Frank Miller assumiu os desenhos da revista Daredevil na edição #158 (maio de 1979), e já na edição #168 acumulou também os roteiros do Demolidor. Eventualmente, sua passagem pela revista seria incensada como um dos momentos fundamentais na transição da era de bronze para a era moderna dos quadrinhos.
Hoje, com a vantagem da visão retrospectiva, sabemos o quão revolucionárias aquelas edições de Daredevil se revelariam. A qualidade do material era inegável, mesmo para quem lia as revistas recém saídas da gráfica. Porém, o peso real da sua contribuição para a história da nona arte só ficaria evidente um pouco mais adiante.
Resolvi identificar em que edição, especificamente, Miller finalmente firmou seu estilo, encontrou sua voz e consolidou os elementos que distinguem suas histórias. As candidatas eram várias: a própria edição #168, a primeira que ele roteirizou, que marca a primeira aparição da assassina Elektra Natchios; a #174, na qual Miller nos apresenta pela primeira vez a organização ninja Tentáculo (em inglês, The Hand); ou a #176, na qual surge o personagem Stick, mentor do Homem sem Medo.
Meu voto, porém, vai para a edição #179, com a história "Spiked!" (fevereiro de 1982). Na minha opinião, essa é uma das edições que lançaram os quadrinhos de herói na modernidade. Vou tentar explicar o porquê.
Podemos começar com a constatação de que o Demolidor NÃO é o protagonista da história. Toda a narrativa gira em torno de Ben Urich, repórter do Clarim Diário que investiga as ligações corruptas entre Wilson Fisk, o Rei do Crime, e um dos candidatos à prefeitura de Nova Iorque. Urich participa de todas as cenas da história. É através dele, de suas impressões, de sua voz, que acompanhamos os acontecimentos. Miller antecipou em 12 anos o que Kurt Busiek faria em 1994 em sua popular série Marvels. Essa radical mudança de ponto de vista, enfatizando a perspectiva de um personagem secundário que mal havia aparecido nas histórias do Demolidor até ali, foi algo novo e inusitado.
Chama também a atenção o desprezo de Frank Miller por uma convenção importante que era respeitada em todas as histórias da Marvel no período: o splash de abertura, que deveria acontecer nas páginas iniciais e apresentar o herói em uma situação dinâmica, normalmente acompanhado por recordatórios que ajudavam os novos leitores a acompanhar a continuidade nas histórias de herói, tanto da Marvel quanto da DC. Essa era uma prática que Miller vinha respeitando até a edição anterior (#178), que trazia o splash a seguir:
Percebam a apresentação do personagem em pose dinâmica; os créditos; os balões de pensamento; os monólogos expositivos que explicam aos novos leitores como o Demolidor adquiriu seus poderes. Tudo dentro dos padrões editoriais da Marvel de então.
Na edição #179, tudo isso é subvertido de alguma forma. Os créditos, por exemplo, são concisos e integrados à narrativa, apresentados na forma de um letreiro de cinema em close, com a câmera se afastando no quadro seguinte:
A ambientação da cena inicial em um cinema e os quadros horizontais não são as únicas referências à sétima arte presentes na história. A própria forma como a história é narrada remete a uma das paixões de Frank Miller: o cinema noir, com suas narrações em primeira pessoa, recheadas de realismo, ironia e cinismo. Essa é a primeira vez em que Miller usa esse recurso, que se tornaria uma de suas marcas registradas. Percebam o cuidado com o letreiramento (pelo grande Joe Rosen), que simula os tipos usados nas máquinas de escrever e usa caixa alta e baixa, prática incomum numa época em que letras em caixa alta eram a regra, raramente quebrada.
Outra característica marcante e inovadora da história é a total ausência de balões de pensamento e recordatórios em terceira pessoa. Mesmo a batida exposição sobre os poderes do herói é resolvida por Miller de uma forma original e harmoniosamente integrada à narrativa. Quem nos recorda a origem do Demolidor não é o próprio herói ou um narrador onisciente, mas Urich, que conhece o passado e a identidade secreta do Demolidor, mas decide não publicá-la (o que certamente lhe garantiria um prêmio Pulitzer) por lealdade ao herói.
Toda a narrativa se desenvolve com base apenas nos diálogos entre os personagens e na narração em primeira pessoa do repórter Ben Urich, que comenta as cenas com uma voz particularíssima e individual, algo praticamente inexistente nos quadrinhos de heróis da época, em que a regra era uma narração pomposa, redundante, impessoal e frequentemente chatíssima. Em duas ou três páginas, na melhor tradição tchekoviana, Miller nos coloca diante de um personagem interessante, carismático, tridimensional, com o qual passamos a nos importar de forma quase que automática.
Miller vai além ao estabelecer Urich como um personagem de carne e osso, fumante compulsivo, um workaholic com uma ética de trabalho quase inflexível, e os efeitos negativos que essa obsessão pelo jornalismo trazem para sua vida pessoal são exemplificados em uma deliciosa cena de Urich com sua esposa. O tratamento que Miller dá a esses dois personagens está a anos-luz de distância da idealização dos estereótipos olímpicos comuns nos quadrinhos de heróis. Entre páginas recheadas pelos corpos invariavelmente sarados de heróis e vilões, Miller deixa entrever um sopro de humanidade, de vida comum, de romantismo cotidiano, em uma clara homenagem a um de seus ídolos, Will Eisner.
A noite do casal Urich, porém, é mais uma vez vítima do trabalho de Ben. Ele é chamado para um encontro com um informante que lhe passa uma dica aparentemente quente, mas que o Demolidor percebe se tratar de uma armadilha. Dito e feito: no local em que Ben deveria se encontrar com uma suposta amante do candidato corrupto disposta a incriminá-lo, quem espera o repórter é Elektra, contratada pelo Rei do Crime pra matar Ben. Elektra derrota o Demolidor em combate, e aparentemente perde Ben de vista, mas uma tosse inconveniente entrega a localização do repórter. Um autor comum faria Ben pisar em um lata velha ou esbarrar em alguma coisa qualquer. Não Miller. Ao longo de toda a história, ele nos mostra Urich como um fumante inveterado, que ouve de todo mundo que o cigarro vai acabar o matando. A tosse do repórter, nessa cena, ganha então um caráter profético, inexorável, natural. Tudo na história tem uma função, tudo contribui para o gran finale pretendido pelo autor.
Os dois primeiros quadros acima exemplificam a forma mágica como os quadrinhos, na mão de um mestre como Frank Miller, brincam com o tempo da narrativa. Ao posicionar o quadro com a reação de Elektra antes do quadro com Ben tossindo, Miller aponta para a simultaneidade das duas imagens: a reação de Elektra, uma assassina treinada e extremamente alerta, é imediata. A colocação da reação de Elektra após a imagem de Ben tossindo não teria esse efeito, dada nossa tendência de imaginar, entre um quadro e outro, o transcurso de algum intervalo de tempo, por menor que seja. O efeito produzido pela inversão das imagens e pelo letreiramento, ligando os dois quadros e reforçando essa simultaneidade, é algo que só os quadrinhos podem proporcionar.
A página final é de um expressionismo e de uma dramaticidade que dispensa comentários:
Malditos cigarros, de fato.
Quarenta anos depois, Daredevil #179 é uma obra-prima que não perdeu nada de sua força e de sua intensidade. Na minha opinião, é a primeira de uma série de single issues impecáveis com as quais Frank Miller transformou para sempre a história do Demolidor e dos quadrinhos de super-heróis.