Quase sempre Gus sabia quais seriam as reações e quando era tocado o assunto delicado dos colegas dele, Dorcas não tinha reservas em mostrar que não estava contente com a situação. Sentia que o loiro estava mentindo, mas não faria nada caso o rapaz disse que estava tudo bem. Afinal, a situação iria se resolver, não? Contudo, não de conter a breve risada com o comentário da loira. — Eu pensei que isso implicaria em outros motivos, mas o choque de realidade foi engraçado. De qualquer forma, tenho um certo receio quanto a isso. Não está planejando usar o aparelho depois de ter quase matado o meu colega, certo? — Ele perguntou, embora não fosse uma pergunta séria, mas em um tom de brincadeira. Gus não era um dos melhores com piadas, a lógica nelas era real demais para se tornar engraçado.
Estava claro de que qualquer pensamento que a loira estivesse perdida, logo se encontrou quando percebe que ele estava com o rosto rosado por conta do que ela tinha dito. Aquele olhar, ela sabia o que fazia com ele, e era justamente por isso que utilizava isso como vantagem. — Pretty face. — Chamou a atenção de Dorcas, antes de ir até a mesa disponível para que ficassem um pouco até que resolvessem para onde iriam. — Alguém mudou o discurso? Pensei que tivesse dito que se continuasse a comer assim eu ficaria doente. E você não cuidaria de mim, isso conta como omissão de socorro? — Ele disse, de modo sério ainda que fosse uma brincadeira, elevando uma das sobrancelhas se questionando sobre a própria pergunta. — Aliás, não ficamos brigando pelo chocolate, nós dois sabemos que o último pedaço é sempre seu. Ou eu teria um dedo a menos se fosse o caso… — O que não era completamente mentira, pois Gus sempre cedia o último pedaço para a namorada.
Se ajeitou na cadeira, assim pegando o conteúdo do pacote que a loira tinha levado para ele, pegando logo de cara as batatas que mesmo um pouco amolecidas, Gus não se importou. Apenas daria atenção ao chocolate assim que terminasse a refeição de longe, nada saudável. A sorte do rapaz é que era atento e um pouco devagar enquanto apreciava as batatas, ou teria engasgado com a pergunta da loira. Que mesmo não olhando diretamente para ele, era bastante claro a intenção daquela pergunta. — O Jake? Acredito que ele tenha alguma coisa para fazer, não sei ao certo. Algum evento da faculdade ou grupo de estudo, estava um pouco distraído quando ele falou. Então, acho que tenho o quarto livre, por quê? — Ele perguntou, ainda que soubesse a resposta. Queria saber apenas o que Dorcas diria.
- Na verdade, meu plano era usar o desfibrilador para quase matar seu colega. Sabe como é, 300 volts não daria mais do que uma fibrilação ventricular, nada que eu não possa reverter, é claro. E as queimaduras, bem, isso serviria de lembrete para a próxima vez que ele deixar as coisas para última hora ou mal feitas. - seu tom era casual e clínico, algo que poderia assustar qualquer um que não conhecesse a loira. A verdade é que Dorcas amava o que fazia - claro, o cansaço, desgaste e perca da vida social eram efeitos colaterais bastante irritantes, mas nada superava a adrenalina de estar na emergência. E uma das coisas que mais fazia a loira se admirar com a medicina era o quão tênue era a linha entre curar e machucar alguém - não que ela fosse usar esse conhecimento em algo negativo, de forma alguma, mas ainda assim era algo que a fazia cada vez mais instigada a estudar.
Pretty face. Aquele nickname sempre fazia Doe sorrir e pensar em como as coisas tinham mudado desde que Gus o usou pela primeira vez. Era fato que a história dos dois havia começado de uma forma bastante similar aos filmes de comédia romântica adolescente que ela mesma dizia detestar, mas obrigava ao namorado a assistir com ela toda vez que havia algum título novo na Netflix. Porém, era fato também que o capítulo dois daquela relação não havia sido o mais saudável para ambos e parar para pensar nisso a fazia criticar a si mesma do porquê a demora em admitir seus sentimento pelo rapaz. - Ei, como ousa fazer tamanha acusação para com a minha pessoa. - respondeu exageradamente formal e falsamente ofendida. - Comer essas coisas não vão dar a você uma veia entupida, comer apenas isso é o que vai. E você sabe disso. - seu tom era um pouco mais sério, a má alimentação do rapaz sempre era um tópico de discordância entre os dois. - E é bom que estamos de acordo em relação ao último pedaço. - comentou por fim, ajustando-se ao lado do rapaz, que automaticamente pôs um braço sobre os ombros da loira.
Jake, Doe teria que gravar o nome do novo colega de quarto de Gus, pois ainda não o conhecia, mas provavelmente o faria em algum tempo próximo, até porque queria mostrar que havia alguém que se preocupava com ele e que Gus não estava sozinho. Não era ciúmes nem nada, mas era algo que havia aprendido com o seu irmão, uma forma de passar segurança e uma coisa era certa, os Meadowes sempre protegiam os seus. - Eu estava falando sério quando disse que sentia a sua falta. Quando foi a última vez que pudemos ficar juntos, só eu e você, sem que um de nós tivesse que sair correndo para trabalhar ou para aula ou para qualquer outra coisa? - questionou com sinceridade, não estava cobrando o namorado, até porque sabia que a maior parte daquilo era sua culpa, mas Doe não era de esconder as coisas que a incomodavam - pelo menos não com ele, pelo menos não em relação ao relacionamento deles.