DECRESCIMENTO WORK IN PROGRESS!
Paola Prestes
As incisões feitas nos troncos dos bambus gigantes do Parque da Água Branca nos remetem a um ritual antigo. Há vinte, trinta mil anos ou mais, o ser humano procura expressar o que sente, e, não menos importante, eternizar esses sentimentos desenhando e entalhando os símbolos de seus sentimentos no ambiente em que vive. Os bisões das cavernas de Lascaux ou Chauvet nos passam sensação da adrenalina bombando as veias de nossos ancestrais, traduzem o medo diante das bestas enormes, encarnam a possibilidade da morte e a bravura do enfrentamento. Não importam os avanços da tecnologia, o grandes sentimentos que movem a humanidade têm sido os mesmos ao longo dos milênios: o medo e sua transposição, a ganância, a compaixão, o amor e o ódio.
São Paulo é um arcabouço desse sentimentos e, para quem vive na cidade, a impressão que se tem é que os sentimentos vinculados ao que há de pior na natureza humana levam a melhor. Cidade mais rica do Brasil, São Paulo ostenta carros importados, arranha-céus de vidro, viadutos que parecem gigantescas instalações e os valores de seus cidadãos parecem cada vez mais se pautar por esse progresso desenfreado, desorganizado e totalmente alheio às coisas ditas "pequenas".
Mas, o que é "pequeno" em São Paulo? Uma pessoa pobre? Sem dúvida. Na escala de valores paulistana, os pobres, apesar de numerosos, não somam um shopping center na balança do progresso da cidade. O amor? Também é secundário. Ou encaixado dentro de um esquema de vida que o destituiu do direito de ser simples, singelo. Por esse motivo, as incisões do Parque da Água Branca me dão um prazer em extinção em São Paulo, o prazer das coisas simples.
São corações, símbolo supremo e universal do amor. São nomes e datas, incisões que, mais do que ostentar a alegria artificial daqueles que se amam em redes sociais, marcam o encontro de duas (às vezes mais!) pessoas no tempo e no espaço. Essas incisões não estão espalhadas no parque. Existem apenas no bambuzal, que assim se torna uma catedral do amor eterno, ou, nas palavras de Vinícius de Moraes, infinito enquanto dure. O bambuzal, faz vezes de templo, de caverna e, à medida que fui fotografando as incisões, fui entrando "dentro" do bambuzal. Lá dentro, a escuridão, que me obrigou a utilizar o flash que revelou casais talvez mais secretos, que queriam que seu amor fosse lembrado daqui séculos, milênios, mas não agora. Talvez amores proibidos, impróprios, que não seriam compreendidos por nós hoje, mas serão redimidos pelo tempo.
Assim, fui avançando não apenas na doce, úmida escuridão do bambuzal, que estala com o vento, mas dentro de sentimentos tão antigos quanto a humanidade, que, estranhamente, em tempos de i-phones e redes sociais, não encontraram forma melhor de se revelar -- e, sobretudo, de se eternizar -- do que por meio de um coração inciso no tronco de um bambu de um dos mais velhos parques da cidade.