Julgamento do Lula no Die Zeit
Espanando a poeira do bloguinho pra postar essa tradução feita na pressa naquela tarde especial de domingo em que eu deveria estar estudando para as provas e fazendo dever de casa do mestrado. Críticas à tradução são bem vindas.
“Eu quero que eles se desculpem um dia”
Ex-presidente do Brasil quer se candidatar de novo, mas contra ele correm dez processos por corrupção. Para ele, os processos são motivados politicamente. “É uma questão de honra”, diz.
Entrevista: Thomas Fischermann, São Paulo 19 de janeiro de 2018, 20h29
Legenda: De acordo com pesquisas, apesar de toda a disputa judicial, Lula tem boas chances de vitória. Ele tem cerca de 36% de aprovação. O candidato mais próximo dele, 18%.
Terno cinza, olhar sério, aperto de mão curto. O Presidente está taciturno e parece bem mais sério e objetivo do que o homem jovial que se conhece das tribunas populares. Luiz Inácio ("Lula") da Silva, presidente brasileiro de 2003 até 2010, toma lugar na cabeceira da mesa de conferência.
Ele não toma a palavra. Deixa que seu advogado fale primeiro: 10 minutos de explicações sobre a judicial legal de Lula.
Sim, diz o advogado, “o grande homem do movimento trabalhista brasileiro” tem na próxima quarta-feira um encontro decisivo com a Justiça. Em segunda instância, três juízes vão decidir sobre um processo por corrupção. Na primeira instância, a sentença foi de nove anos e meio de prisão Julgamento em julho. Trata-se de um apartamento grande, que teria sido transferido a ele por amigos empresários – mas trata-se também do futuro de Lula e de todo o país. O político de 72 anos não quer ir para a prisão. Ele quer tomar o poder de novo. Nas eleições para presidente de 2018, quer se candidatar mais uma vez ao seu antigo posto.
Com isso, Lula pretende fazer recuar uma virada à direita vivida pelo país desde 2016. Sua sucessora escolhida, Dilma Rousseff, foi derrubada em uma insólita tomada de poder pela oposição conservadora naquele ano. Ela perdeu uma Moção de censura e seu sucessor decidiu, sem consulta ao eleitorado, por programas de austeridade e por uma política que vai ao encontro dos interesses de industriais e latifundiários.
ZEIT ONLINE: O senhor afirma que os processos por corrupção contra o senhor são todos invenções motivadas politicamente?
Luiz Inácio Lula da Silva: Sobre a próxima decisão dos juízes, eu não posso falar muito, por motivos jurídicos. Mas o processo inteiro começou já com uma mentira no jornal O Globo. Eles escreveram que esse apartamento me pertence. Daí a Polícia Federal apresentou uma investigação cheia de mentiras. E a promotoria as encampou – um erro. Um erro maior ainda foi o juiz ter aceitado essas mentiras como verdade. Tudo isso me dá a impressão de que tudo isso tem mais a ver com um julgamento político do que judicial.
ZEIT ONLINE: Uma acusação dura.
Lula: Quando o promotor responsável apresentou o caso, sem provas, ele chegou até a fazer uma apresentação de Powerpoint. Para o país inteiro, deveria parecer que o Partido dos Trabalhadores (que Lula ajudou a fundar) seria uma organização criminosa. Como se tivesse surgido e chegado ao poder para saquear o país.
ZEIT ONLINE: Se o senhor for condenado na próxima semana: O senhor ainda vai querer manter sua candidatura?
Lula: Eu não conheço a palavra “Desistir”. Se eu for condenado, eu vou recorrer e dois dias depois vou voar para a Etiópia. Eu vou falar numa conferência lá sobre a fome mundial. O mundo inteiro sabe que o Brasil desenvolveu a melhor política para lutar contra a fome. Meu governo foi extremamente bem-sucedido nisso. Depois eu vou liderar um grande movimento de apoiadores meus no Brasil, uma caravana. Nós marcharemos primeiro para o Sul e depois para o Norte. O Partido dos Trabalhadores já comprovou que eles podem governar bem o país, que o Brasil pode gozar de reputação no exterior, que eles conseguem trazer crescimento econômico.
ZEIT ONLINE: Nem todos os brasileiros o apoiam. Alguns fazem demonstrações cheias de ódio contra o senhor, muito pessoais. Nos protestos, ele exigem: “Lula precisa ir para a cadeia” Como é isso?
Lula: Quando eu concorri na eleição em 2003, meus opositores diziam que eu causaria embaraços. Eles também diziam que eu arruinaria a economia. E aí nós tivemos uma das melhores épocas da economia brasileira e distribuímos os ganhos também entre o povo. Porque se não eles fazem isso, só alguns ricos ficam mais ricos. Nós transformamos pessoas pobres desse país em cidadãos respeitados, que conhecem seus direitos. Agora se vê essas pessoas em todos os lugares nos shoppings centers e nos aeroportos.
Mas a ascensão dos pobres também foi uma fonte de ódio de uma certa parte da sociedade. Essa parte não quer abrir espaço para outros no espaço público. Eles não acreditam em democracia. Isso se mostra recentemente nas campanhas da oposição. Nelas se exerce uma política de ódio. Vocês podem imaginar no país de vocês, que um político seja cuspido e xingado ao entrar num restaurante? Na minha opinião, as bases da democracia estão em jogo aqui.
Nesse ponto, Lula faz uma longa explanação sobre sei programa de governo: Ele quer dar ao país de novo “alegria de si mesmos”, e então acabar com todo a amargura e o ódio. Mas, diante de perguntas, ele se mantém vago. Ele quer mais investimentos, mais comércio com países vizinhos da América Latina – e de novo mais ajuda aos pobres, como em seu mandato entre 2003 e 2010. Na época, o consumo em elevação das camadas outrora pobres se juntou com um boom de commodities e levou a um crescimento econômico de até 6%. Lula dispara também contra o governo atual. Ele denuncia a política de austeridade exagerada, degradação social e uma liquidação das empresas estatais.
Mas ele volta rapidamente aos processos contra ele e as perspectivas da sua candidatura. O tom se tornou mais estridente nos últimos dias em todo o espectro político Recentemente a presidente do Partido dos Trabalhadores declarou que não se pode enfiar Lula na prisão simplesmente – antes seria preciso “matar gente”. Ela recuou na afirmação. Não teria falado literalmente. Sobre essa fala da chefe do partido, Lula remete à Ditadura Militar (1964-1985): “A esquerda não matou ninguém. Eram sempre os outros.”
Além disso, ele também ameaça a mídia brasileira. Se chegar ao poder de novo, haverá uma nova lei para “policiá-la”. O que isso significa concretamente, ele deixou em aberto diante das perguntas. No Brasil, isso soa como uma declaração de guerra a um punhado de famílias influentes no país. A eles pertencem quase todos os veículos de comunicação e eles se consideram opositores de Lula.
Lula também ataca de forma estranhamente rude o mercado financeiro, que está cético sobre seu eventual retorno. Ele os chama de “terroristas que contam mentiras”. E mais uma vez critica seus acusadores no tribunal, que além dos processo atual, apresentaram outras nove outras acusações – as quais Lula descarta como invenções politicamente motivadas. “Um dia os filhos deles vão perguntar: Por que você contou essas mentiras sobre o Lula?”
ZEIT ONLINE: O senhor e seus advogados defendem que o único resultado do processo contra o senhor deveria ser uma absolvição. O senhor acredita que está acima da lei?
Lula: Não. Se os juízes se orientarem pelos fatos, eu não tenho nenhuma dúvida, de que eles vão me absolver. Só se for político, ele podem vir contra mim. Se eles pudessem apresentar provas de que Lula cometeu um crime, então eles deveriam me condenar. Caso contrário, deveriam me absolver.
ZEIT ONLINE: Também a esquerda usa o processo contra o senhor para mobilizar sua base e levantar discussão. Há grandes protestos e a presidente do seu próprio partido ameaça com violência diante de uma condenação.
Lula: Eu acho correto que as pessoas vão às ruas agora e protestem. Mas a esquerda aqui tem sido constantemente vítima de violência. A violência nunca começa com a gente. Vejam a história desse país, seus mortos.
ZEIT ONLINE: Seu partido afirmou, em relação aos muitos processos contra o senhor, que: Lula não pode ser condenado porque uma eleição para presidente sem Lula seria uma fraude. O senhor concorda?
Lula: Não se trata do Lula. Trata-se da democracia. Quando se faz um processo para evitar a candidatura de alguém, isso não é muito democrático.
ZEIT ONLINE: Então o senhor se candidatará de qualquer modo?
Lula: Se o Partido dos Trabalhadores assim quiser, eu serei o seu candidato nas eleições para presidente. O que a Justiça faz, é outra coisa. Lá vão haver apelações e assim por diante. Mas isso não vai me impedir de viajar pelo Brasil e conversar com o povo. Eu tenho 72 anos e a energia de um homem de 30.
ZEIT ONLINE: O senhor acusa o tribunal de fazer uma campanha política contra a esquerda. Mas, em vários processos por corrupção nos últimos anos, muitos políticos de direita foram condenados.
Lula: Eu quero deixar uma coisa clara: Limpar a corrupção sempre foi um sonho do meu governo. Nós fizemos mais contra a corrupção do que qualquer outro. Quem roubou alguma coisa, tem que ir para a prisão. Isso se torna um grande problema, se juízes e promotores submetem seu julgamento à opinião pública. Então pessoas são condenadas previamente e política e socialmente aniquiladas.
ZEIT ONLINE: Como foi dito, também político de direita foram para a prisão.
Lula: Porque os investigadores olharam para o lado por tanto tempo até que não deu mais. Então houve situações insuportáveis, que não se pôde mais esconder. Foram achadas malas de dinheiro na casa de políticos – eles nunca descobriram algo assim em relação a mim.
Nos últimos anos, houve no Brasil um número recorde de processos por corrupção contra políticos de alto escalão e empresários importantes do país concluídos. Por décadas, essa elite corrupta escapou impune. Promotores e juízes brasileiros usam métodos judiciais polêmicos, mas eficazes, em especial, a delação premiada. Com isso, todos os presos são incentivados a depor contra outros políticos ou empresários. Detalhes das investigações são, na sequência, agressivamente divulgados na mídia que, por sua vez, reporta de forma unilateral e politicamente enviesada sobre elas. Alguns defensores dizem que os magistrados teriam instigado os delatores a fazerem declarações falsas.
No caso do processo contra o ex-presidente, a coisa é ainda mais complicada. Não há qualquer prova por escrito da propriedade do polêmico imóvel por Lula. O julgamento em primeira instância foi justificado apenas com provas indiretas e depoimentos de delatores. O advogado de Lula esclarece: “O único resultado possível do processo é que o presidente seja declarado inocente” – caso contrário, haverá recurso novamente. Seja como for, considera-se improvável que Lula vá para a prisão antes da próxima eleição. N entanto, ele entraria na disputa eleitoral prejudicado por esse processo. Os tribunais poderiam até mesmo proibir sua candidatura. Lula tem outra perspectiva.
ZEIT ONLINE: O que motiva o senhor? O que o senhor pretende fazer, caso o senhor seja escolhido novamente presidente este ano?
Lula: Muitas coisas. Mas o que me move é minha honra. Trata-se da minha honra. Essas pessoas que movem esse processo contra mim não me conhecem. Ou não teriam a coragem de dizer que eu sou um ladrão. Eu tenho orgulho de tudo o que eu fiz por esse país. Eu quero que, um dia, eles se desculpem para mim – e para o povo brasileiro.
A entrevista foi feita pelo ZEIT ONLINE com jornalistas do The New York Times, The Guardian, Libération, El País e do La Nación da Argentina.