It's just medicine — Theo & Elsa
A resposta do rapaz não fora o que Elsa imaginara. Ela não esperava nada além do silêncio, e o modo como ele respondera, ainda assim se desviando estrategicamente da sinceridade plena, servia como um exemplo perfeito das diferenças que haviam entre Theodore e ela.
Elsa apenas esperou se ignorada porque seria exatamente o que ela faria “E monitores. Não se esqueça. Conseguem ser mais incômodos que Peeves, quando querem. Mas essa é uma zona livre de incômodos. Sei disso, sempre venho para cá quando quero ficar sozinha.” (Sempre venho para cá quando preciso fugir) Elsa afastou as vozes de sua cabeça com um pigarro. Não precisava mais pensar sobre como fugira do café da manhã há poucas horas, deixando para trás um intocado prato de torradas com geléia e um apreensivo Harrison, que parecia querer seguí-la ao mesmo tempo em que sabia que não deveria. Não precisava se lembrar de que acordara sentindo um estranho peso por sobre seus ombros o e um gosto metálico no fundo de sua garganta. (Mamãe dizia que a tristeza tem o gosto de uma moeda velha) Não precisava se lembrar que não havia um motivo específico para ter acordado assim. Nenhuma lembrança, nenhum acontecimento específico. Ela apenas estava assim e o não saber a incomodava Elsa não precisava mais se preocupar e já não mais se lembrava direito. Sua cabeça estava leve. Bebia de estômago vazio, pela manhã. Não eram precisos muitos goles para que começasse a se sentir como se flutuasse em uma nuvem. "Eu sempre me esqueço do tanto que odeio o gosto dessa bebida" ela riu depois de mais um gole. O cheiro de álcool parecia encharcar o ambiente. "E o cheiro. Meu pai costumava ter esse cheiro." Uma imagem veio à sua cabeça, porém ela estava leve demais para se importar com a lembrança de seu pai caído no chão da cozinha, tão bêbado que era incapaz de se colocar de pé sozinho. Ela flutuava e a memória ficava para trás. "Ele bebia outras coisas, na verdade, mas o cheiro era o mesmo. O cheiro de álcool nunca muda."
Por mais que estivesse disposto a não expulsar a garota e a dividir seu firewhiskey com ela, não iria mais a fundo do que isso. Não arriscaria, e mesmo que se quisesse, não sentia-se capaz de expressar qualquer sentimento diferente de raiva. Levantou o canto dos lábios, um pequeno aceno de cabeça mostrando que concordava com ela, e fingindo não notar a confissão disfarçada. Nenhum aluno viria para esse corredor se quisesse encontrar os amigos. Ela buscava solidão, assim como ele antes dela. Só tiveram o azar de se encontrarem. “Bem, acho que teremos que ficar sozinhos juntos.” Respondeu, bebendo um gole de sua garrafa, que trocava de mãos tão rapidamente que lhe era óbvio que a garota de cabelos brancos tinha tanta experiência quanto ele no quesito bebida.
A bebida estava começando a ter o efeito anestesiante que sempre tinha em seu cérebro. Seu pai costumava ter raiva quando estava bêbado. Era o oposto para ele. Sentia raiva o tempo todo, e, se não fosse pela fala arrastada, podia muito bem ser considerado mais sóbrio quando estivesse sob o efeito do álcool. Planejava ficar nesse estado até o fim do dia, sabendo que não conseguiria lidar com as outras pessoas sem se meter em uma briga. Focou seu olhar na parede, sem interesse de iniciar uma conversa, concentrando na forma que a bebida descia ardendo por sua garganta. Riu junto com ela, um riso curto e inesperado. Não havia graça no que ela falara, mas ele não pode evitar a risada. Seu pai também tinha esse cheiro. Entranhado no corpo do homem, no hálito. Ele tinha certeza que logo ele teria esse cheiro, e a pior parte era que não se importava. “Meu pai ainda o tem.” Disse, o sorriso falhando por alguns segundos ao lembrar-se dos ataques de raiva que ele tinha quase toda noite, e em como sua mãe estava sozinha com ele. Afastou o pensamento rapidamente, quase balançando a cabeça para ver se ele sumia. “Sabe como dizem.” Murmurou, tentando ler o rótulo da garrafa. “Tal pai, tal filho.”















