Boa noite, Leca. Eu gostaria imensamente que você fizesse essa carta chegar aos olhos da nossa querida estrela que nos lê. Quando você publicar no memorial dela não coloque o meu nome no final. Obrigado.
Saudades...
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Sarah, o teu nome agora me parece estranho. Ele já não soa dentro dos meus tímpanos com alegria. Na verdade, o seu nome é apenas a junção de sílabas e vogais que fazem sentido. E nós todos - a grande maioria – sabemos ser apenas um nome, ou dois. O teu nome, escolhido no dia do registro do seu nascimento, é a sua identificação na sociedade. É o teu nome que é chamado na lista de presença da escola, é ele quem te acompanha até a morte – e fica estampado na tua lápide – não você. Então eu não sei o que responder se alguém me perguntar se eu te conheço. Porque eu soube soletrar o teu nome, mas nunca você. Por acaso estarias tu decifrada nas imagens que compõem o teu memorial? Eu me recordo vagamente das poucas vezes em que conversamos vagamente sobre as poesias e a solidão. Lembro-me da nossa intimidade superficial – ou profunda demais? Não escreveste sobre a tua dor e não gritaste a tua solidão mais profunda. Recolheu-se no seu mundo situado
entre o céu e o inferno, o abismo e as estrelas. Não se mostrou mais do que deveria e traduziu-se por meio de palavras de outrem. Disseste aos teus amigos sobre o amor sem ao menos mencioná-lo diretamente. Compôs poemas com a tua prosa sem sequer metrificá-los. Ocultou-se na tua própria dor, porém não deixara de transparecer a tua presença e atenção. Portanto eu questiono bastante sobre o significado das tuas palavras silenciosas. O que vejo, entretanto, são nomes de anjos usados por demônios. O meu próprio. Enfim, tu não tiveste medo de encarar tua própria idade e dialogar com pessoas mais novas. Qual seria teu interesse em cultivar a juventude das flores novas? Essas serão as incógnitas que jamais serão respondidas, Sarah. O que me vem à mente são aqueles pequenos momentos que nos renderam boas conversas. Queria eu poder saboreá-los delicadamente a cada segundo. Mas o que seria do tempo presente se nós pudéssemos voltar ao passado quando quiséssemos? Tu conseguiste adentrar no âmago de muitos com a tua
calma. É admirável, moça, saber que jamais lerei sequer uma palavra tua – mas te descobrirei através de palavras alheias (minhas palavras até, há tempos...). Lembro-me de um poema do Manuel Bandeira bem assim:
A Mário de Andrade ausente
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em quem estou pensando
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua.
Na vida você que viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
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Descanse em paz. Logo irei ao teu encontro para te conhecer e te falar
ainda mais sobre a escuridão e sobre as minhas poesias esquecidas:
Do abismo às estrelas
Para a Sarah que eu nunca vi acordar. Sem data. (Texto original)
Lindo são os teus olhos pela manhã
e o teu rosto inchado de tanto sonhar.
Lindo é o teu abismo
que quem mergulha vai às estrelas
e apaixona-se pela vida.
Lindo são os jasmins que te cheiram
e se abrem de tanta pureza.
O teu cinza é o que pinta
o branco e o preto
da vida que não pode ser transcrita.
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Com muito amor e um sôfrego aperto no coração.