Strangers in the night | Jamie e Jonathan
A música já ecoava sem qualquer impedimento pelo grande salão, onde era sediada a festa – um tanto quanto desnecessária – do Sr. Arcade. A maioria das pessoas ali presentes já se encontravam fora do controle de suas faculdades mentais, induzidas pela bebida alcoólica que podia ser encontrada com facilidade e circulava livremente pelo lugar. Dançavam sem qualquer hesitação ou senso de ridículo, bebiam ainda mais e jogavam-se umas nas outras como que carentes por qualquer espécie de contato físico. Tropeçavam nos próprios pés e ainda faziam coisas as quais não gostariam de se recordar. E, enquanto todos deixavam para trás qualquer senso de razão, Jamie apenas observava tudo por trás dos olhos tipicamente sérios – e um tanto quanto impacientes após apenas alguns minutos naquele antro de loucos. Não poderia dizer que nunca bebera em sua vida, mas tinha em si dignidade o suficiente pra afirmar que nunca chegaria naquele nível que beirava o ridículo; Aparentemente era fácil para que todos se esquecessem que, mesmo que em uma situação onde a seriedade era pouco exigida, aquele ainda se tratava de um local de trabalho – e ainda pior, uma vez que ambas as agencias rivais se encontravam presentes no mesmo evento. Sabia que seria apenas questão de tempo até a existência de algum tipo de conflito entre membros da Spectre e da Primera, naquela comemoração que tinha as piores idéias como alicerce.
Ainda como se nada pudesse ficar pior naquela noite deveras indesejada, o agente encontrava-se severamente cansado – poderia até se considerar exausto se fosse adepto a dramas. Viera trabalhando por noites a fio em um caso que parecia superar os limites de sua boa vontade de resolvê-lo, e as poucas horas de descanso agora cobravam seu preço no já limitado humor do britânico. Por conta disso – e de outra infinidade de motivos –, esforçou-se para desviar de qualquer rosto conhecido que pudesse decidir que aquela era a melhor hora para conversar, enquanto olhava para o relógio de modo irritadiço; Apenas para constar de que ainda se veria obrigado a permanecer naquele lugar por tempo o suficiente para voltar a considerar a mesma opção suicida que tinha nos tempos de guerra. Talvez fosse melhor rever todos os próprios pensamentos acerca da tão farta bebida alcoólica que fazia seu bom papel de lubrificante social.
Antes mesmo que pudesse concluir qualquer espécie de raciocínio acerca do que estava para fazer, já se via diante do bar – decorado em irritantes tons de púrpura – e pedindo ao servente por trás do mesmo uma bebida da qual mal sabia o nome; A verdade era que seu conhecimento geral para tal assunto poderia ser considerado um tanto quanto limitado, uma vez que a rígida criação militar pouco lhe havia dado espaço para a familiarização com tais coisas. Mas aquilo não lhe despertava preocupação e tampouco qualquer tipo de real interesse, tudo o que procurava era uma exceção para aquela ocasião incomoda, onde talvez a única solução fosse deixar que a bebida levasse consigo parte da irritação que já era quase palpável. Entretanto, antes mesmo que tivesse a chance de aproveitar de sua mais recente decisão, pode ouvir com clareza uma voz ao seu lado – e indubitavelmente dirigida a si – em um conselho não requerido. Jamie viu-se obrigado a respirar fundo uma única vez, a mandíbula se tencionando como se tal ato pudesse aliviar a sua vontade de despejar todo o seu humor – ou a ausência dele – sobre o homem que aparentemente só tentava ser simpático. Virou brevemente o rosto em direção ao desconhecido enquanto forçava os olhos azuis a se focarem nos de mesma cor, antes de se permitir falar pela primeira vez desde que chegara naquele lugar. “O que você me recomenda, então?” Questionou algo que considerava óbvio, uma vez que lutava consigo mesmo para não ser desnecessariamente rude com alguém que só tentava ajudá-lo – e alguém que parecia ter o conhecimento sobre bebidas que faltava em si. “Eu não tenho idéia do que estou fazendo aqui, então uma ajuda seria muito bem vinda.”
Em seus dias comuns, Jonathan não pensaria em liberar todo o seu cansaço e tensão em uma festa elegante como aquela nem por um segundo. Não, não, ele fora criado de outra maneira. As festas que estava acostumado a participar tinham um estilo totalmente diferente daquele. Talvez se trocassem a sofisticada decoração por um galpão velho, a delicada comida por uns aperitivos de queijo e presunto, e as caríssimas bebidas por algo mediano - quase barato -, ele se sentiria completamente a vontade e saberia o que fazer. O que não era o caso, claramente. É possível contar em uma mão todas as vezes em que foi convidado para um evento onde apenas a comida servida valia o seu ganho mensal inteiro e mais um pouco. Entretanto, com o decorrer de seu tempo dentro da Primera, estava começando a se acostumar com os padrões impostos pela mesma. Veja bem, ele apenas começou a se acostumar. Teria que participar de muitas festanças como aquela até se sentir inteiramente seguro e confiante, e não mais deslocado e desconcertado. Porém, até o momento sentia-se satisfeito com o seu progresso. Ao contrário do seu dia de trabalho, as coisas na Festa do Roxo pareciam estar sob controle. Não derramara nada em ninguém, não tropeçou ou pisou em qualquer pé alheio e conseguiu ser gentil com os colegas, embora dentro dos seus limites aceitáveis. Merecia as tão sonhadas bebidas, razões verdadeiras pela qual estava ali, e por que não aproveitá-las com uma boa companhia desconhecida?
Chamar a atenção do homem à sua frente fora algo completamente espontâneo - só percebeu depois que o fez. Não pode deixar de lamentar por curtos milésimos o seu feito, porque se aquele fosse um conhecido, seria obrigado a embarcar em mais uma conversa sem assunto, pronta para testar seus modos. Sorriu um pouco mais quando certificou-se que não o conhecia de lugar algum e, assim, seus modos brutos e os vários copos de whisky estariam a salvos. “Que tal algo que tenha mais álcool e menos açúcar e corante?“, sentiu-se evasivo e ousado até demais, pois, ora, que problema teria se o rapaz gostasse de bebidas daquele tipo? Ele certamente não teria culpa pelo seu próprio gosto e Jonathan certamente deveria ter deixado suas vidas seguirem normalmente - o desconhecido com sua bebida de gosto peculiar e o agente Lucas com suas queridas pingas. O casal em seu outro lado finalmente o cedera espaço, e sem pensar duas vezes, Jon sentou-se no banco e levantou o braço, tentando chamar a atenção de um barman disponível. “Bom, até um tempo atrás sua expressão não era das mais animadas, então posso apenas deduzir que você, junto de várias outras pessoas aqui, deseja recuperar um pouco de força para continuar a noite. Se este for o caso, creio que um bom um whisky escocês com alguns anos de idade pode te fazer um grande bem, porque um pouco de água colorida não vai te ajudar, garanto". Agora um pouco mais interessado em achar um barman, olhava de relance para o homem, sem se preocupar em parecer ou não enxerido. Finalmente desistiu e abaixou o braço, na expectativa de chamar o primeiro que passasse atrás da bancada. “A não ser, é claro, que esteja acompanhado e isso vá para o seu par. Aí sim eu digo ‘vai em frente’ … Ou não, sei lá". Oficialmente não se importando em ultrapassar limites, Lucas deu de ombro. Ser educado com colegas de trabalho, tudo bem, havia motivo. Mas não pretendia vê-lo no dia seguinte, ou na semana seguinte, ou pelo resto de seus dias na Primera, então não se importou. E aí está a beleza em tomar um drink com alguém desconhecido.















