Empurram seu corpo contra a parede e sentiu o ar sumir de seus pulmões ao mesmo tempo que gritou por causa do tornozelo torcido. O salto que adornava seus pés ficou preso em um pedregulho no chão fazendo com que sua perna esquerda ficasse presa enquanto era jogada para trás; antes que seu corpo escorregasse até o chão, mãos fortes o seguraram para garantir que ela continuaria de pé. É claro que não permitiriam que ela fosse se refugiar no chão e curvar seu corpo numa bola.
- Você sabe o motivo de estarmos aqui e quais são nossas ordens. - Um homem que não deveria ser muito mais velho que a própria Antonella deu um passo à frente e começou a brincar com um cacho louro dela que saíra do penteado. Logo sua mão desceu para o pescoço alvo da mulher e apertou a região para enfatizar suas palavras. O maldito ainda sorriu quando a viu arregalar os olhos. Ela sabia que iria morrer, fazia muito tempo que devia dinheiro para aqueles homens e não conseguiria comprar mais tempo para quitar a dívida. - Mas ele não nos disse que você era assim tão bonita. - Os outros quatro homens sorriram enquanto a avaliavam de cima à baixo.
Um pequeno tremor percorreu seu corpo. Que Deus a levasse antes de permitir que aqueles trogloditas a maltratassem da forma que desejavam.
O círculo à sua volta começar a ficar mais estreito e ela fez a única coisa que poderia naquele momento - além de gritar, é claro, ela sabia que gritar de nada adiantaria pois ninguém entraria num beco para lutar contra cinco homens armados - Antonella passou a agitar seus membros furiosamente, arranhando e chutando qualquer um que chegasse ao seu alcance. Como eles não esperavam tal reação, ela conseguiu ficar solta apenas para dar três passos para longe deles e logo em seguida sentiu que lhe puxavam pelos cabelos e era prensada novamente contra a parede.
- Nós iríamos fazer isso do jeito fácil, mas por causa de sua impertinência eu mudei de ideia. - Aquela mão ainda segurava seu cabelo e a puxou com força para trás, fazendo com que ela deixasse o pescoço à mostra para traçarem uma lâmina no lugar. O metal estava frio contra sua pele e sentiu a garganta se fechar diante da vontade de chorar e pedir por ajuda. - Fique caladinha, está bem? Não queremos acabar com a brincadeira antes que ela comece. - Enquanto um deles a segurava pelos cabelos e mantinha a faca firme em seu pescoço, os outros passaram a rasgar sua roupa e lhe batiam quando ela tentava mostrar algum tipo de resistência.
Para mostrar que falavam sério - que não tolerariam nenhum tipo de rebeldia - cortaram sua pele em vários lugares. Cortes superficiais que mostravam o quanto eles estavam no controle. - Era só o que faltava. Uma prostituta que não quer fazer o seu trabalho.
- P… Por fa…. favor! - Implorou enquanto lágrimas caiam e manchavam a maquiagem que fizera horas atrás. Já não tinha mais forças para impedir que eles se aproximassem e maltratassem seu corpo, o vestido estava em trapos e mal cobria seu corpo, mas ainda assim a jovem tentava se cobrir de alguma forma. Como se esse pequeno gesto fosse impedi-los de seguir em frente com aquela atrocidade. - Vou pagar! - Um soluço escapou de seus lábios e os apertou com força quando sentiu um golpe em sua face seguida de uma voz que gritou Mentirosa!
Sentiu o gosto de sangue em sua boca e a mente girava com a força do impacto e tudo ficou nublado por alguns segundos, embora ainda pudesse sentir aqueles mãos percorrendo o seu corpo. Focou sua atenção naquele que liderava o quinteto quando voltou a vê-los nitidamente. - Diga a Vitiello que irei pagar. - Pediu num sussurro, com o pouco de força que ainda tinha. Ela iria pagar assim que conseguisse reunir todo o dinheiro, ela era uma mulher de palavra e trabalhar aonde trabalhava não fazia dela uma mentirosa. Apenas mostrava que tudo em sua vida dera errado.
Outro golpe em seu rosto a levou para a inconsciência, mas não antes de escutar um deles gritando: Eu mandei ficar calada! Bom, ela pensou. A morte deveria ser assim, silenciosa e sem dor; e sabendo que para onde iria não teria mais que vender o seu corpo por um teto ou um pedaço de pão, ela aceitou a morte de braços abertos.
Guilhermo nunca imaginou que sua vida poderia mudar tão completamente, mas ali estava ele, mais velho que qualquer ser humano já fora algum dia e levando uma vida diferente da que costumava ter. Por mais que no passado houvesse se dedicado à Igreja e aqueles que precisavam dele, hoje vivia para se satisfazer de tudo que pudesse lhe dar prazeres banais e passageiros.
A única pessoa por quem se importava era seu mentor, aquele que havia lhe dado uma vida como vampiro. Lhe salvado e aberto as portas de um novo mundo. E era por seu mentor que estava ali naquela noite, em uma noite de bebidas, negócios e mulheres em uma casa de noturna no subsolo de um açougue.
Basicamente estava fazendo seu papel de bom filho, já que seu mentor costumava fingir para os humanos que ainda era um deles e assim poder gerir seus negócios na Itália. Não conseguia entender o desejo de Vito ficar no mesmo lugar sempre, mas tinha respeito suficiente pelo homem para não questionar demais.
Estava começando a ficar entediado com toda aquela socialização com homens que ele sabia muito bem que não cumpririam com sua palavra quando seu mentor permitiu que saísse para buscar por ar. Mesmo com alguns anos nas costas, Guilhermo ainda carregava certa fúria pelo que havia acontecido com sua família e tolerar humanos o irritava. Como o mentor vivia a lhe dizer: ainda era novo e inexperiente.
Se encaminhou para a saída do local e quando chegou a rua, algo chamou sua atenção. Na verdade seus sentidos aguçados de vampiro dispararam e ele pôde ouvir - não muito distante dali - gemidos fracos de dor, risadas debochadas e também sentiu cheiro de sangue.
Não parou para pensar nem por um instante e em uma velocidade sobre humana estava na entrada de um beco escuro e sujo, presenciando uma mulher no chão machucada e sangrando muito, rodeada por por homens que riam e a batiam sem piedade alguma.
Os punhos de Guilhermo se fecharam instintivamente. Seu desejo pelo sangue dela era tão grande que lhe consumia por dentro como fogo, mas ironicamente a raiva que sentia pela cena que se discorria o manteve ‘sóbrio’ o suficiente para se aproximar dos homens.
Estes perceberam sua aproximação e viraram para o confrontar. Sem dizer uma palavra sequer, o vampiro não precisou de muito para nocautear o primeiro que o confrontou por estar ali atrapalhando. Tentaram o atacar todos de uma vez, mas Guilhermo era injustamente rápido para que eles conseguissem. Tomou todo o cuidado do mundo para não os matar. Não porque sentisse compaixão ou porque o padre que fora no passado sentia. Não, não era isso. Não lhe era de direito acabar com a vida deles.
O vampiro se aproximou temeroso da moça jogada àquele chão imundo. Ele sabia que ainda estava viva porque podia ouvir o coração dela batendo - mesmo que fracamente. Era como música para seus ouvidos e pela primeira vez em sua vida como vampiro sentiu-se um pouco embaraçado por apreciar um coração batendo como uma fonte de alimento.
“Hey...” Chamou-a com delicadeza e seus dedos tiraram os cabelos loiros que caíam nos olhos dela. Não sabia muito o que poderia fazer para ajuda-la. Não acreditava que médicos seriam de alguma serventia naquele momento. A mulher era bela mesmo coberta por sangue e sujeira naquele beco escuro. Algo dentro de si pareceu despertar no momento em que olhou o pálido e delicado rosto dela. Algo que não sabia existir dentro de si nem mesmo quando era apenas um humano.
Sentou-se no chão e a pegou-a com dificuldade - para não machuca-la ainda mais - e a colocou em seu colo. As roupas rasgadas, a maquiagem agora desfeita e borrando seu rosto. O sangue por todo lugar. Guilhermo não a conhecia, mas não queria que ela se fosse e sabia que ela estava quase.
Não sabia como faria aquilo, quais seriam as consequências. Não sabia se estava preparado para ser um mentor e ser responsável por alguém para sempre, mas nunca quis tanto algo em sua vida.