Artista conta como terapia, alimentação e respiração controlada a ajudaram a lidar com episódios de angústia aguda e diz que críticas amplificaram abalos em sua saúde mental.
"AS CRISES DE PÂNICO IMPACTARAM TODA A MINHA VIDA"
Há pelo menos cinco anos, a atriz e influenciadora Rafa Kalimann sofre com crises de pânico. Ela foi diagnosticada após sentir que "perdeu o controle" durante uma viagem de avião. Os sintomas foram uma dor profunda, falta de ar, desespero enorme, choro e medo.
– Tudo hoje me causa muito mais medo e insegurança do que antes. Porque sempre vou para algum lugar achando que vai ser um motivo para desencadear uma nova crise. Mas não quero deixar de viver e isso foi um compromisso que fiz logo no início comigo mesma, de que iria aprender a encarar tudo com muita coragem – diz.
Em entrevista ao GLOBO, a artista revela que decidiu falar sobre o tema recentemente no quadro "Dança dos famosos", no "Domingão com Huck", porque encontrou na dança um meio de tratamento contra a doença e que, desde então, "mudou uma chave" em sua mente com o propósito de alertar as pessoas sobre a síndrome que é cada vez mais frequente.
Kalimann detalha como descobriu a doença, seus principais sintomas, além dos tipos de tratamento que encontrou para driblar as crises. Além da dança, cita a alimentação, terapia e o fluxo da água corrente que ajuda a relaxar e reduzir angústias.
Reprodução: Jornal O GLOBO
Quando foi a primeira vez que você teve uma crise de pânico?
Tive alguns sinais de alerta antes da crise em si. Comecei a sentir que a minha saúde mental estava abalada porque andava muito cansada emocionalmente. Não era algo físico. Algumas situações que antes eram simples de executar passaram a me dar muita ansiedade. Comecei a sentir medos que eu não tinha, das coisas mais simples, como pegar um avião, viajar ou ficar sozinha. Não era mais um momento especial onde eu conseguia me curtir. Havia mudado algo dentro de mim que não estava bom. Acredito que a primeira vez que tive uma crise de pânico foi em 2018, durante uma viagem de avião. Não sei dizer ao certo como começou, mas senti que havia perdido controle da situação. Nós dependemos da condução de um piloto, motor e aquilo me deu muito medo. Senti falta de ar, medo de acontecer alguma coisa, um desespero enorme, chorava muito e não conseguia entender de onde vinha tudo aquilo, aquele sentimento dentro de mim. Eu já fazia terapia, tinha minha psicóloga que foi um diferencial enorme. Ela me alertou de que algo precisava ser feito mais internamente e aprofundado, e só assim fui perceber que aquilo era uma crise de pânico.
Como esse diagnóstico impactou a sua vida?
As crises de pânico impactaram toda a minha vida. Vivo e estou vivendo essas mutações. Coisas que antes para mim eram hobbies, alegria, diversão, como andar em uma montanha russa, saltar de asa delta, hoje me causam medo e angústia. Mas eu também não quero deixar de ir em uma balada, por exemplo. Tudo hoje me causa muito mais medo e insegurança do que antes. Por que sempre vou para algum lugar achando que vai ser um motivo para desencadear uma nova crise. Mas não quero deixar de viver e isso foi um compromisso que fiz logo no início comigo mesma, de que iria aprender a encarar tudo com muita coragem. Várias vezes penso que não quero fazer algo por medo do que vou sentir. No "Big Brother", por exemplo, foi assim. A decisão de ir para o reality foi algo muito delicado por isso. Lá dentro eu consegui me controlar muito bem. Sempre que sinto algo, é claro, eu respeito muito isso. Eu vou para o meu canto, fico sozinha, coloco em prática minhas técnicas de respiração. Só que não tentar não é uma opção. Mas o maior impacto que essa síndrome trouxe foi o autoconhecimento. Coisas que passavam despercebidas por mim agora vejo e sinto com clareza. Percepções do que realmente é importante e relevante, o que me faz bem de fato. Nessas horas, temos uma profunda certeza do que estamos sentindo. Tudo é levado ao extremo. Quando estou em épocas de muitas crises, tudo é muito, eu fico mais intensa e profunda.
"A nossa sociedade precisa se abrir e enxergar qualquer problema ou questão que envolvam depressão, ansiedade, pânico com a mesma preocupação e seriedade que a gente enxerga qualquer outro tipo de doença"
Quais são os cuidados que você tem para lidar com isso?
Os mesmos cuidados que a gente tem com a nossa saúde física precisamos ter com a saúde mental. Queria ter começado a me cuidar antes. Não sei se seria suficiente, mas talvez a síndrome chegasse de uma maneira diferente ou nem teria chegado. Quando sinto que essa dor, essa crise, está chegando, já começo a me preparar no meu íntimo. Vou para o meu quarto e crio o meu momento, voltado para me conectar comigo. Descobri que a água me acalma muito, ela é a minha âncora de calmaria. O fluxo d'água é onde consigo recuperar as minhas forças, o meu refúgio, o lugar aonde eu vou nesse momento de aflição e sufoco. Coloco uma música que me acalma, um louvor e tento respirar, porque a respiração é importantíssima durante uma crise de pânico. Busco técnicas de respiração e faço meditação.
Você está participando do quadro "Dança dos famosos" no "Domingão com Huck". Como tem sido essa experiência?
Até o momento do início dos ensaios, durante a preparação, acredito que tenha sido a fase mais difícil e mais delicada que vivi em relação às crises nos últimos anos. Eu estava tendo várias e sentia muita dificuldade de controlá-las, de identificar os sinais. Coisas que antes faziam um efeito gigante para me ajudar nesses quadros, não estavam mais fazendo efeito. Eu estava extremamente tensa e preocupada. E quando a dança começou de fato foi muito transformador, aconteceu algo poderoso dentro de mim. Acredito que foi a mudança de chave mais rápida que tive. Despertou vários fatores que mobilizaram a melhora na minha saúde mental, como: leveza, alegria, satisfação, comprometimento. Tirou o foco das preocupações e tensões. Reacendeu em mim o movimento com o corpo, a liberação de endorfina, a alegria de algo novo, a reativação daquela criança interna que há muito estava guardada. Foi revigorante de uma forma completa. Vou levar a dança para vida e pretendo continuar fazendo.
"Comecei a sentir medos que eu não tinha, das coisas mais simples, como pegar um avião ou ficar sozinha."
Desde o diagnóstico, você chegou a emagrecer devido a mudança em sua alimentação e rotina de exercícios. Você considera que essa mudança foi positiva na sua vida?
A gente vai aprendendo e sentindo quais situações dão mais conforto. Quando mudei minha alimentação, meu sono e meus exercícios para melhorar as crises, eu falava para as pessoas que eu emagreci não por querer ou por algo estético, mas por necessidade, pelo meu bem-estar e minha saúde. Era justamente por conta disso. Mudei toda uma estrutura em razão da síndrome do pânico e as pessoas vieram e continuam chegando com uma enxurrada de críticas em relação a isso, que potencializam essa dor. As pessoas precisam entender a responsabilidade que um comentário negativo tem na vida de outras pessoas. Um lado meu estava muito bom, saudável, buscando uma saúde física que beneficiaria minha saúde mental. Do outro, havia o peso disso, que era gigante. O corpo encontra formas de se sentir mais confortável e eu senti que a forma que estou hoje é o corpo no qual a Rafa se sente bem, não é o que eu busquei como forma estética, mas para viver melhor.
Por que você decidiu agora falar abertamente sobre o assunto?
Ainda é difícil falar sobre isso. Encarar a dor, ter a coragem de verbalizar, mas acho fundamental para alertar as pessoas e dar atenção a um assunto que, infelizmente, está cada vez mais comum na nossa sociedade. As pessoas precisam ter uma virada de chave urgente em relação ao problema. Olhar para a questão da saúde mental com menos tabu e menos preconceito, com mais prioridade. Muitos ainda acham que fazer uma terapia é quando você está com um problema. Não é isso. Nossa saúde mental é tão importante quanto a física. A nossa sociedade precisa se abrir e enxergar qualquer problema ou questão que envolvam depressão, ansiedade, pânico com a mesma preocupação e seriedade que a gente enxerga qualquer outro tipo de doença.
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