de sorte pela educação que eu havia recebido do meu pai e da minha mãe!