Lee Miller photographed by George Hoyningen-Huene for Vogue, September 1931.
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@doloresalagarta
Lee Miller photographed by George Hoyningen-Huene for Vogue, September 1931.
casa
quisera eu ser só cinza e saudade, eu já não tenho notícias de casa. vivo quieta, te amo, e espero. já estivemos aqui, muito tempo depois - um caminho cravado macio na carne das minhas pálpebras pesadas. e as pedras suspiram familiaridade, e o vento me ceifa por inteiro. como andar por um santuário é andar por todos eles, refaço meus passos desandada. asfalto escuro e escaldado, minhas solas de hibisco roxo. mas a estrada é sólida, a brisa é fresca, Deus é gentil, ser amado não deveria queimar.
relâmpagos
meu irmão não mora mais comigo. ele me visita e fuma no sofá-cama, ele olha a tempestade e espera.
uma saudade adiantada ecoa pelas paredes aguda nos meus ouvidos preenche todos silêncios, me tira todo sono. eu me acostumei com o som desse pesar.
janelas fechadas, cortinas abertas e lá fora chove, relampeja. por um momento breve tudo clareia.
na sala de visitas, cigarro se faz de incenso. eu aprendi a fumar com meu irmão mas decidi que quero uma morte tediosa e agora respiro só sua fumaça de segunda mão.
meu irmão não mora mais comigo e eu quase não ouço seus passos que antes trovejavam por aqui.
volante
pedras laranjas, início do ano. um calor abafado de paralelepipedos. os cachorros dormem no meio da rua. sinuosa, eu dirijo melhor que minha irmã, mesmo tendo as mesmas mãos pequenas e ansiosas, unhas no sabugo. nos vemos pelo retrovisor, e eu sorrio o sorriso dela. e que bom que eu te amo, e que bom que eu existo.
Henri Cartier-Bresson. Madrid, 1953.
cartão-postal
essa deve ser nossa nona vida juntos. divida seu medo e seu luto comigo, e eu repartirei os meus com você. de novo, nós nos conhecemos completamente.
meu bem sabe que eu sempre perco o jogo ganho. e não nos encontramos de segunda a sexta. eu jamais tive algo bom que eu não pudesse estragar, e todas as minhas rimas saem engarrafadas.
meu bem solta notas desafinadas, desatentas. e carrega o fogo de quem nasce daqui há pouco, de quem marca o caminho semeando tempestade. e acordamos: é claro que só dá pra ser feliz no mar.
e tudo em nós remexe no meu estômago como cachaça quente em quem tem fome. olho para o teu céu e noto. toda estrela tem andado cadente.
H. Stratton
Nude study (1940s)
Raymond Borel, París
Jun Togawa: Tamahime Sama (1984) Photography: Sachiko Kuru
Guido Giannini. Napoli, 1950.
Robert Rauschenberg, Self-portrait, Black Mountain, 1952
William Klein Serge Gainsbourg, Paris 1984
Masahiko Kuroki Photography
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pretérito perfeito
a angústia de terceiro mundo o profano e o profundo a semana que teve gosto de sal o meu casaco encharcado no temporal a sala de espera perto do fim o peso do seu corpo em mim as madrugadas de mormaço os meus sonhos do dom do acaso o tempo que eu passei sem ele que já superou o tempo que eu passei com ele
Sous l’arbre by Georges Barbier (1928)