Hoje eu conheci um casal de idosos, juntos a 37 anos. Ele estava internado e ela o acompanhava. Enquanto eu atendia ao lado, ela me contava sobre eles, seu aniversário de 71 anos é sábado agora, e ela dizia que só queria que ele voltasse para casa logo, para que eles pudessem comer pipoca e assistir juntos o jogo do Santos. E reiterou dizendo: "mesmo perdendo, o nome é santos né, a gente torce mesmo assim". Me contou também que eles nunca brigaram, que ele era tranquilo demais, e até quando ela era mais chatinha, ele continuava tranquilo. Ele não estava bem, apresentava muito desconforto respiratório, mesmo com suporte de oxigênio. Enquanto eu atendia o paciente ao lado, olhava os parâmetros dele, a frequência cardíaca oscilava, e a saturação era baixa. Ela foi pegar água para ele, e ele ficou chamando e procurando, e eu fui até ele dizer que ela já vinha. Ela passou a noite cuidando dele, antes disso ele estava em isolamento e não podia ficar com acompanhante. Mas essa noite ela estava lá ao lado dele, e pela manhã eu a vi ajeitar o cabelo dele, dar água para saciar a sede, me pedir para elevar a cabeceira, pra ele ficar confortável. Finalizei meu atendimento ao lado, e saí do quarto junto com ela, a enfermagem havia chegado para o banho. Ele descansou. Partiu em poucos minutos. E ela não teria mais a companhia dele no sábado a noite, nem dividiria mais a pipoca, e agora, quem ia torcer pelo Santos com ela?
E isso me fez pensar que talvez o amor seja isso: ter alguém para dividir a pipoca e torcer pelo time preferido sentados no sofá, mas o amor também é ter coragem de abrir mão desses momentos pois entendeu que para o outro, esse é o melhor. Amar é deixar ir, mesmo que doa muito em si, mas sabendo que todas as dores da pessoa amada foram retiradas naquele momento. E ele descansou, mas antes a amou com toda a força que tinha.