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We were fools to think that nothing could go wrong. — Annie & Margaret
Margaret era a perfeita Ackerman. A expressão constante de desprezo, como se se fosse superior a todos ao seu redor, e a grosseria para com todos. Annie se pegava perguntando-se, as vezes, se seria assim se não tivesse passado quase metade de sua vida na Suécia, e tivesse sido criada completamente por seu pai e sua esposa. Provavelmente sim. Ainda assim, Mathilda agia daquela forma com o resto do mundo, e era mais frágil do que ela gostava de admitir. Margaret parecia agir da mesma forma. Por isso tentou ignorar a rispidez da garota, sabendo que o luto podia fazer isso com as pessoas. “Eu sei que está com raiva. E tem seus motivos.” Começou, não deixando que o tom da mais nova a desanimasse. Não perdera a mãe da forma que a maioria das pessoas perdiam. Não tivera um funeral, ou um adeus próprio. Mas lembrava que ficara com raiva, e a direcionara ao mundo inteiro. “Só queria dizer que, se precisar conversar, não vai me incomodar.”
Sabia que ela empregou o título apenas por obrigação. Não duvidava que, se pudesse, teria a chamado de bastarda. No entanto, mesmo que dividissem o sobrenome, ela ainda era uma professora, e se encontrava em um nível mais alto da hierarquia da escola, mesmo que fosse uma inútil aos olhos do resto da família. Já havia passado do horário de recolher. Alguns minutos, mas até a loira alcançar o sétimo andar e a torre da Grifinória, já seria o suficiente para conseguir uma detenção. Annie sabia disso por experiência própria. “Eu vou com você. Afinal, não está nem um pouco interessada em ganhar uma detenção.”
Esperou qualquer tipo de coisa. Gritos. Reprimendas. Até mesmo retirada de pontos da casa a qual pertencia. Mas, nada disso viera naquele momento. Era um sinal claro de que a professora mesmo portando o mesmo sobrenome que ela, não tinha o mesmo modo de agir. Não o mesmo que Margaret gostava de sustentar, e nem mesmo a pose que Mathilda gostava de exibir pelos corredores. Certamente a outra loira era completamente as avessas do que as outras componentes da família. No entanto, ainda era incorreto dizer que ela pertencia aos Ackerman. Não passava de outra bastarda, assim como Mattie. Tendo apenas um único detalhe que as diferenciava. Annie tinha sido banida pela família. Desertada, e aos pensamentos confusos da grifana, não faltaria muito para que acontecesse o mesmo com a meia irmã.
Escutou das palavras mais improváveis e completamente plausíveis vindo de alguém que parecia ter vindo com defeito de fábrica, apenas por não corresponder aos padrões comportamentais da família. — A menos que tenha poderes psíquicos e estranhamente para normais. — Começou a falar em resposta a mais velha. — Talvez eu esteja com raiva. Mas, isso não é seu problema. Não é mesmo¿ Nunca foi e dificilmente vai ser algum dia. — Cuspiu as palavras em desprezo. Ela não precisava de ajuda, não queria demonstrar fraqueza. Já se sentia debilitada demais com a notícia, não precisava externa-la para ninguém.
O bom senso que já agia de forma fraca dentro de Ackerman, o abandonou no momento seguinte em que a professora de Adivinhação lhe ofereceu nas entrelinhas uma ajuda. Algo que poderia servir de conforto. Contudo, ela não estava pronta para aquele gesto. E nem mesmo conseguia compreender o modo tão humano que ela e natural com que a prima agia com ela. Margaret estava mais habituado com os tapas que lhe acertavam o rosto, de forma literal ou metafórica. — Não preciso conversa com ninguém. Muito menos com você, bastarda. — No mesmo instante que chamou a mais velha daquele modo, viu-se em outra discussão. E dessa vez, não era com a meia irmã. Logo não saberia completamente em que terrenos estaria pisando. Mas, aquilo não importava para a grifana no momento.
— Não preciso que companhia. Nem mesmo escolta, pode voltar para o seu caminho. Eu continuo o meu, sem ajuda. Como sempre foi. — Disse secamente, deixando mais do que claro o que sentia. A raiva ainda controlava a loira, e existia outro tipo de mensagem dentro daquelas palavras duras. Um bom entendedor compreenderia rapidamente.
[Flashback] Cause she's an angel for sure, but that remains to be seen — Theodore & Margaret
Podia notar, assim como qualquer outro no recinto que se preocupasse em olhar para eles, que ela estava desconfortável. Que ela não estava nem um pouco interessada nele. A coisa decente a fazer era deixá-la em paz, ir atrás de alguma outra garota. Mas ele não era uma pessoa decente. Sinceramente, nunca fora. Seu orgulho misturado com o álcool em seu sistema não o permitiria desistir antes de tentar um pouco mais. Mesmo que a cada segundo que passasse, a garota parecia mais irritada, e a conversa se tornava mais unilateral. Seu sorriso, no entanto, não o abandonou. Uma garota não podia ser tão teimosa assim, e afinal de contas, era uma festa. Provavelmente a última do ano, e não precisariam se ver por alguns meses. Ou nunca mais, considerando que a garota parecia estar no sétimo. Arqueou uma sobrancelha com o alerta, preferindo manter-se calado. Odiava quando tentavam controla-lo sobre a bebida.
Aguardou pela resposta, esperando que ela retribuísse o favor e lhe falasse o nome, mas aparentemente, ela não o faria. Conhecia seu rosto. Afinal, dividiam o Salão Comunal desde que Theodore entrava na escola. De rosto, ele conhecia todos os grifanos. O problema era o ano e o nome, e não tinha certeza de nenhum com a loira. “E você é…?” perguntou, gesticulando. A confiança que estava começando a sumir reapareceu quando conseguiu arrancar uma piada e um sorriso da garota. Ele adorava as festas. Era uma forma fácil de se distrair, e de conseguir bebidas de graça sem muito esforço, então não tinha muita coisa a reclamar. A loira, no entanto, não concordava. “Se não gosta, por que está aqui?”
“Por Merlin, a bebida de fato está o afetando.” Pensou no mesmo instante em que ele subentendia em querer saber o nome dela. Ela já tinha se apresentado, de uma forma não tão usual. Apenas tinha sido pontual e até um pouco rude com o colega de casa quando este mencionou o nome da meia irmã. Quanto mais ele se aproximava ou gesticulava para ela, a grifana pensava em um modo de sair daquela situação. De qualquer forma, não seria um pensamento muito habitual. Ou até mesmo uma ação mais usual ainda para qualquer pessoa normal. Contudo, Margaret não poderia ser exemplificada como a mais normal garota que habitava o castelo.
Já estava no tempo em findar aquela situação toda, e sabia no fundo que se o resultado não fosse bem o esperado por ela. Sabia que amenizaria a falácia exorbitante do loiro que estava bêbado demais para pensar em frases complexas demais. “Que se dane.” Foi o último pensamento antes de se aproximar de uma forma radical do rapaz. Não, mas não fora tão certeira quanto uma flecha no objetivo em vista. Antes, respondeu a pergunta dele até que realmente tomasse o próximo passo. — Por não ter outra opção. — Disse um tanto óbvia, estendendo a frase a um duplo sentido.
No mesmo modo em que finalizou a sentença, elevou ambas as mãos em direção à nuca do grifano. Diminuindo a pouca distância em um beijo. O sentido da frase estava introduzido à ação de Ackerman. Sabia o quanto tolo e errado aquele gesto poderia causar impressões erradas e futuras dores de cabeça. Mas, a paz que encontra dentro de si, quando selou os lábios do loiro fora maior para ela. E era assim que ela gostava de agir, de uma forma quase imprevisível enquanto controlava os lábios do rapaz, mas não da forma que utilizava com outra pessoa. Era somente um artifício para conseguir algum tempo de paz, quando interrompesse o beijo o deixando atônito. E assim o fez, pouco tempo depois. Desfazendo a proximidade deles. — Lamentável que essa opção seja tão ruim. — Disse por fim, ajeitando o cabelo. Sabendo que provocaria alguma reação no colega de casa.
Please swallow your pride if I have things you need to borrow | Margaret & Erica
O inverno não dava trégua para ninguém. O vento empurrava seu casaco para longe de seu corpo, a gravata aberta batendo contra seu peito, apenas levemente jogada por cima de seus ombros. Mantinha a cabeça abaixada, muito concentrada em tirar seus pés da neve para prestar atenção em qualquer outra coisa. Seus lábios tremiam levemente, a loira muito teimosa e preguiçosa demais para se dar ao trabalho de vestir uma roupa descente para o frio. Esperava que treinar seu voo fosse a esquentar, porém duvidava disso com o que os ventos eram fortes até quando ela se mexia lentamente.
De vez em quando a perguntavam porquê ela não entrara no time de quadribol. Era muito boa voando, sempre concentrada e graciosa. Falava que não tinha saco para trabalho em grupo, mas a verdade era que tinha medo. Odiava ter expectativas forçadas nela, e ajudar a levar a vitória da casa nas costas era coisa demais. Apertou a vassoura mais forte entre os dedos magros, sua base sendo arrastada pela neve fofa, deixando uma trilha ao lado de seus passos. Seu corpo se arrepiou com o frio, a mão livre apertando a gravata azul com força, como se isso fosse fazer os calafrios desaparecerem.
Seu cabelo esquentava seu rosto, apenas um pouco abaixo dos ombros. Ainda estava deixando ele crescer depois das últimas férias, já que o corta toda vez que volta para casa. Escondeu a mão na nuca, a esquentando apenas um pouco com o calor de seu próprio corpo. Escondeu seus olhos atrás da franja, a ponta de seu nariz vermelha de frio.
Finalmente chegara ao campo de quadribol, segurando a vassoura com as duas mãos e soltando o ar que não sabia segurar. O sopro congelou seus lábios, o exterior transformando sua respiração em uma nuvem branca. Colocou a vassoura no chão com carinho, a pedindo para subir e então montando nela. Com um empurrar leve das pontas de seus pés, ela subir ao ar, começando a voar levemente, mesmo que o frio a atormentasse. Odiava invernos, odiava a neve. Talvez não fosse um sentimento tão comum, mas ela apenas encontrava uma paz inexplicável com o sol quente sobre seus ombros.
Esperava ser só mais uma manhã leve, calma, algo que ela raramente era. Apenas voar um pouco, depois ir para o café da manhã e depois se enfurnar em uma das salas do colégio, as unhas arranhando as paredes de pedra e a bochecha ficando com a marca de sua própria mão depois de cochilar a aula de feitiços. Porém, não fora como ela esperava, com o que uma figura esguia se escondia entre as arquibancadas. Sentada sozinha em uma das fileiras, apenas o cabelo louro visível de onde ela voava. Lentamente, Erica desceu, voando cada vez mais perto da pessoa encolhida no meio da paisagem. Acabou por pausar alguns degraus atrás da menina sentada, levando a vassoura na mão enquanto descia. Acabou por parar ao lado da garota de cabeça baixa, ainda sem saber quem era.
- Posso chamar a enfermeira? -
Era o local mais improvável para lhe procurarem, não que pudesse ter muitas pessoas no encalço de Margaret. Apenas um modo de dizer, afinal a presença excessiva de outros indivíduos já era motivo o bastante para que sentisse um incômodo não muito normal. E tudo sempre se remetia a um único assunto. Valentina. Desde o falecimento da matriarca dos Ackerman, ela tinha se fechado muito mais para o mundo de um modo generalista. O campo de quadribol não era um lugar que frequentasse muitas vezes, até porque o esporte em linhas gerais não lhe era atrativo, mesmo porque caso o time da casa a qual pertencia ganhasse era sinônimo de alguma festa estúpida que fazia o Salão Comunal ser um festival de horrores. Repleto de grifanos ainda mais insuportáveis do que o costumeiro.
Fazia um bom tempo que estava sentada na arquibancada, que não tinha a mesma impressão nos dias de jogos. Sempre inflamada pelos gritos e canções de cada torcida entre os alunos fanáticos e apaixonados cada um por seu time. O local fazia apenas fazia com que Ackerman esquecesse parte de tudo que lhe pesava sobre os ombros, nem mesmo o vento uivante e frívolo era capaz de causar algum desconforto maior do que os pensamentos e todas as imagens já vistas por ela. Rebobinava sempre cada parte do dia que dera adeus à figura que tinha lhe gerado. E o caminho que tinha levado da grifana a quase loucura plena. Assim como tinha a lembrança da meia irmã que tinha lhe dado tanto apoio no momento solene. Não que a loira realmente quisesse. Mathilda impôs a presença, como sempre fizera em todos os instantes que tinha passado pela grifana. A sonserina era com um furacão, que passava sem pedir licença.
Escuridão. Era tudo que ela enxergava com os olhos nada atentos. Estava encolhida em um dos bancos, apoiando a cabeça baixa entre os braços firmados sobre os joelhos. Sentia a corrente de ar aumentar, ou apenas um movimentar mais forte perto de si. Não imaginou que fosse a presença de alguém, nem mesmo porque não era tão comum que outras pessoas se aproximassem da grifana sem ter um propósito determinado. O questionamento então entoado por uma voz feminina desconhecida, a fez ponderar se levantaria o olhar para encarar a nova figura no local. Talvez o julgamento tivesse sido errado, por notar que nem paz estava tendo no lugar menos improvável.
Ergueu o olhar, e manteve a expressão facial que sempre estava presente. Nem mesmo com o sentimento de dor era capaz de demonstra-se frágil, talvez na presença de outra pessoa. Nunca de uma desconhecida. Teve certeza que deveria tomar o ataque como a melhor defensiva, ao encarar a loira que estava próxima de si, aparentemente preocupada com o bem estar da grifana. — Não é preciso. Ninguém está ferido ou doente até o momento. Então, se não quiser visitar a Ala Hospitalar... é melhor ir embora. — Disse de forma incisiva, sem se importar o quão rude poderia ser o que dissera.
We were fools to think that nothing could go wrong. — Annie & Margaret
Era um tiro no escuro, sabia disso. Só porque a meia-irmã da garota se tornara uma amiga para ela, não queria dizer que Margaret iria ser tão acolhedora. Principalmente porque ela a imaginava como uma Irene mais nova e loira. Sendo uma Ackerman legítima, duvidasse que ela fosse ser simpatizante com uma das bastardas da família, visto que Annie já havia a visto brigando fisicamente com a outra. Mas isso não a faria desistir antes de tentar. O principal motivo de estar indo falar com a garota, que antes pretendia nem sequer dirigir a palavra se não fosse obrigada, era a morte da mãe. Ela era próxima, ela sabia, e a perda deve tê-la marcado, mesmo que ela se recusasse demonstrar isso. Ela mesmo, embora não tivesse a perdido oficialmente – a sueca poderia ainda estar viva, mesmo que definhando por causa de todas as substâncias que injetara em si mesma – sentia como se fosse uma órfã desde pequena.
Achou a grifana no corredor próximo ao seu antigo dormitório, e apertou o passo para alcança-la. “Margaret. Posso falar com você?” perguntou, esperando que ela não a afastasse. Não tinha a obrigação de fazer isso, mas ainda assim queria. Ajudá-la em seu período de luto, mostrar que havia alguém para apoiá-la. Era tudo que queria na época que perdera a mãe, e o lar. Nem mesmo seu pai, uma fantasia que ela se segurava com tanta força na época, preencheu o vazio. Talvez o fato de detestar tanto o país que agora residia fosse pelo fato de demorar anos até que alguém a consolasse. E era a mesma pessoa pela qual continuava morando ali e não voltara para Estocolmo. “Eu… Sinto muito. Pela sua perda.” Completou, sinceramente.
Dizer que a loira estava indiferente a tudo, era apenas um pleonasmo. A situação só tinha agravado o comportamento da grifana, que em boa parte do tempo mantinha a distância de outras pessoas. Quase todas no caso, era ainda difícil para ela ter que admitir que a presença da meia irmã ainda mexesse com ela, pois Margaret não era tão suscetível a demonstrar sentimentos. Não facilmente, pois no pensamento da jovem era o mesmo que provar que era fraca. E isso não condizia com o que Ackerman tinha como visão de si mesma. No caso, após a notícia do falecimento de Valentina, tornou-se muito mais reclusa do que realmente era. Um pouco diferente da pose que ostentava pelos corredores, torcendo o nariz e revirando o olhar para quem não se dava bem.
Os devaneios foram interrompidos pelos passos que escutara, mas não tivera a menor intenção de virar em direção a eles. A voz feminina, no entanto, fez com que cessasse os dela no mesmo momento. — Já falou. — Disse de forma ríspida, quando se virou para encarar a professora de Adivinhação. A mesma que pertencia à família, sim empregando o verbo no passado já que tinha sido deserdada. Não, que isso realmente importasse pra ela. Nunca quis ter vínculos com quem chegava de maneiras erradas, ela não pertencia aos Ackerman afinal. Cruzou os braços sem ter muita paciência, já não respeitando a posição hierárquica que deveria ter algum respeito no castelo.
Ela já imaginava sobre o que se tratava, e isso só a fez odiar o gesto da outra. Pena. Ela não gostava desse sentimento. — Não, você não sente. — Respondeu secamente, atacando a outra. Pois essa era a melhor defesa que a grifana poderia utilizar, não importava a ocasião. — Isso é tudo, professora?— Questionou deixando o título em um leve tom de desprezo. — Se sim, eu tenho que voltar para o meu dormitório. Está tarde demais, e não estou nem um pouco interessada a ganhar outra detenção. — Concluiu a fala, impaciente.
você acredita em amor à primeira vista ou eu posso dividir em três vezes no cartão?
Tem outra coisa que eu posso dividir em três vezes ou mais. If you like...
The Funeral | Mackerman
mattieack:
Deu dois ou três passos para trás ao sentir as mãos da irmã mais velha empurrando-a. A mensagem era clara, não somente por ter sido verbalizada, mas também pelo olhar e pela resposta física de Margaret. Não era preciso ser um gênio ou alguém muito bom com sentimentos para identificar o quão perdida a irmã estava. Era como se seu olha, quase sempre tão ferino e autoritário, houvesse perdido a vida. Não havia mais brilho alguém, ainda que este só fosse visto pela mais nova quando irritava a outra Ackerman. Ou quando estavam fazendo tudo aquilo que devia deixá-las culpadas. Mas não deixava.
Contrariando a si mesma e ao seu instinto de auto-preservação, a loira não se moveu. Ficou parada, observando a irmã. Algumas lágrimas ainda escorriam pelo rosto enrubescido e a expressão de raiva era uma máscara mal colocada. Por debaixo da máscara, era possível ver sua face real. Os lábios que trêmulos e a respiração, num compasso controlado, como se não se permitisse chorar. Não agora. Margaret era muitas coisas – muitas mesmo, mas ela não era fraca. E não gostava que pensassem isso dela.
Mathilda, no entanto, achava inútil ser forte agora. Engoliu a seco, esperando todo e qualquer tipo de rejeição vinda da outra. Toda a racionalidade que, quase sempre, era o que a dominava, apitava como um alarme para que ela saísse dali. Para que não escutasse seu pai. Para que fosse embora e a deixasse ali. Afinal de contas, ela faria o mesmo se fosse o contrário. Ela fizera o mesmo. Deu alguns passos à frente, enquanto respirava fundo. Atrás de si, escuto alguns passos apressados, caminhando pelo gramado molhado. Mas se recusou a olhar.
Abriu os braços, num gesto que não fazia com frequência – para não dizer que nunca o fazia e, calmamente, abraçou a irmã a quem tanto odiava. As mãos foram automaticamente para os cabelos da mesma que logo receberam um afago sem jeito. – I’m not gonna leave, you, ‘kay? – Não sabia escolher as palavras ao certo. Não estava acostumada a ser tão verdadeira, ainda que nas últimas semanas isso estivesse se tornando um hábito ruim. Sorriu ao lembrar da conversa com a professora de Adivinhação no fim de semana anterior. – Not right now when you need me. You can scream as much as you want to. – Respirou profundamente, fechando os olhos em meio ao abraço. A chuva caia mais pesada e ela teve certeza de que as duas estavam tão molhadas quanto podiam estar. Não se importou mais. Ficaria ali com Margaret o tempo que ela precisasse.
A racionalidade de Margaret não estava presente naquele momento, na verdade não lhe pertencia em grande do tempo quando estava em companhia da outra Ackerman. A tristeza ainda impregnada nela fazia-se presente em cada lágrima insistente que rolava pelo rosto provavelmente avermelhado. A percepção da loira já estava afetada, e tudo que escutara além do cair das gotículas já grossas, foram passos sobre as folhas caídas no chão de lama do cemitério. Os braços de Mathilda a princípio fizeram com que a mais velha tremesse com o gesto. Completamente sem jeito ou sem saber como agir sentia ainda o choro não se calar com a respiração já atrapalhada. Aquele tipo de dor era mais lancinante e incompreensível para ela. Que estava acostumada a sentir a dor física dos tapas e chutes com que a outra também desferia nela.
O afago no cabelo molhado de Margaret a fez sentir uma pequena pontada dentro de si, localizada no peito. Sim, exatamente no local onde o coração pulsava de forma compassada e lenta. Talvez fosse o gesto mais gentil e honroso com que a outra ou qualquer outra pessoa tinha se aventurado a lhe oferecer. E de alguma forma, começava a acalmá-la mesmo que de forma ínfima. Os braços estendidos sem ter um movimento de recusa se elevaram um pouco, como se aprendessem o caminho daquele gesto que a jovem não era familiarizada. Um longo suspiro foi escutado, quando a cabeça de Margaret pendeu para um dos ombros da meia irmã. — Lea-ve-e me… — Pediu em vão embalada pelo som lacrimoso, já se sentindo sem forças para continuar a repelir a outra.
Ela não desistia. Moveu-se um pouco dentro da redoma de proteção que Mathilda lhe oferecia, ainda insistente em não querer a compaixão ou qualquer sentimento que fosse compelido para ela. — Just… — Começou novamente, não tendo força em gritar a plenos pulmões como antes. Ela sentia a necessidade de vagar por lá para sempre, mas não era o que a outra loira parecia querer deixar. — Kill me. Plea-se. — Pediu em meio de uma anormalidade, como se a dor fosse passar se acaso junta-se novamente com Valentina. Estava errada e se sentia muito fraca, e o corpo demonstrava isso. — N-o-o-w. — Insistiu fazendo menção de voltar novamente ao chão. A dor era um sentimento com que ela não estava pronta para lidar. Não quando o amor pela mãe parecia ser tão imenso quando a enxurrada que vinha dos céus.
[Flashback] All that was before, is no longer here — Mackerman
Os olhos entreabriram com muita dificuldade, em relação à pequena claridade que já incomodava a loira. Demorou algum tempo para que tivesse a completa visão do que estava acontecendo, depois do dia anterior. Argh... o que diabos a meia irmã estava fazendo lá? E o que de fato Maggie estava dormindo de forma tão junta a ela. O braço esquerdo dela envolvia a outra loira, e de alguma forma estava próximo em demasia à outra Ackerman, o que fez que a grifana fosse pensar um pouco antes de se mover na cama. Não por medo de acordá-la, apenas por não estar completamente pronta para o que viria a seguir, e sabia que certamente seria uma discussão.
Em contrapeso todas as imagens que passavam dentro da mente de Margaret a atingiam e a perturbavam de um modo diferente. Ela tinha plena certeza do que pensava e sentia em relação à Mathilda, no entanto o corpo dela não deixou com que essas convicções se firmassem por um longo tempo. Não poderia definir como se sentia no primeiro momento, só sabia que aquele tipo de coisa vinha com outras problemáticas. E que se antes a relação de ambas era o suficiente confusa, depois da noite passada as coisas tenderiam a piorar de uma forma não pensada por nenhuma delas.
Sentiu um peso mover-se sobre a perna dela, e viu que agora se antes já estava próxima o bastante agora estavam mais do que entrelaçadas. Magaret se sentia presa à meia irmã em vários níveis, e queria o quanto antes distanciar-se dela e voltar ao que eram. A indiferença e brigas usuais.— Could you set me free? — Questionou a mais velha, em um tom rouco e soprado próximo ao ouvido da sonserina. Ainda existia alguma polidez no tom, no entanto sem a resposta imediata a loira se irritou levemente. — Wake up, little bicth. — Disse em um tom mais alto, deslizando um pouco o braço que envolvia a outra.
The Funeral | Mackerman
O ar do cemitério, como era de se esperar, era mórbido. Uma leve brisa batia, balançando a folha das árvores e fazendo com que a leve garoa que caía não tivesse qualquer direção definida. A instabilidade das gotas fazia clara referência à garota de cabelos loiros parada em frente a uma lápide.
A lápide de sua madrasta.
O velório havia acabado, todos os tios e tias que só haviam comparecido a esse porque era o certo a se fazer, haviam partido em direção às suas casas. Irwin, o marido de Valentina – a falecida – e pai das duas garotas loiras que agora estavam sozinhas no cemitério, havia deixado o local pouco depois deles. A uma das filhas, a mais nova, e aquela que não tinha qualquer parentesco com o corpo que agora estava a sete palmos embaixo da terra, depositou um beijo na testa. "Cuide de sua irmã",ele disse. E sumiu.
Mathilda Ackerman não se importava com Valentina. Para ela, a morte havia sido tardia e ela não teria se importado se ela tivesse morrido antes de sua mãe. Mas as lágrimas escorriam por seu rosto, misturando-se às gotas da chuva que insistia em aumentar de intensidade. Não pela falecida, mas por sua irmã. Os braços de Mattie deslizavam por seu próprio corpo, como se estivesse se abraçando, tentando privá-la de sentir a dor daquela que gritava contra um pedaço de pedra.
Mas ela não conseguia.
Não conseguia pois também havia perdido sua mãe. Porque há cinco anos, era ela afundando os joelhos na terra recém mexida da cova daquela que a havia colocado no mundo, sem controlar as lágrimas que insistentemente deslizavam por suas bochechar e queimavam seus olhos. A diferença dela para Margaret era que, há cinco anos, Mathilda não tinha ninguém. E, apesar do ódio e das diferenças que tinha com a mais velha, ela estava ali. E Margaret a teria como apoio. Ao menos, foi isso que ela decidiu naquele momento.
A intensidade da chuva aumentava e as gotas tornavam-se tão pesadas que provocavam dor no primeiro contato com o corpo, a mais nova caminhou lentamente em direção á irmã. Margaret não havia percebido sua presença, ela tinha certeza. Por isso fez questão de pisar em folhas enquanto ia em direção à irmã, parando ao lado da lápide com manchas do sangue. – Maggie… We have to go, it’s raining. – Sentiu-se obvia ao fazer a afirmação, mas duvidou que a outra houvesse notado as gotas de chuva. O luto era, compreensivelmente, estarrecedor.
O sentimento que a loira sentia era devastador em várias vertentes, as lágrimas por sua vez eram incontroláveis da mesma forma em que o sangue escorria contra a pedra. Os olhos abriam e fechavam, tentando impedir com que o fluxo terminasse. Porém, era inútil. Só sentia o pesar dentro de si, em não sentir a menor vontade de sair daquela posição ou lugar. Se aquele era onde estava parte de si, por ali ficaria. Fazia todo o sentido para a loira que não se importava com o machucado na mão. Nem mesmo com a possível proximidade de outras pessoas e nem com a chuva insistente que encharcava-a gradativamente.
A obviedade da frase que a outra Ackerman despertou-lhe brevemente. Estava de fato chovendo. Não era apenas o peso das lágrimas sobre si. Não abriu os olhos imediatamente, apenas absorvendo as palavras da sonserina. — I’ll stay here. — Disse com a voz um pouco fraca inicialmente, entreabrindo o olhar devagar e direcionando para a loira em pé ao lado dela.
O sendo sentimento que conseguia ser palpável para Margaret, além de claro da dor. Era o ódio.
O mesmo que sentia pela mãe da que estava falando, e por esta. O que representavam para ela e para Valentina que sofrera tanto. Engolira todo o sofrimento boa parte sozinha, sustentando a imagem de uma família estruturada. — Leave us alone. — Falou com a voz mais alta, no intuito de que ela saísse de lá. Não queria encará-la ou discutir. Estava destruída demais para entrar em uma briga física. Ao menos, era o que pensava inicialmente ao sentir o gosto amargo na boca. Um sentimento que não gostava de demonstrar, ou estado físico de fraqueza. Pendia a loucura a imaginar a ideia de viver ou definhar e juntar-se a mãe.
Contudo, fora ignorada como o usual. A meia irmã permanecia ao seu lado como uma árvore que tinha criado raízes. Não sabia exatamente como tinha tirado forças para levantar-se, ou até mesmo direcionar poucos passos até a outra. A raiva lhe dava forças, porque mais louco que pudesse parecer. Sentia que era ela a estar no lugar da mãe. Ela não merecia viver, o coração apertado e confuso misturava-se em ódio e lágrimas. Margaret já não correspondia a realidade que era, e nem fazia sentido. — LEAVE... — Começou elevando a voz em um tom alto, dando lhe o primeiro passo para empurra-la. — ...ME — Continuou a frase novamente exercendo a força que tinha ainda para empurrar Mathilda que pouco se movia. — ALONE. — Terminou deixando com que a mão sangrenta empurrasse um dos braços da outra loira, sem mais ter o que fazer.
LINDAAA
I felt like an animal, and animals don’t know sin, do they? ― Jess C. Scott, Wicked Lovely
[Flashback] I want to teach you a lesson in the worst kind of way | Mathilda Ackerman
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se eu te chamar pra ir a hogsmeade comigo, você iria?
Depende de quem você é...
VERITASSERUM: o que faria se sua meio irmã morresse hoje?
Eu não sei. Eu não gosto de pensar nessa possibilidade, aliás. Não, quero perder outra parte da família. Não ela... alguém que está me apoiando, apesar que eu não mereça nem um pouco por tudo que fiz e falei. É uma estranha sensação, mas eu não desejo isso para ela. Nem hoje, e nem pelo o resto da existência dela. Se eu falei, foi em vão pois eu afasto as pessoas que demonstram um pouco de afeição por mim, pois não sei lidar com carinho.