Hyperthermia ✰ Nelena
Ela não se deu conta de que estava mesmo chorando até que ele dissesse. Uma das características mais marcantes da Yandell era o controle que ela conseguia ter sobre sua mente e suas emoções, e o que estava acontecendo? Ela estava simplesmente cedendo e chorando na frente de Nate. Sequer conseguia se lembrar da última vez que havia chorado ou demonstrado qualquer emoção daquele tipo na frente de mais alguém. Aquela não era ela. Ela não estava mais se reconhecendo, e não havia nada que a assustasse mais do que o pensamento de que talvez ela estivesse se perdendo. Talvez só um… Aquele que relacionava Nate à palavra com a. A maldita palavra que ela não conseguia dizer nem em pensamentos. Que ela evitava com todas as forças. E que ela sabia que não conseguiria mais evitar se ele continuasse ali, com ela, preocupado, tão próximo…
Ao ouvir as palavras dele, se concentrou em parar de chorar. Conseguia fazer aquilo, já havia feito em situações piores. 1… 2… 3… Ela quase podia sentir o choro voltando para onde quer que ele havia vindo, mas mesmo assim uma lágrima teimosa escorreu, sendo secada por Nate. "Eu poderia fazer uma lista" disse sorrindo tímida, com a voz incrivelmente controlada para quem havia acabado de desabar em lágrimas. Sentiu uma impulso extremo de acariciar as bochechas coradas dele, mas no clima de autocontrole, não o fez.
Abaixou o olhar por um momento, levantando-o logo em seguida quando o ouviu começar a falar. Não tinha certeza sobre o que falaria, mas já estava prestes a falar quando ele pediu que ela esperasse. Piscou algumas vezes se recompondo enquanto ouvia ele falar. As palavras vinham rápido, mais rápido do que ela conseguia processar. Ela queria dizer que era exatamente daquele jeito que se sentia, mas nunca conseguiria expressar tudo aquilo de uma forma tão simples e sincera. Nada era tão fácil com ela. Quase interrompeu Nate quando viu que ele estava se atropelando com as palavras, e mais uma vez teve vontade de chorar. Ele, ao contrário dela, estava se expressando de uma forma tão linda e tão… sincera. Ela poderia ter dito algo consolador, podia ter dito alguma coisa muito sábia, ou podia beijá-lo naquele momento (Deus, como ela poderia), mas aquele "você me faz tão bem" tirou qualquer fio de pensamento racional que ela tinha por um instante que pareceu uma eternidade.
Então ela se levantou, quase em um pulo, com medo de que efeitos toda aquela proximidade teria. Tudo aquilo que ele estava dizendo… ela não costumava duvidar, mas era mesmo o que ela estava pensando que era?
"Nathaniel" começou, sem se sentir culpada por usar o nome dele. "Eu queria conseguir falar tudo o que eu penso como você acabou de fazer. Eu queria conseguir mostrar o que eu sinto dessa forma simples, mas nada é fácil quando se trata de mim. A verdade é que… Nem eu sei mais como eu me sinto. Tudo o que eu sei, Nate, é que eu tenho vivido em dois extremos que estão me matando aos poucos. É como se eu tivesse duas opções de tortura e tivesse que escolher uma. Não é natural, eu não sei lidar com isso. Eu não sei lidar com esse sentimento” despejou, sentindo que pela primeira vez conseguiria falar realmente o que estava na sua cabeça. "Quando eu estou longe de você…" começou, respirando fundo e levando a mão à testa. "… é frio. É como se cada ação se tornasse mais difícil, é como se eu estivesse congelada. É escuro, gelado, e dói. É como se eu estivesse paralisada em um estado de hipotermia" disse, escolhendo cada palavra com cuidado. "Quando eu estou com você, por outro lado, é quente. Eu sinto que posso entrar em combustão a qualquer momento, tudo se torna inflamável. Estar ao seu lado me deixa com febre. Poderia ser diagnosticado como hipertermia" terminou, olhando para ele com um olhar meio suplicante. "E eu sei que eu vou ter que escolher um deles mais cedo ou mais tarde" disse, fechando os olhos com força. Àquele ponto, esperava que Nate já tivesse desistido e ido embora. Mas ainda conseguia ouvir sua respiração descompassada a alguns metros de distância.
Nate ouviu o discurso da moça com pouca atenção, prestando mais atenção em como ela estava psicologicamente do que nas palavras em si, aos poucos sua postura hesitante saindo e deixando um ar curioso. De imediato, o que ela dissera não fazia sentido nenhum pra ele. Ele tentou encaixar aquilo no momento, mas realmente não estava absorvendo. Parecia que ela estava soltando um monte de palavras a esmo, e elas não eram coerentes entre si. Talvez fizessem em alguma poesia bonita e romântica, mas numa situação como aqu-
Perai. Ela não tá dizendo...
E foi nesse instante que a ficha pesada de Nathaniel Levin Edwards finalmente caiu.
Era claro! Tudo o que Helena havia dito ali o havia feito pensar na possibilidade, e analisando bem, qualquer um poderia enxergar o que estava acontecendo ali; ele ainda não entendia como havia deixado algo de tal porte passar. Tudo se encaixava: a constante invasão da morena em seus pensamentos, aquele instinto irritante de querer dividir tudo o que lhe acontecia com ela, a tomada dela como ponto de paz, ter sentido tanto a falta dela... Realmente, não era natural para uma pessoa normal, e apenas agora notara o quanto seu subconsciente estava ciente disso, ao rever todas as palavras que proferira segundos antes. Ele próprio havia dito tudo ali, colocado em palavras e proferido para Helena, e mesmo assim não havia se tocado. Até agora.
Era óbvio. Ele estava apaixonado. Não, mais que isso. Agora que estava tudo clareando em sua mente, o rapaz podia afirmar com 100% de certeza que amava aquela mulher.
Era tão evidente que Nate se sentiu mal por ter demorado tanto para se tocar. Ele era sim uma pessoa lenta, mas sempre havia limites. Era realmente constrangedor, e tudo o que ele queria fazer naquele momento, após ouvir as palavras de incentivo e inibição dela, era beijá-la ali mesmo. Mas tinha uma leve impressão que talvez levaria um tapa caso fizesse isso, e talvez não fosse a melhor das ideias.
Seus pensamentos foram acometidos pela ideia que estava sendo sugerida no ar. Ele começou a fantasiar sobre momentos que poderiam ter tido juntos caso ele não fosse tão tapado. Ele mal podia se expressar para pensar em quão satisfatório seria poder tê-la pra si sem barreiras, sem restrições. Em como seria bom abrir um pouco mais os horizontes das brincadeiras que dividiam, e poder dividir cada segredo sem culpa. Poder contar inteiramente com ela, sem medo e timidez, e também estar pronto para oferecer o mesmo à ela. Poder deixar seu instinto cavalheiro voar livre, e leva-la para seus lugares favoritos, terminando a tarde de um jeito divertido e depois fechando com um jantar reforçado. Em como seria reconfortante saber que ela sempre passaria a noite com ele, e não indo para uma boate e terminando a noite na cama de um desconhecido. Admitia, era um trouxa, mas por um momento, ele quis que isso se tornasse realidade com uma intensidade que nunca experienciara antes. É, ele realmente estava perdido, e minutos atrás mal havia se dado conta disso. Mas sem dúvidas, a imagem de Helena todas as manhas ao seu lado lhe dando bom dia com um gesto carinhoso era uma das melhores que ele já tivera na vida, e ele com certeza poderia se acostumar com aquilo. Seria bom para ele, no mínimo.
Por um instante, ele estava feliz. Mas logo, um fluxo louco de emoções conflitantes invadiu sua mente com perguntas e dúvidas, que fez com que ele ficasse aéreo por uns instantes. A gravidade do que Helena dissera estava agora batendo com força na parte de trás de seu cérebro, e ele estava ficando atordoado. Pelo o que ela dissera, ele não podia dizer com certeza se estar perto dele para ela era algo bom, e sabia que havia a possibilidade de sua breve epifania ter vindo um pouco tarde demais. Olhando para trás, agora ele podia apontar inúmeros ocorridos em que ele podia ter deduzido alguma coisa, mas simplesmente tomou como outra coisa. Agora ela podia talvez estar cansada de esperar uma iniciativa da parte dele, e ele realmente podia entender o porque dela própria não ter tomado nenhuma. Ele mesmo não sabia como agiria caso estivesse no lugar dela: uma garota que não aparenta querer nada além de uma amizade forte. Era horrível, e se caso tudo desse errado, o único culpado ali seria ele.
Mas ele mal tinha certeza de nada, e tinha que se lembrar que aquelas eram apenas suposições que sua mente em estado de pânico estava fazendo. Talvez ele ainda tinha uma chance com ela, e ela disse que não conseguia escolher. Ele tinha que se agarrar àquela possibilidade, e foi pensando nisso que ele deu um passo para frente, meio acanhado, parando de encarar os próprios pés e olhando para ela no fundo de seus olhos, tentando ver se conseguia deduzir qual seria a resposta da pergunta que estava prestes a fazer por tentar ler nas entrelinhas daqueles olhos geralmente azuis, que agora, por algum motivo, tinham um brilho verde forte. Helena era importante demais para ele, e ele temia o momento que ela talvez o negasse. Ele não saberia como reagir, e depois disso, não saberia mais como conviver. Havia passado por tantas situações, abrido mão de tanta coisa, visto tanta gente... Para tudo o guiar em direção à grega que sabia mais sobre ele do que ele mesmo.
Respirou fundo, tomando cuidado para sua voz sair clara e firme, não sendo completamente sucedido nessa ultima parte. Piscou uma vez, já se preparando psicologicamente tanto para o bem quanto para o pior. “E qual você escolhe?”













