Não havia uma única estrela, era tão escuro que não se enxergava, tanto fazia ficar de olhos abertos ou fechados, sobre seus pés havia uma coisa fria e plana, que podia ser chão, mas que não era relva nem madeira, ora, o ar era seco e frio, e não havia vida, no escuro finalmente alguma coisa começava acontecer, uma voz cantava, e duas coisas maravilhosas aconteceram ao mesmo tempo, uma: outras vozes uniram-se a primeira e era impossível conta-las, vozes harmonizadas a primeira, mais agudas vibrantes. Outra: a escuridão em cima cintilava de estrelas, elas não chegaram devagar uma por uma como fazem nas noites de verão, um momento antes não havia nada lá em cima, só a escuridão, num segundo milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muitos pontos de luz saltaram, mais reluzentes e maiores do que nosso mundo, não havia nuvens, as novas estrelas e as novas vozes surgiram exatamente ao mesmo tempo. A voz na terra estava agora mais alta e triunfante, mas as vozes no céu depois de entoar com ela por algum tempo tornaram-se mais suaves, a luminosidade agora já era suficiente para que se vissem. O céu do oriente passou de branco para rosa, de rosa pro dourado, a voz subiu, subiu, até que todo ar vibrou com ela, e quando atingiu a mais potente e glorioso som que já havia produzido, o sol nasceu, tinha-se a impressão de que ele ria de alegria enquanto ia subindo, a terra tinha muitas cores, cores novas quentes e brilhantes, que faziam a gente exaltar, até que se visse o próprio cantor, então todo resto seria esquecido, era um leão, enorme, peludo e luminoso, ele estava de frente pro sol que nascia. O leão andava de um lado para o outro na terra nua, cantando a nova canção, era mais suave e ritmada do que a canção com a qual convocará as estrelas e o sol, uma canção doce, sussurrante, na medida que caminhava e cantava o vale ia ficando verde de capim, podia-se ouvir a brisa encrespando a relva, havia mesmo muito para se ver e ouvir, com um indescritível frêmito, teve quase certeza de que todas as coisas, como diz mais tarde, saiam da cabeça do leão Ouvir a canção, era ouvir as coisas que estava criando. Olhava-se em volta e elas estavam lá, sua boca imensa estava aberta, mas para cantar, não para rosnar. No entanto o que a canção provocava nos seres humanos não era nada se comparado com o que estava acontecendo ao resto daquele mundo. Você é capaz de imaginar um monte de terra relvosa a borbulhar como água na chaleira? Não pode haver melhor descrição do que esta para o que estava acontecendo. Mas o grande momento, o maior de todos, foi quando o maior dos montes de terra partiu-se como um pequeno terremoto e de lá surgiu um vasto costado, o clarão ajuizado e as quatro colunas que servem de pernas ao elefante. Já mal se escutava o canto do leão, era um mugir, crocitar, um uivar, grunhir, um relinchar, um latir, um trinar, as vozes de todos os animais. Na primeira vez naquele dia, havia silêncio absoluto, exceto pelo barulho da água corrente. O leão cujo os olhos jamais piscavam, olhava para os animais com dureza, como se fosse incendiá-los com o olhar. Uma transformação gradativa começou a ocorrer entre eles, os menorzinhos, os coelhos, as toupeiras e outros do tipo ficaram um pouco maiores, os grandes ficaram um pouco menores, o leão abriu a boca, mas não produziu nenhum som, estava soprando, um sopro prolongado e cálido. Depois, vindo do céu ou do próprio leão surgiu um clarão feito fogo, mas que não queimou nada. As duas crianças sentiram o sangue lhes gelar as veias, a voz mais profunda e selvagem que jamais haviam escutado estava dizendo: - Nárnia, Nárnia, desperte, ame, pense, fale, que as árvores caminhem, que os animais falem, que aguas sejam divinas