𝐄𝐏𝐈𝐋𝐎𝐆𝐔𝐄
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Don't 𝖆𝖛𝖔𝖎𝖉 it, don't 𝓯𝓮𝓪𝓻 it! Embrace your 𝕡𝕚𝕣𝕒𝕥𝕖 spirit We ❛ sail with captain 𝐇𝐄𝐒𝐒𝐄 ᴛᴏɴɪɢʜᴛ For 𝙖𝙙𝙫𝙚𝙣𝙩𝙪𝙧𝙚 and 𝘨𝘭𝘰𝘳𝘺 And an 𝖚𝖓𝖋𝖔𝖗𝖌𝖊𝖙𝖙𝖆𝖇𝖑𝖊 story We sail with captain 𝐇𝐄𝐒𝐒𝐄 𝓉𝑜𝓃𝒾𝑔𝒽𝓉
Sentia a luz das três da tarde queimar a pele morena, ao mesmo tempo que o vento vindo do leste trazia a deliciosa sensação de frescor. Os cachos castanhos, novamente continham o salitre dos meses em alto mar, e se dissesse que não sentira uma falta singular em permanecer, no final das tardes, ao mastro do traquete, estaria mentindo descaradamente --- afinal, não é como se seus vinte e quatro anos no The Red North não houvessem proporcionado um momento ou outro de agradabilidade, por mais que estas fossem tão simples quanto subir ao mastro e passar seu tempo livre na companhia de uma gaita e celeumas familiares. Mas era acompanhado dos ventos e do calor, que estava atrelada também a sensação favorita de Ishmael Vlahakis: liberdade. Ora, também uma sensação um tanto recente, não? Afinal, a tal liberdade ainda era uma… Nova conhecida do ex pirata; mas não, ele não nutria nenhum desejo em retornar a pirataria.
Tinha uma ideia particular de liberdade enraizada no subconsciente. Desbravar mares, fugir de policiais armados, furtar os pertences alheios enquanto os entretêm em uma boa conversa, e no final do dia, gastar o que conquistou em tabernas enquanto brinda com os companheiros de viagem --- não que esses fossem fiéis aliados, afinal, em sua maioria, não passavam de ladrões que fariam o que fosse preciso para salvar a própria pele; e isso incluía entregar quem quer que fosse preciso entregar, desde um desconhecido, até seus melhores amigos. O conceito de lealdade de Vlahakis era, então, extremamente danificado por esta e outras razões, juntamente com certos valores morais, e também, sua visão sobre os que possuíam o sangue azul nas veias. Um tanto irônico, já que ele mesmo possuía o sangue anil, não? E talvez ele mesmo houvesse pensado por essa vertente, não fossem as inúmeras falácias sobre ele ser um azul diferente; afinal, de um ponto de vista sociológico, Ishmael era tão Azul quanto Amala e Kamala eram humanas. Não era tratado como um, não se portava como um… Então, não era um. Era tão vermelho quanto todos os tripulantes, até mesmo para os soldados que outrora tentaram capturá-lo; o único que o viu como genuinamente um azul, ao aportarem novamente em Helsinki, fora Zircon Vlahakis. Fosse puramente graças a sorte ou aos olhos cirúrgicos do rei reconhecerem a semelhança física escandalosa que o filho mais jovem tinha com Kestrel, ele fora levado ao palácio, e reconhecido oficialmente como filho mais jovem do rei e da rainha da Finlândia --- ou melhor, o filho único de ambos, mas esse é assunto para outra história.
Fora ali que se iniciou o seu maior pesadelo; uma prisão de ouro, e ao mesmo tempo que Ishmael tinha comida todos os dias a mesa, roupas lavadas e inteiras, e uma moradia que daria inveja aos menos abastados, tinha também, acima de tudo, uma arma apontada na cabeça --- seja no sentido figurativo ou literal. Se fosse embora, ele estaria condenado; mas se permanecesse, estaria amaldiçoado, julgado pela própria consciência. Ora, não era ele que caçoava dos azuis em mesas de tabernas? Que os tratava como egocêntricos e mimados, desprovidos de qualquer empatia pelos que viviam às suas custas --- afinal, havia visto de perto a fome, a pobreza e o tratamento para com os marginais. Nada além de vermes para os azuis; e agora, ora! Se vestia como eles, agia como eles, e frequentava o mesmo lugar que eles --- até simpatizava com alguns deles… Ou melhor, se apaixonara por uma. Se os demais vissem aquilo, certamente ele teria virado a nova chacota na mesa de bar. O garoto a quem havia sido confiada a lealdade vermelha, que havia sido criado com eles, comido do seu pão e bebido do seu vinho, agora, os desprezando, pois encontrou um apoio mais confortável com sua família de sangue azul. Havia esquecido dos vermelhos em prol do próprio conforto. Elijah sabia que pensavam assim, mas não queria confirmar as supostas palavras alheias --- não! Pensava que um dia escaparia das garras dos Vlahakis, assim como o fizera da prisão inglesa há anos atrás. Encontraria quem fosse seu alicerce, voluntariamente ou não, em algum plano mirabolante de fuga, escaparia de Verdare, e retornaria ao seu navio --- e é claro, contaria como ele não se curvou a vida Anil, mesmo com todos os fatos o convidando a fazê-lo, assim como sereias convidavam os marinheiros ao afogamento, segundo as lendas. Ele? Bem, não queria dizer que cedera ao canto da sereia… Que não se afogara em beleza e luxúria, assim como a maioria dos marinheiros o fariam, mas…
Mas seria uma mentira descarada. Como o canto da sereia podia ser sedutor, não? Em poucos meses, Ishmael teria lhe dado nomes e sobrenomes: Felícia Hybern, Briana e Verena Brunelleschi, Alric Von Losch, Kiara Altumsolis, Elizabeth Windsor… Lorsan Vlahakis. Se os Azuis eram tão desprovidos de humanidade, se eram egocêntricos ao ponto de deixar vermelhos marginalizados e sem piedade alguma, por que Ishmael gostava tanto deles? Por que achava Felícia linda? Por que amava suas conversas com Briana? Por que apreciava até demais a companhia de Verena? Por que se divertia com Kiara? E por que em nome de todos os santos, admirava Lorsan? O meio irmão, afinal, era a junção de tudo que o mais jovem mais desprezava; mas ironicamente, fora um dos que mais havia lhe ensinado; disciplina, lealdade, respeito. E por muito tempo, resistira a essa singular admiração que havia desenvolvido por eles --- ele negava. Negava que havia se apaixonado, negava achar Briana fascinante, e negava pensar que deveria ser mais como Lorsan, por mais que soubesse que jamais conseguiria faze-lo --- simplesmente fugia por completo da sua natureza, mesmo se fosse criado de acordo com o protocolo anil a sua vida inteira. E negava tudo isso não por uma ideologia própria, mas por pensar no que os demais pensariam se soubesse que ele estava gostando do seu novo ciclo social. Haveria de se livrar das amarras de ouro para ser livre mais uma vez… Mas o que, afinal, era liberdade?
Liberdade é desbravar mares turbulentos. É viajar pelo mundo, conversar com pessoas, se aventurar em terras desconhecidas e correr perigo quase constantemente --- ora, a liberdade era emocionante, arriscada, e não deixava o nível de adrenalina baixar jamais, certo? Bom… Errado. Ishmael tinha tudo isso e um pouco mais quando fizera parte da pirataria: adrenalina, emoções, riscos, viagens, conversas… Mas liberdade? Nunca o tivera. Atrelado psicologicamente a um grupo ou uma pessoa, sempre ponderando o que deveria falar na frente deles quando tinha uma nova opinião que ele sabia que iria de encontro com o que seus amigos pensavam; quando sabia que eles debochariam se dissesse algo que fosse contrário ao estilo de vida que levavam. Um dos maiores exemplos foi quando finalmente se aceitou como católico. Tinha Jesus Cristo como seu Salvador, e São Pedro como santo padroeiro, acreditando de corpo e alma na existência divina de Algo Maior. Levava até um crucifixo de prata no peito, mas… Mas jamais o revelara para a tripulação. Não por vergonha de Cristo, mas sim, por medo. Medo do que fariam com ele, do que pensariam dele, ou se o descartariam assim que soubessem que seus valores haviam mudado graças a leitura da Bíblia Sagrada e algumas esporádicas idas a capelas. Por mais que não estivesse em uma prisão física, estava em uma psicológica, e acredite, ela tinha muros enormes. E em como na maioria de relações tóxicas e abusivas, apenas percebeu isso tempos e tempos depois de se desvencilhar dela, mesmo que houvesse o feito a força. Afinal, liberdade é poder falar o que pensa sem medo de ser julgado, deserdado ou rejeitado por causa dos ideais. É amar quem quisesse, admirar quem quisesse, sem medo do que os demais haveriam de pensar… Muitas vezes liberdade não significa ir, e sim, ficar.
O sol ainda brilhava forte no céu quando o navio de carga inglês aportou. As vozes retumbantes dos homens ecoavam no cenário como um grande celeuma, e o som das ondas salgadas batendo na madeira no cais e nos navios aportados eram como instrumentos atrás do coro. As nuvens alvas e gaivotas voando em bandos compunham uma pintura harmoniosa, assim como o brilho do sol refletindo na água esverdeada; e tudo indicava que o local estava completamente em paz --- um dia comum, com trabalhadores comuns cumprindo seus ofícios. Ninguém que se importasse em demasia com um garoto que descia do mastro escorregando por uma corda, assim como costumava fazer no antigo navio. Havia se certificado que a carta havia chegado a ela mesmo antes de aportarem --- dizia que a corte inglesa precisava da presença da princesa polonesa pelos arredores, e nada mais. E os olhos, azuis como o Pacífico, já vasculhavam o ambiente a procura da noiva antes mesmo dos pés descalços se enterrassem na areia. Tolice pensar que estaria no porto; o ponto de encontro havia sido em um local um tanto mais distante, entre a praia e o palácio --- mas os minutos de caminhada foram como horas, antes de Ishmael reconhecer os tão familiares fios loiros de Hybern; por sorte, ela não havia ainda notado sua presença. “ --- Eu ouvi dizer…” Iniciou, assim que se aproximou da figura da namorada. “ … Que esses navios, lá do porto, um dia foram dominados por ingleses, tão cruéis quanto os próprio bandidos em alto mar. Não poupavam nem mesmo moças tão lindas… Mas eu tenho certeza que se fossemos nós naquela tripulação, nos sairíamos muito bem. Você não, Licy?” A felicidade transbordava dos olhos azuis, assim como transbordavam do sorriso --- e Ishmael poderia facilmente chorar de alegria. Estava finalmente em casa.










