O #metoo , movimento social enraizado nas redes sociais, foi/tem sido muito impulsionado e orientado por Hollywood, e contribui para a visibilidade da problemática dos assédios e das violações sexuais no que isso pode trazer de bom para o seu pleno entendimento, discernimento, combate e continuação de procura da diminuição da sua incidência (e há registos de uma incidência/prevalência perturbadora de crimes sexuais na contemporaneidade como não havia outrora - creio que porque agora, felizmente, há maior abertura e visibilidade para isso, apesar de tudo), de minorar danos e melhorar mentalidades - em favor de justiça, ética e também maior (real/concreta) igualdade de género - mas por um lado pode também contribuir para uma abertura a eventuais penalizações (às vezes graves) antes de julgamentos e apuramentos concretos de factos e/ou culpas. Sabendo-se, lembre-se, que não é propriamente fácil chegar-se, várias vezes, a conclusões firmes sobre acusações no sentido de se (poder) fazer condenações, e sendo isto problema intrínseco a este tipo de crimes - e conforme denúncias (a altura em que são feitas e possíveis/potenciais provas, ou ausência de provas) - mas também não só. Não esquecendo que se deve partir da premissa democrática da presunção de inocência. Mas é um facto: as estatísticas apontam uma pequena minoria de falsas acusações. Mas depois, Hollywood (e outros meios da fama) vive muito de visibilidade, de público, e de famas e reputações. Quando alguém nesse meio, ou meio semelhante, perde isso, quando é acusado e/ou difamado ("difamado" para os (poucos, mas existentes) casos em que não há - factualmente/verdadeiramente - uma culpa de um crime), mesmo que não perca "emprego" [e tanto quanto me apercebi (/sei/li) alguns (culpados e/ou não culpados) têm perdido, de certa forma pelo menos, alguns empregos, e tendo em conta os processos e acordos judiciais e litígios e etc em que ficam envolvidos (atenção que eu, do ponto de vista de "um profissional" na/da área (que não sou), sei que sei pouco ou quase nada destas coisas], ou perca "apenas" temporariamente, fica à partida e no mínimo, com uma nódoa feia e complicada ou impossível de limpar. Os famosos não são, veja-se, anónimos/desconhecidos, e coisas pelas quais são julgados, às vezes muito bem julgados (no sentido em que há condenações e penas ou multas/indemnizações bem aplicadas) não significa necessariamente que isso seja plenamente transposto/semelhante para a população no geral (umas vezes feliz outras vezes infelizmente), consoante sociedades e contextos sociais e recursos. Mas sim, é bom que haja exemplos e que as pessoas se unam contra o que está mal, contra o que é ou foi condenável, que dêem força a esta luta, exemplos do que é crime e do que não é, do que é um comportamento aceitável daquilo que não é um comportamento aceitável, do que se deve evitar, julgar e/ou "combater". Será que o #metoo pode contribuir largamente para uma mais abrangente melhoria de mentalidades (e por consequência, em princípio, comportamentos também)? Esperaríamos ou esperemos ou esperamos que sim. Mas repare-se numa coisa que pode parecer óbvia mas que às vezes pode escapar ao pensamento: não percepciono uma pessoa acusada de violência/crime sexual da mesma forma que antes percepcionava depois do momento em que a sei ser acusada disso. Mesmo que, lá está, a pessoa até nem esteja acusada formalmente (nos ditames e burocracias da Justiça, às vezes injustas ou talvez também pouco funcionais) pela vítima. A minha percepção sobre uma determinada pessoa, mesmo que "apenas", ou antes "sobretudo", influenciada pela opinião/praça pública (onde às vezes alguns casos são mais debatidos, discutidos e "punidos"), altera-se, mesmo que não automaticamente/instantaneamente. E isso pode servir interesses. Sabe-se que essa mesma praça pública costuma conter diversidade de visões e opiniões. E também muito ruído e populismo e tanta ou mais demagogia que a de muitos governantes. A combinação das múltiplas opiniões das praças públicas e o "pensamento em massa" pode interferir/influenciar, de alguma forma, o funcionamento da Justiça. Para além de contribuirmos com ruído, contribuímos com um outro tipo de condenação, como que linchamento, "a priori". Às vezes os linchamentos são contra as próprias vítimas (sejam famosas ou não), e isso é perverso e sintomático de alguma coisa errada no geral. Às vezes só são opiniões pouco informadas, pouco formadas, ou simples "postas de pescada". A que também temos direito, ressalve-se. Devemos procurar aceitar alguma flexibilidade perante confronto de opiniões e argumentos, e não partirmos do princípio de que estamos sempre ou quase sempre certos, por muito inteligentes e esclarecidos que sejamos ou nos achemos ser.
As opiniões podem ser apresentadas objectivamente e não se dissociar de um grau de subjectividade, pensando em comentários/funcionamento de redes sociais, por exemplo, e aliás, daquilo que no fundo faz parte do conceito de "uma opinião", a natureza subjectiva em muitas matérias/assuntos. Depois, também: mesmo quando haja casos apresentando semelhanças entre si, acho que devemos procurar não varrê-los todos para debaixo do mesmo tapete, ou agrupá-los todos como farinha do mesmo saco. Quer no que toca a discuti-los (pelo comum cidadão, quando com o mínimo de seriedade), quer quanto à aplicação de penas, que estarão de acordo com quadros/enquadramentos legais. Casos de Justiça de famosos/celebridades (que já o eram antes desses seus casos, digamos assim) parecem-me acarretar aquilo que devia ser uma mínima responsabilidade cívica por parte dos cidadãos (que não se vêem no mesmo grau de exposição mediática) e pela forma como são tratados nos media no geral, também pela repercussão nas mentalidades e comportamentos sociais das pessoas (que estão a par dos casos e dos debates sobre estas questões) que pode acabar por ter de curto a médio e longo prazo. Quero ainda dizer que um movimento social que me parece ter sido inicialmente pensado com as melhores das intenções pode acabar por fazer (também) danos colaterais pouco saudáveis, tanto a nível específico (de pessoas específicas, de vítimas e culpados ou inocentes) como a nível geral (nomeadamente efeitos sociais perversos). Haja verdade, justiça da boa, apoio e defesa das vítimas (seja de que tipo de crime for) e de pessoas oprimidas (seja de que forma for). E sexualidade saudável. E haja sensatez, equilíbrio, ética e consciência. E haver o referido "ruído" de opiniões é um sinal de que há espírito democrático em funcionamento, de que as pessoas expressam, manifestam e confrontam as suas opiniões, ideias e argumentos. O que me parece bom, mesmo que às vezes possa ser ou parecer incómodo para alguns e/ou em algumas situações.