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@danosincuraveis
sinto falta de ser a mulher de alguém
é quase que inacreditável, mas você me perdeu. não que eu espere que haja a mínima importância para ti, pois na realidade, penso que eu é quem nunca quis que você me perdesse. no fundo, bem lá no fundo, já faz muito tempo que eu entendi que me manter ao teu lado era importante apenas para mim.
sinto falta da sensação de ser amada, tocada, desejada, vista.
sinto falta de acordar com o peito leve, sorriso fácil, dar bom dia, porque é um bom dia.
sinto falta de olhar para a vida com gosto. e mais do que nunca, sinto falta da segurança. aquela que nos torna seguros de quem somos, quando somos amados.
eu não sinto falta, porque a neurose existe, consiste. sinto falta, porque me preenche, me completa.
a minha versão quando há amor, é a versão favorita de mim. e eu sinto falta de mim.
talvez os restaurantes, bares, passeios, e todos os donos de estabelecimentos, também sintam falta.
é que costumo ser aquela que sonha em conhecer o mundo e tudo que há de melhor nele, ao lado do amor.
é engraçado, mas sou tão mais bonita, quando sou amada. a segurança realmente me transforma. ser a fonte do desejo e admiração de alguém, é um dos maiores remédios para a autoestima. e a minha anda bem adoecida.
enfim, acho que já perdi a minha linha de pensamento. resumindo, sinto falta de quem sou quando há amor.
você vai ter noção do amor que senti por você, em um dia qualquer, quando por ventura, algo te fizer lembrar do quanto permaneci. do quanto cuidei, do quanto me moldei, do quanto quis ser suficiente, do quanto quis que fosse você.
mas ao decorrer dos dias, dos detalhes fúteis, da dinâmica automática. finalmente entendi, que não era recíproco.
então, assim como com você, em um dia qualquer, aconteceu comigo.
por acaso ou ventura, eu entendi que o meu último ato de amor, é não te amar mais.
acho que cheguei a um lugar muito silencioso dentro de mim. um lugar onde a dor não grita mais, ela apenas permanece.
é estranho perceber que, por muito tempo, escrever foi a única forma que encontrei de organizar o que sentia. agora, até as palavras parecem cansadas, como se também estivessem tentando entender o que fazer com tudo isso. eu não sei exatamente quando isso começou, nem em que momento a vida ficou assim. só sei que, hoje, tenho a sensação de estar olhando de frente para os meus últimos dias aqui.
e o mais estranho é que, desta vez, tudo parece diferente. não existe medo, não existe aquele impulso desesperado de continuar lutando ou de provar força. existe apenas uma espécie de calma. porque eu sei que fui amada. eu sou amada. meus pais me amam. meu irmão me ama. meus amigos me amam. o meu amor me ama.
e talvez seja justamente por isso que a decepção se torne a minha maior perseguição. porque, no fundo, eu sei que escolher a saída para essa dor também significa decepcionar aqueles que me deram amor. dói saber disso. talvez vocês consigam me perdoar quando entenderem que não se trata de falta de amor. espero que quando eu não mais estiver, lembrem que me ouviram dizer, o quanto eu amei, e o que eu senti. eu estarei em paz.
sinto que as coisas seguem fluindo em mim, mas não de um jeito contínuo ou organizado. é um fluxo irregular, que às vezes parece seguir adiante e, em outros momentos, retorna ao mesmo lugar. não sei se estou me acostumando com a ideia de tudo o que aconteceu ou se apenas aprendendo a existir apesar disso. há instantes em que sinto que estou seguindo, que algo em mim se rearranja. e em outros, tudo volta a pesar como se nada tivesse se movido.
em alguns momentos do dia, a saudade aparece com tanta força que o choro parece querer sair de forma involuntária, sem aviso, sem escolha. não é algo que eu decida sentir, simplesmente acontece. o corpo reage antes, como se reconhecesse uma falta que a mente ainda tenta compreender. em outros momentos, eu penso em todas as congruências comigo mesma, em tudo o que fui, em tudo o que fiz, e isso me mantém firme. é como se eu precisasse me lembrar, repetidas vezes, de quem eu sou para não me perder na ausência do outro. mas, também há aqueles instantes em que eu abro o whatsapp e não é curiosidade, é expectativa. a espera por uma mensagem, por algo que me reconheça, por algo que diga que eu importei. um pedido de desculpas, talvez. uma tentativa de reparo. alguma palavra que atravesse o silêncio e toque o que ficou em aberto. eu sei, racionalmente, que isso provavelmente nunca vai acontecer, mas eu me mantenho no mesmo lugar de sempre, com a mesma lealdade e o mesmo cuidado. não por espera cega, mas pela esperança de que, em algum momento, por acaso, por afeto, ou por reflexão, você possa se afastar das crenças negativas, limitantes e aversivas, que eu sei que ocupam sua cabeça, seu coração. talvez, em algum instante, você consiga se colocar no meu lugar.
tudo isso acontece ao mesmo tempo. a saudade, a firmeza, a espera. não há ordem. não há linearidade. há momentos que penso que estou aprendendo a aceitar. em outros, sinto que apenas estou cansada demais para lutar contra o que sinto. ja faz um tempo que aqui não há pedidos de desculpas e, ainda assim, continuo sendo quem sempre fui, disposta a compreender, escutar, a não transformar a dor em dureza. novamente, sei que isso nunca irá acontecer, mas ainda carrego o desejo de que um dia você não escolha o caminho da mágoa, da angústia, que consiga olhar com mais atenção para o caminho em que se lembra de que somos humanos, vivendo algo em que não deveria haver espaço para orgulho, desprezo ou abandono.
e talvez seja isso que mais me confunda. porque mesmo tentando seguir, mesmo tentando me manter inteira, ainda existe esse desejo de ser reconhecida, de ser vista com o mesmo cuidado que eu sei que ofereci. não para anular nada do que aconteceu, mas para que o que vivi não pareça pequeno, exagerado ou descartável. para que eu não precise duvidar de mim mesma por ter sentido tanto.
enquanto isso, o tempo vai continuar passando. e eu sigo dentro dele, entre a saudade que dói, e a rigidez que me sustenta a essa espera silenciosa que eu ainda não sei como abandonar.
de fato, há um desgaste silencioso em precisar convencer alguém de que o que você sente é real. e muito mais em ter que esperar que alguém se convença de que você sente coisas reais. é como se a própria dor tivesse que passar por um julgamento, como se só fosse legítima depois de aceita pelo outro. e nesse processo, sem perceber, a gente vai se afastando de si para tentar caber na compreensão alheia.
tenho notado que insistir em ser validada me fere demais. até mesmo mais do que sustentar sozinha aquilo que sinto. é quase como um desrespeito comigo mesma continuar oferecendo minhas entranhas a quem sempre decide que não é importante considerá-las.
não sei porque vivo esquecendo que implorar compreensão é uma forma delicada de abandono de si. é estender a mão repetidas vezes até esquecer o peso do próprio braço. se colocar em posição de espera como se o outro tivesse o poder de dizer se a sua experiência existiu ou não. a minha dor não precisa de autorização. ela aconteceu e acontece em mim. ela mora no meu corpo. no aperto que vem sem aviso. no cansaço que não descansa. na memória que insiste em reaparecer mesmo quando o dia parece comum.
eu sei o que sinto. sei o que isso me causa. e isso deveria ser suficiente para que eu não precise mais provar nada. ou pedir que tenham ao menos um pouco de cuidado comigo.
sei lá, ter coragem de me abrir sobre meus maiores monstros e ver que estar ao meu lado em importância e cuidado não é uma urgência faz você perceber que está diminuindo a própria voz para ver se assim ela finalmente é ouvida.
sinto que estou sempre tendo que negociar a intensidade do que sinto para não parecer demais. que preciso pedir menos para não incomodar.
ver como as minhas dores e os meus medos são insignificantes me fez parar, pensar, recolher as minhas palavras, não porque deixaram de importar, mas porque merecem um lugar seguro. um lugar em que minhas dores também importem.
não estou deixando de sentir, apenas deixando de implorar. devo guardar a minha dor comigo, não para me esconder, mas para proteger, porque os meus traumas e os meus medos são parte de mim, e não um argumento a ser vencido.
aqui escrevo porque o silêncio me fere, porque o que vivemos foi real para mim, porque ainda acredito que é real, e porque o que vivemos merece mais cuidado do que o silêncio tem permitido.
existe um período do ano em que meu corpo entra em estado de alerta antes que eu perceba. não é escolha. não é pensamento.
é como se algo antigo acordasse primeiro:
o sono fica leve,
o peito mais apertado,
o mundo menos seguro.
sensação constante de alerta, de fragilidade, de esforço para me manter inteira.
não revivo apenas o que aconteceu. revivo a sensação de estar sem saída. o corpo volta a sentir que precisa dar conta sozinho, que pedir ajuda é perigoso, que depender é um erro que custa caro. esses dias, eu não estou apenas mais sensível. estou mais exposta. e foi exatamente aí que fiquei sozinha.
não é sobre o fim de uma relação. acredito que um fim não foi se quer sua intenção. mas para mim, foi como a retirada da única mão que eu acreditava que ficaria quando o chão começasse a ceder.
ser deixada a deriva nesse momento não foi apenas uma ruptura afetiva. é uma experiência de afogamento lento: o ar ainda existe, mas chega atrasado, e cada tentativa de respirar exige esforço demais.
foi sentir que, mais uma vez, precisei sobreviver sem apoio no mesmo ponto onde aprendi, no passado, que pedir cuidado pode custar caro.
o meu corpo tem tentado reagir. a minha mente tem tentado organizar, justificar, entender. a ideia, de que desta vez seria diferente, de que a confiança não seria punida, de que o amor não exigiria que eu sobrevivesse sozinha outra vez.
quero que você saiba:
não te entreguei minha história por fragilidade, mas por confiança. porque acreditei que você jamais pisaria onde já doeu. não digo isso para te culpar, mas para que você saiba de onde veio a intensidade da minha dor. dividir minha história com você nunca foi excesso, nunca foi um peso jogado sobre você. foi um gesto de confiança. foi acreditar que, ao seu lado, minha dor não precisaria ser defendida, explicada ou escondida.
hoje, eu me sinto meio fragmentada, como se cada parte minha estivesse lidando com uma ameaça diferente, e isso me trás uma sensação difícil de nomear. não é culpa, é sujeira.
uma sujeira que não vem do corpo, vem do olhar do outro sobre mim. é quando você começa a se ver como alguém cujo amor parece um castigo, como se ser amada por mim exigisse penitência, como se minha presença fosse um peso que autoriza o abandono.
a cada instante que fecho meus olhos, eu revisito cada gesto meu tentando entender em que ponto falhei. em que momento deixei de ser suficiente. eu não encontro vulgaridade em mim. não encontro deslealdade. eu nunca dei margem. nunca brinquei com confiança. nunca desejei estar em outro lugar, nem com outra pessoa, porque desde que a conheci, o meu querer se organizou em torno de você.
eu amei em atos visíveis. em presença. em constância. em escolhas repetidas. e o que mais me atravessa, é ser colocada no lugar de quem não respeita. como se todo o cuidado que sempre tive não fossem suficientes para ser lembrada como sou, quem eu sou, quem eu sei que você sabe que sou.
tudo isso me fez questionar coisas muito profundas. será que eu realmente merecia ser tratada dessa forma? será que há algo em mim tão ruim a ponto de apagar tudo o que sou pra você? se nada do que fiz em gestos, em escolhas, em constância, parecem suficientes para sustentar quem verdadeiramente sou. eu não fui perfeita. mas fui leal. fui presente. e tenho tentado, continuo tentando, ser cuidadosa.
quando eu senti ciúmes, eu conversei. mesmo quando me senti ferida, porque me causou ânsia, me causou ansiedade, me causou tristeza, me causou insegurança. mas, eu tentei compreender. não deixei que a dor e a angústia me transformassem em ataque, porque o meu coração conhece você.
não escrevo esperando justificativas. nem tentando apagar dores que você possa ter sentido. elas são reais, e eu não as invalido. também não escrevo para exigir respostas que talvez nunca venham. pois sei que dificilmente você acredite que aqui do meu lugar, há razão.
eu escrevo porque preciso acreditar que apesar de toda mágoa, ódio, ou rancor que alimente, eu acredito que aquilo que somos merece, ao menos, um instante de reflexão.
que você possa, em algum momento, se perguntar se eu realmente merecia ser tratada dessa forma. se tudo o que ofereci foi tão pouco a ponto de ser esquecido por algo que eu não fiz. ou se minhas dores foram menores do que tudo isso fez parecer. não espero que minhas palavras apaguem as dores que você possa ter sentido, elas são reais e eu as respeito. mas ainda guardo a esperança de que reconhecer a minha dor não diminuiria a sua, apenas devolveria humanidade ao que construímos.
eu sigo adiante com o cuidado que sempre tentei oferecer. tentando não permitir que essa situação me faça duvidar de quem eu sou ou da forma honesta e leal com que sei amar. com que amei, com que amo.
e talvez nada mude, mas deixar isso dito é a maneira que encontrei de não me perder de mim.
Não me olhe com olhos de tribunal.
Eu já me julgo
antes que qualquer palavra
seja dita.
Eu avisei,
não para me poupar,
mas porque me conheço.
Ao meu lado, amar nunca foi fácil
porque eu tropeço
no que sinto
e atraso quem caminha comigo.
A gente sempre aguardou o fim.
Não como sentença,
mas como pressentimento.
Somos parecidas nisso:
sabemos quando algo é intenso demais
para durar ileso.
Tenho pavor da repetição
porque nela
eu me revejo.
Vejo meus medos conduzindo,
vejo minhas falhas voltando
com o mesmo rosto.
Não me olhe com olhos de tribunal.
Não porque eu seja inocente,
mas porque já carrego
a consciência pesada
de quem ama
e ainda assim machuca.
Eu te amo
mais do que posso contar,
mais do que sei explicar,
e menos,
muito menos,
do que consigo suprir as suas expectativas.
sinto a sensação de arrancar um pedaço de mim todas as vezes que preciso me desculpar pela forma como a minha cabeça e o meu corpo funcionam
Sessenta e um dias.
Nos últimos sessenta e um dias, passei por tudo o que achei que não suportaria. Vi as certezas mudarem de lugar, vi o que era concreto se desfazendo devagar, sem aviso.
Sessenta e um dias entre dores, medos e a sensação constante de que eu havia perdido tudo. O movimento, a rotina, o trabalho, o controle. Eu, que sempre busquei por autonomia, de repente precisei aprender a pedir ajuda até pra levantar da cama. Tudo o que era simples se tornou difícil, e tudo o que era certo se desfez diante de mim. Tudo foi tomado por um silêncio que não pedi. E o que restou foi a ansiedade de não saber até quando.
Diante dessa roda viva, agir com calma parecia impossível. Fui tomada pela mistura de medo e saudade, pela raiva de me sentir só, pela angústia de esperar algo que não vinha. Eu errei. Disse o que não queria dizer, fui instável. Fui tudo o que eu nunca me permito ser. Mas de forma honesta, era o que eu conseguia ser naquele momento. Não tinha forças pra ser ideal pra ninguém, eu não estava sendo nem pra mim. A dor me bagunçou por dentro.
E eu, sempre que acredito estar tentando me proteger, acabo ferindo. Não por vontade própria, mas porque não sei como lidar. As vulnerabilidades me atravessaram de um jeito que nem o tempo explica direito. É estranho perceber como o sofrimento transforma até o tom da nossa voz, o jeito de pedir ajuda, o modo como a gente ama.
E por falar em amor, houve um tempo em que eu acreditava que o amor bastava, que bastava querer, que a vontade de ficar era suficiente para segurar tudo em pé. Mas o tempo mostrou que até o mais bonito se desgasta e que a vida, às vezes, desmonta o que a gente achava que era sólido. Eu fui aprendendo isso entre todas as idas, entre silêncios que pesavam mais do que qualquer palavra e entre as palavras que eu passei a não conseguir mais falar, os sentimentos que não consegui mais comunicar. Hoje olhando para tudo com mais calma, entendo que me causa um tipo de medo discreto, aquele que não paralisa, mas que nos relembra diariamente a sensação de instabilidade e insegurança.
No silêncio da casa vazia me pego pensando em que momento dentro desses sessenta e um dias, nós deixamos de nos reconhecer. Não sei quando foi que tudo começou a se perder. Acho que foi aos poucos, uma resposta fria, um diálogo mal interpretado, um sentimento mal expressado, uma tentativa de conversa que morria antes de começar. E eu, que sempre achei que entender era o bastante, me vi tentando juntar o que não tinha mais volta em todas as vezes que chorei implorando por mais uma chance.
Hoje, olho para tudo com uma mistura de paz e falta. Sei que apesar das emoções terem me embaralhado, eu finalmente consegui me acessar, me reestruturar. Não sou mais a mesma. E talvez nunca volte a ser. Mas aprendi a ter mais compaixão por essa versão minha que tentou segurar o mundo com um pé imobilizado e um coração em pedaços. Ela não soube fazer tudo certo, mas fez o que pôde pra continuar de pé. E apesar de hoje compreender, às vezes eu ainda queria entender como é que a gente foi chegar a esse ponto, sabe? Não encontro resposta, só um cansaço leve que o tempo deixou. E, no meio desse vazio, eu percebo que talvez o fim não tenha sido só perda foi também o começo de uma calma que nós ainda não havíamos conhecido. Não sei ao certo se quero resposta para a forma com que tudo aconteceu. Por que talvez nem exista. Agora, eu apenas deixo as coisas ficarem no lugar que quiserem, visto que as inseguranças se instalaram nos espaços onde antes existia certeza, e as incertezas agora me acompanham como quem aprendeu a viver com o que ficou. Já não sei se as coisas precisam voltar a ser como eram, ou se o que aconteceu foi apenas o necessário para que eu me tornasse outra, melhor. Mas sei que no fim, toda essa turbulência deixou marcas, não daquelas que seguimos em frente e agimos como se nada tivesse acontecido, e talvez essa seja a parte mais difícil. Entender que sobreviver também muda a gente, que às vezes o amor, quando falha, pode não levar a relação, mas leva a confiança, leva o abrigo, leva a versão de quem acreditava sem medo. E depois de tudo isso, eu realmente não sei se um dia você estará disposta a acolher esses sentimentos que em mim ficaram, disposta a ser paciente, me olhar com carinho, a cuidar para que possam vir a ser o que um dia já foram, certezas.
Me questiono se mesmo dentro do teu mundo que se virou do avesso e que hoje não mais me cabe, ao deitar na tua cama, você me vê na tela branca do teto, me escuta no barulho das portas que não foram abertas por mim, me chama em segredo para deitar contigo. Ou se apenas sente-se aliviada por não sentir mais nada.
Embora teu corpo imóvel guarde mais histórias do que qualquer movimento poderia traduzir. É estranho como a ausência pesa mais do que a presença. Há um vazio que ecoa dentro, e é nele que me reconheço: imobilizada pela falta, endurecida pela dor, silenciosa diante de tudo o que se quebrou.
A perda tem esse jeito cruel de petrificar. E eu me torno estátua porque não sei mais como existir nesse espaço que virou fronteira. Mas é nesse silêncio que percebo: talvez já não sejamos dois.
Penso que é questão de tempo, de um pequeno empurrão ou de um maldito sopro pra que tenhamos nossa vez, nosso cenário, nossa ocasião. Mas te vejo como uma estátua de mármore. Te olho parada e algo em mim insististe em se questionar se ainda existe vontade escondida por trás dessa rigidez.
Coisas que faríamos juntas ainda habitam minha mente, pequenas imagens de momentos que talvez nunca aconteçam, ou que já ficaram para trás. Outras, eu sei, você amaria fazer, e a lembrança disso me atravessa de uma forma que dói e aquece ao mesmo tempo.
Eu assisto, observo, e lembro como tudo foi tão bom, como se desde aquele instante em que te vi chegar no aeroporto tudo tivesse sido perfeito demais para ser real.
Como é que em tão pouco tempo encontrar um terreno seguro para nós já parece um delírio? Eu tento imaginar outros caminhos para seguirmos, alternativas que pudessem nos salvar, mas nunca pensei que nos encontraríamos tão distantes.
E não, não no modo literal. Distantes porque mesmo juntas, há um abismo invisível entre nós. O abismo que te faz me dizer que precisa estar longe para se curar, aquele que te faz acreditar que não há cura aqui.
Sei que o amor habita os mais inconcebíveis dos lugares, por isso minha cabeça não passa um dia se quer sem pensar que chegou o fim da excursão, que é hora de ir, hora de me reaprender, me aprender de novo, me refazer com os conhecimentos que essa grande viagem me proporcionou. Mas também penso se ainda há um desejo secreto de nos reencontrar, de recuperar aquilo que parecia simples e seguro, antes que se transforme em saudade impossível de tocar.
Será que no fim você era apenas uma estátua de mármore dessa grande excursão que é a minha vida?
Nem sempre o amor aparece nas fotos, nos jantares ou nas frases prontas. Às vezes, ele só se revela no bastidor. É lá que moram as decisões silenciosas, o esforço de continuar quando seria mais fácil se afastar, o cuidado que persiste mesmo sem ser reconhecido. O que sustenta um casal não é o que se mostra, mas o que se repete todos os dias: ouvir sem interromper, ceder sem perder a si mesmo, acolher mesmo sem entender. Amar é menos sobre dizer e mais sobre fazer, especialmente quando ninguém está olhando. É ali que mora a parte mais bonita. E mais difícil.
Quando um engole o orgulho para ouvir, mesmo já tendo um contra-argumento na ponta da língua.
Quando um segura a bronca da rotina para o outro respirar, nem que seja por cinco minutos.
Quando um ajusta os próprios planos para não deixar o outro sozinho num dia difícil.
Quando os dois decidem conversar sobre o que machuca, sem tentar ganhar, mas tentando entender.
Quando um ajuda o outro a se lembrar de quem é especialmente nos dias em que ele esquece.
Quando um dos dois pausa a própria urgência só pra escutar o desabafo do outro sem corrigir, sem minimizar.
Quando um segura a ansiedade do outro, mesmo sem saber exatamente como ajudar.
É nesse tipo de amor que eu acredito. Um amor que se constrói nas entrelinhas, nas escolhas que não pedem aplausos, mas que dizem muito. E por mais que eu deseje ficar, por mais que meu coração queira acreditar que vamos dar certo, eu preciso sentir que isso vem dos dois lados.
Eu gostaria de acreditar que você realmente não quer me perder. Que existe em você o mesmo medo de me deixar ir quanto existe em mim o desejo de permanecer. Mas o que me faz ficar não é o quanto você quer que eu fique. É o quanto você demonstra que vale a pena.
Porque o querer não me basta se não vier acompanhado de cuidado, presença, atitude.
Eu preciso de motivos para acreditar.
Motivos para me sentir segura. Para confiar que não estou lutando sozinha, que não estou apenas esperando que o tempo resolva o que só o amor consciente pode consertar.
Meu sonho sempre foi esse: olhar pra alguém e sentir, sem dúvidas, que estamos no mesmo lado. Que estamos dispostos a refazer, a reparar, a nos reconstruir. E que, no fim das contas, o amor que nos une é mais forte que os erros que cometemos.
Mas talvez esse sonho exista só em mim. Talvez seja a minha grande utopia. Talvez eu esteja querendo demais. Talvez os detalhes que preciso sejam sempre demais. Talvez o silêncio que ficou após à despedida diga mais do que qualquer promessa já dita.
E, no fundo, por mais que eu tente, eu começo a sentir que isso nunca vai acontecer.
E que tudo está fadado a se tornar mais um acaso perdido, superado, esquecido.
ponto final
Sobre tudo o que eu queria dizer, mas me calo
Tem dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra. E eu me calo. Não porque não haja nada a dizer, mas porque tudo o que sinto parece grande demais pra caber numa conversa. Porque dizer seria admitir que algo está se desfazendo, mesmo com amor ainda presente.
Em momentos como esse, olhar nos teus olhos castanhos já não é como antes. Não que eu tenha deixado de sentir, eu sinto. Mas dói. Dói porque amar alguém que não percebe as pequenas feridas que causa é um desgaste lento, silencioso, quase invisível… até não ser mais.
Tu me perguntas o que há, por que meu olhar se perde no vazio. E eu penso em tudo que se repete, nas vezes em que precisei e tu não viste. Penso nas histórias que ficaram mal resolvidas e que nós escolhemos esquecer, então sigo ignorando o que eu preciso, como se minhas dores fossem pequenas demais pra merecer tua atenção. E é aí que tudo começa a ruir: afeto sem consideração não é amor, é confusão. E é isso que sinto. Que a solidão parece mais gentil do que teu amor distraído.
Penso em te dizer que me sinto cada vez mais só, mesmo do teu lado. Que tenho tentado, tanto, que me esforço pra continuar acreditando, mas é difícil quando o cuidado se perde nos detalhes, quando meu sentir vira excesso, drama, exagero. Que me culpo por parecer dramática, por sentir demais. Eu tenho me sentido pequena dentro de algo que por vezes me fez tão grande.
Queria te dizer que estou cansada. Que, aos poucos, estás me perdendo, e não por falta de amor, mas por falta de atenção, de escuta, de intenção. E essa é a forma mais silenciosa e definitiva de perder alguém: quando ela ainda ama, mas começa a duvidar se vale continuar.
Mas sei que talvez não me entenderias.
Então digo “nada”. Porque dizer tudo seria o mesmo que rasgar o pouco que ainda me resta em mim. Te olho com olhos que carregam saudade do que nós já fomos e da expectativa que carreguei do que poderíamos ser, como se nossa história estivesse desaparecendo aos poucos, mas eu sorrio, mesmo que esse sorriso já não saiba mais esconder a frustração.
Porque às vezes o amor não acaba. Ele só cansa de não ser visto.
Eu já perdi as contas da quantidade de vezes que olhei para todos os lados e não consegui encontrar sequer uma saída que pudesse me libertar do vazio que me tomava por dentro. 25 anos, esses foram os períodos em que a cada dia, a cada dor, a cada situação, arrancavam pedaços de mim. durante mais de 10 anos, vivi batalhas que ninguém faz ideia. a minha vida sempre exigiu muito de mim.
fazem mais de duas décadas que estou frequentemente pedindo ajuda, na verdade, acho que desde que me entendo por gente clamo ao universo, Deus, Poder superior, ou quem quer que me ouça lá em cima, algo que me traria paz. A questão é que eu nunca fui atendida, e foram tantas, tantas dores, que a única justificativa cabível para aceitar, me convencer, é que talvez, eu realmente mereça viver assim.
A verdade é que tem horas que cansa ter fé, cansa tentar, e só cabe aceitar o ruim, porque não há mais energia pra mudar TANTA coisa, o meu corpo e a minha mente estão muito esgotados pra isso. É assim que eu me sinto. Me vejo esgotada, fisicamente e mentalmente. E só eu sei o quanto dói. Dói olhar no espelho e não se enxergar. Dói tentar sorrir quando tudo o que consegue sentir é um queimor no corpo, uma tristeza entranha, que faz o músculo do coração DOER. Dói mais ainda olhar em volta e não poder mudar a realidade ruim, não exercer poder sobre nada, nem sobre sobre nós mesmo.
Minha vida sempre foi como um peso que carrego sem suportar, e eu acho que estou no meu limite.
Eu me lembro do início. Das palavras que vinham sem esforço, como se a conversa fosse um rio e a gente apenas navegasse nele. Os assuntos pareciam infinitos, e qualquer desculpa era motivo para ficar mais um pouco, para adiar o fim do dia. Eu me lembro do meu sorriso quando você chamava, das brincadeiras que criávamos, dos apelidos que carregavam tanto de nós. Tudo tinha uma intensidade que parecia impossível diminuir.
E, no entanto, aqui estamos. Não acabou, mas também não é mais o mesmo. Há silêncios que antes não existiam, há tentativas de encontrar assunto onde antes tudo era natural. Sinto como se eu estivesse remando contra uma corrente que insiste em levar a gente para outra direção. Não que seja ruim, não que doa. É apenas diferente. Como se algo que foi tão vivo estivesse agora adormecido, mas sem desaparecer por completo. Que estranho é isso, perceber uma distância crescendo onde antes só havia proximidade. Não é que deixamos de nos conhecer, mas algo entre nós mudou de lugar. Às vezes, fico me perguntando até que ponto ainda vale a pena insistir em alguém. Até que ponto vale a pena insistir para que alguém não te perca? Eu não costumo deixar que as pessoas se aproximem de mim facilmente. Mas, quando deixo, faço questão de insistir nelas, de acreditar em nossa relação. Pois penso que há razões especiais que, de alguma forma, as fizeram quebrar minhas barreiras mais densas e, assim, conhecer o melhor de mim. O engraçado é que assisto no correr dos dias, exatamente o contrário do que acredito quando o assunto é: manter uma pessoa em nossa vida.
E, mesmo assim, eu fico. Fico porque ainda há algo que persiste, algo que resiste a se apagar por completo. Talvez seja a lembrança do que fomos, talvez seja a vontade de que, um dia, possamos voltar a ser. Não sei ao certo. Só sei que não consigo dizer que acabou, porque não acabou. Está ali, em algum lugar, respirando baixinho, pedindo espaço sem exigir presença.
Quando foi que nosso amor se tornou dúvida? Talvez tenha sido em todas as vezes em que o seu lado nunca conseguiu entender, que em todas as formas incontáveis e incansáveis de explicar onde dói, como dói e porque dói, era a esperança na sala de controle do meu cérebro, torcendo para que você pudesse entender que apenas precisava me entender.
Eu queria te dizer isso, sem pressa, sem peso. Eu ainda estou aqui, não com o mesmo positivismo nos olhos ou o mesmo sorriso fácil, mas com um sentimento que ainda existe, que ainda quer bem. Não sei se esse algo em nós vai se fortalecer ou se, aos poucos, vai desaparecer de vez. Mas, por enquanto, ele está aqui, mais frágil, mais silencioso, mas vivo. Você ainda tem a chave do meu lar, ou do pouco que ainda tem de pé. Não sei se me parece um fim, ou só um intervalo. Um espaço de espera, como se estivéssemos guardando fôlego para o próximo momento. Eu só não sei se esse momento vai chegar.