Quando descobri sobre o recém celebrado casamento dele, lágrimas queimaram minhas bochechas por um momento. Afinal, pensei, eu já deveria esperar por esse tipo de coisa, estamos em lados opostos do mundo, era óbvio que ele nunca teve qualquer apreço por mim. Assim como todos os outros que já amei, no meu país mesmo. Faltou-me o ar, eu senti a ansiedade rasgando meu peito como um diamante ácido, comecei a hiperventilar. Senti nos lábios o amargor das que considero umas das lágrimas mais sofridas que já chorei.
Tentei caminhar, mas me faltaram forças e quase caí, o que fez com que me agarrasse à cadeira mais próxima. Eu dizia a mim mesma, repetida e insanamente, "Não é possível", sabendo ser perfeitamente possível. "Não, não, não, não pode ser, de novo não, de novo não", mas não apenas pôde muito bem ser como também de novo sim. Minha voz era apenas um sussurro entre o choro e a respiração pesada, senti como se me afogasse e estivesse tentando respirar o oxigênio debaixo de um oceano maciço. O oceano da minha vida de merda desabando sobre mim, me devorando. Eu desabei, desmaiei.
Isso aconteceu aos meus vinte anos, no momento em que eu decidira nunca mais amar. Mas a reação foi a mesma seis anos antes, quando descobri que meu então namorado (que me estuprava e chantageava) havia não apenas me traído, não com uma, mas com duas moças, como também havia engravidado as duas e pago pelos respectivos abortos. Ele era rico, cobria-me de presentes, queria se casar comigo. Era um estuprador, e quatro anos mais velho que eu. Senti como se um barril de ouro derretido em brasa tivesse sido jogado sobre todo meu corpo e me transformado numa estátua asfixiada. Foi meu primeiro ataque de pânico.
Não sei o que mudou desde então, entre meu primeiro e meu mais recente ataque, mas nesse intervalo de seis anos entre um e outro ocorreram centenas deles. A ansiedade sempre foi uma das poucas constantes na minha vida, uma das raras certezas era a de que eu passaria noites em claro antes de dias importantes ou depois de dias trágicos. Aos poucos, os ataques deixaram de ser esporádicos e também se tornaram uma certeza: algum dia da semana, em alguma hora de algum dia, ele vai chegar.
Minha terapeuta diz que eu sempre tenho expectativas altas demais em relação às pessoas que amo, e ela está completamente certa. Eu vivo e morro pelos meus amigos e amores, eles são minha família. O problema é que eu sempre acredito que as pessoas fariam por mim tudo o que eu faria e faço por elas, mas elas não fariam, não fazem. Sempre me sinto traída, e talvez essa seja a causa dos meus ataques.