davidcooperart·:
Dave sentia se um pouco culpado por pegar tanto no pé do garoto. Culpa tal que passava no primeiro olhar sobre o mesmo, sempre com um ar de que estava com preguiça da vida. Não podia o culpar também, os pais tinham grande responsabilidade pelo comportamento do mais jovem. Na tentativa de suprir a presença física e a falta de um casamento estruturado e tradicional acabaram o mimando de mais. Zane cresceu então com praticamente tudo que queria ao seu alcance sem precisar se esforçar muito. Pelo menos era a visão que Dave tinha sobre o rapaz. Como pai sabia muito bem como era difícil criar um filho e tinha ciência de que os amigos faziam o melhor que podiam. Ele mesmo enfrentava problemas na criação de seus adolescentes. Se não tivesse Marjory, ou melhor, se não tivessem um ao outro seria quase impossível criar 3 crianças. Ficava muito feliz por ter a companheira por perto.
Como na maioria das vezes que Zane tentava usar sua lábia furada para esquivar de uma situação Dave o deixava falar com um sorriso simpático, vez o outra franzindo o cenho com os comentários como o da “minha zona” rindo e e balançando a cabeça em negação - Tá certo.. Tenho sim, inclusive todos são pontuais e estão fazendo as devidas tarefas.- Comentou tranquilo abrindo o pequeno caderninho para conferir os próprios afazeres do dia, levantando os olhos apenas para ver o rapaz, que já estava distante. Ligeiro como sempre.
Ok, Dave não se sentia nenhum pouco culpado por pegar no pé do rapaz, pois quando o viu retornar após o chamado, não conseguia evitar o sorriso de satisfação na expressão de derrota do outro. - Primeiramente, não te odeio Pestinha. - Colocou uma das mãos no ombro do outro, que era pelo menos uns 10 centímetros maior, recordando-se do pequeno bebê que um dia carregara no colo, usando quase uma voz paternal para com o mesmo ainda em tom de censura devido ao próximo tópico que viria em forma de puxão de orelha.- Você chegou atrasado na minha reunião, isso que você fez. Cada vez que você faz alguma besteira aqui é meu nome que você suja, porque aparentemente o seu você não tem mais. Você tem noção de que você estar trabalhando aqui é uma chance e tanto? - Levantou uma das sobrancelhas, balançando a cabeça em seguida. - Enfim, não quero fazer esse papel chato de te chamar atenção, você é adulto e sabe o que faz. Só não ferra com meu nome ehn garoto! - Finalizou sem ser rude, mas em tom bem severo e como quem coloca um fim no assunto deu um sorriso malicioso de orelha a orelha - Você tem duas escolhas hoje. 1. Você fica por minha conta hoje e eu te deixo em paz ou 2. Você não fica comigo e eu faço questão de marcar atividades suas com todos os outros diretores nas primeiras horas da manhã. Qual vai ser? -
Não era nenhuma novidade para toda a equipe do programa, ou para os conhecidos mais próximos da indústria de entretenimento em Los Angeles, que trabalhar ao lado de Zane poderia ser uma das tarefas mais impiedosas que alguém teria de enfrentar em um set de filmagem. É comum que esse tipo de temperamento tempestuoso e bem, complicado, fosse esperado por parte de celebridades e outras personalidades alimentadas pela máquina egoística de Hollywood e não de um desconhecido por detrás da câmeras, mas o rapaz havia sucedido na tarefa de criar uma reputação não tão bem quista entre seus colegas de profissão que o perseguiria por todos os lugares apesar da pouca idade. As respostas cínicas e o comportamento displicente do rapaz eram características suficientemente conhecidas por todos que estavam acostumados a trabalhar com Rivas – frente à sua completa inaptidão de receber ordens e mais ainda de acatá-las, ou de sequer admitir a existência de autoridades que não à de si próprio – só se tornaram contornáveis quando se aceitara de que era praticamente impossível gerenciar o trabalho do mais novo de perto sem que fagulhas surgissem. Não fosse pelo carisma incomparável do jovem, qualidade herdada do pai, e que servia como sua carta mais poderosa para manter as relações profissionais profundamente desgastadas, era de certo que o nome de Zane já teria sido riscado de todas as listas de contratação do setor, restando-lhe apenas oportunidades nos canais de baixo orçamento as quais não possuíam budgets altos o suficiente para serem tão criteriosos assim.
Como um último recurso, Zane aproveitou-se de sua tradicional aversão às manhãs, e do mau humor que as acompanhava, na tentativa de persuadir Dave a desistir de sua ideia – admitia que a ideia era tão patética quanto imatura, mas estava disposto a gastar todas as suas fichas se isso significasse que poderia livrar-se da companhia do chefe. Mas ao contrário do que gostava de admitir, David não parecia compadecer-se com suas súplicas misericordiosas e muito menos com meia dúzia de palavras atravessadas, demonstrado perfeitamente pelo sorriso complacente e pelo bom humor invejável que apresentava mesmo na parte da manhã. A menção aos demais colaboradores o fez revirar os olhos enquanto o outro ocupava-se da pequena caderneta em mãos. – Se é que são pessoas e não ovelhas no pasto… – A réplica irônica fora feita como uma espécie de murmúrio, baixa o suficiente para que mais ninguém o ouvisse, ou era isso que ele esperava, ainda que não ligasse muito.
“Pestinha”, ouviu, instantaneamente desejando poder dar meia volta e deixa-lo falando sozinho – o que apenas provaria seu ponto. Quando o outro se aproximou, apoiando uma das mãos em seu ombro, a reação de Zane fora de dar um passo atrás, sem entender o que o mais velho queria realmente fazer ou dizer com tudo aquilo. Diferente de todas as suas experiências prévias com antigos chefes, David não parecia ter o mesmo olhar colérico e o profundo desejo trucidar cada membro do corpo do rapaz à que estava acostumado, ao contrário, o tom de voz estranhamente calmo e sereno parecia conter uma preocupação antes desconhecida, o que bastava para lhe fazer erguer uma das sobrancelhas, em suspeita. – O seu nome? – A pergunta fora propositalmente retórica, seguida de uma risada que se fez como um soluço. – Tenho certeza que seu nome não está nenhum pouco sujo no seu cheque de cinco zeros. – Deu de ombros, com o resquício de um sorriso cínico nos lábios. As pálpebras cerradas estreitaram os olhos de Rivas. – Eu não preciso da sua simpatia. – Dessa vez sua voz não continha qualquer risada ou bom humor – Zane sabia que Dave era, de longe, o chefe mais… suportável que tinha em tempos, mas odiava sentir-se acuado à um canto daquela forma, mesmos sabendo que seu comportamento era um tanto injusto. – Só… – Soltou o ar que tinha preso aos pulmões. – O que você precisa? – David fazia um bom ponto, certamente era melhor fazer o que fosse que ele precisasse do que ter de aguentar acordar às seis horas da manhã e aguentar as reuniões do time de operações ou de marketing. Além do mais, o que quer que fosse, não poderia ser tão ruim assim, poderia?
O diretor de arte normalmente caminhava entre o limiar de amizade e postura profissional com a maioria dos seus subordinados. Odiava usar da autoridade para fazê-los executar suas tarefas. Acreditava que através do reforço positivo e uma diálogo aberto as pessoas trabalhavam mais felizes e faziam seu serviço muito melhor. Claro que não era todo mundo que conseguia lidar bem com toda essa liberdade, mas ainda sim Dave tentava levar as coisas sem precisar dar um ultimato. Embora que não tivesse muita paciência também, tinha o coração muito bom e sempre estava disposto a ajudar quem queria ajuda e se a pessoa mostrasse um milésimo de boa vontade já era o suficiente para conquistar a confiança do chefe. Mas se mesmo ajudando a pessoa não mostrasse interesse em melhorar, Dave não pensava duas vezes para tirar de sua equipe. Motivo pelo qual todos eram muito disciplinados e levavam o trabalho muito a sério. Claro, que com toda a leveza e diversão que o trabalhos os permitiam fazer.
Com Zane a conversa era um pouco diferente, pois além da relação profissional, tinha a relação afetiva com o garoto. E por mais que Dave tentasse separar essas duas, não conseguia fazê-lo totalmente. Era obvio que o homem a sua frente não era o mesmo garotinho que havia brincando com seus filhos alguns anos atrás durante as férias de verão que passavam em Los Angeles. Ainda tinha o sorriso travesso nos lábios e estava prestes a listar as tarefas, mas as respostas de Zane o fizeram acender uma luz vermelha na consciência. Respirou fundo recolhendo o sorriso - Olha, eu disse que não ia dizer mais nada mas infelizmente vou ter que fazer o papel chato de te dizer umas coisas que não está acostumado a ouvir garoto. - Tinha um certo desapontamento na voz e não era com o mais novo e sim com ele mesmo. - Primeiramente, tenho simpatia por você sim mas não é só pelos motivos que você acredita, que eu acho que você acredita. Eu acredito no seu potencial e que pode dar muito, mas muito mais do que você dá e sem precisar fazer um esforço enorme pra isso. - Parou um segundo buscando o olhar do jovem - Em segundo lugar, eu gostaria de te lembrar, que apesar de não ter deixado isso explicito para você antes, que você só está trabalhando nesse programa e teve uma nova chance por minha causa e não foi nada fácil te colocar aqui dentro. Fiz pela amizade que tenho com seu pai mas também porque acredito no seu potencial. Só que não adianta nada eu acreditar se você mesmo não acredita e fica fazendo merdas o tempo todo. E aí que entra meu nome. Você não está aqui porque as pessoas acreditam em você, é porque eu acredito em você e pela credibilidade que as pessoas tem em mim te deram uma chance. Então sim, se você fizer merda respinga no meu nome. Entendido isso? - Respirou fundo passando a mão no queixo - Não precisa responder nada pra mim agora ou depois, mas se ainda quiser conversar sobre isso sabe que estou sempre aberto. Agora vamos deixar esse assunto de lado que temos muito trabalho. Vou te explicando no caminho, certo? - O chamou com a cabeça e começou a andar pelo corredor, precisava passar na outra sala separada para a produção do programa para certificar-se de alguns detalhes antes de começar os afazeres do dia.












