“Afonso pelado!” - Dave Walker 21/01/2017
Meu nome é Afonso, pense o que quiser sobre mim, mas a verdade é que cansei logo no fim da vida, minha saúde é de ferro, mas não posso ignorar as estatísticas sobre a média de anos de vida dos brasileiros, ainda mais recém fumante como sou, trabalhei em uma empresa de contabilidade a minha vida toda, meus pais me forçaram a seguir a profissão que os pais deles os forçaram também, coisa de família sabe, “oh chateação é ser contador!” Tenho sessenta e todos anos de idade e passei a maior parte do meu tempo com os números e clientes questionando meu profissionalismo enquanto me culpavam por eles mesmos estarem atolados em dívidas que fizeram, a verdade é que eu cansei da minha rotina. Já se passaram três meses desde quando me aposentei, após o meu último dia definido de serviço resolvi voltar à empresa e trabalhar pela última vez, eu precisava fazer algo para me sentir livre, fiz meus deveres com toda classe, e antes de cometer o maior ato de loucura da minha vida decidi almoçar ali pela última vez, afinal a comida era divina. Após o meu “ último horário de almoço, enchi o peito e soltei a meio tom esse novo “palavrão” que os jovens costumam usar com frequência, um inofensivo “foda-se” vindo de um velho frustrado, não surtiu efeito nenhum, repeti por três vezes e um jovem rapaz me mandou calar a boca, por sinal seria ele quem iria me substituir no trabalho. Senti uma frustração gigantesca, mas não por que seria substituído e sim por ter que sair dali sem fazer algo inovador e libertador, afinal foi o meu único emprego desde que me formei, dediquei minha vida toda à organização, mesmo não sendo feliz com tal profissão fiz o meu melhor, um dos melhores profissionais segundo meu ex-chefe, mas isso é outra história. Decidi então transformar o foda-se em vários “FODA-SE” daqueles libertadores quando gritados no meio do saguão da empresa, todos voltaram a atenção para o velho maluco que era eu naquele momento, com tanta fama tirei minhas roupas como se estivesse indo para o banho, já que estava tão famoso naquele momento resolvi ficar pelado como os famosos fazem, literalmente vi a necessidade de me lavar de toda aquela agonia e isso aconteceu, saí pela porta da frente, prédio grande com vidraças por toda parte, todos amigos da minha rotina e muitos curiosos estavam vendo esse momento de glamour ou insanidade, defina como quiser. Se meu antigo chefe ainda estivesse vivo seria meu discípulo naquele momento, se despiria do terno feito a mão e repetiria o meu feitio sem hesitar, ele queria ser dançarino, me confidenciou isso dois dias antes de morrer engasgado com café, vai entender! Fiz uma saída triunfal com aplausos, choros, delírios, havia até torcida gritando o meu nome, realmente cheguei acreditar que estava famoso, a multidão gritava tão alto que meu nome ecoava por toda parte “Afonso! Afonso! Afonso! ” sem falar dos olhares, uns olhavam de canto e cochichavam com os amigos que eu estava pirando, talvez velho gagá foi o que me fofocaram após o acontecido! Outros de olhos arregalados sentiam a necessidade daquilo, mas eram incapazes de repetir tal loucura, mas todos ficaram surpresos e com aquele tom de inveja por que no fundo não queriam ser aquilo que eram, um detalhe é que sempre notei que os pombos se aglomeravam na fonte em frente ao prédio onde “fiquei preso” por sei lá quantos anos, não vou tentar lembrar, não trabalho mais com isso de números! Descobri que a água era muito fria e naqueles dias de verão um lugar bom era assim, que tinha água fria, toquei os pombos para a outra parte e dei um mergulho, me senti livre naquele momento. Fui preso em seguida é claro, uma senhora daquelas “canelas de fogo” me chamou de satanás e também chamou a polícia, sei que ela estava no direito dela e eu havia excedido o meu, mas precisei daquilo porém não me arrependo. Hoje eu saí e já fiz todos os planos, vou seguir meu sonho, quero ser baterista de uma banda de Jazz coisa que sempre pratiquei mas nunca me despi do peso que o mundo havia colocado sobre mim para estar ali de corpo e alma, mas agora sei que o Jazz está mais vivo que nunca aqui dentro, não quero fazer sucesso só quero aproveitar o tempo que resta.














