misericórdia. tenho pensado em palavras e verbos, palavras específicas que aparecem na minha mente e que até então não havia destrinchado suas ortografias e sonoridades.
mi se ri cór dia. pronuncio sílaba a sílaba em voz alta e tento decifrá-la sem antes pesquisar seu significado no dicionário.
o padre abriu a mensagem da missa de hoje usando esse vocábulo e explicando que ele deriva da palavra miséria, algo como ter dó da miséria.
deus teve misericórdia dos funcionários da mão brasileira ontem.
relembrando: trabalho numa loja focada em vender arte popular brasileira e livros hiperfaturados dentro de um museu/centro cultural/como queira denominar. minha função, antes de atender de modo inconveniente pessoas que só estão ali de passagem - dando informações que elas não perguntaram e talvez não perguntariam - é vigiar tudo e todos para que nada saia do lugar e nada seja roubado.
hudson ricardo, meu colega de trabalho, pediu demissão e está vivendo os últimos dias de nosso inferno fabril. fiquei muito feliz com a decisão dele porque já vínhamos construindo análises dos nossos dias e concluímos que é insuportável conviver nesse ambiente que nos proporciona as experiências mais desconfortáveis com o outro, nos desgasta mentalmente, não permite que criemos vínculos com quem passa e nos mantém estagnados num espaço de tanto movimento. percebemos que sempre soubemos que aquele salário, apesar de ajudar, não nos sustentaria financeiramente e profissionalmente, que esse lugar tinha prazo de validade em nossas vidas e caberia a nós entender a data de vencimento. ele me pediu pra jogar tarot sobre o futuro, compreender melhor o que tava acontecendo na sua cabeça e as possibilidades, quiça destinos, que o mundo espiritual tem preparado para ele. o feedback que recebi após a leitura me deixou satisfeito, não só porque as situações que eu tinha visto se cumpriram rapidamente (num futuro que agora já se é passado) mas porque ele disse que eu trouxe conforto a ele. a maneira que eu expliquei como eu via o jogo deu uma calmaria e aprofundamento para que ele pudesse refletir de uma nova maneira sobre tudo que o deixava nervoso.
somos 5 funcionários, o gerente (pedro) que faz dois turnos, eu e hudson no mesmo horário vespertino, thiago e ton no que chamam de turno da manhã, que ironicamente termina entre 15h-16h.
a saída do hudson traz imprevisibilidade maior para as semanas que virão - em relação ao funcionamento da loja, pode gerar horas extras para alguns de nós e mais dificuldade para montar a escala, ajustar as folgas e etc. o que fode com tudo é que o pedro (gerente) tem uma resistência em contratar/contatar, o que eu arrisco a chamar de uma atitude de arrogância, de querer selecionar “bem”, sempre julgando os aspirantes de uma maneira estranha sem sequer conversar com essas pessoas, as vezes por achar que está no suprassumo do mercado de trabalho, as vezes por insegurança em lidar com adultos mais maduro? o que importa é que agora estamos no meio de um grande mistério de quando conheceremos o substituto do hudson. tenho dúvidas se isso será resolvido de forma rápida.
e eis que deus teve misericórdia e ontem um rapaz chegou para apresentar seu currículo.
de primeira, ele perguntou se era preferível entregar a versão física ou online, porque ele já estava sem currículo impresso. pedro falou que não fazia diferença, indicamos onde ele encontraria gráficas e serviços parecidos e ele voltou minutos depois com a folha nas mãos. Ramon. ele se apresentou, apertou nossas mãos, entrou interrompendo um assunto meu, não lembro qual. o museu anda lotado por causa de uma exposição da turma da mônica, mas a loja não tem vendido nem mais e nem menos. tem servido pra ficarmos mais tempo em pé, mais tempo em silêncio e mais tempo observando, trazendo muito estresse na parte mais pra noite, mas enfim, assunto pra outro e-mail.
achei o menino bem simpático. ele é moreno, alto, bem novinho, nasceu em 2002, disse que trabalha desde os 12 anos, falava de uma forma respeitosa e educada, cumprimentou a todos, apertando a mão, vestia calça jeans mas poderia estar de blaser e calça social pelo jeito que se direcionou a nós, como um vendedor.
pedro tentou fazer uma semi entrevista com ele, e eu fiquei atento. classifico como cômico os diálogos de ambos. é engraçado porque agora que conheço o pedro há quase 1 ano eu posso afirmar que tenho uma visão completamente diferente da pessoa que eu achava que ele era. não apenas por implicância e desgosto, e mesmo entendendo todas as limitações dele - de estar no primeiro emprego, trabalhando com o público sendo uma pessoa pouca sociável e segura de si, ganhando a oportunidade de estrear um cargo aleatoriamente, sem tempo para se aperfeiçoar, sem experiência, com uma rotina exaustiva por morar longe - fico muito incomodado com esse ar esnobe que ele carrega no peito, a pretensão de usurpar uma inteligência e intelectualidade que ele sequer consegue sustentar por mais de duas conversas. achei bizarro ele não conseguir explicar a rotina para uma pessoa que tava interessada em trabalhar, seja onde fosse, e que aparentemente não conhecia o CCBB e nem a loja. e tudo bem, é difícil de entender ao que a loja se propõe quando ela tá deslocada da própria realidade, começando pelos produtos que oferece e o espaço social em que está inserida, destoando do que se espera de uma fastshop dentro de um centro cultural e ancorada numa falsa “chiquesa” que só se reflete nos valores inventados para cada item exposto. não aguentei e me meti no papo para deixar evidente duas informações: existem dois turnos e quando trabalhamos domingo, trabalhamos o dia todo. acho que as pessoas precisam saber onde estão entrando e sempre que alguém lá diz a frase “folgamos duas vezes na semana” anestesia o significado da rotina, não é assertiva sobre o funcionamento do estabelecimento, e essa explicação simples e corriqueira pode num futuro se estender a justificava de “pelo menos…”, que reverbera-se na inércia de continuar ali.
pedro olhou o currículo rapidamente, perguntou se o ramon estudava e ele respondeu
me assustei. pensei que ele tivesse concluído a faculdade e senti inveja. e aí o jeito que ele completou a resposta me deixou mais decepcionado do que assustado. ele disse que fazia tempo que tinha acabado, que acabou aos 17. esse choque de lembrar que existe uma realidade em que as pessoas ainda enxergam o processo de estudar como processo finito, vinculado unicamente à escola, somado com a angústia de ver um menino tão novo atender essa pergunta de uma forma tão rápida e básica, me passando essa energia de ausência de perspectivas. ele quer um emprego e é isso. só isso.
ele também contou que trabalhava em eventos, não explicitou qual tipo de evento e nem o que fazia, parecia realmente ão saber onde estava, só entrou e foi entregar o currículo. pedro contou que a loja é especializada em artigos de arte quando o ramon, enquanto bisbilhotava os itens ao redor, com o olhar meio perdido disse “aqui é um tipo de livraria”, afirmou que estava buscando ser CLT pela estabilidade e que qualquer outro trabalho que surgisse ele toparia, chegou a pedir pra gente indicar ele pra qualquer bico, ou recomendar alguma coisa que ele pudesse tentar. sugeri que ele buscasse buffet de festa infantil na zona sul antes de saber que ele mora em santa cruz da serra. ele disse que está de mudança mas não ficou claro se é uma mudança pra outra região do rio ou se vai apenas trocar de casa.
sobre o pedro é interessante reparar, agora que o conheço, a sensação de que todo homem é digno de uma “sútil” investida, assim o discurso dele tá sempre cambaleando entre curiosidade e flerte, e com o ramon não foi diferente. assim que ele saiu da loja, pedro sorriu pra mim e disse que achou o garoto fofo. ainda durante a interação deles, o pedro virou e disse “você parece ser muito calmo”, numa falta de assunto, exaltando a necessidade de mostrar que o estava avaliando, construindo percepções sendo que não tinha nada ali para ser analisado. as falas foram tão rápidas e rasas que não era possível inventar adjetivos gratuitamente, tampouco era uma maneira de despertar reações. ramon respirou muito fundo, olhou pra cima, demorou uns segundos - não tô dramatizando, foi super assim mesmo - e olhou para o pedro e respondeu “é a experiência, é a experiência… a gente vai aprendendo. profissionalismo”. se não me engano, ele teria dito explicitamente que não era calmo antes de repetir a palavra profissionalismo pela segunda ou terceira vez.
fico pensando agora em perguntas que o gerente podia ter feito ou deveria fazer. e sinceramente, não é obrigatória nenhuma habilidade para exercer qualquer função ali. o ramon deixou claro que tinha experiência com o público, mas atender idosos solitários, jovens ou família nem é o nosso grande problema. o difícil ali é aturar o humor volátil do dono que tá mais interessado que a gente atenda às expectativas de comportamento dele que não fazem o mínimo sentido e que não agregam nossa formação. não há nada para aprender uma vez que os colaboradores decoram ao menos o nome de três etnias indígenas e suas respectivas localizações.
e assim vejo que ramon e pedro estavam muito bem cumprindo seus papéis nessa encenação. um aspirando uma eloquência e seriedade para ser convocado a retornar com a carteira de trabalho e o outro performando a importância de um cargo que na prática não exerce.
não tenho nada a dizer do ramon além do que já contei neste texto. se ele tiver precisando muito, espero que deus o conceda esse emprego. e se ele não estiver afim de pensar em estudar, se o único interesse for ter qualquer quantia em dinheiro, acho que a loja pode ser o lugar ideal pra ele. eu, por exemplo, estou numa luta há uma semana pra terminar de ler um capítulo de um livro. nunca mais houve silêncio e paz para pensar.