os anos passam, e passam, e passam e eu continuo exatamente aqui, incontrolavelmente apaixonada pela chuva.
não é qualquer chuva, é esta chuva específica, desta época específica do ano. com o tempo, eu desisti de tentar entender o que ela tem de tão especial, porquê eu fico tão nostálgica, porquê eu me sinto como se o ano inteiro pudesse ser assim, todos os anos.
ver as ruas da cidade molhadas pela primeira chuva, o seu cheiro, o vento frio que inunda a cidade com um ar quase triste (e indescritivelmente maravilhoso ao mesmo tempo) isso, simplesmente isso, me completa como nada no mundo.
é incrível como, bem ou mal, eu associo essa felicidade fria a memórias tão específicas, ir a locadora alugar um filme inesperado, e sempre sair com algum do woody allen. ficar horas ilhada dentro do carro, porque a asa norte está submersa.
aquele café favorito, tomando um café qualquer. a melhor comida do mundo. o meu casulo. o festival internacional de cinema. uma cerveja bem gelada, no frio.
uma taça inteira de mousse de chocolate, o melhor do mundo, obviamente. o eterno match no shuffle songs. os museus em dias nublados.
eu amo absolutamente casa memória, com cada pessoa, e todos os anos, quando a primeira chuva cai, eu sinto falta de cada uma delas, e ao mesmo tempo, não consigo conter a felicidade que me invade, só de ansiar pelas novas memórias chuvosas, inesperadamente únicas, que essa época do ano me trará.
a nostalgia tem me atravessado de forma avassaladora (e sofrida) nas últimas semanas. coincidência ou não, voltei nesse texto. eu amo tanto essa primeira chuva. amava. eu era obcecada por essa sensação de primeira chuva pós seca no cerrado e ansiava pelo momento exato que ela chegaria. gostava de brincar com os cenários e fazer memórias com esse momento. era tão especial, tão aconchegante. claramente. nunca fiz um post comentado, na realidade há tempos que abandonei a escrita. me questiono se me abandonei também e o motivo. mas cai nesse da chuva e me lembrei dessa obsessão pela primeira chuva, sempre em agosto. esse escrito de dez anos antecedeu exatos 12m do pior mês da minha vida e, coincidentemente, da pior memória que já fiz da primeira chuva. nunca vou me esquecer como ela demorou a vir naquele ano e depois daquilo, nunca mais falei da chuva. nunca vou me esquecer o alívio do céu chorando a angústia daqueles quatro dias esperando um desfecho fúnebre, e depois daquilo, a chuva, enfim, materializando o sofrimento de todo mundo ali. e hoje lendo esse texto, eu vejo o que sinto saudades da minha versão ingênua, de ainda não ter sido atravessada pelas durezas da vida, de ainda ter a pureza no olhar para desfrutar da beleza nas coisas simples. hoje, dez anos depois desse texto, posso dizer que ainda amo a chuva, mas reparo muito pouco nela, fugi do cerrado e na selva de pedra tudo que cai do céu já vem sujo, a cidade tem um cheiro estranho e sempre que chove tudo fica confuso, mais corrido e mais cinza. a nostalgia tem me atravessado de forma avassaladora e eu tenho sentido muito falta do cheiro do mato.











