Era a primeira vez em anos que Madge tomava uma atitude tão ousada e perigosa. Quando ainda morava na rua, a mulher praticara pequenos delitos e até mesmo se envolvera no mundo das drogas, mas nada disso parecia se comparar a adrenalina que sentia naquele momento. Sabia que a Primera já havia sentenciado alguns de seus próprios agentes à morte por traição e a possibilidade de estar colocando a vida de Thomas em risco era desesperadora. No entanto, ser egoísta não era uma tarefa assim tão difícil para a DNI, que resolveu simplesmente dizer a si mesma que ele já era adulto e provavelmente tinha ciência do que estava fazendo.
Demorou-se alguns momentos no meio da rua, olhando a cafeteria à sua direta e sentindo a sombra de seu prédio no sentido oposto. Ainda que realmente tomasse café da manhã todos os dias naquele pequeno estabelecimento, seria uma mentira dizer que esperava que ela e Cahill fossem de fato se sentar numa mesa com um capuccino entre eles, conversando como se fossem velhos amigos. Apesar disso, usara a cafeteria como desculpa e agora não achava que seria possível simplesmente descartá-la, demonstrando a Thomas a sua real intenção durante todo aquele tempo. Lembrou-se que, ainda dentro do táxi, já expressara sua vontade para o homem, ainda que com palavras não muito claras, e suas bochechas queimaram sob sua pele.
“Parece que a cozinha ainda não está aberta”, disse finalmente, fitando a loja através do vidro transparente. De fato, os funcionários ainda limpavam o chão e arrumavam as cadeiras, o que esperava ser o suficiente para acobertar sua mentira. “Podemos esperar no meu apartamento se você quiser, depois eu desço para buscar alguma coisa para comermos.” Virou-se ligeiramente para encarar o outro. Manter o olhar de Thomas era no mínimo difícil, principalmente depois que a mulher notara de verdade a beleza em cada traço daquele rosto. Antes que se entregasse à devaneios, tomou a frente da caminhada, percorrendo alguns poucos passos até chegar ao portão de seu prédio e cruzá-lo graças a uma de suas chaves. Era isso. Tinha acabado de deixar o inimigo adentrar o seu espaço mais íntimo. E Jock sabia que não havia mais volta.
A situação de Thomas era, no mínimo, paradoxal. Mesmo estando a poucos instantes de finalmente concretizar o desejo improvável e inexorável que sentia pela DNI da Spectre, ainda assim o agente sentia dentro de si que a sua lealdade pela Primera era inabalável. Seu maior medo – aquilo que lhe corroía o âmago em pesadelos que seriam capazes de tirar o sono mesmo de um espião experiente como ele – era que algum dia ele se visse em uma situação em que a sua lealdade fosse questionada e ele não pudesse encontrar argumentos a seu favor. Como agora... E o que realmente revirava o seu estômago como se ele fosse um adolescente era o fato de que, naquele momento, nenhum medo realmente o assolava. Como não temer um sentimento tão implacável? Como não temer uma mulher que o fazia sentir que tê-la é mais importante do que evitar o risco de traição e morte? De todos os agentes que se deixariam cair em uma armadilha como aquela, Thomas Cahill era o último deles. É preciso reconhecer que o efeito Madge Broome era impossível de resistir.
Enquanto Madge falava sobre a cafeteria e carregava seu discurso com rodeios em relação à verdadeira intenção dos dois, Thomas não conseguiu não achar a situação engraçada. Quanto mais ele precisava esperar para que os dois finalmente se tocassem? Flertar parecia tão difícil para ela quanto era para ele naquela situação e para dois adultos experientes como eles, tantos rodeios e coisas não-ditas era quase cômico. O agente até pensou em fazer algum comentário sugestivo em relação ao café da manhã que ela estava prometendo, mas era muito melhor continuar silencioso e esperando o momento certo para agir. Como Jock tomou a frente e seguiu para o portão, ele apenas fez o mesmo, seguindo logo atrás. Seu coração já batia mais rápido antes mesmo de se aproximar dela, antecipando o que ele pretendia fazer tão logo os dois finalmente estivessem sozinhos e longe dos olhos de curiosos. Assim que o som do portão se fechando ecoou pelo corredor e os dois estavam sozinhos e iluminados por uma luz tão fraca que mal iluminava o corredor entre o portão e o elevador, Thomas não resistiu. Poderia esperar o elevador, poderia esperar chegarem no apartamento – afinal, orgulhava-se do quão bem ele conseguia conduzir a situação quando tentava seduzir alguém. Mas não ali, não com ela. Com Madge, Thomas estava sempre no limite dos seus nervos. Com a impulsividade de alguém que não mede as consequências dos seus atos ou sequer se lembra de respirar, finalmente tomou a mulher em seus braços. Se ele foi racional em algo nesse ato, foi em agir tão rápido que Madge não teve tempo de regir antes que já estivesse com as costas coladas à parede gelada contra a qual o corpo de Thomas a pressionava. Segurando os pulsos da mulher com tanta força como se não quisesse deixar ela escapar nunca mais, o agente fitou o rosto dela por breves segundos antes de finalmente unir seus lábios com os dela, roubando um beijo quase desesperado.