sendo bem honesto, gilbert estava até calmo durante toda a coisa com o oráculo e tal, porque no fundo ele estava pensando “que bom que esse b.o não é meu”. ele só teria que acalmar uma galera, dar uma organizada no chalé e partilhar umas boas palavras de encorajamento para os coitados escolhidos para lidar com toda essa grande palhaçada. o problema é que ele acabou sendo um dos coitados, logo, o b.o agora era seu sim. quando o som agudo invadiu sua mente e a ficha caiu ele fez o que qualquer líder de chalé de respeito faria: entrou em pânico. aquilo só podia ser uma piada de mau gosto. ele, escolhido para cumprir a vontade dos deuses? era um evento de fazer rir de fato. entretanto, o filho de hermes teria de ir com os outros semideuses, gostando ou não.
após despedir-se de seus amigos e designar um substituto para comandar o chalé de número 11, o rapaz se resignou e terminou de arrumar sua mochila, finalmente partindo para a missão. verdade seja dita, ele estava muito aliviado por, pelo menos, não ser um dos líderes de grupo. era ainda mais reconfortante saber que não seriam os primeiros, significava que teria mais tempo para pensar em uma estratégia. por outro lado, não significava que estaria livre do medo. a quem queria enganar? gilbert era a pessoa mais medrosa que ele conhecia. mesmo que ainda não estivessem em batalha, ou sequer discutindo o possível combate, se olhassem com cuidado, era possível notar que ele estava tremendo que nem um pinscher.
ao ver miranda entrar, um calafrio percorreu a espinha do grego, não sabia dizer se a sensação havia sido causada simplesmente pelo ar de seriedade intensa da centuriã ou por outra coisa em seu comportamento. não importava muito, o fato era que no estado em que se encontrava, ela também o assustava. contudo, por mais que estivesse evitando contato visual, quando a ouviu falar sobre a conhecerem, o rapaz arriscou uma olhadela em seu rosto e constatou que ela era uma das campistas do júpiter que haviam visitado o meio-sangue durante o fim de semana. isso, no entanto, era tudo o que sabia sobre a filha de trívia, até ouvi-la se apresentar.
verdade seja dita, gil não tinha muitas perguntas a fazer exceto… “ a gente tem algum plano?” ele perguntou, sem tentar esconder a voz falhada de medo. “além do que você já disse.” proteger uns aos outros enquanto salvava a própria pele era sua especialidade e ele era bom com improvisos, então não era exatamente um desígnio difícil, porém, ela não era romana? não devia ter uma estratégia ou algo mais elaborado assim? “não que eu tenha algum problema com o que você sugeriu. é só pra… checar.” soltou uma risadinha nervosa. “eu sou o gilbert, inclusive. gilbert rockbell… ou gil… ou bebeto... você escolhe. enfim, sou filho de hermes.” e lá estava a tagarelice, sempre aparecia quando estava nervoso.
Heidi por muito tempo perguntou-se se havia sido amaldiçoada logo ao nascimento. Quer saber da verdade? Sim, havia. Ela e mais umas dezenas, centenas (ou quem sabe milhares?) de crianças, cujos pais eram deuses arrogantes, impiedosos e que pouco conseguiam enxergar além do próprio umbigo. Na equação, ainda possuía os titãs e os mais diversos tipos de seres divinos e mitológicos que também possuíam as mesmas características —acha que é à toa tantos conflitos assim ao logo da história greco-romana? Jamais. Ela como filha da própria discórdia saberia reconhecer isso. Foda que eles decidiam fazer toda a baderna e envolviam todos aqueles que nem mesmo tinha relação com a porra toda e isso deixava Heidi muito irritada. Pela injustiça de crescer tal qual muitos semideuses: abandonada num lar caótico sem contato algum com seu parente e sendo obrigada a viver situações grosseiras e desumanas, pela injustiça de se tratar da resolução de todos os problemas dos malditos deuses que encarava pelo caminho, pela injustiça de ser perseguida e afins.
Seu desafeto pelo momento estava impresso em seu rosto, claro como o dia, mesmo porque além de ter que lutar por sua vida diariamente, ainda estava sendo literalmente enfiada como a presa mais saborosa num ninho de criaturas prontas para lhe dilacerar a qualquer custo, sorteada como havia sido. A sorte sempre ao seu lado, aparentemente. E, além disso, era do seu feitio, pegar o oráculo e dar fim nele com tranquilidade, mas o restinho de consciência que lhe havia restado e a impedia de fazer as maiores das besteiras a segurou no lugar. Então se viu sendo jogada num avião coberta pela névoa, foram o que havia sido dito para aliviar a pressão de se tratarem de uma quantidade enorme de ímãs de confusões no ar, depois se viu sendo jogada na Itália num acampamento improvisado, dividindo momentos com romanos, e sendo obrigada a ouvir como se tratavam da última defesa do mundo mortal. Que se foda, era o que queria dizer, mas ainda assim ergueu sua espada, vestiu a armadura e pegou seu maldito escudo.
“O plano é não morrer”, murmurou mais para si do que para os outros. Não por algo estúpido. Não naquilo, não sem escolha. Ainda assim, aqueles eram seus colegas, não podia garantir que faria de tudo para mantê-los vivos, mas quando ergueu os olhos e fitou-os, após ouvir a loira se apresentar — o nome ela fez questão de guardar —, percebeu, com certo pesar, que esperava que todos sobrevivessem. “Heidi”, acrescentou seu nome à lista, com ombros erguidos e desviando o olhar para a centuriã. “Filha de Éris”, o que não ajudava. Tinha certa aura que gerava ainda mais impaciência com aqueles que dela desgostavam e ela não estava ansiosa para descobrir a reação que uma horda de criaturas com sede de sangue semideus teria sobre tal. “Dar nome às pessoas torna o luta mais difícil”, a piadinha mórbida certamente não faria o gosto de nenhum deles, não naquela situação, mas ainda assim a loira sorriu brevemente.
( ☾ ) —— Era um momento difícil, considerando que nenhum deles tinha lembranças prévias de batalha ou confrontos sérios como aquele. Bem, o que poderia fazer para tranquilizá-los? Não mentiria num discurso positivista pois isso só pioraria as coisas, afinal, um soldado que andava para batalha sem saber onde estava se metendo colocava toda a legião em risco. A jovem ouviu com paciência, pegando um papel e um lápis para explicar melhor o que tinha imaginado para o filho de Hermes. —— Somos quatro e, na pior das hipóteses, cada um de nós terá que enfrentar de dois a três monstros sozinho. Caso tivéssemos mais semideuses, eu optaria por separar os monstros, contudo, há mais chances deles nos cercarem do que essa tática desestabilizar a linha de defesa. A área onde eles estão surgindo é aberta, então não tem qualquer proteção natural para usar ao nosso favor. —— Miranda fez oito X para simbolizar cada monstro, e quatro círculos para simbolizar a equipe. —— A noite está caindo, então é importante que seja rápido para que nada nos surpreenda. Eu vou atacar primeiro e trazer a atenção para mim, assim vocês podem aproveitar e usar a distância a favor de vocês. Primeiro eu enfraqueço as criaturas, depois vocês irão finalizá-las. —— A filha de Trívia apontou para o papel novamente. —— Fiquem atentos à desvantagem numérica, mantenham a guarda alta e prestem muita atenção ao redor. Monstros não jogam limpo e não hesitariam em atacar por trás. Usem seus reflexos para isso, vocês tem sangue de semideus. —— Usava um tom de voz firme e sério, o mesmo que usava para instruir os legionários da sua coorte. Esperava que aquilo fosse funcionar.
—— Dar nomes faz você lutar mais. —— Gray respondeu, dando um sorrisinho de lado. Era verdade: apesar de não ser exatamente próxima de Nieve, tinha vontade de lutar por ela por estarem no mesmo acampamento. Não sabia se isso funcionava da mesma forma no Meio-Sangue, na verdade. Começou a pegar suas coisas, prendendo as adagas nas pernas e colocando a armadura de ferro estígio no lugar. Usava a blusa do acampamento romano e uma calça preta confortável, sabendo que se movimentaria bastante. O coturno militar tinha aparência pesada, mas se sentia confortável com ele. Agora era só questão de tempo até chegar onde o problema estava, e que Trívia guiasse o seu caminho de volta para casa.
Apesar do semblante sério, Miranda estava disposta a responder as perguntas e a ajudar no que fosse necessário antes da missão, tanto que checou os equipamentos dos outros e continuava a dar instruções ao longo do caminho. Assim que chegaram perto da fenda designada para o grupo, fez um sinal com a mão, pedindo que eles esperassem a sua deixa para atacar. —— Eu vou primeiro, vocês vão depois. Atrasarei as criaturas e isso dará margem para vocês. —— Disse com firmeza, segura de que aquele plano iria dar certo. Agora era só executar.
Em silêncio, Gray correu abaixada e pulou nas costas do primeiro Gemini que viu, que com certeza não gostou de ter uma semideusa montada em si. A jovem fincou Belladonna — sua adaga com essência de monstro — bem na clavícula do homem-cobra, que se contorceu com a dor do corte. Logo pegou Wisteria — a sua outra adaga de ferro estígio — para fazer um corte na garganta que, apesar de tirar uma boa quantidade de sangue preto do monstro, não o incapacitou totalmente. A criatura se debatia enquanto a centuriã apertava as duas lâminas, utilizando do seu peso para perfurá-lo ainda mais. Aquela não era lá uma cena muito bonita, considerando o líquido escuro que manchava as mãos da romana e o jeito que ele se contorcia agonizando em seu aperto.
O híbrido não conseguia atingi-la por conta de seu posicionamento, contudo, ainda tinha o seu tridente para atacá-la. O primeiro toque do monstro a fez se desequilibrar, mas Miranda conseguiu cair em pé. Com a guarda baixa e tentando se recuperar, a jovem sentiu as pontas do tridente a acertarem no torso, mas a armadura impediu que o machucado fosse mais sério. Irritada, Gray avançou novamente para a criatura, acertando Wisteria no olho do híbrido, que caiu fraco nos pés da semideusa. Logo em seguida a romana terminou o ataque com Belladonna, o mandando de volta para o Tártaro, de onde não deveria ter saído.
A sua movimentação claramente chamou a atenção dos outros gemini, e logo outro veio em sua direção. Como Miranda ainda estava no chão, usou as suas adagas para cortar a cauda escamosa do homem-cobra, que sibilou ao sentir as lâminas da filha de Trívia em seu corpo. Como retaliação, a criatura bateu o tridente contra Miranda, que foi lançada para trás. A centuriã sentiu a pressão da arma prendendo-a no chão, tirando o ar dos seus pulmões. —— Agora é a hora, gente! —— A líder avisou, irritada por estar presa pelo monstro.
MIRANDA: 394/425 HP 360/360 MP
NIEVE: 250/250 HP 220/220 MP
GILBERT: 225/225 HP 200/200 MP
HEIDI: 225/225 HP 200/200 MP
GEMINI 1: -64/350 HP 350/350 HP
GEMINI 2: 249/350 HP 350/350 HP
GEMINI 3: 350/350 HP 350/350 HP
GEMINI 4: 350/350 HP 350/350 HP
GEMINI 5: 350/350 HP 350/350 HP
GEMINI 6: 350/350 HP 350/350 HP
Nieve assentia com a cabeça enquanto escutava o plano de Miranda. Não necessariamente gostava da ideia de mandar a filha de Trívia à frente, mas ela tinha muito mais experiência com estratégia e campo de batalha, então teria que confiar nas decisões de sua líder e torcer pelo melhor. Isso Nieve sabia bem como fazer. “O plano é não morrer.” Ela repetiu, após as direções serem dadas e a reunião encerrada, olhando para os colegas de equipe. Conhecidos ou não, ela decidiu ali que faria de tudo para não decepcioná-los.
Tal como lhe fora ordenado, Nieve assistira e esperara Miranda dar os primeiros golpes. Loveshot estava em suas mãos, abaixado, e a flecha encaixada nele denunciava que estava pronta para atirar assim que lhe fosse dado o comando. Havia tomado certa distância dos outros colegas de equipe, ficando para trás para ter uma visão melhor do campo e, se os deuses quisessem, não atirar em ninguém sem querer. Ela identificou seis da mesma criatura circundando os arredores da fenda — lembrou que se chamava Gemini, como o signo, e agora que a via pessoalmente, percebia que era muito mais asquerosa ao vivo do que nas gravuras de livros. Assim que a centuriã atacou uma delas, outras a avistaram e seguiram em sua direção; Miranda conseguiu livrar-se da primeira rapidamente, mas a segunda revidou: ainda que houvesse levado um pouco do homem-cobra consigo, a garota estava presa no chão por um tridente, e outro Gemini estava chegando perigosamente perto.
Em um momento, a líder gritou-os a ordem; no seguinte, Nieve puxou a corda de Loveshot e acertou uma flecha diretamente no peito do terceiro Gemini. O monstro foi para trás e, de início, pareceu confuso. No entanto, ao olhar para a arqueira, algo em seu semblante estava diferente: ele estava encantado. “Isso... Boa cobrinha... Vem aqui, vem.” Chamou-o, tentando — e falhando em — esconder o medo e a completa falta de ideia do que estava fazendo em seu tom de voz. Ele a seguiu, esquecendo-se da Miranda imprensada no chão, e Nieve deixou que se aproximasse o suficiente para não estar mais em distância de ataque de nenhum dos outros semideuses. Então, quando certificou-se de que não corriam risco, a filha de Cupido invocou suas asas recém-conquistadas e, com uma cambalhota no ar, chutou o tridente da mão do Gemini, lançando-o para longe da criatura.
A mudança de expressão foi instantânea. O rosto do homem-cobra contorceu-se em uma careta de ira e desgosto, mas ao menos sua atenção estava somente nela. Ele tentou atacá-la e, com um urro horrendo, foi mandado para trás novamente; a flecha que Nieve fincara em seu peito ainda estava lá, junto da dor que a semideusa não demorou a encontrar e amplificar para desnorteá-lo ainda mais. Ela mais uma vez puxou a corda do arco e o acertou — desta vez, porém, atingindo-o na cauda escamosa.
Era engraçado como, às vezes, as pessoas cometiam os mesmos erros esperando resultados diferentes. Quando batalhara contra um Spartus ao lado de Cédric e Nate, o erro de Nieve, ainda que com boas intenções, fora tentar lidar com o monstro sozinha para proteger os colegas. Ela não havia reparado em como fizera a mesma coisa até ver o ódio nos olhos do Gemini, que agora aparentava estar não só ferido, mas ofendido. Ele agarrou o pé da semideusa e, com toda sua força, a puxou para baixo, levando Nieve ao chão. Suas asas desfizeram-se com a pancada nas costas e ela sentiu o ar escapar de seus pulmões, como se tivesse levado um soco bem no meio do tórax. Então o monstro enroscou a cauda no corpo da garota e a ergueu, colocando-a de pé bem à sua frente. Estava a esmagando. Nieve apertou a curva de Loveshot em sua mão, mas seria impossível atirar outra flecha com seus membros presos.
“Me larga, sua cobra de merda!” Falou entre os dentes. E depois, em um tom mais alto, ela gritou, na esperança de que os colegas de equipe a ouvissem: “Ajudem Miranda!”
MIRANDA —— HP: 394/425 / MP: 360/360
NIEVE —— HP: 230/250 / MP: 170/220
GILBERT —— HP: 225/225 / MP: 200/200
HEIDI —— HP: 225/225 / MP: 200/200
VITTORIO —— HP: 100/100 / MP: 100/100
GEMINI 1 —— HP: -64/350 / MP: 350/350
GEMINI 2 —— HP: 249/350 / MP: 350/350
GEMINI 3 —— HP: 188/350 / MP: 325/350
GEMINI 4 —— HP: 350/350 / MP: 350/350
GEMINI 5 —— HP: 350/350 / MP: 350/350
GEMINI 6 —— HP: 350/350 / MP: 350/350