Não gosto de escrever de forma tão literal. Sem a poesia das coisas. Eu não sei, me parece tão frio, tão cru, tão feio... não lhe parece também? Eu sei. Ou, melhor, eu não sei. Sinto que estou sem ideias para novos poemas, trocadilhos românticos, simplesmente cansado de buscar algo que eu ainda não tenha escrito para você em todos esses anos que lhe amei. Quem sabe, você poderia me dar uma sugestão de como escrever as próximas linhas? Nãh. Estou brincando. Eu sei que você não irá responder, nem chegar a ler isso.
Então, por que escrevo? O que estou fazendo aqui? Tamanha perda de tempo. Você pode acreditar? Pois eu cheguei a acreditar que eu poderia passar os meus dias postergando essas palavras, procrastinando os meus sentimentos, fingindo que isso não fosse necessário, ou, em outras palavras, simplesmente fugindo desse momento. Poderia dar certo, se não fosse pelo fato de que, na realidade, eu não poderia continuar fugindo para sempre. Eu preciso dizer adeus. E aqui estou eu.
Por onde devo começar? Eu não sei. Você não irá me sugerir e eu não tenho a menor ideia. Então, que tal se eu lhe confessar algumas coisas?
Eu não assisti Parasite, esperando realizarmos a sua promessa de assistirmos juntos. Mas eu sei que isso não irá acontecer. Ao menos, não comigo. E eu também já não sei se assistirei ao filme. De repente, parece ter perdido completamente o sentido em ver-lo. Por favor, não ria, mas eu guardei a cerveja que você me deu, esperando que um dia eu pudesse dividi-la com você. Para ser sincero, ela ainda continua aqui, guardada. Mas eu sei que você não estará aqui quando eu abri-la. E eu não sei mais o que fazer com ela. Ah! Eu também guardei o seu laço de cabelo. Devo admitir que amei usá-lo, ainda assim quis devolve-lo a você. Afinal, ele é seu e eu não acho que preciso lhe dizer que fica tão melhor em você do que em mim. Mas eu sei que você não irá busca-lo. Você não fazia questão antes e novamente não irá fazer agora. Então, o que fazer com ele?
Como você pode ver, e talvez não seja segredo para ninguém, eu ainda estou tão, tão confuso. Inocentemente acreditei que lhe amar seria o suficiente quando apenas não. Pude jurar que os nossos momentos juntos seriam o suficiente para você sentir algo por mim, mas não. Acreditei em você, em tudo o que você sussurrava para mim enquanto deitávamos juntos, mas, novamente, não. Com o tempo, pude perceber que tudo o que acreditei e que tanto pude sentir simplesmente nunca fez o menor sentido fora das minhas humildes esperanças. Eu estive me afundando sozinho a cada novo dia, sem ver que as coisas nunca foram da maneira como eu acreditei que foram. Vivendo uma realidade paralela e tentando lhe trazer de corpo, mente e coração junto para ela.
Sinto vergonha por não ter percebido isso antes, por não ter me dado conta de que o meu lugar nunca foi ao seu lado. E nunca será. Peço desculpas por não ter compreendido isso a tempo. Por ter lhe feito perder o seu tempo comigo. Por ter criado a ilusão de que você poderia sentir algo por mim. Por ter invejado todas as pessoas que eu conhecia e que tinham espaço em sua vida, enquanto eu nunca tive. Me desculpa. Os sinais sempre estiveram presentes, eu é quem escolhi por ignorá-los.
Nas vezes que eu lhe convidava, não é que você não podia sair, você só não queria sair comigo. Nas vezes que eu lhe confessava um sentimento, não é que você me achava muito emocionado, você só não gostava de me ver sendo carinhoso com você. Nas vezes que eu perguntava sobre nossas chances juntos, não é que você não gostaria de se relacionar com alguém, você só não queria se relacionar comigo. E tudo bem. Novamente, o errado sempre fui eu em ignorar os sinais. Tão errado, pois foram tantos sinais... Tão errado, pois o pior cego é aquele que não quer enxergar. E eu preferia não enxergar.
Todas as lembranças que restaram dos dias em que acreditei que você, ao menos, sentia algo especial ao meu lado. Todas as memórias que sobraram das noites em que acreditei que você encontrava aconchego em meus braços. Todas as recordações que guardei dos momentos em que, olhando em meus olhos, você me confessou acreditar que poderíamos tentar. Enfim. Aparentemente, puramente sonhos acordados que confundi com a realidade. Situações que ocorreram apenas nos meus melhores pensamentos, mas por tanto querer que fossem reais, eu acabei trocando os pés pelas mãos, ou, melhor dizendo, estraguei com tudo. E eu prefiro encarar dessa forma, do que enxergar por outra perspectiva. Ou, em outras palavras, eu prefiro me culpar do que culpar você. Afinal de contas, é o justo e eu não seria capaz de fazer diferente.
Por escolha própria, há tantas questões que permaneço sem conhecer a resposta. Por que você apenas nunca me confessou que somente não queria me ver? Por que você me aconselhou que eu deveria parar de me achar substituível, apenas para me substituir logo em seguida? Por que você admitiu me amar quando, na verdade, você sequer sentia algo por mim? Por que você me comentou que poderia sentir algo por mim se continuássemos próximos, sendo que você já sabia que sequer daria chances a isso? Ou, somente, por que você se aproximou de mim se nunca houve, nem haveria espaço em sua vida para sequer sermos amigos?
Você acha que algum dia terei alguma resposta? Está tudo bem, pois eu também sei que não as terei. E eu não me sinto no direito para lhe cobrar nada disso. Nunca lhe cobrei. Nunca lhe cobrarei. E penso que morrerei assim, sem saber. Talvez, seja melhor assim mesmo. Afinal, é o que eu prefiro acreditar. É o que eu escolhi acreditar...
Hoje, ironicamente eu sinto como se nada tivesse mudado. Eu não estou falando com você, exatamente como antes. Você está perdidamente apaixonada por outro alguém, exatamente como antes. Eu continuo sentindo inveja de todos que possuem espaço em sua vida, inclusive os meus amigos, exatamente como antes. E eu continuo sentindo que você foi, é, e continuará sendo alguém especial para mim, apesar da minha relutância, apesar da minha insistência em negar isso, exatamente da mesma porcaria de forma como antes...
E o que mais dizer? Eu gostaria de encerrar esse texto lhe dizendo adeus, mas, ao mesmo tempo, eu sei que não posso me despedir de uma vida que eu nunca cheguei a fazer parte. Maluco isso, não é mesmo? Mas, no fim, é isso. Eu não tive o seu amor. Eu não tive a sua amizade. E nem mesmo a chance de lhe dizer adeus eu tive.
Ainda assim, apesar de saber que você não irá ler isso, espero que você esteja bem. Você é merecedora de todo o amor do mundo. Não há problemas se não for o meu, desde que você esteja recebendo o amor de alguém.
E espero que ele não lhe escreva assim, de forma tão literal também, afinal, você sempre foi a própria poesia...
...Que eu não fui capaz de escrever...