lupexmendiola:
Veja bem: haviam pelo menos vinte e um anos que Guadalupe tentava responder aquela pergunta. Quem ela pensava que era? Nunca soube exatamente. Era uma filha boa, uma funcionária esforçada, uma estudante aplicada, uma irmã cuidadosa, uma tia responsável. Era muitas coisas, mas nada que a fazia se sentir ela. Nada que parecesse carregar a autenticidade de um caminho, um propósito. Mas enquanto ela não se encontrava, focaria suas energias naqueles que precisavam de sua ajuda. Como Manuel. Ela ainda tinha a mesma postura dura, esquisita para a jovem de um metro e meio com um vestido de coloração pastel e avental com seu nome bordado cuidadosamente em um vívido magenta. Os cachos haviam sido soltos do tradicional rabo de cavalo assim que pisou fora do restaurante, mas agora que Marte parecia interessado neles, arrependia-se um pouco. Piscou algumas vezes, ordenando a si mesma a não encolher os ombros em um movimento recluso ao perceber que também não tinha a menor ideia de como iniciar as buscas prometidas. Se Guadalupe dissesse não se importar em ter uma ameaça direta à sua vida seria uma grande mentira. Talvez não pelo medo instintivo da morte, mas sim pela ideia de falhar na tarefa e ainda deixar seus pais sem mais um filho. Respirou fundo, decidida, ainda que receosa. A jovem simplesmente não tinha o luxo de não suceder. A ofensa - uma putinha? - fez com que o rosto bonito se contorcesse em descrença e incômodo, mas segurou a língua enquanto ele prosseguia. Ele estava certo, e ela sentia vontade de soca-lo por isso. Olhou para os lados, reparando uma vez mais na quantidade de homens armados dali. Se o tatuado quisesse, eles acabariam com ela sem pensar duas vezes. E ainda se a polícia a visse saindo dali, não ofereceria de bom grado a chance de uma explicação. Apenas voltou a encarar o mais alto quando o tom mudou de acusatório para sugestivo, e de cenho franzido a mexicana o analisou. A diferença de alturas não a impedia de notar as feições do rosto alheio; os olhos escuros pareciam profundos, como um baú cheio de segredos. As sobrancelhas grossas moviam-se de forma bastante expressiva, acentuando as emoções dele (que até então variavam de raiva para deboche) e os lábios tinham um formato bonito, bem desenhado. Lupe franziu o nariz, incomodada ao ser chamada do apelido que apenas os mais íntimos utilizavam. “É Guadalupe.” Avisou, como se conversasse com um cara qualquer, e não com um criminoso visivelmente perigoso. “Você sabe essa resposta.” Disse, trocando o peso de um pé pelo outro, esperando que aquilo aliviasse um pouco do nervosismo que a fazia se sentir à ponto de tremer. “Por que?” Foi a pergunta, recheada de desconfiança. Claro que a resposta era sim, mas ela não se submeteria a qualquer situação logo de cara. Não antes de tentar tudo em seu poder.
Diego pouco se importava com o nome dela mesmo. Dificilmente iria chamá-la de Guadalupe, não após ver o efeito que Lupita ou cariño provocava na morena. E ele gostava disso. Gostava da maneira como a face alheia se contorcia e o tom era tomado por uma sexy pitada de irritação. Era uma mulher bonita, no entanto haviam coisas mais importantes do que isso. “Não, eu não sei a resposta.” Proferiu, os braços cruzados enquanto erguia uma sobrancelha. Podia notar os olhares nervosos de seus comparsas, não estavam acostumados com pessoas por ali por tanto tempo, principalmente uma mulher. Todos ali, exceto Guadalupe, sabiam que Marte não possuía nada a ver com o desaparecimento de Manuel. “Eu quero que você me diga a resposta.” Pediu, a voz baixa enquanto um sorriso preenchia seus lábios. Considerava tudo como um jogo o qual adorava. No entanto um rápido movimento de um de seus homens lhe chamou a atenção. Estava adorando brincar com a pequena, no entanto o dever o chamava... Fugir da polícia, na verdade. De certa forma era seu dever, preservar sua identidade, manter seu império. O sinal dado por Drake indicava que polícias a paisana espreitavam por perto, ansiosos por qualquer coisa que denunciasse a presença do crime naquele lugar. “Eu vou embora, Lupita. O que você vai fazer?” Lançou a questão para ela, já ansioso por uma resposta. Nunca estivera em seu juizo perfeito, era sempre impulsivo, por isso com um sorriso ainda mais largo, Marte deu um passo para trás. “É agora que você toma uma decisão que pode foder toda a sua vida. O que me diz? Te dou duas opções...” Os olhos se voltaram rapidamente para a porta do galpão. “Você pode sair daqui agora, dar de cara com uns policiais e ser levada. Eles vão tentar de usar para conseguir qualquer informação que puder sobre este lugar ou sobre mim. Estão loucos para me pegar, mas...” Deixou a frase incompleta, porque neste momento deixou escapar uma risada alta ao jogar a cabeça para trás. “Esses filhos da puta são burros, porém é sua opção se quiser. Ou pode deixar este lugar comigo e eu te largo em algum lugar seguro por ai e com vida, não se preocupe. Não quero ser culpado pelo desaparecimento de mais um Mendiola, seria uma dor de cabeça.” A realidade era que possuía outros planos para a jovem, mas jamais deixaria que ela soubesse.

















