“meow”, or “my normal relationship with my cat”
nos encontramos na rua e foi amor à primeira miada, que para ele significava “oi, tudo bem? vamos nos conhecer melhor?” e no primeiro dia de conversa eu já levei ele pra minha casa. eu, que nunca pensei em um relacionamento sério, nunca liguei pra responsabilidades, dei uma cama para o gato de rua na primeira semana.
no começo, como em todo relacionamento normal, tudo era lindo, tudo era doce. deitávamos na cama por horas, assistíamos minhas séries preferidas, tomávamos leite: eu com café, ele preferia suas bebidas puras. eu falava sobre história e filosofia ele miava admirado.
o tempo foi passando e, como já foi dito, em todo relacionamento normal, as coisas se desgastaram, pouco a pouco. ele já não era mais o mesmo. passava muito tempo em silêncio e quando miava era pra reclamar. carinho e brincadeira era só quando ele queria, e como ele queria. passávamos cada vez menos tempo juntos: eu em casa e ele nos muros e telhados do bairro.
meus pais tinham opiniões diferentes sobre meu gato. meu pai o adorava, passavam horas em frente a tv, dois preguiçosos, um xingando o juiz de futebol e o outro miando, faminto, para que eu o levasse uma sardinha. minha mãe, por outro lado, dizia para eu me livrar dele. entregar a alguém que soubesse cuidá-lo melhor, afinal ele não me amava realmente, sabe como os gatos são, que ele só estava comigo pelo conforto.
certa noite, ele voltou todo estrupiado. havia bebido leite demais por aí e eu conseguia sentir cheiro de outras casas, outras donas. brigamos feio e, pela primeira vez, ele me arranhou. fundo. senti o sangue escorrendo pela bochecha direita. agora basta. hoje você não dorme comigo. amanhã você pega suas coisas e volta pro lugar onde eu te encontrei.
tranquei-me sozinha no quarto e chorei, pensando sobre como tínhamos mudado. mas, minutos depois, outro pensamento veio até mim: ele é um gato. é da natureza dele. aposto que todas as minhas amigas que tem gato também sofrem com isso, apenas não contam em voz alta. faz parte de um relacionamento normal. amanhã ele vai estar melhor e poderemos miar com calma sobre o acontecido.
dito e feito. ao amanhecer, ele veio até mim e ronronou em minhas pernas, durante o café. miou dizendo que estava arrependido, que me amava e pediu, por favor, me deixa ficar. é claro que eu deixei. também te amo, amorzinho. agora empurra a tigela pra cá pra eu colocar mais ração.