Angela Luzia - Distrito 10 - Desafio Final - Vitoriosa
Os Automanos mudaram de rumo, passando a se aproximar apenas das outras garotas. Virei-me na direção da saída e corri, como se minha vida dependesse disso, e na verdade ela dependia mesmo. Quando já estava a alguma distância do templo meu senso de honra falou mais alto. Então era isso? Eu iria simplesmente fugir e deixar as três garotas acabarem com os Automanos? Ou eles acabarem com elas, e apenas observar de longe sabendo que eles não me atacariam? Que tipo de herdeira do Mundo Inferior eu seria se fugisse da luta desse jeito?
Antes que eu pudesse tomar qualquer decisão, um grito ecoa pela floresta, vindo de dentro do templo. Isabella. Sei que pode parecer estupidez, mas percebo que se for pra ela morrer, que seja pelas minhas mãos, não por Automanos, ou uma filha de Zeus, ou de Ares.
Corro de volta ao templo e vejo Isabella caída num canto, com um corte na cabeça. Não era profundo, nem sangrava muito, e como não ouvi nenhum canhão, sabia que ainda estava viva. Mas por quanto tempo?
Caroline estava envolta em uma aura elétrica e atacava os Automanos com repetidos raios, mas eles não eram assim tão fáceis de matar, e dava pra ver que sua energia se esvaia rapidamente. Rachel estava tendo mais sucesso, a aura vermelha ao seu redor tornava tudo meio assustador. Ela estava de joelhos no peito de um dos Automanos e o socava repetidamente. Em determinado momento sua mão atravessou o peito de bronze e puxou um emaranhado de fios, ferros retorcidos e eletricidade. Provavelmente o “motor” do Automano, ou algo do tipo. Ela não sabia bem o que fazer com a coisa. Estiquei a mão em sua direção e o motor se dissolveu em cinzas. A ruiva pareceu assustada, olhou ao redor e seus olhos se encontraram com os meus. Ela acenou com a cabeça agradecendo, e fez um gesto com as mãos, embarcando todos os Automanos restantes. O gesto era claro. Juntaremo-nos para derrotar um inimigo e comum, e depois atacaremos umas as outras.
Rachel se defendia muito bem dos outros Automanos que tentavam lhe ferir, e mesmo estando totalmente desarmada, ela continuava quase invencível. Ajudamos Caroline com o Automano, e um padrão se estabeleceu. Caroline eletrocutava as coisas para distraí-los enquanto Rachel as incapacitava, e eu concluía o serviço. Isabella continuava inconsciente, e Caroline, vendo meu olhar, disse entre dentes, enquanto eletrocutava o sétimo Automano:
- Ela foi praticamente nocauteada por um deles enquanto lutava com outro.
Não esbocei nenhuma reação. Como Isabella, a Caçadora mais corajosa e mortífera que eu já conhecera, havia se deixado atacar assim?
Continuamos atacando os Automanos, até só haver três deles. Estes eram maiores que os outros, e imaginei que fosse um para cada uma. Minha tese foi confirmada quando dois deles se viraram para atacar Caroline e Rachel, e o terceiro em direção à inconsciente Isabella. Eu não podia permitir que ela fosse simplesmente espancada até a morte sem chance nenhuma de se defender. Rodeei o Automano até ficar entre ele e Isabella, mas a coisa não pareceu perceber minha presença, e eu não sabia se isso me aliviava ou me irritava. Tentei invocar os poderes do mundo inferior, mas não consegui. Mais um truque dos deuses, imagino. Um último desafio para nós. Matar as criações de Hefesto e a nós mesmas sem nenhum recurso além de nossas próprias mãos.
Percebi que seria inútil socar o Automano. Isso só acabaria me machucando. Não sou filha de Ares, portanto não tenho força sobrenatural.
Ao ver o gigantesco punho do Automano se preparando para atacar Isabella, faço a única coisa que vem na minha mente: Puxo-a para longe, fazendo com que a coisa soque o chão. Isso me dá alguns segundos de vantagem, e me preparo para atacá-lo, de alguma forma.
Quando a coisa já se prepara para atacar novamente, percebo uma coisa. O soco que ele deu no chão fez um buraco em sua mão, e por ele saía alguns fios de cobre. Uma súbita idéia me ocorre. Aproximei-me sorrateiramente, o que não era bem necessário já que ele não podia me atacar. Quando seu punho estava prestes a desferir um golpe em Isabella, agarro aquele emaranhado de fios que saltava por seus dedos e puxo com toda a minha força. Correntes de eletricidade se espalham pelo meu corpo, mas não me afetam. O antebraço do Automano se desprende e cai. Ele continua me ignorando, e agradeço esse truque dos gamemakers.
Isabella começa a se mexer, e novamente tenho que arrastá-la para longe, impedindo mais um ataque. Ela desperta meio desorientada, e olha ao redor, arregalando os olhos ao se deparar com a situação em que se encontrava.
- CORRA! – grito para ela, o que faz sem hesitar.
O Automano se distrai com Isabella, o que é a chance perfeita para eu escalar suas costas até sua cabeça. Lá em cima encontrei o que procurava. Uma pequena portinha de cobre, que provavelmente dava para um painel de controle, ou algo do gênero. Puxo com força e a portinha se abre, revelando um mundo de botões, fios e interruptores. Não sei bem o que fazer, então escolho a opção mais idiota de todas. Meto a mão e começo a puxar, socar e danificar tudo da melhor forma possível. Parece funcionar. O Automano estremece e para de atacar Isabella. Faço o possível para não cair, e continuo tentando danificar o cérebro da coisa. Sinto que o Automano está despencando, e salto de cima dele. A coisa gigantesca cai com um estrondo e não se move mais. Respiro aliviada por um momento.
- Você está bem? – pergunto para Isabella, e ela confirma com a cabeça.
- O que perdi enquanto estive inconsciente? – perguntou.
- Nada de mais. – respondo.
- Porque você voltou? – franzo o cenho, não entendendo a pergunta – Você me entendeu. Poderia ter deixado os Automanos nos matarem, ou nos ferirem, e depois ficaria muito mais fácil para você ganhar. Então porque voltou?
- Porque não haveria orgulho nenhum em vencer fugindo. Percebi que prefiro morrer lutando que viver como uma covarde.
Isabella confirmou com a cabeça, mostrando que compreendia. Finalmente parei para olhar ao redor. Caroline jazia caída num canto, com um profundo corte na cabeça, mas seu Automano também estava caído. Um retorcido de bronze e cobre que imaginei ser o Automano de Rachel soltava sons de estática ao seu lado. Nem sinal de onde estava Rachel. Essa poderia ser minha única chance. Fui em direção de Caroline, planejando matá-la, mas antes que eu pudesse agir, senti uma forte pancada em minhas costas, que me fez cair de joelhos no chão. Em seguida, um chute no meu estomago e um soco em meu olho direito. Com a visão embaçada, vi Isabella se atracando com Caroline, por isso presumi que minha agressora fosse Rachel. Ela desferiu outro soco em meu rosto, e outro, e um chute em minha cintura, diretamente no ferimento causado pela sereia, e este se abriu, voltando a sangrar. Isto me enfureceu. Repentinamente lembrei-me das minhas aulas de combate corpo-a-corpo com minha meio-irmã, também filha de Hades, Sabrina. Havia uma frase que ela me disse uma vez, que nunca me esqueci. “Se você já está no chão, aproveite-se disso”. Ela havia me aplicado um golpe, logo após eu derrubá-la. Eu me lembrava perfeitamente.
Quando Rachel ergueu o pé para me desferir outro chute, enganchei minha perna direita em sua panturrilha e com meu pé esquerdo desferi um chute em seu joelho, entortando sua perna para trás e fazendo-a cair com um baque surdo no chão de pedra. Levantei-me e me ajoelhei em cima dela. Dei repetidos socos sem enxergar ao certo onde estava acertando, devido ao olho inchado. Ela esticou os braços e agarrou meu cabelo, tentando me afastar. Estiquei os braços para fazer o mesmo, mas minhas mãos estavam trêmulas e eu não enxergava direito, e acabei agarrando fortemente outra coisa. Algo redondo e pegajoso se soltou do rosto de Rachel. No lugar de seu olho esquerdo havia um buraco escuro e sangrento, e em minha mão direita estava seu globo ocular. Soltei a coisa rapidamente.
Só aí percebi que aquele som terrível e animalesco que ecoava pelo templo saia da boca de Rachel. Ela colocou as mãos sobre o buraco escuro e fez um som de ódio puro. Empurrou-me com ta força que me vi novamente caída no chão de pedra. Minha cabeça bateu com força numa coluna, e pontos surgiram em minha visão. Rachel se sentou em meu estômago, dificultando minha respiração Agarrou minha cabeça e começou a batê-la com força na coluna repetidas vezes. Senti minha vitalidade se esvair, e comecei a escorregar para a inconsciência. O rosto de todas as pessoas que são importantes para mim passou pela minha mente, como se estivessem bem na minha frente. Connor, minha mãe, Dalila, Kathryn, Sabrina, Rafael. Travis... E por fim, as duas crianças da visão de Apolo, a garota de olhos cor de mel, e o garoto de cabelos negros. Meus filhos.
Durante este torpor, algo se acendeu na minha mente. Sabrina e Rafael, ambos me deram aulas de luta corpo-a-corpo no Acampamento. Lembrei-me de minha primeira lição, anos atrás, eles me ensinaram o básico para uma luta.
Lição nº 1 – Sabrina – Quando uma pessoa põe as aos e seu rosto, ombro, pescoço ou cabelo, automaticamente deixa seu próprio pescoço desprotegido.
Lição nº 2 – Rafael – A pele do pescoço é extremamente sensível, e fácil de rasgar, o que pode ser feito com as mãos mesmo. A faringe fica extremamente exposta sob essa pele frágil, principalmente se a pessoa esticar muito o pescoço.
Rachel rugia enfurecidamente e eu podia ver as veias de seu pescoço quase saltando para fora. Estiquei minha mão direita tranquilamente e agarrei sua faringe, enterrando as unhas em seu pescoço. Ao sentir a textura ao mesmo tempo áspera e pegajosa da faringe em meus dedos, puxei-a com toda a força que consegui reunir, e automaticamente senti o corpo de Rachel amolecer em cima de mim, mas não parei de puxar até sentir a coisa arrebentando em minha mão. O corpo flácido de Rachel caiu em cima de mim, e joguei-a para o lado. O som do canhão soa ao longe, anunciando que meu dever havia sido cumprido.
Respirei uma lufada de ar, tentando recuperar as forças.
Arrastei-me até um canto do templo, onde estava tão sombreado pelas colunas que alguém poderia facilmente se esconder ali. Essas sombras devolveram meus sentidos, e fiquei feliz em ver que, apesar de estar sem poderes, ainda podia me curar com as sombras. Não fiquei totalmente recuperada, mas estava pronta para voltar à batalha.
Vi Caroline ajoelhada em cima de Isabella, enforcando-a. Pensei em deixar que Caroline a matasse para que eu não carregasse o peso de sua morte pelo resto da minha vida, mas seus olhos revirantes se fixaram por um segundo em mim. Não vi medo, nem desespero, apenas dor. Caroline fazia de tudo para matá-la da forma mais dolorosa possível, e eu não permitiria isso.
Caminhei em sua direção e lhe desferi um chute na cabeça. Ela caiu no chão e me ajoelhei por cima dela, desta vez tendo a inteligência de prender seus braços em baixo dos meus joelhos. Vi Isabella caída ali perto com o pescoço extremamente roxo, mas ainda respirando, lutando para sobreviver.
Vê-la desse jeito, quase morrendo, me deu um novo ânimo. Olhei para Caroline, que lutava para se libertar, e vi uma frieza inumana em seus olhos. O que o mundo havia feito com aquela garota?
- Sua amiguinha não tinha chances nenhuma comigo. Se você não tivesse intervindo, eu a mataria, mas isso não faz qualquer diferença, pela dor que ela deve estar sentindo, é obvio que tem menos de minutos de vida. Ela é uma fraca, como você – dito isso, ela cuspiu em minha cara, e qualquer indício de pena que eu estivesse sentindo se esvaiu, se transformando em ódio puro.
- Você gosta de dor não é? – perguntei, um sorriso selvagem surgindo em meus lábios. Pela primeira vez vi medo em seus olhos. Abaixei-me até meus lábios ficarem a centímetros de sua orelha – Então você terá dor – mordi sua orelha com força e puxei, arrancando-a. Caroline berrou de dor. Em circunstancias normais, eu teria nojo do sangue escorrendo pela minha boca, mas não aqui, não agora.
Cuspi o pedaço de carne e cartilagem para o lado, e agarrei o pescoço de Caroline. Eu poderia enforcá-la, mas isso não lhe proporcionaria toda a dor necessária. Tateei ao redor em busca de algo e minha mão parou em cima de algo perfeitamente redondo e pegajoso. O globo ocular de Rachel. Com o cotovelo direito pressionei com força o pescoço de Caroline, e com a mão esquerda enfiei o globo ocular com força em sua boca, tapando a respiração entrecortada que escapava por seus lábios. Continuei pressionando ambos, até sentir que Caroline parava de se debater. Bum. Ela estava morta.
Levantei-me e limpei a boca na camiseta, ou ao menos tentei. Caminhei até Isabella, que respirava com dificuldade. Ajudei-a se sentar, mas ela estava muito fraca e perdendo sangue pelo machucado na testa feito pelo Automano. Ela olhou em meus olhos.
- Conseguimos – disse ela, com a voz fraca – chegamos aqui juntas! Eu e você, na final!
- Sim! Chegamos até aqui, mas e agora? – perguntei.
- Você sabe o que vai acontecer agora... Estou muito fraca, jamais conseguiria lutar com você assim, muito menos matá-la – abaixei a cabeça, percebendo que meu rosto estava molhado. Perguntei-me de onde vinha aquela água, mas percebi que eram lagrimas. – Você sabe o que fazer...
Eu sabia. Sabia, mas não queria, Isabella havia sido minha melhor amiga, apesar de termos passado tão pouco tempo juntas. Ela me entendia como ninguém mais, e éramos tão parecidas... Mas isso são os Jogos Vorazes, e apenas uma pode viver.
- Por favor, dói muito... – disse ela, lágrimas prateadas escorriam por sua face.
- Não se preocupe querida, eu vou acabar com sua dor...
Coloquei as mãos uma de cada lado de seu rosto e lhe dei um beijo na testa. E depois em um movimento rápido, simples, e sem esforço nenhum, quebrei seu pescoço, e seu corpo desabou. O canhão soou. E em seguida, fogos de artifício e uma musiquinha de vitoria ecoaram por toda a arena. Olho para o trono de veludo vermelho-sangue.
Eu ganhei, estou livre! Livre para ir para casa, rever minha mãe, Connor, Dalila, Kathryn. Travis! Olhei para o chão e pela primeira vez na vida agradeci a meu pai, de coração.
“Parabéns minha menina. Você conseguiu, honrou ao seu pai e ao seu Distrito, só felicidade te espera de agora em diante!”