dgrayss.
Dorian soltou um riso seco com a fala dele. “Não, Victor. Não existi.” Disse baixo, suspirando longamente. “Fiquei miserável. Patético.” Teria continuado a descrever o quanto sentiu a falta dele ou do quanto os poucos anos juntos pareceram uma vida inteira para o Gray, mas algo no que Victor disse e como ele disse o atingiu mais do que qualquer outra vez. Isso pode não ser muito pra você. Você tem ideia do que está me pedindo? O que eu tenho a oferecer? Deuses. Dorian sentiu o chão ruir abaixo de si. Fechou os olhos e recebeu cada palavra dita e não dita. Recebeu a dor vinda de Victor. Dor essa que Dorian havia causado múltiplas vezes. Ele era egoísta e sempre havia sido. Esse detalhe jamais o incomodara antes até Victor chegar. Agora cada palavra dele fazia Dorian se sentir péssimo por ser tão centrado em si mesmo que não cuidou o bastante sobre como Victor se sentia. Talvez, em outro momento sóbrio, não fosse capaz de se permitir seguir ali mesmo com tanta magoa pesando em seu peito. Odiou que o homem ao seu lado, o único que possuía todo seu coração, todo seu amor e sua devoção, se achasse pequeno e inútil para Dorian. Odiou que ele se achasse descartável, esquecível. Tudo porque o Gray não foi capaz de fazer com que Victor se sentisse amado e validado o bastante. Sempre soube também que era cruel, mas somente percebeu ali o quanto podia ser. Longos segundos de silêncio foram necessários antes que Dorian enfim suspirasse outra vez. “Tem razão.” Soprou, assentindo aos poucos. “Não sei o que estou pedindo. O que estou exigindo de você. Não sei o que sempre exigi de você porque eu não me lembro mais como era essa sensação. Esse medo que você tem.” Admitiu. “Mas eu nunca precisei saber, não é mesmo?” Abriu um sorriso triste, virando o rosto para ele e o olhando com nada senão ternura. Dorian o amava tanto. “Eu só precisava me importar o bastante. Só precisava querer entender o seu lado e não ser um maldito egoísta. Mas eu sou um maldito egoísta. Fui todos esses anos mesmo te machucando porque eu só penso em mim em primeiro lugar. Eu sinto muito, Victor.” Segurou com delicadeza uma das mãos alheias, depositando beijos entre os dedos do mortal. “Sinto muito mesmo. Você merece tão mais que a crueldade que eu dou a você. Tão mais que o meu carinho que vem em pedaços que eventualmente te cortam e te ferem. Tão mais do que esse sentimento de que você não é bom o bastante pra mim ou essa dúvida de que um dia eu enjoaria de você.” A cabeça balançava negativamente detestando como demorara para perceber tudo aquilo. O idiota era ele. Não Victor. “Sou eu, lindo. Sou eu que não tenho nada a oferecer a você. Eu nunca tive.” E tinha razão. O que havia dado a ele senão ignorância? Senão aquela situação inteira onde Victor estava exausto por já ter passado por aquilo vezes demais. “Nós não vamos funcionar, vamos?” Os dedos se entrelaçaram contra os dele de forma completamente distraída. “Me prometa que, quando quiser e quando estiver pronto, vai achar alguém que não te faça nunca duvidar do quão importante você é. Do quão especial você é.” O corpo enfim tombou contra o dele, tocando seu rosto e o beijando sem qualquer traço de pressa. Seus dedos se afundaram nos fios do Frankenstein. O cheiro dele o inundou. E cada coisa daquela cena Dorian gravou em sua mente, sabendo que não voltaria a acontecer, prometendo a si mesmo que o amaria mais. Daquela vez amaria Victor mais do que o próprio egoísmo e esse amor exigiria que fosse ele a fazer os sacrifícios agora. Precisava amar Victor o bastante para o deixar seguir a própria vida. O deixar encontrar a felicidade e o amor em alguém que não fosse tão cruel com ele como Dorian era. “Não vou voltar pra te machucar dessa vez. Eu prometo. Seja feliz, certo? Muito feliz. Durante todos os seus anos.” O polegar deslizou pela bochecha alheia e Dorian não impediu as lágrimas de caírem por seu rosto. “E eu vou levar sua memória comigo pela eternidade.”
Por mais que fosse um tipo de alívio finalmente desabafar sobre o que sentia, Victor ainda não queria deixar Dorian. Desejava poder contornar aquela situação e encontrar outro cominho juntos, mas o Frankenstein não conseguia pensar em nada. Ou Victor se rendia para a imortalidade, ou Dorian teria que lidar com o envelhecimento do Frankenstein e sua eventual morte. Por mais que viver eternamente deixasse Victor com medo, sentia que era ainda pior deixar Dorian. Queria estar com ele; o amava acima de todos os seus temores, mas sabia que não conseguiria ser o seu melhor se acabasse como um imortal. Não era apenas o tempo que tornava-se diferente quando se vivia para sempre, mas a imortalidade trazia o pior na personalidade de alguém. E Victor já havia lido o que seu próprio conto havia se tornado naquele novo mundo de Storybrooke; por mais que a história tivesse totalmente diferente do que realmente aconteceu na Floresta Encantada, ainda havia partes de si que a escritora havia acertado. Obcecado. Louco. Isolado. Amargurado. Assombrado pelas suas próprias criações. Como poderia lidar com essa reputação e viver ao lado de Dorian Gray? Victor observou o mais velho ao seu lado pelos segundos que se passaram em silêncio, sentindo-os se arrastarem como se fossem horas. Victor sentiu o estômago embrulhar por ter trazido à tona as mágoas do passado, mas ainda precisava se explicar se não quisesse magoar Dorian também. O problema não era ele. Era Victor e suas incertezas sobre si mesmo.
Aquilo tudo era injusto, se parasse pra pensar. Aquela cidade foi feita para que pudessem ter seus finais felizes, então por que o dele tinha que falhar? Odiava que os beijos que Dorian distribuía em sua mão eram só o começo de um adeus que não estava pronto pra dar. Suspirou com as palavras alheias quando Dorian insinuou que era ele quem não tinha nada a oferecer para Victor, fazendo o mais novo balançar a cabeça em negação. “Isso não é verdade. Dorian...” Não conseguiu dizer mais nada, já que a pergunta dele foi o que deixou as lágrimas voltarem a queimar pelo rosto do Frankenstein. Eles não funcionariam, e isso era injusto. “Não diga isso.” Ele disse baixinho, por mais que fosse verdade, apertando a mão dele na sua, trazendo-a para mais perto de seu coração para que Dorian pudesse senti-lo bater forte em seu peito. Victor ainda tinha tanto para dizer, tanto para se declarar para o homem que amava, mas essas palavras não podiam ser ditas quando o futuro deles era impossível. Quando seus lábios tocaram os do Gray, esperava que ele pudesse sentir também a saudade que levaria consigo, ou sentir que nunca existiria outra pessoa para Victor amar. Queria que aquilo realmente não o machucasse. Queria poder discutir como da última vez, queria dizer que ele estava sendo idiota por achar que machucava Victor, que Dorian não era egoísta --- gostava de sempre poder o encher de elogios, mas por enquanto... não dava pra negar que a situação podia machucar, sim.
Imaginou por um segundo qual seria a resposta de Dorian se aquilo fosse invertido e Victor o pedisse para arranjar um jeito de deixar de ser imortal. Se um dia pudessem envelhecer juntos. Sabia que a resposta dele também seria não, porque duvidava que Dorian pudesse amá-lo mais do que toda a sua imortalidade. Victor não era o único que tinha medo de perder algo nas opções que existiam. Talvez isso era um pensamento egoísta, algo que o Frankenstein também podia ser, mesmo que Dorian ou qualquer outro não notasse logo de cara. Amargurado; Victor ainda podia sentir aquela palavra ecoando na própria mente. Era o que estava fadado a ser, e não queria que Dorian o visse dessa maneira. “Me desculpe.” Pediu ainda com a voz trêmula, mas não quis esperar por uma resposta antes de deixá-lo naquela noite.










