vict9r:
Victor já estava esperando por uma reação irritadiça de Dorian depois do que aconteceu dentro do evento, mas não esperava pelas palavras dele. Principalmente na parte que mencionou o ciúme de quando já não estavam juntos em Tenebris. Desde que Dorian havia o deixado, Victor não ficou com muitas pessoas, mas até ele ficava cansado da solidão de vez em quando. E mesmo assim ninguém nunca o fez se sentir tão completo quanto Dorian fazia, e temia admitir que jamais encontraria outro alguém que conseguisse. Quando Dorian se aproximou, foi quase natural para Victor dar um passo à frente para ceder ao toque alheio, mas Dorian parou. O afastamento abrupto junto com as próximas palavras do Gray fizeram seu coração falhar algumas batidas, sentindo a garganta queimar com as próprias palavras entaladas enquanto o observava se sentar na calçada. Seu olhar encheu-se de lágrimas, e Victor teve que lutar para mantê-las ali. Estava cansado; por muito tempo havia esperado por uma confissão de Dorian que o fizesse ter certeza de que era amado de volta, e ainda assim sentia que havia palavras que não estavam sendo ditas. “Você existiu sem mim por seis anos desde que a gente se conheceu, Dorian. Seis anos.” Victor falou com uma mistura de rancor e tristeza. Ainda estava de pé, mas ainda encarou os próprios pés pra fugir do olhar de Dorian. “Isso foi mais tempo do que passamos juntos.” Comprimiu os lábios.
Ainda podia sentir suas bochechas queimando, envergonhado apesar do estacionamento se encontrar vazio. “Isso pode não ser muito pra você, mas é pra mim! Também doeu em mim ver você com outros. Doeu todas as noites quando eu lembrava de tudo que você me disse.” Victor enfiou as mãos nos bolsos do casaco para escapar do frio repentino, sentindo-as tremer. Talvez não fosse justo trazer isso à tona agora, depois de tanto tempo, mas Victor também tinha seu lado e também tinha seus medos. Sentou-se ao lado de Dorian, passando os dígitos nos próprios fios claros para se livrar daquele penteado arrumado pra a noite, tentando manter-se ocupado para não desejar voltar a tocar o mais velho, porque sempre desejaria buscar aquele conforto nele. “Você tem ideia do que está me pedindo?” Perguntou dessa vez em um sussurro mais calmo, esperando que ele tivesse ouvido. “Quando você é imortal… o tempo para de ter sentido. Eu sei que para. Eu não sou idiota.” Victor suspirou, voltando a olhar para Dorian agora ao seu lado. Apesar da bagunça da noite, Dorian ainda era lindo, principalmente sob a luz da lua. “Você teve amantes que te deram tudo e mais um pouco. Quadros, poemas, livros… O que eu tenho a oferecer?” Victor não esperava uma resposta para aquilo. “Eu quero ficar com você. Eu vou querer pro resto da vida. Mas eu não consigo viver pra sempre com medo de que um dia tudo vá mudar.”
Dorian soltou um riso seco com a fala dele. "Não, Victor. Não existi." Disse baixo, suspirando longamente. "Fiquei miserável. Patético." Teria continuado a descrever o quanto sentiu a falta dele ou do quanto os poucos anos juntos pareceram uma vida inteira para o Gray, mas algo no que Victor disse e como ele disse o atingiu mais do que qualquer outra vez. Isso pode não ser muito pra você. Você tem ideia do que está me pedindo? O que eu tenho a oferecer? Deuses. Dorian sentiu o chão ruir abaixo de si. Fechou os olhos e recebeu cada palavra dita e não dita. Recebeu a dor vinda de Victor. Dor essa que Dorian havia causado múltiplas vezes. Ele era egoísta e sempre havia sido. Esse detalhe jamais o incomodara antes até Victor chegar. Agora cada palavra dele fazia Dorian se sentir péssimo por ser tão centrado em si mesmo que não cuidou o bastante sobre como Victor se sentia. Talvez, em outro momento sóbrio, não fosse capaz de se permitir seguir ali mesmo com tanta magoa pesando em seu peito. Odiou que o homem ao seu lado, o único que possuía todo seu coração, todo seu amor e sua devoção, se achasse pequeno e inútil para Dorian. Odiou que ele se achasse descartável, esquecível. Tudo porque o Gray não foi capaz de fazer com que Victor se sentisse amado e validado o bastante. Sempre soube também que era cruel, mas somente percebeu ali o quanto podia ser. Longos segundos de silêncio foram necessários antes que Dorian enfim suspirasse outra vez. "Tem razão." Soprou, assentindo aos poucos. "Não sei o que estou pedindo. O que estou exigindo de você. Não sei o que sempre exigi de você porque eu não me lembro mais como era essa sensação. Esse medo que você tem." Admitiu. "Mas eu nunca precisei saber, não é mesmo?" Abriu um sorriso triste, virando o rosto para ele e o olhando com nada senão ternura. Dorian o amava tanto. "Eu só precisava me importar o bastante. Só precisava querer entender o seu lado e não ser um maldito egoísta. Mas eu sou um maldito egoísta. Fui todos esses anos mesmo te machucando porque eu só penso em mim em primeiro lugar. Eu sinto muito, Victor." Segurou com delicadeza uma das mãos alheias, depositando beijos entre os dedos do mortal. "Sinto muito mesmo. Você merece tão mais que a crueldade que eu dou a você. Tão mais que o meu carinho que vem em pedaços que eventualmente te cortam e te ferem. Tão mais do que esse sentimento de que você não é bom o bastante pra mim ou essa dúvida de que um dia eu enjoaria de você." A cabeça balançava negativamente detestando como demorara para perceber tudo aquilo. O idiota era ele. Não Victor. "Sou eu, lindo. Sou eu que não tenho nada a oferecer a você. Eu nunca tive." E tinha razão. O que havia dado a ele senão ignorância? Senão aquela situação inteira onde Victor estava exausto por já ter passado por aquilo vezes demais. "Nós não vamos funcionar, vamos?" Os dedos se entrelaçaram contra os dele de forma completamente distraída. "Me prometa que, quando quiser e quando estiver pronto, vai achar alguém que não te faça nunca duvidar do quão importante você é. Do quão especial você é." O corpo enfim tombou contra o dele, tocando seu rosto e o beijando sem qualquer traço de pressa. Seus dedos se afundaram nos fios do Frankenstein. O cheiro dele o inundou. E cada coisa daquela cena Dorian gravou em sua mente, sabendo que não voltaria a acontecer, prometendo a si mesmo que o amaria mais. Daquela vez amaria Victor mais do que o próprio egoísmo e esse amor exigiria que fosse ele a fazer os sacrifícios agora. Precisava amar Victor o bastante para o deixar seguir a própria vida. O deixar encontrar a felicidade e o amor em alguém que não fosse tão cruel com ele como Dorian era. "Não vou voltar pra te machucar dessa vez. Eu prometo. Seja feliz, certo? Muito feliz. Durante todos os seus anos." O polegar deslizou pela bochecha alheia e Dorian não impediu as lágrimas de caírem por seu rosto. "E eu vou levar sua memória comigo pela eternidade."














