minha mãe não gostava de você, e ela gosta de todo mundo. eu nunca gostei de admitir que estava errada, mas agora eu sei que estou melhor dormindo sozinha.

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minha mãe não gostava de você, e ela gosta de todo mundo. eu nunca gostei de admitir que estava errada, mas agora eu sei que estou melhor dormindo sozinha.
O beijo que você não roubou ALERTA GATILHO: essa crônica contém alusão a abuso sexual, se você não se sente confortável, por favor, não continue "Ainda me lembro do quanto eu queria que você tivesse me roubado um beijo ao invés de pedir pra me beijar" Com essas palavras ela começou com uma mensagem que ela nem ia mandar. O quarto ainda estava escuro e ela não vestia nada além de uma camiseta. Luísa acordara um pouco desnorteada após uma noite de bebedeira sem saber direito aonde estava, até se dar conta de que estava na sua cama e não estava sozinha. Ele acordou com a movimentação e ao dar um beijo de bom dia, as memórias vieram como uma avalanche. Ela foi tomada por uma sensação de nojo associada a medo, sem saber descrever o que estava sentindo, só sabia que precisava sair de perto, mas não sabia como fazer. Deixou-o dormindo e foi ao banheiro se higienizar. Lembrava de beberem juntos na festa, de querer ir para casa e de deixá-lo subir. Lembrava de estar cansada e querer dormir. Lembrava de ainda estar vestida quando tudo aconteceu. Lembrava de não ter forças pra dizer não, até que ficou tão desconfortável que não dava mais. Entrou no banho como se precisasse tirar tudo o que estava impregnado nela, mas não saía. Lembrou de todas as vezes que ela bebeu demais, dos caras que de alguma forma se aproveitaram dela, dos beijos roubados, das mãos inesperadas... Mas ela lembrou também do quanto tinha achado bobo quando ele disse que queria beijá-la ao invés de simplesmente beijar, lembrou de rir quando se encontraram de novo e ele propôs aquele beijo no meio de todo mundo, como se ele não pudesse simplesmente tomar dela. Lembrou da delicadeza de todos os momentos e de como ele a olhava e pedia autorização pra tudo e ela só queria se entregar. Agora entendia. Saiu do banho ainda se sentindo suja. Vestiu de volta a camiseta e dessa vez fez questão de colocar uma calcinha também. Retornou pra cama que ainda não estava vazia e se deixou abraçar sem saber direito o que fazer, sem nem saber ao certo o que estava sentido. Era um misto de angústia com uma necessidade de ser abraçada, era uma solidão sem nem ao menos estar sozinha. Ele ainda dormia e ela não conseguia mais pregar os olhos, apesar de estar exausta. Pegou o celular procurando pelo contato dele. Há quanto tempo não falava com Eduardo? Será que ela estava tão magoada assim pra nunca mais ter ido nem ver como ele estava? Achou sua conversa perdida entre as últimas, não sabia se mandava algo ou não, mas se ela ficasse com aquilo entalado de si mais um pouco, talvez não aguentasse mais. Voltou a formular a mensagem. "Ainda me lembro do quanto eu queria que você tivesse me roubado um beijo ao invés de pedir pra me beijar. Obrigada por sempre ter perguntado" A verdade é que ele não tinha feito nada além de ser um cara decente, mas nunca na vida, ela tinha valorizado tanto esse pequeno ato. A verdade é que talvez ela nunca tenha sentido a necessidade de dizer não e nunca não tinha conseguido dizer não.
Eduardo & Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
Quarentena, solidão, filmes de natal e lembranças queridas Ela tivera um dia daqueles. Já fazia três semanas desde que a faculdade tinha suspenso suas atividades e ela achava que iria surtar. Luísa não é do tipo de mulher que vive totalmente cercada de pessoas, já fazia alguns anos que aprendera a gostar da sua própria companhia, mas estando só - junto do seu gato que mais passou o dia na rua do que dentro de casa - lembrava da sua tendência de se enterrar na própria solidão. Ela tinha medo de que regredisse e voltasse a se perder em si mesma e naturalmente se isolasse do mundo, ainda que um dia a quarentena acabasse. Já tinha se estressado bastante. Sua turma estava ansiosa com a volta do internato, a atlética surtada por conta da competição cancelada e ela querendo passar o dia sem nem levantar da cama por não saber se conseguiria lidar com tudo isso, estava de certa forma exausta. Há alguns dias não era boa companhia nem pelo whatsapp porque estava lábil. Se emocionava lendo Harry Potter, chorava ao ver as notícias e ficava ansiosa de abrir os grupos. Já estava há mais de uma semana procurando algo pra assistir nas plataformas de streaming sem encontrar nada até que apareceu um filme de natal. Logo pensou que era fora de época, mas talvez fosse o único filme que teria vontade de assistir durante a janta. Era solitário comer em silêncio estando angustiada e ela amava filmes de natal, talvez fossem seus favoritos. Luísa não sabia o que gostava tanto nesses filmes, talvez fosse a magia, ou o romance, talvez o clima de família ou era a saudade de estar com a sua própria família, mas eles acalmavam seu coração. Esse em específico estava dublado - coisa que ela sempre odiou, pois gostava de ouvir as vozes originais, nem que fosse em russo - e parecia aquelas produções clichês, bem romancezinho pastelão e ela adorou. Em certo momento, o casal principal caiu no sono e ao acordar ele contemplou a garota que logo acordou sorrindo ao ver a companhia. Podia ser o isolamento, ou o estado depressivo que às vezes ela se encontrava, mas ver a forma como eles se olhavam no filme, fez várias cenas passarem diante dos seus olhos. Ela lembrou daquela forma sonolenta de olhar com carinho, daquele sorriso bobo de contemplação e da forma como ele fazia com que ela se sentisse a mulher mais incrível do mundo de uma forma sincera. Luísa pausou o filme porque tinha que comentar com alguém como aquela memória voltou forte, imediatamente mandou uma mensagem para Marina contando como aquela lembrança de Eduardo aquecia seu coração. A resposta veio rápida: "Mulher, muda de filme, vai ver alguma coisa diferente. De todos da sua lista, ele é o meu mais desquerido." Luísa riu alto ouvindo a voz da amiga desaprovando. Obviamente que ela não queria ir atrás dele, não tinha mais nenhum sentimento que trouxesse recaídas. Se na live da Marília Mendonça ela não quis mandar nada, por que o faria agora? Pegou seu caderno de textos pra registrar o fato e viu que a última vez que escrevera foi justamente sobre esse mesmo momento: a troca de olhares ao acordar. Não teve como não sorrir, afinal, já fazia um tempo que não pensava nele com tanto carinho ou nem mais conseguia lembrar porque ela não conseguia sentir raiva ou tristeza considerando como as coisas acabaram. Era aquele ar de mágico de como se conheceram e como ninguém mais fizera ela se sentir tão acima das nuvens. Já tinha se apaixonado por outros, já tinha sofrido e até mesmo chorado muito mais por outras pessoas, mas não conseguia se lembrar de ninguém que tenha feito ela se sentir tão especial. Começou a escrever sobre o fato e seu celular vibrou com a seguinte mensagem: "Lu, sonhei com você e não consegui não falar nada." Era ele. Tem conexões que a razão não explica.
Eduardo & Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
Amores de competição, cenas de cinema, conversas na cama Já fazia oito meses desde o fatídico dia em que a vida dos dois tinha se cruzado naquela fatídica competição. Todos os jogos de handball do namorado da Thais, ela falara dele e ele nunca estava no jogo. Era o último dia: famosa final, quando de relance ela o viu na arquibancada e pensou no tanto que aquele cara chamara sua atenção, mas simplesmente não deu valor. Ela não sabia que era dele que a Thais tinha falado tantas vezes e ingênua, nunca imaginou que algo fosse se concretizar, muito menos fosse ser uma das histórias mais complicadas da sua vida. E estavam eles, naquela mesma festa, muito loucos, relembrando porque eles tinham achado que o dia em que se conheceram fora muito bom e lembrando das pedras que surgiram no meio do caminho. Ele queria ser geriatra, ela era amiga dos avós. Ele jogava volei, ela ainda não tinha encontrado sua posição. Ele era tímido pra fazer acontecer as coisas, ela era dos momentos reservados. Ele acreditava na seriedade dos relacionamentos e ela não poderia concordar menos. Quem imaginaria que as coisas entre os dois acabaria de repente e se acenderia quando eles se encontrassem novamente na competição? Que eles fritariam o cérebro calculando as pontuações dos jogos e relembrariam a noite maravilhosa em que se conheceram. Tudo era de certa forma intensa entre os dois e progredia rápido. Não devia fazer duas horas desde o momento em que se beijaram pela primeira vez naqueles dez dias e já estavam discutindo. Ele tinha aquela necessidade de pedir desculpas. Luísa sabia que a culpa não tinha sido dela, mas guardara a tristeza pra viver aquele momento e ele, quis falar daquilo. Eles tinham uma noite, aquela noite, até não sei quando e ele resolvera falar daquilo. -Eduardo, não era disso que eu queria falar, sabe? Eu não queria ficar triste. -Lu, você quer que eu vá embora? - ele perguntou depois de ter estragado tudo. Ela não queria pensar que ele escolheu ficar com outra, ela não queria ficar triste, porque as coisas estavam sendo boas. - Não, mas eu realmente não queria ficar mais triste. E demorou uns momentos até que o clima chato passasse, mas como se fosse tudo muito natural, eles já estavam rindo. Ela já estava com frio, ele já oferecera sua capa pra ela. Ela se enforcou com a capa devido a diferença de altura - pouco - expressiva entre os dois. Eles beberam mais e resolveram procurar outros lugares... -Sabe, você quer ir lá em casa? - ele perguntou despretensiosamente - Pra Ribeirão? - Sim, é aqui do lado. te trago de volta amanhã. Ela topou, nem lembrou do tanto que ambos tinham bebido, só queria que aquele momento fosse só deles, nem pensou que haveria uma estrada até chegar. E ela acordou com a sensação de ser observada, quando abriu os olhos, estava ele com um sorriso sonolento. Hoje, Luísa não saberia o que tinham conversado até chegar naquele momento, só conseguia se lembrar de falar da Laís, a amiga em comum dos dois, de como ela conseguia estar bonita em absolutamente todos os momentos, inclusive ao acordar e ele responder: -Pra mim, você tá linda assim. E era isso que passou na cabeça dela ao assistir aquela cena de Um Lugar Chamado Nothing Hill, em que os dois acordam e conversam na cama. E se perguntassem pra ela algum dia, sim, existiam algumas memórias em sua vida que pareciam romance de cinema, e mesmo que hoje já não fossem tão significativas, era sempre um prazer relembrar.
Eduardo&Luísa, a saga sem fim. Por Michele Chung, via des-memoriar
O casal do ônibus, as histórias da cabeça dela e a crônica por escrever Ela sentou na frente do computador e ficou olhando para a tela aberta durante alguns minutos. Afinal, escrever ou não escrever? Já devia fazer uma semana e meia desde o último dia que ela vira o casal do ônibus, como ela gostava de chamar. No mês que ela havia passado em São Paulo, ela teve - contra suas maiores inseguranças - que andar de ônibus para chegar ao seu estágio. Acontece que, toda vez que ela pegava o 8707-10 às 17:27, ela encontrava o cobrador conversando com uma moça. Da hora que ela entrava no ônibus, até a hora que ela descia, a morena dos olhos azuis estava lá fazendo charme, às vezes até mesmo cu doce. No primeiro dia, ela escutou o seguinte diálogo: - Sabe, você tem olhos muito bonitos - disse o cobrador com aquele sorrisinho de quem tem segundas intenções por trás, não tão escondidas assim. - Só os olhos? - respondeu ela, piscando os longos cílios carregados de rímel num claro cu doce imenso que ela olhou e só a princípio achou tão clichê que bufou. Ele estava trabalhando! Seguiu achando quase que ridícula a situação até que encontrou eles novamente conversando. E novamente entrou no ônibus e deu de cara com eles discretamente de mão dadas conversando e com seus olhos julgadores pensou que ela tinha caído naquele papinho barato. Imediatamente pegou o celular mandando a seguinte mensagem: "Duuuuu, adivinha quem eu encontrei no ônibus de novo? Acho que o cobrador se deu bem, alguém tinha que se dar, né? hahaha" E a resposta dele foi "escreva uma crônica". Ela se negou veemente. Como escreveria sobre um casal que viu assim, de longe, umas três ou quatro vezes? O que ela saberia sobre a história? Seria justo ela inventar da mente dela qualquer coisa sobre eles? Ela continuava ali, olhando para a barrinha pulsante do word em branco, relembrando esses causos e chegando a conclusão que: quem nunca flertou no trabalho? E porquê não se poderia encontrar o amor da sua vida numa viagem de ônibus? Ela começou a achar muito prepotente, até mesmo arrogante, da parte dela julgar o relacionamento dos outros. Mas ela era assim, pensava em tudo e julgava primeiro, para depois refletir, e esse depois poderia demorar bastante. Afinal, importa onde começou o romance? Seja na escola, num ônibus, ou num bar, o que isso muda? Abriu a página do chat e digitou rapidamente: "O casal do busão virou uma crônica." A resposta veio rápida, diferente dos outros dias. "Eu sabia que você ia acabar escrevendo, Lu, manda aí." Em um crtl+c ctrl+v ela enviou sem nem pensar duas vezes. No fundo, ele sabia, Eduardo sempre sabia que o romantismo de Luísa a obrigaria escrever algo. Não teria incomodado tanto, se de certa forma, não a tivesse tocado. E como não inventar histórias em sua cabeça, ela nunca saberia.
Eduardo & Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
Escrever ou não escrever? Jogos e sagas. Ela deitou na cama e seu gato - novo companheiro de vida - deitou em cima do teclado do notebook enciumado pela falta de atenção enquanto ela pensava se deveria ou não escrever alguma coisa. Era um grande dilema: continuar a reviver as coisas na memória, ou eternizar no papel como ela costumava fazer e limitar a memória a aquelas palavras que escolheria... a verdade é que ela não sabia se queria perder o espaço de imaginar os "e se"s. Tinha sido uma competição do caralho pra nunca mais se esquecer, de certa sua faculdade tinha feito história, mas acima de tudo, aquela quinta-feira tinha sido histórica. Era um dia sem jogos, infelizmente, quarta tinha sido um dia de derrotas, mas ainda sim, uma competição pra ninguém nunca mais baixar a cabeça e em seu penúltimo ano, ela não poderia deixar de querer criar um clima diferente nos jogos com a sua turma. De tarde havia começado a "quinta do quinto" e ela já estava no seu terceiro ou quarto copo de corote quando eles apareceram na porta do alojamento. Por eles, entende-se os caras de outra faculdade, e ela, em sua animação foi trocar uma ideia despretensiosamente, afinal, ela já meio que conhecia eles, mas não imaginava que a recíproca fosse a mesma. Foi uma conversa fluída e eles sabiam exatamente quem era ela e ela nem ao menos estranhou a intimidade. Era "Lu, isso", "Lu, aquilo", risada atrás de risada e a conexão de olhares constantes. Ela até sentiu necessidade de falar pros amigos que estavam juntos e mandou uma foto, estava leve, como se pertencesse a aquela conversa a vida inteira. O momento deles não chegou. Ele era conhecido demais e sempre alguém aparecia até a hora que ele teve que ir. Não sabia se era coisa da cabeça dela ou não, mas ela sabia que queria fazer acontecer. Graças ao bom Deus, existem amigos benevolentes que resolveram intervir. Naquela noite, ambos arrastados pra outro alojamento se encontraram e zero arrependimentos. Mentira. Ela se arrependia, e muito, de não ter vivido mais. O encaixe foi natural, as conversas eram fluídas, não houve nada que ela não queria, pelo contrário sempre queria mais. Talvez esse tivesse sido o erro, ou melhor, o erro foi ter aceitado o convite de ir dormir. Dormir junto com alguém é sempre um problema. É intimidade demais. É dividir uma mesma cama, um mesmo oxigênio, é acordar olhando um pro outro e observando os traços nos momentos mais serenos. É um erro, mas mesmo assim, como ela poderia resistir? Já estava a horas encaixada naquele abraço que parecia ter sido projetado para que ela coubesse. Acordou com a sensação de que tinha que fugir dali. Imaginou-se como em um de seus filmes favoritos de infância, que deveria ir embora, antes que fosse tarde demais. Saiu correndo, mas esqueceu de deixar um sapatinho de cristal, mas qual o problema, afinal? Ela nunca teve problema em ir atrás do que queria, até aquele dia. Ela foi atrás e ele simplesmente ignorou. Agora ela relembrava daquela noite, que ela se sentiu livre, única e ela mesma, mas não sabia se deveria ir atrás de continuidade. Provavelmente não. Por isso, ela não queria colocar no papel, era tirar a possibilidade de dar certo no futuro e acima de tudo, se em algum momento essas palavras chegassem a ele, ele saberia. E homem, em sua mania de achar que só a mulher sente demais, iria achar que ela queria um relacionamento, ou teria se apaixonado. Mentira. Luísa andava muito sincera com as suas vontades e com tudo o que ela sentia. Ela sentira que aquela noite tinha sido marcante. Ela queria que ele soubesse, entretanto, estava presa no medo do "o que ele vai pensar?". Infelizmente, nem todos eram Eduardos com quem ela podia ser totalmente sincera, ou pelo menos, ele não tinha dado esse espaço a ela. Ela abriu novamente o instagram, naquela conversa visualizada "ei, que pena que vamos deixar as coisas inacabadas" e resolveu que não deveria esquecer essa noite. Ele não deveria saber o tanto que poderiam ter sido, ela não queria viver mais uma saga como era Eduardo e Luísa, ela não aguentaria.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
A lua, as ligações e o adeus A lua estava linda. Ela observava da sacada do seu apartamento sozinha já fazia uns bons dez minutos. Era aquela lua que ainda não estava totalmente cheia, mas era imensa e amarela, ocupando o céu quase que por inteiro, pelo menos era assim na sua cabeça. Ela pensou em mandar uma mensagem, falar da lua como sempre fazia, mas já não sabia se podia. Não sabia se podia, não porque não tinha coragem, até porque falar coisas demais sempre fora seu forte e o seu fraco também... Mas porque não sabia se devia. Na última vez que se falaram, foi a maior briga de todos os tempos. Os anos passaram e ele simplesmente não aprendeu. Tinha as mesmas atitudes de quando eles tinham dezoito anos. Ele ligava sempre que precisava dela e coincidentemente, ou não, era sempre de madrugada. Não existia não, sabe? Se não respondesse as mensagens imediatamente, ele ligava e era insistente. Seis anos atrás, ela achava lindo. Se sentia, na sua baixa autoestima, especial, afinal, era o boa noite antes dos dois dormirem. Era a sua voz que ele ouvia depois de tudo. Ele dizia que ela trazia paz, trazia razão, era fácil de lidar e ela acreditava que isso fosse bom. Era um jogo que ambos faziam sem saber e sem saber superar. Porque em algum momento, um dos dois mandaria uma mensagem pra falar da lua. Acontece que ele ligou, era madrugada e véspera de prova. Ela ficou furiosa, porque ele não entendia que tudo tinha mudado. Ela tinha dito um milhão de vezes que já não era a mesma da época em que se apaixonaram e que ele não tinha o direito de fazer essas coisas, que ela tinha uma vida e não podia estar disponível a hora que ele quisesse. Ele nunca entendeu. Nesse dia, ela não teve paciência para uma ligação dele em crise, muito provavelmente alcoolizado ou drogado, pra falar do mundinho dele. Ela perdeu o controle e falou tudo o que estava entalado todos esses anos: que ele era um egoísta e que ela não ia gastar mais sua energia com ele. Ela não sabia se estava arrependida, já que estava com o celular na mão pensando ou não se devia dizer algo. Antes daquele roupante, ela sempre tivera muita consideração pela história dos dois. Era um sentimento de amor que não se vai, sabe? Mas ela era uma pessoa totalmente diferente e aquele amor, ah, aquele amor era pouco. Aos vinte e quatro, ela já não queria migalhas, não queria ser o ponto de apoio de ninguém, não queria as ligações só de madrugada, não queria mais joguinhos. Ela queria cumplicidade, sintonia e equilíbrio. Se fosse para amar de novo, que fosse com alguém disposto a se entregar tanto quanto, se fosse para estar num relacionamento, que fosse com alguém no mesmo ritmo, se fosse para se jogar, que fosse com alguém que lhe desse as mãos pra pular junto. E não, não dava pra manter alguém que fosse tóxico na sua vida. Não dava pra manter alguém que a consumisse de novo, que ficava bravo em saber da sua própria vida e que achasse que era possível dar play de onde eles tinham parado. Eles não eram as mesmas pessoas mais. Sem nem saber por onde começar, ela digitou sem muito pensar: "Sabe, Eduardo, eu tô olhando pro céu e a lua tá incrível, você tá olhando também? Eu não sei o que dizer nessa mensagem, não depois do que aconteceu. Pela primeira vez, desde que a gente se reencontrou, eu não gostei de você e eu te falei todas as poucas e boas que guardei nesses anos todos. Eu fui maldosa, eu sei, mas não vou pedir desculpas. A Luísa de hoje, não gosta do Eduardo que você é, não é mais compatível, sabe? Talvez nunca tenha sido, eu só me gostava muito pouco pra entender. E parece que eu tô chutando cachorro morto ao vir dizer isso, mas é que eu queria um adeus dessa vez. Você vai sempre ser sempre especial, não tem como ter outro primeiro, mas nosso tempo passou." Ela terminou e olhou para o céu refletindo se enviava ou não. A lua brilhava mais até que as estrelas e ela entendeu. Tem coisas que são melhores quando não ditas. O fim veio sem um adeus.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
Para Marina Tonelli (:
Obrigada por me fazer chorar tanto, e ainda mais, me inspirar.
A menina se encontrava sozinha, novamente, trancada em seu quarto. Estava escuro, e a única luz que penetrava dentro daquele forte era a iluminação da rua e a lua cheia a brilhar do lado de fora. Aquela situação não era inédita. Chegava a ser comum o quanto isso acontecia. Estava fazendo um ano desde que se iniciou e se repetia, cada vez mais.
A história era sempre a mesma. Ela do nada saía correndo e se trancava no quarto, se jogava no chão, abraçava seus joelhos e se punha a chorar. Tirá-la de lá era impossível, não havia nada no mundo que a tirasse daquela depressão. Aliás, um dia houve, mas esses dias acabaram.
Mas essa vez era justamente a data que marcara o início da tortura e talvez fosse o que mais a magoara. Perceber que tudo era real. Tudo se passava como um tornado tirando tudo do lugar. Estava preso dentro de si. Como já se passara tanto tempo e ela ainda estava ali? O que teria feito para merecer tamanha sina?
Era como se tudo conspirasse contra a sua felicidade. Seu maior desejo nesses momentos era voltar para junto daqueles que realmente a amavam, e ao que tudo indicava os únicos. Porém eles não eram os únicos. De fato, parecia que ninguém a entendia e que ninguém se importava, mas a verdade era que, apesar dela não enxergar, as pessoas a sua volta de fato a amavam, mas também estavam extremamente fragilizados e não sabiam como mostrar-lhe o amor contido em si.
Entretanto, todos estavam dispostos a superar, menos ela. Parecia que ao superar a perda ela estaria desvalorizando-os, o que era um grande equívoco. Superar a perda de um amor não é esquecê-los, mas fazer com que eles, que já não estavam mais presentes, sorrirem, afinal, amar é querer a felicidade do amado, acima de tudo.
A pequena soluçava presa a sua solidão, como a maioria das noites, até a exaustão alcançar seu frágil corpo, então se deixou cair na cama, mais uma vez. Porém, sentiu um pequeno incomodo embaixo de si. Quando finalmente obteve forças para olhar o que era encontrou um livro destinado para ela. Não sabia de onde, mas encontrara forças para abri-lo, mesmo que algo lhe dissesse que iria doer muito ler-lo.
Era um álbum. Um álbum diferente. Realmente, havia fotografias, como um qualquer, porém, possuía pequenos textos que seus pais deixaram para mostrar o quanto a amavam. Estava tudo lá, desde seu nascimento, as palavras mais doces, existiam todos os momentos.
Fora olhando as fotos uma por uma, afogando-se nas lágrimas e soluços. A saudade estava rasgando-a por dentro. Como isso pudera acontecer? Por que não fora junto? Questionava-se todos os dias, todas as horas: por que só eles? O que teria feito ela para merecer tamanha dor? Como ela queria que seus pais ainda estivessem ao seu lado para abraçá-la.
Conforme os minutos se passavam, as fotografias mudando, as lágrimas iam diminuindo, como se ela se conformasse com a ideia de não tê-los mais por perto. Quando finalmente se cessavam apareceu a imagem de exatamente um ano antes. Fora impossível não cair em soluços novamente.
As lembranças estilhaçavam seu coração, pouco a pouco. Era nítido, como ela estivesse revivendo aquilo. Era a foto de seu aniversário, a pior noite de sua vida.
Naquela noite, enquanto se divertia com os amigos em um lugar, seus pais estavam em casa, tranqüilos por verem a evidente felicidade de seu tesouro. Quando de repente a casa fora invadida e suas vidas arrancadas de forma brutal e devastadora. A notícia acabara com a garota. Simplesmente não havia mais sentido viver.
E mais uma vez, ela estava lá, naquela noite, impossibilitada de se divertir, porque se ao menos ela estivesse em casa, ah, se ela estivesse por lá, talvez tivesse tido o mesmo fim de seus amados protetores e não viveria essa constante angústia.
No fim de longos sofredores minutos ela juntara coragem para ler a última mensagem de seus pais:
“Querida Marie,
Esta é mais uma lembrança que estamos juntando ao álbum, afinal, apesar de você não saber da existência dele, estamos juntando suas memórias, pra um dia você poder olhar essas fotografias e reviver os gloriosos momentos.
Agora você já tem idade pra saber que isso só chegará a suas mãos quando nós nos formos, será a última coisa que deixaremos a você. Nossos últimos conselhos. Nossas últimas mensagens. Isso é para você nunca esquecer o quanto amamos você, nossa criança.
Pequena, aliás, já não sei se esse termo ainda pode ser usado, já tem quinze anos, já não é mais uma criança, ou uma pequena menina, está virando mulher, e seu pai ainda nem se deu conta disso, mas são coisas da vida.
Hoje, é um lindo dia. Quinze anos, uma data única, e temos certeza de que vai lembrar pra sempre.
Minha menina, temos tanto a lhe dizer, as poucas palavras não podem expressar, mas vamos tentar.
A vida é uma coisa engraçada, muito, aliás. É traiçoeira, e nos prega as peças que menos esperamos, mas nos traz lições que nunca esquecemos. A nós foi concedida a missão de lhe auxiliar nessa jornada, ainda que não sejamos eternos, estamos a fazer o nosso melhor, porque ser pai é isso, é ensinar as nossas crias a caminharem com as próprias pernas. E podemos dizer que nos sentimos extremamente inúteis nessa missão, já que, você nasceu praticamente caminhando sozinha.
Mais isso não importa. A mensagem que queremos lhe passar hoje, é que nós lhe amamos, e você não sabe o quanto. Saiba que estamos e estaremos sempre zelando por você, nossa eterna criança. Não lhe abandonaremos e queremos ver-lhe sorrir. Nunca se esqueça: continue caminhando, sempre e sempre. Não importa aonde vá, estaremos com você.
Amor é uma marca que sempre carregarás consigo, porque ele nunca morre. E não morrerá enquanto você escolher manter-lhe vivo, ainda que não estejamos aqui.
Nós lhe amamos muito, Marie, nunca se esqueça disso.
Com muito amor, Mamãe e Papai.”
Os soluços só aumentavam apesar dela saber que sua tristeza não era o desejo daqueles que mais a amavam, ela sabia que precisava seguir em frente. E então caiu um pequeno papel de lá de dentro. Mais um bilhete, mas de quem?
“Marie, encontrei isso no meio das coisas aqui do sótão. Ao que tudo indica, meus pais ficaram com medo de dar-lhe, já que está tão frágil. Mas eles disseram que seus pais lhe deixaram isso, e pediram para entregar-lhe. Como meus pais são medrosos, eu estou fazendo isso.
Talvez você não veja, mas há pessoas que ainda se importam consigo, e que se machucam ao ver-lhe sofrer tanto. Acredito que seus pais não queriam lhe ver nesse estado. Eles lhe amavam muito.
Como eu acho que eles gostariam que seguisse em frente, eu queria lhe ajudar. Não sabe o que é estar ao seu lado e você não ver. Sei que está presa em seus próprios medos, mas tem que se libertar do seu casulo. Eu estou aqui se precisar. Minha maior alegria seria presenciar um verdadeiro sorriso seu novamente, um daqueles que eu tanto via, que eu tanto amo.
Marie, talvez você não saiba, não sei como ainda não percebeu, mas sempre fui, e sou irrevogavelmente apaixonado por você, atrevo-me até dizer que lhe amo, e este sentimento já não cabe mais em mim.
Destrói-me ver-lhe sofrer tanto e não fazer nada. Liberte suas asas para que possa ser feliz novamente. Não faça por mim, faça por si mesma.
Eu lhe amo, pequena. Sorria de novo, por favor?
James”
Finalmente alguém dera o primeiro passo para libertar o que jazia aprisionado dentro de si. Afinal, ainda havia alguém que a amava, ainda que não visse. E se ela caísse alguém iria ampará-la. Já não havia mais empecilhos para superar.Sorria, Marie.
por que não reviver bons contos de quando eu escrevia com frequência?
Saiba que você importa, boas notícias e felicidade incontida Ela tinha uma prova pra estudar e pouquíssima concentração. O dia tinha sido um furacão de sentimentos que, pra variar, ela não sabia lidar. Já fazia um tempo que ela evitava puxar conversa. Tem coisas que machucam o suficiente pra que pessoas importantes sejam afastadas e qualquer menção de contato possa reviver aquilo que se escolheu esquecer. Mas era inevitável não pensar nele quando ele aparece online no topo do chat do Faceebok por tantos dias seguidos, ou quando você está estudando com uma amiga que vai pra colação de grau do namorado que por acaso mora com ele, ou quando ele posta um story da própria colação com felicidade. Tem pessoas que são assim, ainda que distante ou que tenham nos machucado, despertam em nós curiosidade. Não sei bem se curiosidade é a palavra, mas é aquela vontade de compartilhar a felicidade que se sente ao pensar nela ou vê-la conquistando um sonho. Ele era uma delas. Foi com esse sentimento que ela resolveu mandar seus parabéns. Na verdade, ela queria dizer mais do que parabéns, queria contar de coisas de dentro de si que ela achava que ele tinha direito de saber. Ela tinha passado tanto tempo com medo: medo de sentir, medo de se abrir, medo de se apaixonar, medo de parecer boba, medo dele pensar coisas erradas, medo de ser ignorada, mas ele era o começo da superação desses medos, nada mais justo do que superar essa insegurança em parecer boba e dizer o que tinha pra dizer. Ficou olhando pra tela uns longos minutos sem saber como começar ou se de fato tinha coragem de mandar algo depois de tanto tempo. Começou e apagou um milhão de vezes para enfim enviar: "eu sei que já tem um bom tempo que não nos falamos, na verdade, nem sei bem se eu devia dizer algo, mas já tem um tempo que eu tô evitando o ímpeto de dizer alguma coisa, mas ver a foto de você colando grau foi algo que me encheu de alegria, tanto quanto ver as suas fotos de formatura, me fez vir aqui pelo menos dizer parabéns e mandar boas energias. Sei que parece bobo, mas de tempos em tempos eu tenho essa necessidade de mostrar pras pessoas que elas são significativas. Nunca te disse isso, porque me parecia bizarro dizer algo tão íntimo e intenso meu quando o que existia entre nós parecia tão pouco, mas o que tivemos foi como abrir uma porta que há muito eu tinha medo de abrir. De qualquer forma, Du, não sei nem se você gostaria de saber disso, só espero que você esteja bem e não interprete isso de forma errada". Depois de enviar, ela se deu conta de que talvez ela tivesse feito besteira. Ela não sabia nada da vida dele mais e ele podia estar numa fase da vida que ele não quisesse receber nem isso dela. Da última vez que haviam se visto, praticamente não havia o que dizer, não se sabe se pela dor ou se tudo realmente tivesse se tornado indiferente mesmo. Ela entendeu que possivelmente não haveria resposta, contudo, assim que se distraiu - coisa que aconteceu um tanto quanto rápido - , sentiu seu celular vibrar. "Valeu demais, Lu. A gente com certeza não foi nada bobo! Significa muito pra mim você falar essas coisas!" E aquela insegurança passou. A resposta veio afinal e com uma resposta tão positiva que a surpreendeu. As coisas podem ser recíprocas de alguma forma, afinal. A conversa fluiu com naturalidade sobre a como estava a vida e ela então soube que ele estava realizando sonhos mesmo. Superando suas próprias expectativas e que pelo menos, a razão que ele dera pra sua indisponibilidade emocional estava rendendo frutos. Meia hora. Esse foi o tempo que durou a conversa, o suficiente para falar das coisas boas um pro outro e mostrar que os dois ainda se importavam. Ela não sabia se a reciprocidade era verdadeira de fato, ou só uma necessidade do outro responder sentimentos positivos com sentimentos positivos, entretanto, o que importava era essa bola de alegria que ela aprisionava no peito pela felicidade que sentia por ele. "Estou tão feliz, que tudo o que eu queria era te dar um abraço bem forte agora." digitou ela, porém não enviou. Ele não precisava saber e ela não queria acordá-lo sabendo que ele teria que acordar cedo pra resolver as coisas da prova.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Michele Chung (via des-memoriar)
Daqueles dias que a vida te enche de alegria. Tava com saudades desses dias.
Ontem eu pensei seriamente em aceitar suas vírgulas, se você não encucar com minhas reticências. Quem sabe assim a gente permaneça cada dia mais perto, e tão longe de um ponto final.
Gabito Nunes. (via versificar)
Eu, que sou intensa demais.
o que sinto,
é multiplicado.
eu, que faço uma tempestade
acabo me afogando, dentro do meu ser.
sinto-me sufocada,
até o nada, se transforma um tudo.
N.
Jogos, cansaço e fingimentos Ainda estava deitada na cama quando ele abriu a janela e tirou aquele cigarro que deixava um cheiro misto de ervas com tabaco na minha casa. Eu odiava o cheiro do cigarro, mas ao mesmo tempo, ele deixava um quê de familiaridade e aconchego que eu não saberia explicar... acho que era a sua presença que se mantinha, mesmo que eu sempre terminasse sozinha porque ele tinha que fazer não sei o que. Peguei-me observando o sol do fim de tarde refletindo na sua pele e pensando no quanto eu gostava de ver aquela cena. Com certeza estava fodida e não era da forma que mais me dava prazer. Me dar conta de que havia algo que estava mexendo comigo me dava um medo danado. - Eduardo, fuma pra fora da janela - ralhei como se fosse um dia normal, mas eu sabia que nada voltaria ser normal. Não quando eu me dava conta do quanto eu estava cansada. Cansada de jogar. Cansada de fingir desinteresse. Cansada de ficar esperando ele vir me procurar. Até quando eu aguentaria não sentir? Ele riu da minha irritação. Ele sabia o quanto eu odiava cigarro, mas ainda sim deixava ele fumar dentro de casa. - Tô soprando a fumaça para fora, chatinha. - terminou aquele cigarro e veio pra cama me abraçar, como se isso fosse resolver alguma coisa. - O que você tem hoje, Luísa? - ele me perguntou com aquele jeito de olhar que me desarmava. Eu não tinha certeza de que ele sabia o efeito que ele tinha sobre mim, mas sabendo ou não, ele me desarmava totalmente. - Nada, Du, tô de boa - respondi manhosa como só eu sabia ser. Eu só podia estar de TPM, não é possível. Por algum motivo desconhecido formou um bolo no meu peito e ele doía. Eu precisava parar com isso, imediatamente, se não eu enlouqueceria, isso se eu já não estivesse louca. - Você não está de boa, Lu. Não adianta esconder, me fala o que tá acontecendo. - Você é um serzinho irritante, sabia? Eu tô exausta, só isso. A faculdade acabou comigo essa semana. Só quero que acabe - e ele me envolveu mais dentro do seu abraço e depositou um beijo nos meus cabelos, daquele jeito pseudorromântico dele. - Você pensa que me engana - respondeu rindo, mas me envolvendo dentro daquela conchinha que me faria dormir, com certeza - mas vou deixar você acreditar nessa farsa. Puxei o cobertor pra cima, porque não dá pra dormir descoberta e eu já estava sonolenta o suficiente para querer que o Eduardo só ficasse daquele jeito comigo porque seria um sono tranquilo. Já tinha um tempo que eu só dormia bem quando não dormia sozinha e eu não sabia explicar porque. Ele estava com o celular na mão e sorria ao ler alguma coisa. Aproveitou meu estado de torpor pra ir ao banheiro e voltou vestindo a sua camiseta. Veio depositar um beijo em minha testa. - Lu, preciso ir, ok? - Pode ir, vou dormir - respondi rabugenta - fecha a janela antes de ir, por favor - me encolhi mais no cobertor e virei as costas pra ele. - Vai me deixar ir assim, sem mais nem menos? - sussurrou em meu ouvido e veio beijar meu rosto e pescoço. A verdade é que eu nunca o deixaria ir sem fazer drama ou tentar prender ele comigo, mas na atual situação, era melhor deixá-lo ir e pensar com clareza. - Vou, Eduardo, quero dormir. - Você nunca quer dormir. Sempre tem uma desculpa e nunca me deixa ir sem aproveitar totalmente minha presença - ele continuou naquele tom de quem tem segunda intenções, mas eu realmente não estava pra brincadeiras. - Hoje eu quero. Às vezes isso acontece, sabia? - respondi ríspida, já estava de mau humor. Queria que ele fosse pra eu pensar em paz, mas se ele fosse, eu sabia que ia querer que ele voltasse, mas não daria o braço a torcer. Ele sentou na cama e me puxou pelo braço me colocando sentada de frente pra ele - Olha pra mim, Lu - levantou meu rosto suavemente me obrigando a olhar nos olhos dele - para de fingir que você não tá chateada com alguma coisa e de fingir que essa coisa não sou eu - ele sorriu. Por que diabos ele estava sorrindo quando claramente ele estava provocando uma tempestade? - Seus olhos nunca mentem, coração. Respirei fundo, porque acabaria soltando tudo de uma vez em cima dele. Por que eu já sou uma avalanche de emoções - eu não sei o que tá acontecendo - e era a mais pura verdade - só quero dormir pra ver se tudo entra nos eixos, Du. - Você tava bem quando eu cheguei aqui, o que mudou? - Eu não saberia dizer o que mudou, não sem quebrar aquele joguinho imbecil que a gente construiu desde o início. Ele podia vir atrás, ele podia querer as coisas e eu, como a alma generosa que sou, realizava seus desejos, mas a iniciativa não deveria ser minha. E porquê isso? Nem eu sei. - Eu tô cansada disso tudo - não adiantava tentar fugir, ele procuraria me encurralar de todas as formas possíveis. O bicho era insistente e eu sabia muito bem disso. - Tudo o que? - Ele estava realmente preocupado com o que eu tinha pra dizer, tinha até um vinco formado em sua testa. - Nós, Eduardo. Não aguento mais estarmos do jeito que estamos - confessei e foi como se eu tirasse um peso absurdo das minhas costas, mas sua feição mudou de perplexo para algo que eu não conseguia decifrar e eu conhecia todas as suas expressões. Quando me dei conta de como ele poderia ter entendido o que eu tava dizendo e era totalmente o contrário - Tô cansada de ficar de joguinhos com você, Du, cansada de bancar a difícil quando você é meu melhor amigo e me conhece com a palma da sua mão. Tô cansada de fazer esse "joguinho da conquista" no qual ganha quem tiver menos interesse. Eu não gosto disso, me sinto desonesta, sabe? E eu não aguento mais mentir pra mim mesma e dizer que isso não passa de um passatempo, porque pra mim, nós deixou de ser um passatempo e acho que faz tempo já, eu só não tinha me dado conta ainda. E seus olhos se iluminaram com o sorriso que surgiu em seu rosto. - Nós deixou de ser um passatempo pra mim, faz tempo, Lu. Só tava esperando que deixasse de ser pra você também - e ele me beijou como havia beijado no início daquela tarde.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Via des-memoriar (Michele Chung)
Insônia, clichês e a melhor amiga Era mais uma daquelas noites que eu não conseguia dormir. Passei o dia todo batalhando contra o sono pra chegar a madrugada que surrupiava a vontade de dormir. Estava cansada disso, mas ainda sim, minha mente não parava. Os pensamentos iam e viam numa velocidade que eu não conseguia controlar e muito menos evitar, então eu só ficava lá: deitada enrolada no cobertor, ainda que fosse verão, procurando me acalmar pra ter uma boa noite de sono. Missão que vinha falhando há vários dias. Respirava profundamente após uma sessão de automassagem que eu utilizava pra relaxar, quando percebi algo batendo na minha janela insistentemente. Não queria levantar, mas o som parecia não parar enquanto eu não atendesse meu visitante da madrugada. - Você sabe que isso é um clichê de filme romântico, né? - resmunguei mau humorada enquanto abria a janela. - Esse era o objetivo, princesa - ele me respondeu com uma fala arrastada, mas naquele tom divertido que só ele conseguia manter o tempo todo. - E o que você quer com isso? - respondi sem saber se queria que ele ficasse ou fosse embora. Sabia que ele estava bêbado ou drogado, mais provavelmente os dois, e bastante perturbado, por que é isso que o faria me procurar as três da manhã. O estranho era ele estar na minha casa ao invés de me ligar, me acordar e me tirar o sono. - Acho que te ver era o meu objetivo - ele olhava pros próprios pés enquanto falava. Era um daqueles momentos que eu sabia que estava difícil de admitir que tinha algo de errado e ele precisava de mim. A gente era assim, com uma amizade estranha que sempre terminava comigo morrendo de sono no dia seguinte. - Sobe, Eduardo, mas eu quero dormir logo, viu? - disse rabugenta. Ele entrou em casa e foi direto pro meu quarto pra não acordar ninguém. Na realidade, se meu pai descobrisse ele em casa a essa hora, dentro do meu quarto e muito louco eu estaria fodida e não da forma boa, mas era sempre assim, eu assumia os riscos quando ele precisava de mim. Sentamos na minha cama e antes que eu pudesse perguntar o que estava acontecendo ele me abraçou. Puxou-me pra perto respirando profundamente na base do meu pescoço fazendo meu corpo arrepiar. Eu nunca ia me acostumar com a sensação dele me tocando. - Adoro seu perfume - ele me disse sem me largar. - Que bom que eu não passo perfume pra dormir - respondi sem rir, não é possível que ele estivesse tão chapado que sentia o cheiro de "Tic Tac" do meu Victoria Secrets que na verdade era de baunilha. - Então você é cheirosa naturalmente - ele tem essa mania de tentar conquistar toda e qualquer garota que esteja por perto. Isso me irritava, mas ao mesmo tempo trazia um sentimento bom que eu não saberia explicar nem em um milhão de anos. - Corta essa, o que tá acontecendo? - estava muito cansada pra continuar nessa enrolação e conhecendo o Eduardo, poderia durar a noite toda. - Eu tô aqui, abrindo meu coração, te dizendo o quanto você é cheirosa e você me vem com essa grosseria? - ele me respondeu usando um tom falso ferido e se afastando num movimento teatral. Não pude me conter e ri baixo. - Você é um idiota mesmo - continuei rindo da careta ofendida que ele fazia - Você não viria aqui a essa hora só porque eu sou cheirosa, Du. Eu tô cansada, faz dias que eu não durmo direito e eu tava tentando dormir quando você chegou. Não estou no meu melhor humor. - Sei lá, tá acontecendo muita coisa. São muitos pensamentos, não consigo por em ordem. - Tudo tem um começo, por onde você quer começar? - perguntei em meio a um bocejo, enquanto me encostava em seu peito pra descansar. - Por que tudo sempre dá errado? - ele se ajeitou na minha cama se apoiando na minha cabeceira e me colocando entre suas pernas como se aquele lugar fosse só meu, mas eu sabia que não era, nunca era. - O que dá errado? - Tudo. Todas as meninas que passam pela minha vida, parece que eu magoo todas elas. - Você tá falando da Bianca? - minha voz não passava de um sussurro. Com certeza era ela, ele não me procuraria se ela não tivesse falado verdades que ele não queria processar. - Vocês brigaram de novo, né? - Sim... acho que não vamos durar muito mais - tinha um tom triste, mas ao mesmo tempo cansado. Eu já tinha ouvido aquela frase tantas vezes que foi quase impossível não bufar. Ele tinha perdido minha atenção nesse momento. - Seja sincero com ela e com si mesmo, Eduardo, para de fingir que tá tudo lindo e maravilhoso e começa a enfrentar os problemas. Isso que você faz é fugir. - me encaixei no seu peito respirando fundo e sentindo minhas pálpebras pesar. - Se eu namorasse com você, seria tão mais fácil - revirei meus olhos cansados. - Mas a sua namorada é a Bianca, lide com isso - ele iria começar com os joguinhos de sedução de novo e eu não tinha nenhuma paciência no momento. - Du, eu to realmente cansada, vamos ter essa conversa quando você tiver sóbrio? - meus bocejos já eram mais frequentes, não é possível que ele não tenha percebido. - Tudo bem... posso dormir aqui? Não quero ficar em casa sozinho - ele tinha essa carência que eu não sei se entenderia algum dia, mas sempre adorei suprir. - Pode, só não ronca - fui pra perto da parede enquanto ele tirava o casaco e se ajeitava do meu lado, me puxando pra perto. - Boa noite, Lu. - Boa noite, Du - ele depositou um beijo nos meus cabelos. Passaram-se alguns minutos e ele interrompeu o silêncio me tirando do meu quase sono: - Me dá um beijo? - Você namora, Eduardo - respirei fundo segurando a minha irritação, não queria perder aquele sono que estava chegando. - E se eu não namorasse? - Não sei porquê você pergunta se já sabe a resposta, vai dormir, Eduardo.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Via des-memoriar (Michele Chung)
sei que não é da sua conta e que talvez não seja nem de seu interesse, mas eu gostaria que você soubesse.
tô com outra pessoa.
assim, na lata.
no início, eu realmente achei que me sairia bem e que ficaria mais fácil com o tempo. eu pensei que a sua falta que antes me sucumbia fosse diminuir quando eu tivesse alguém pra esquentar os meus pés no frio.
eu estava errada. totalmente. como no dia em que eu teimei com você que 0675 era a placa do carro do meu pai e não 0678 como você dizia ser. tá aí. você tinha razão. eu errei isso também.
só pra você saber, não ficou mais fácil. ficou pior.
anos atrás eu parafraseei no meu caderno do ensino médio uma frase que até então nunca tinha me feito sentido. ela dizia que estar com alguém errado é lembrar em dobro a falta que faz alguém certo. hoje eu entendo a Tati.
ele conversa sobre negócios com meu pai, compreende a superproteção da minha mãe e se dá bem com todas as minhas amigas. ele me manda mensagem durante o apurado expediente de trabalho, é sempre genuíno e carinhoso e pergunta o que eu quero escutar quando eu entro dentro do carro.
e é aí que eu sinto a sua falta.
ele não acha graça nas músicas da Taylor Swift que eu colocava pra escutar nas viagens que eu e você fazíamos e nem se diverte com as minhas caras e bocas.
ele não se emociona comigo nos filmes de romance, aqueles que a gente amava e colocava pra repetir mil vezes, mesmo que sabíamos de cor e salteado o final. você chorava comigo todas as vezes.
ele não enche a cara comigo da mesma forma que a gente fazia. como aquela vez que a gente bebeu tanto que quando chegamos em casa sentamos no chão do banheiro chorando porque a gente se amava demais.
eu te amei tanto, puta merda.
ele não come esfiha de chocolate do Habib’s. aquelas que a gente comprava em dezenas pra acompanhar a maratona do nosso seriado favorito. você nem gostava tanto assim de chocolate e eu fui descobrir só depois. você comia porque eu gostava.
eu sinto falta de brigar com você. de me perder no meio da tempestade mas encontrar a calmaria e o paraíso cinco minutos depois.
ele não dá bola pras minhas maluquices.
sinto falta do frio na barriga que eu sentia toda vez que você aparecia na minha casa, mesmo que já tenha se passado anos desde a primeira vez que você deu as caras por aqui.
ele é o estereótipo exato de quem consegue arrebatar e atrair todas as pessoas ao seu redor. e me atrairia.
se eu não amasse você.
se eu não te sentisse em cada toque dele, em cada beijo, em cada suspiro, em cada palavra dita com tanto carinho e dedicação.
eu queria te contar porque sei que você me entenderia.
acho que você seria a única pessoa que me compreenderia por mantê-lo por perto enquanto eu não tenho a mínima intenção de permanecer.
sei que você também se sente assim.
é engraçado a forma como a gente tenta preencher nossos vazios com outras pessoas e sempre acabamos no mesmo lugar toda sexta de madrugada.
a sua cama ainda tem o mesmo cheiro.
eu só queria te lembrar de que a vida é feita disso.
eu amei você com todo o meu coração e sei que você me amou também. é arriscado dizer isso quando se tem ainda vinte e poucos anos, mas você foi o amor da minha vida.
foi a coisa mais louca, anestésica e extasiante que eu já senti em toda a minha existência. e eu preciso - de verdade - te agradecer por isso.
eu fui muito feliz em todo esse tempo que a gente caminhou juntos.
agora eu tô com ele e tá tudo bem também. eu só queria que você soubesse.
a minha risada nunca mais foi a mesma e meus dias também não.
sinto muita falta sua. as pessoas perderam a graça, mas eu preciso assumir o risco. eu preciso dar o segundo passo.
eu não aprendi a amar outra pessoa além de você e eu preciso tentar.
eu preciso seguir em frente porque eu não aguento mais enxergar todo o universo preto e branco só porque eu não tenho mais você.
Uns post its, uma falta de concentração e engolir os sentimentos feito adulto Ela estava há horas tentando colocar a cabeça no lugar. Precisava mais do que tudo estudar, mas qualquer coisa parecia mais interessante. Já tinha escrito uns 5 post its na última hora pra colar na parede, e acho que no máximo um deles - que ainda estava incompleto - era sobre o assunto a ser discutido no dia seguinte. Já tinha começado o mesmo problema de lógica umas três vezes, terminado a temporada da série nova que ela tinha começado, mas a porcaria da síndrome tireotóxica, nada. A verdade é que ela estava angustiada e cheia de medo. O final de semana foi intenso. Toda autodescoberta é. E ela tinha descoberto que ainda tinha capacidade de sonhar, que ainda queria fazer sua mudança no mundo, mas estava tão perdida tentando juntar os pedaços de si que não sabia se era capaz de recomeçar. Lia e relia seus post its colados em frente a escrivaninha - que em tese eram para lembretes de estudo - e toda vez seus olhos voltavam para aquele pedacinho de papel rosa com os dizeres "você ainda se lembra dos seus sonhos?". Ela estava começando a relembrar e talvez fosse isso que mais causava medo. E se não fosse mais possível realizar sonhos? Ela tinha acreditado que era possível, ela tinha acreditado que as pessoas não seriam coniventes com discursos de ódio, ela tinha acreditado no melhor das pessoas e aquele domingo sombrio tava lá pra provar que quando o ser humano quer, ele é ruim. Ele faz escolhas egoístas, ele deixa o ódio ser maior. Por mais que ela estivesse feliz com o tanto de gente boa da qual ela se cercou e topou ser a resistência, ela estava decepcionada com a humanidade. Ela tinha que se concentrar nas provas que estavam por vir: teoria, prática, o internato; mas ela não conseguia esquecer o final de semana. Ele foi esse paradoxo de encontros incrivelmente maravilhosos como foram os de sábado e os incrivelmente desgastantes como os de sexta. E o que fazer nessas horas? Estava sentada havia horas com livros e cadernos abertos, com as músicas da bad em replay, estava perdida dentro de si. Era uma angústia formando um bolo que resistia em se libertar. Queria chorar, queria deitar na cama e não levantar mais, queria que seu nariz entupisse de tanto chorar enquanto seu ursinho, parceiro de todas as angústias, a ouviria soluçar horas a dentro como ela fazia no passado, porém estava tudo preso. Ela não se sentia capaz de chorar, na verdade, havia anos que ela não tinha mais motivos para tal e a assustava o fato de alguém ter entrado tão profundamente dentro dela que a levasse a esse ponto. Ela não sabia se a briga era o que doía mais ou essa vontade de desgostar e não conseguir. Na dúvida, fez a única coisa que fazia sentido: transformou a angústia em palavras. E afinal, o que fazer com isso? Parecia incompleto guardar para si tudo isso. Abriu a conversa como ela já havia feito tantas vezes nesses dias que se passaram e apesar de já ter decidido não mandar mais nada, porque não queria estar aonde não era bem vinda, decidiu uma última vez colocar um ponto final. - Outro dia eu li que lidar com sentimentos como adulto era engolir ao invés de transformá-los em palavras. Eu prefiro não ser adulta, então. Você provavelmente nem vai responder, mas queria dizer minhas últimas palavras - ela discordava de tal afirmação, se não são os sentimentos que levam a criação das mais lindas artes, então as coisas não tem mais profundidade. Era isso, em algum momento, haveria de se ter um fim, e já sabemos que pontas soltas não são o forte dela. - O que você quer que eu faça com isso, Luísa? - a resposta que ela não esperava chegou poucos minutos depois. - Nada, Eduardo, não precisa fazer nada. Eu só precisava encontrar motivos pra não conseguir gostar mais de você - e esse era o jeito dela de fugir, porque não era possível que alguém fosse desarmar suas proteções dessa forma. Se esse seria o fim, só o tempo iria dizer.
Eduardo e Luísa, a saga sem fim. Via des-memoriar (Michele Chung)