O orvalho da manhã é tão mais lindo perto de você.
Mas, conforme a ampulheta marca o tempo, os pôres não evitam o soar do adeus.
Eu já te vejo ir com tanta nitidez,
que até dói menos,
apesar de não fazer tanta diferença.
Eu realmente te quero aqui,
mas essa tua forma de ser corcel indomável
me torna um capítulo corriqueiro do teu coração fugidio.
Minha doce obra-prima,
o meu quadro favorito.
Mas vou te deixar ir,
sem o gosto de saber
que a eternidade ao teu lado
era uma ideia, um sonho,
um desejo escondido da minha afoita alma,
que, com enganosa calma,
destila com ironia essa despedida seguida de um sorriso.
Não é orgulho, nem soberba,
apenas uma sabedoria protetiva, um sentimento de conformidade.
Nenhum argumento é válido,
nenhum discurso bem escrito te fará ficar.
Infelizmente, esse teu beijo venenoso ainda vai queimar por cada parte da epiderme,
como um lembrete claro de um amor esquecido.
Sempre inesquecível, quase esquecível.
Meu grande amor, o mais lindo de todos, mas eu não te espero:
é perda de tempo ficar presa numa promessa que nem ao menos foi feita.
Eu te conheço tão bem que certamente um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Na galeria dos amores eternos,
eu te cubro com um lençol branco,
pois essa lembrança pertence a mim,
e sobre você não vou falar, não vou mostrar.
Vai ver que, numa dessas narrativas,
eu encontre um detalhe furtivo que me faça amaldiçoar o dia do nosso adeus.
Prefiro guardar o nosso primeiro e último lindo orvalho da manhã como uma fala despercebida que não repito duas vezes,
pois a intenção não é ter atenção, nem mesmo compreensão.
Apenas suspirar isso em voz alta isenta de pistas claras:
— O que você disse?
— Nada. Pensei alto.