a hora de hoje é a mesma de amanhã
15:30
Ela caminhava pelas ruas ensolaradas apertando os olhos. O sol era forte demais. O bafo quente soprava o pescoço e ela tentava se manter em linha reta enquanto seguia seu caminho. Certa vez, leu sobre o que o caminhar de uma mulher dizia sobre ela. Poderia dizer, mas talvez ninguém entendesse. Ela não entendeu, pelo menos.
Sua prima elogiou o caminhar de uma mulher. “Ela anda cruzado”, e desde então tentava caminhar de forma cruzada, sem que os pés se encontrassem mas que os calcanhares batessem; sua luta era para equilibrar-se enquanto tentava. O sol era forte demais.
15:40
Mantinham a sala fechada porque talvez acreditassem que o ar-condicionado velho, que gritava para que o jogassem fora e respirava ar quente como forma de protesto, fosse aliviar o forno da rua. Fazia tantos graus que ela não sabia contar. Uma lagartixa era sua única companhia na sala empoeirada e cheia de mofo.
Vez ou outra alguém aparecia e lhe perguntava coisas. Ela não sabia responder porque ninguém lhe dizia nada, nem o porquê. Sua informação sobre o lugar era quase nenhuma. Lutava para não se desanimar.
15:51
Lembrou de um momento em que suas preocupações não a acompanhavam. Lembra não por saber, hoje, que é a última, mas por achar a situação engraçada. Para ela tudo era engraçado porque ela não sabia adjetivar nada.
Seu coração era feito de pneu de avião. Era resistente. Usado.
15:56
O calor molhava as costas. O suor escorria por seu corpo, trilhando um caminho de desconforto entre carnes mal cuidadas e pelos sobrando. Ela não fedia por pouco. Sentia os lábios secos, o sobre lábio molhado, o pé suado e a nuca pedindo um sopro. Abanar-se não era uma opção porque seria energia gasta e mais calor gerado. Tentava se manter parada.
15:39 outro dia ela sou eu, mesmo que, por vezes, negue. Não aguento mais fingir que a mentira não me abala, que a dissimulação não me afeta e que o descaso é mais uma questão para ser facilmente envolvida nesse novelo infernal e descuidado. Pastas, burocracia, descaso, calor. Calor. Calor. Calor. Um calor infernal. Falta água para beber, tomar banho, comer e sobra calor. É como se toda água tivesse sido evaporada pelo calor e só sobrasse o vazio quente. 15:43 sempre imaginei que o vazio fosse frio. Esse vazio que sinto agora é quente e apavora porque todo o vento, que seria alguma coisa, se mistura ao quente porque também é quente, tornando-se vazio, também. Vazio. Esse vazio tem cor e é marrom. O vazio é preenchido pela poeira seca que invade as ruas, o rosto, o corpo, a roupa. Deixa o rosto oleoso e ao mesmo tempo seco. O sol é marrom cor de poeira.
15:47 o tempo parece não seguir enquanto escuto gritos desesperados sobre situações que não dependem de mim para serem resolvidas. penso em abolir a vírgula porque ela me lembra o tempo que a gente perde com as coisas poucas, mas ao mesmo tempo vejo pessoas que engolem a concordância ocupando cargos complicadíssimos e sérios. é difícil ter seriedade nessa situação. meu vestido molhado gruda em minha bunda que gruda na cadeira que me gruda em um lugar que não queria ficar. é tempo ra rio.












