Yanina acreditava que tinha feito a melhor escolha ao assinar aquele contrato de aluguel. Um apartamento mobiliado, espaçoso, bem localizado, com preço em conta e com três quartos - okay, dois quartos - era uma ótimo negócio. Seus pais e seu irmão diriam que era bom demais para ser verdade, mas ela achava que isso era apenas por que sua família tinha pouca fé nela e em suas escolhas. Para eles, Nina era a caçula imatura que sempre precisaria de ajuda mesmo que estivesse tentando trilhar seu caminho sozinha. Ao olhar para seu novo apartamento ela tinha certeza de que eles estavam errados.
“Onde eu deixo isso?” Nina se virou para o pai que estava entrando no apartamento com uma caixa de papelão.
Ela se aproximou afim de espiar o conteúdo. “O que é?” Perguntou curiosa.
“Ah, alguns temperos e kimchi.” Seu pai respondeu colocando a caixa sobre a bancada que dividia a sala de estar e a cozinha e que servia como mesa de jantar.
Yanina revirou os olhos. “A mãe realmente quer me botar pra cozinhar né?”
“ Sim, ela mandou até um dos livros dela.” Sua mãe era uma renomada chefe de cozinha, chegou até a participar do masterchef argentino e a lançar livros de receitas. “A Minyoung só não quer que você viva a base de delivery, filha.” Explicou seu pai.
Sobreviver a base de delivery realmente era um dos planos de Yanina, ela tinha preguiça de cozinhar.
“Enfim, o apartamento é bom. Perto do estúdio. Só achei esse prédio meio estranho, nunca tinha ouvido falar dele.” Seu pai comentou. O prédio era de fato estranho, antigo mas não muito conhecido.
“Achei bem conservado, confortável e o preço ‘tá ótimo. Ah, e como você disse é perto do meu trabalho.” Na verdade, o apartamento era perto de tudo, mas principalmente do estúdio para qual Nina trabalhava como dubladora, profissão que exercia desde nova. “Admite logo que eu fiz um bom negócio, pai!”
“Tá, tá. Parece muito bom. Mas qualquer coisa é só me ligar.” Disse, Nina respondeu com um aceno animado, ele tecnicamente tinha a elogiado, isso era bom. “ Enfim, vou indo."
Ambos se abraçaram em despedida. E Yanina finalmente estava sozinha no seu novo apartamento. Deu alguns pulinhos de felicidade e foi guardar as coisas enviadas por sua mãe. Estava indo para seu quarto quando uma porta chamou a atenção. Era a porta do quarto trancado. Yanina foi avisada que um dos três quartos estava trancado e que não dava para ser aberto, então era para ela tentar. Uma condição um tanto estranha que ela acabou aceitando num momento de euforia.
Não era curiosa, mas a porta a chamou a atenção. Era bem mais desgastada do que as dos outros quartos talvez por isso que não dava para abrir. Ainda movida pela curiosidade, Nina aproximou o ouvido da porta para ver se escutava alguma coisa.
------ Pelo amor de Deus, mãe, eu não vou ficar zoando enquanto estiver aqui, acha que sou o quê? Que eu saiba ‘tô aqui pra estudar, não foi esse o combinado? Eu hein, um filho tão dedicado desses e você achando que eu vou fazer merda no primeiro dia. O que suas amigas da igreja iam dizer? Mulher de pouca fé. ------ Du estava na multitarefa. O ombro pressionava o telefone contra o ouvido para falar com a mais velha, em uma mão segurava o antigo violão, e em outra carregava uma mala grande de rodinhas, enquanto uma mochila bem pesada pendia em suas costas. Mas de jeito nenhum ele ousaria deixar para falar depois com Dona Helena. ------ O Renato nem tá aqui pra eu tomar cuidado com ele, a senhora já ‘tá viajando... Não, mãe, argentinos não usam droga. Não te falei que assisti uma reportagem dizendo que eles nem sabem o que é maconha? ------ Ele não sentia nem uma gota de remorso ao dizer aquilo, a risada contida por lábios contraídos. ------ Coitado de mim? E desde quando eu sou maconheiro, filhona? ------ Mesmo pretensioso, sentiu-se confuso ao mesmo tempo em que engoliu em seco, subindo as escadas no prédio no maior cuidado de não deixar nada cair. As rodinhas faziam barulho quando batiam contra a parede dos degraus. ------ Fedor vindo do quarto, é? E sabe como que é maconha? ... ‘Cê já fumou um, mãe? Não acredito. ------ Em disparate o ouvido dele começou a doer pelos gritos do outro lado da linha; todo o tipo de defesa e ameaça sendo proferida. ------ EU SÓ TAVA BRINCANDO COM A SENHORA. DESCULPA, DESCULPA... Não, não é brincadeira que se faça... Não, não falo mais nisso. Foi mal. ------ Foi péssimo, a resposta dela. ------ Ainda não conheci a menina, nem entrei no apê ainda... Tá, depois a gente se fala... Bença... Tchau, também te amo... Amém, fica com Deus também. ------ Ele até suspirou quando Helena desligou o telefone, como falava... Mas um sorriso bobo emoldurava seu rosto. Sentiria falta de toda a preocupação e insistência para que ele estudasse. Bem, de toda a preocupação pessoalmente, porque era óbvio que ela iria ligar toda hora, do jeito que era. Mas talvez a vinda da irmã mais nova tivesse vindo em bom tempo, então iria ocupá-la por algum tempo antes de fazer mais ligações via WhatsApp.
Estava um bom tempo no apartamento esperando a garota chegar. Até lá, escolheu um dos quartos disponíveis para se instalar (o que não tinha janela) e então desfez relativamente rápido a mala --- havia trazido bastante roupa do Brasil, mas tudo estava no jeito de guardar --- e deixou para que organizasse os livros e laptop para depois, estava cansado. Não deixou de pensar que, enquanto estudasse UBA, iria morar naquele lugar por sete anos, graças ao curso de Medicina. Deveria fazer daquele um lugar confortável, amigável, junto da colega de quarto ainda desconhecida, já que ele não iria querer sair de um quarto tão barato num ótimo bairro, com fácil acesso à facul. Mesmo que a fachada do prédio não fosse do agrado de Dona Helena, a localização era o que realmente contava. Escolheu cochilar no quarto escolhido até que a garota chegasse, e só veio a despertar novamente quando escutou a porta bater. Levantou preguiçosamente sem fazer muito som --- desde sempre ostentava aquela pegada de gato de rua --- até sair do quarto e dar de cara só com as costas da menina mais baixa, com a cara colada na porta do fim do corredor. Curioso. E engraçado. Ele nem havia notado aquela porta ali. ------ Gostou tanto do apartamento assim? Quer dizer, ele não é ruim, mas dá pra ver que você amou. ------ Uma risadinha esperta surgiu. Para alguém que foi emo no auge dos quatorze anos, Eduardo estava muito sorrisos naquele dia. ------ Coloquei minhas coisas nesse quarto, não gosto de sol batendo no meu rosto de manhã, mas a gente troca se você quiser.