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@elkermit
si solo veo por mí, solo me priorizo a mí como voy a generar un vínculo real con una pareja el y quien me va a sostener a mí en el día que yo no esté cien por ciento?
a vida que vivo hoje eu jamais achei que eu pudesse viver. algumas músicas que escuto me remetem ao passado ao mesmo tempo me fazem perceber que nem nos meus maiores sonhos eu acreditava que eu poderia trilhar meu próprio caminho, fora da minha cidade, longe das pessoas que me trouxeram até aqui indiretamente e diretamente. escutar mais uma vez cada faixa me faz acreditar que eu ainda tenho muito a viver. que eu sou tão pequeno perto dos sonhos que estão reservados espiritualmente pra eu sonhar. me traz uma esperança, em vez de uma tristeza ou saudosismos porque há tanto a aperfeiçoar e há tanto a descobrir, e olhar para traz só me fortalece. me mostra que eu preciso pegar cada ensinamento, cada coisa que odiei e tirar de vez da minha vida e ampliar cada possibilidade positiva que foi germinada ali, cada assunto ou interesse que me motiva pode ser meu se eu quiser. tudo que eu quiser eu vou ter, isso me foi dito mais de uma vez e está cada vez mais se aproximando o movimento de experienciar as vitórias, uma a uma. cada vitória eleva a crença na minha intuição. eu não tô aqui de passagem, eu até aqui pra confirmar minha trajetória.
às vezes penso nos motivos de não te deixar ir. sei que você não me deixa também. sei que o que vivemos juntos foi ótimo, foi sincero, mas inconsciente. se tornou um problema a partir do momento que percebemos o quanto já tínhamos ultrapassado os limites do normal, do que você estava disposto, da maneira que eu me relacionava. tudo daí pra frente é mais dolorido porque envolve lidar com novas questões, questões que estamos cientes que vão surgir. interfere nos limites e exige limites. evoca futuro. precisa-se pensar num futuro pela primeira vez, logo para nós, que em medidas diferentes, vivíamos a mais profunda e difusa depressão de não querer seguir, de não conseguir respirar, mas sobrevivemos e sabemos que ainda temos algo para resolver em dupla, em casal, no amor. eu escolho, hoje, viver isso que precisamos viver, sem renunciar minhas decisões do que é justo para o meu corpo, pra minha mente, mas aceitando que minha existência depende de você nesses momentos, nessas resoluções.
usar meus momentos de introspecção e retenção social para ampliar as bases do amor que tenho por mim.
readaptar
entre tantas coisas que o mês de janeiro me presenteou, queria destacar as redescobertas.
meu primeiro e-mail de 2026 poderia abordar qualquer outro tema, e todos os que me vieram na cabeça estão pela metade e salvos nos rascunhos, são assuntos que quero enviar no futuro, e que sempre que eu tentava dar prosseguimento à escrita, eu modificava e acrescentava novas recordações ao ponto em que as conclusões estavam se estendendo bem mais do que eu previa de início. tô cometendo a loucura de escrever bíblias maiores, e isso é interessante, porque vejo cada mensagem tomando um rumo diferente e até um estilo literário diferente. notei que eu tenho me limitado a não contar coisas mais corriqueiras e pequenas, acho que estou inconscientemente criando uma regra para esses envios, o que fez enviar o primeiro do ano somente hoje. por outro lado, tudo que tenho vivido desde a última vez que digitei via outlook é bastante comum, assim tento me esforçar para não soar repetitivo, e as reflexões que eu poderia extrair dessas situações básicas me fariam ter que terminar os assuntos que já estão pendentes e que ainda não posso e nem consigo, mas eles virão, prometo.
como meu sábio amigo ton me disse uma vez, (parafraseá-lo-ei), escreveremos quando nos tocar na alma, quase como um susto ou uma entidade. e esses textos, até serem finalizados, passarão por -leia em negrito- READAPTAÇÕES.
aprendi na época que estudava letras que um texto nunca está totalmente acabado, ele pode ser reescrito mil vezes e a cada revisão alguma palavra ou parágrafo pode incomodar. muito provavelmente, se qualquer um de nós buscar reler qualquer escrito antigo nossos, encontraremos a frustração de perceber que ele não é tão bom quanto achávamos que era em termos de comunicação. tanto pela nostalgia quanto pela falta de repertório textual e de vida ficaremos triste por não nos identificarmos totalmente - e tudo bem. quando invento de enviar algo antigo pra uma pessoa, passo por uma crise de vergonha por querer encontrar um material que não me exponha demais mas que esteja escrito bem o suficiente para que a pessoa possa ver meu potencial e entenda quem sou no momento que compartilho essa pessoalidade. um objetivo inalcançável. digo isso porque textos também pode ser comparados à fotografias antiga. é parte de quem fomos e não necessariamente de quem a gente é.
toda essa aprendizagem sobre processos inacabados passou a fazer ainda mais sentido no meio que estudo hoje, em que cada trabalho faz parte de uma pesquisa artística e explica meu processo e resultado. talvez gere menos vergonha ao serem divulgados por serem produções mais abstratas até quando são figurativas.
enfim, tudo que passei por esse mês reacendeu esses encadeamento de ideias: não estou vivendo nada de tão novo ao mesmo passo que jamais cometeria o erro de dizer que tudo está igual, que estou vivendo o velho. é como se eu estivesse mexendo nessas fotografias pelo photoshop e estivesse deixando claro cada modificação por escolha estética.
desde que entendi quem sou e desvendei parte minha personalidade, posso me definir como guilherme, e sou o mesmo guilherme desses últimos anos, mas sou uma nova versão desse novo guilherme. e perceber essas micro-mudanças internas é desafiador e gostoso. é como se eu estivesse em novas etapas de todas as questões que eu vinham elaborando e professando. sinto que estou pisando num novo degraus delas, apesar de serem as mesmas. o termo “ano novo” talvez nunca tenha me caído tão bem quanto agora.
eu estava sem encontrar com a amanda há mais de um ano. tínhamos nos visto por vídeo algumas vezes e trocado mensagens. sinceramente, não sei como manter uma amizade à distância, estou focado em ficar menos tempo no telefone, não tenho quase nenhuma rede social e as que tenho ela não utiliza, logo seria meio difícil a continuidade de conversas. com ela, especificamente, sempre entendi que nos veríamos quando tivéssemos chance e que seria ótimo, talvez até igual ao que era. pretensioso, né? eu não estava tão por fora da vida dela e nem ela da minha, mas não conviver nos faz perder nuances. estou morando numa casa diferente, ela também, frequento e ando com pessoas diferentes da época em que vivíamos juntos bebendo e fazendo compras no shopping, e tenho um trabalho e uma rotina bem diferente, ela também está com outras vivências para todos esses campos. foi engraçado que apesar das expressões nítidas de que o tempo passou, ainda usamos o passado como muleta de continuidade de gostos ou comportamentos. a amanda ainda utilizava meu antigo vício por nuggets como sinônimo do meu modo de alimentação, quando na verdade eu dificilmente consumo nuggets, tinha dificuldade de entender que eu cozinho as vezes e que como refeições normais quando estou na rua e outras coisinhas pequenas que me fizeram lembrar que ela realmente me conheceu, sempre soube da minha rinite crônica e acha icônico meu lencinho para possíveis espirros e coriza, por exemplo.
foi legal ver que ela estava orgulhosa com os trabalhos que fiz na faculdade e que eu ainda estava investindo neles, já que quando ela estava no rio eu fugia de qualquer coisa prática. ver que ela se identifica e gosta das coisas que faço e penso artisticamente me deixaram igualmente feliz. tinha dado uma versão de uma vertigem impressa em papel fotográfico para ela e como ela acabou voltando pra são paulo com pressa, num momento que eu estava trabalhando e nem pudemos nos despedir, jurava que ela podia ter esquecido minha arte aqui, mas enquanto organizava minha cômoda, tive a certeza que ela não a deixou para trás. até imaginei ela fazendo questão de levar!
fui pego por esse gratidão de que nossa conexão está realmente firmada e nos dias seguintes esse sentimento se estendeu para tudo que me envolve atualmente: percebi que tenho mais pessoas do que eu achava que eu teria a essa altura da vida e que elas estão na minha vida há bastante tempo. tempo suficiente para eu querer me adaptar a elas sempre que possível. foi muito bom ouvir algumas das histórias que perdi e entender um pouco do que ela aprendeu nesses anos.
ver o outro crescer em diversas fases e não poder participar ativamente de todas também pode ser um pouco doloroso. a ausência de assistência aparece nas pequenas coisas e isso sutilmente incomoda. as tatuagens que ela fez e que eu não sei o contexto, se foram planejadas com antecedência ou não, o namorado-marido que eu mal conheço por nome, os novos produtos que ela consome, o interesse relâmpago por cursar enfermagem e todas as pessoas e histórias que ela conheceu e contou desde então. tem um pouco daquela vontade de permanecer com a imagem antiga que temos da pessoa e enquadrar as atitudes antigas nas histórias novas, sem recusar os fatos inéditos, mas no fundo, preferindo que eles não existissem para não interromper o perfil que você já estabeleceu na sua cabeça. ela poderia citar momentos que fui paranoico e inseguro em 2022 e eu poderia citar momentos que ela foi possessiva e isso não explicaria nada, apenas reforçaria esse poder do saber. e divertidamente fizemos isso alguma vezes, apontando situações pra dizer “ela é assim” porque isso também preenche as lacunas, independente de haver ou não uma mudança efetiva. é como encontrar um ímã novo na geladeira velha, você lembra que ele não estava grudado nela e não estava quando ele foi colocado ali, porém você conhece muito bem a geladeira!
é sobre se readaptar a essas novas informações.
essa obsessão por mostrar que conhecemos as coisas talvez persiga nossa sociedade carioca, meu local de fala.
lembrei de um amigo de infância, o Geovani-Juninho, que gostava de tirar vantagem em tudo, de fingir ter mais idade e de ter um repertório maior de qualquer coisa, mesmo que isso significasse inventar informações. teve uma vez que ele me mostrou uma música do cd da trilha indiana da novela caminho das índias e me contou a tradução da música, como naquela época era difícil checar imediatamente qualquer dado, eu acreditei cegamente. anos antes, juninho também me disse que o nome do pai da juliana silveira, a floribella, era júlio silveira. enfim, na nossa dinâmica de amizade estava incluído ver filmes e contar o que acontece no filme antes de acontecer. não sei explicar, só sei que isso era pura mágica, dava um ar de superioridade para quem detinha o poder do spoiler, o conhecimento de mundo, uma prepotência de não ser surpreendido por nenhum diálogo ou plot twist em um tempo em que gastávamos minutos revendo os mesmos filmes por hobbie. o passatempo desse final da nossa era infantil estava baseado em assistir um filme ou programa e contar para outra pessoa e ter a experiência de ver com ela o que você já viu, muitas vezes com ela sabendo o que vai acontecer porque você já teve a oportunidade de contar. acho que eu e a amanda reproduzimos situações parecidas com as minhas e do juninho, sem as mentiras e com temas mais sérios, óbvio, mas mantendo essa intenção de tentar prever gestos e falas.
voltando a falar sobre minha querida amiga, eu havia esquecido o quanto nossa amizade sempre foi sobre trocar sobre o presente, o passado e refletir juntos sobre o mundo, sobre o outro (e os outros) e sobre a gente mesmo, individualmente ou coletivamente. DRs do bem, DRs sobre tudo e com nenhuma intenção de ferir. eu tinha esquecido o quanto nossas conversas sempre foram acolhedoras e resolutivas. conversar requer confiar e essa confiança é intensificada quando não existe medo de ser ou dizer e a amanda sempre me reforçou esses cânones da vida humana com seu companheirismo. fiquei animado quando ela falou que viria porque lembrava de todos os momentos de diversão e risos, mas havia esquecido o quanto nosso encontro sempre foi espiritual. sempre tivemos uma comunicação muito aberta e ela é muito responsável pelo jeito que eu me expresso. ela está nesses e-mails mesmo não tendo acesso a eles - inclusive, ela achou hilário quando eu mostrei que eu e o roberto estamos trocando mensagens de parágrafos enormes por aqui. perguntou se não temos o whatsapp um do outro. - bom, eu só não esperava que deus fosse falar tão fortemente com a gente nesses dias. fomos bizarramente tocados além das mensagens que o tarot tinha para nós e fico contente de ter visto tudo isso de perto. era sobre a nossa permanência na vida do outro, mas também me serviu como lembrete de que recomeços são importantes, que valem a pena quando a gente sente que aquela pessoa não está aqui de novo só por estar.
existem relações que não se explicam e se atualizam quando menos esperamos, e eu quero aproveitar as oportunidades de comunhão que a vida está me dando com quem importa. esses encontros precisam e vão acontecer e vamos ter oportunidade de compartilhar o novo e velho. eu reaprendi que querer e estar aberto para esse diálogo já é um passo muito magnífico, porque exalta um ensinamento paulo freire me deu em outro contexto, não sabemos de nada e temos que reconhecer que há muito ainda a saber. somos pessoinhas em processo de crescimento mental e espiritual e precisamos estar perto de quem nos acrescenta para construirmos nossos relacionamentos juntos. a revolução começa assim, quando a gente entende que dá pra recomeçar.
amar é tudo isso que escrevi acima.
tenho conseguido produzir textos para mim. em contra partida, meu primeiro e-mail do ano ainda não foi enviado. talvez algo na piada da jade sobre ser bom eu sair do gmail, tenha me tirado um pouco da vontade de continuar enviando meus pensamentos. beto disse que tá preparando a resposta para um e-mail que fiz especialmente para ele, então acho que talvez depois de lê-lo, eu ganhe motivação para voltar a produzir. o e-mail que tava escrevendo essa semana era sobre chuva e planos, dizia sobre nao me importar mais com o poder da natureza, que lido bem com isso, mas depois de todo meu dia ter sido modificado também pela chuva me sinto um pouco hipocrita de continuar escrevendo sobre isso. ok, não foi só a chuva que me impediu de me almoçar com beto, e talvez não tenha sido a chuva que me fez desistir de sair com a jade e o ton. eu senti que precisava ficar na minha, por mais que isso significasse perder oportunidades de me divertir com meus amigos. parece que foi a decisão mais acertada agora que sei que a amanda vai vir dormir na minha casa. eu precisava cochilar e precisava ficar comigo mesmo, pra escrever, pra sentir a vida sozinho e não teria isso se eu estivesse bebendo com jade e ton. comi empadas e paguei 17 reais numa original. agora estou no barra limpa bebendo uma original pelo preço justo e não tô nem aí pro quanto de dinheiro gastei hoje, embora eu devesse me preocupar, pois paguei minha conta de telefone também. queria não ter que pagar contar mais e apenas viver com as minhas questões do dia-a-dia.
quero escrever cada vez mais. me liguei que é uma das maneiras efetivas de entender o que estou sentindo e como estou sendo afetado pelas situações que vivo. postar me faz transitar entre possíveis estilo de escrita, perceber como minha comunicação é diferente nos e-mails que mando para os amigos, minhas postagens no bluesky e meus textos que publico aqui. posso perceber meus padrões de escrita, busco novas palavras e sinônimos pra expressar melhor minhas ideias, me obrigo a revisar melhor o que estou formulando em cada linha, desperta um lado que estava há muito adormecido em mim, sempre gostei de escrever e agora vejo que preciso continuar fazendo isso, faz parte da minha jornada artística e do meu processo espiritual. talvez agora seja diferente das outras vezes que reclamei que estava escrevendo pouco porque acho que finalmente entendi que essa prática precisa me acompanhar em todos os momentos da minha vida.
trinta do doze
ontem fui dormir bem tarde, quase duas da manhã. passei a noite bebendo caipirinha de morango com a luana e acabei acordando um pouco mais tarde do que eu pretendia e perdendo a missa de hoje cedo. queria muito ter ido porque seria minha última desse ano. a celebração de domingo foi tão edificante que me deixou animado para aparecer hoje. vou trabalhar de tarde, então vou perder a “reprise” da noite, amanhã só farão o culto da noite, e eu não estarei aqui, vou curtir o final de ano com minhas queridas amigas.
enfim, me senti muito incomodado porque tá fazendo muito calor, minha pressão fica baixa e eu enrolo para fazer todas as minhas atividades. devia lavar uma louça enorme, andar de bike, ler uns textos e fiquei com essa sensação que já comecei fazendo tudo ao contrário, que nada seria realizado e esse clima de derrota podia ficar preso dentro de mim.
eu joguei tarot para a luana durante a noite de bebidas e hoje acordei pensando se eu agi certo em ter contado as coisas que vi na cartas.
eu não queria ter falado e fiquei pela manhã ressoando essa ressaca, um arrependimento por talvez ter me metido em situações que eu não me importo e que não me impactam e que acredito que ela tinha que descobrir sozinha.
decidi escrever o que tinha visto e falado a ela, notei que parecia sim que eram coisas que eu já sabia e que me eram óbvias, mas nenhuma das justificativas eram minhas. o jogo estava dado, era muito claro e ainda estava em diálogo com uma tiragem recente que ela me pediu. não era sobre o que eu queria opinar, era sobre o que precisava ser dito. logo lembrei que nessa semana de natal deus me escolheu como ferramenta para comunicar às pessoas as mudanças que elas precisavam executar em tempos próximos. que todo conforto que compartilhamos foi muito necessário com cada pessoa que veio aqui na minha casa nesses 3 dias - a véspera da véspera ou a véspera em si ou o próprio natal. ele avisou explicitamente e internamente que as revoluções espirituais e mentais estão acontecendo. para alguns ele falou até em voz alta. nossa forma de ver o mundo está sendo redesenhada e vamos viver tudo aquilo que o universo preparou para nós, ao lado das pessoas que precisam experienciar essas transformações conosco. nossos corações só precisavam estar abertos. novos cotidianos serão vividos e precisamos aceitar.
sempre ouço música quando estou andando de bicicleta. “Gigantes” do BK foi uma das faixas que ouvi enquanto fazia minhas voltinhas no maracanã. nunca fui muito de escutar as músicas dele, mesmo quando eu estava mais envolvido com rap e ele tava ficando bem famoso. essa canção faz parte do álbum “Gigantes”, de 2018, e que vim escutar atentamente no ano passado pra poder fazer um seminário em dupla numa disciplina da faculdade. sempre me interessa incluir músicas e outros elementos da cultura massificada nos meus trabalhos na EBA pra tornar as referências mais palpáveis, e com esse álbum foi fácil porque toda a produção gráfica tem o envolvimento do Maxwell Alexandre. eu não tava num bom momento mental quando estudei esse álbum, não me sentia nada gigante, pelo contrário, me sentia bem coitado, não via futuros e talvez ali eu tenha entendido o quanto não tinham sobrado querencias na minha cabeça, eu não queria nada e eu não conseguia inventar. essa música fala sobre sonhos. sobre o poder de criar sonhos, de se imaginar sonhando e de se inspirar no que estamos vendo, de tirar esperança dali. eu chorei enquanto estava na bicicleta. chorei bastante mas chorei sorrindo. “só querer ser já nos faz ser gigantes”. existe um motivo para continuarmos respirando, superado o que superamos, sobrevivido mesmo quando parecia que já estávamos morrendo. crescemos e queremos ser melhores e é isso que basta por agora. ter percebido que estou fazendo a diferença na vida de quem tá perto de mim, de uma forma tão pequenininha, me faz entender que isso é só o começo de muitas mudanças que virão em mim e na minha relação com vocês e com os outros.
enfim, só queria deixar esse pequeno comentário da minha primeira parte do dia. as confirmações que precisamos receber às vezes estão longe dos lugares que inventamos que precisamos habitar. hoje a minha missa foi diferente. hoje a minha missa foi no meu quarto, no mercado, no maracanã, neste e-mail.
atenciosamente,
pela penúltima vez nesse ano
misericórdia. tenho pensado em palavras e verbos, palavras específicas que aparecem na minha mente e que até então não havia destrinchado suas ortografias e sonoridades.
mi se ri cór dia. pronuncio sílaba a sílaba em voz alta e tento decifrá-la sem antes pesquisar seu significado no dicionário.
o padre abriu a mensagem da missa de hoje usando esse vocábulo e explicando que ele deriva da palavra miséria, algo como ter dó da miséria.
deus teve misericórdia dos funcionários da mão brasileira ontem.
relembrando: trabalho numa loja focada em vender arte popular brasileira e livros hiperfaturados dentro de um museu/centro cultural/como queira denominar. minha função, antes de atender de modo inconveniente pessoas que só estão ali de passagem - dando informações que elas não perguntaram e talvez não perguntariam - é vigiar tudo e todos para que nada saia do lugar e nada seja roubado.
hudson ricardo, meu colega de trabalho, pediu demissão e está vivendo os últimos dias de nosso inferno fabril. fiquei muito feliz com a decisão dele porque já vínhamos construindo análises dos nossos dias e concluímos que é insuportável conviver nesse ambiente que nos proporciona as experiências mais desconfortáveis com o outro, nos desgasta mentalmente, não permite que criemos vínculos com quem passa e nos mantém estagnados num espaço de tanto movimento. percebemos que sempre soubemos que aquele salário, apesar de ajudar, não nos sustentaria financeiramente e profissionalmente, que esse lugar tinha prazo de validade em nossas vidas e caberia a nós entender a data de vencimento. ele me pediu pra jogar tarot sobre o futuro, compreender melhor o que tava acontecendo na sua cabeça e as possibilidades, quiça destinos, que o mundo espiritual tem preparado para ele. o feedback que recebi após a leitura me deixou satisfeito, não só porque as situações que eu tinha visto se cumpriram rapidamente (num futuro que agora já se é passado) mas porque ele disse que eu trouxe conforto a ele. a maneira que eu expliquei como eu via o jogo deu uma calmaria e aprofundamento para que ele pudesse refletir de uma nova maneira sobre tudo que o deixava nervoso.
somos 5 funcionários, o gerente (pedro) que faz dois turnos, eu e hudson no mesmo horário vespertino, thiago e ton no que chamam de turno da manhã, que ironicamente termina entre 15h-16h.
a saída do hudson traz imprevisibilidade maior para as semanas que virão - em relação ao funcionamento da loja, pode gerar horas extras para alguns de nós e mais dificuldade para montar a escala, ajustar as folgas e etc. o que fode com tudo é que o pedro (gerente) tem uma resistência em contratar/contatar, o que eu arrisco a chamar de uma atitude de arrogância, de querer selecionar “bem”, sempre julgando os aspirantes de uma maneira estranha sem sequer conversar com essas pessoas, as vezes por achar que está no suprassumo do mercado de trabalho, as vezes por insegurança em lidar com adultos mais maduro? o que importa é que agora estamos no meio de um grande mistério de quando conheceremos o substituto do hudson. tenho dúvidas se isso será resolvido de forma rápida.
e eis que deus teve misericórdia e ontem um rapaz chegou para apresentar seu currículo.
de primeira, ele perguntou se era preferível entregar a versão física ou online, porque ele já estava sem currículo impresso. pedro falou que não fazia diferença, indicamos onde ele encontraria gráficas e serviços parecidos e ele voltou minutos depois com a folha nas mãos. Ramon. ele se apresentou, apertou nossas mãos, entrou interrompendo um assunto meu, não lembro qual. o museu anda lotado por causa de uma exposição da turma da mônica, mas a loja não tem vendido nem mais e nem menos. tem servido pra ficarmos mais tempo em pé, mais tempo em silêncio e mais tempo observando, trazendo muito estresse na parte mais pra noite, mas enfim, assunto pra outro e-mail.
achei o menino bem simpático. ele é moreno, alto, bem novinho, nasceu em 2002, disse que trabalha desde os 12 anos, falava de uma forma respeitosa e educada, cumprimentou a todos, apertando a mão, vestia calça jeans mas poderia estar de blaser e calça social pelo jeito que se direcionou a nós, como um vendedor.
pedro tentou fazer uma semi entrevista com ele, e eu fiquei atento. classifico como cômico os diálogos de ambos. é engraçado porque agora que conheço o pedro há quase 1 ano eu posso afirmar que tenho uma visão completamente diferente da pessoa que eu achava que ele era. não apenas por implicância e desgosto, e mesmo entendendo todas as limitações dele - de estar no primeiro emprego, trabalhando com o público sendo uma pessoa pouca sociável e segura de si, ganhando a oportunidade de estrear um cargo aleatoriamente, sem tempo para se aperfeiçoar, sem experiência, com uma rotina exaustiva por morar longe - fico muito incomodado com esse ar esnobe que ele carrega no peito, a pretensão de usurpar uma inteligência e intelectualidade que ele sequer consegue sustentar por mais de duas conversas. achei bizarro ele não conseguir explicar a rotina para uma pessoa que tava interessada em trabalhar, seja onde fosse, e que aparentemente não conhecia o CCBB e nem a loja. e tudo bem, é difícil de entender ao que a loja se propõe quando ela tá deslocada da própria realidade, começando pelos produtos que oferece e o espaço social em que está inserida, destoando do que se espera de uma fastshop dentro de um centro cultural e ancorada numa falsa “chiquesa” que só se reflete nos valores inventados para cada item exposto. não aguentei e me meti no papo para deixar evidente duas informações: existem dois turnos e quando trabalhamos domingo, trabalhamos o dia todo. acho que as pessoas precisam saber onde estão entrando e sempre que alguém lá diz a frase “folgamos duas vezes na semana” anestesia o significado da rotina, não é assertiva sobre o funcionamento do estabelecimento, e essa explicação simples e corriqueira pode num futuro se estender a justificava de “pelo menos…”, que reverbera-se na inércia de continuar ali.
pedro olhou o currículo rapidamente, perguntou se o ramon estudava e ele respondeu
- não, eu acabei…
me assustei. pensei que ele tivesse concluído a faculdade e senti inveja. e aí o jeito que ele completou a resposta me deixou mais decepcionado do que assustado. ele disse que fazia tempo que tinha acabado, que acabou aos 17. esse choque de lembrar que existe uma realidade em que as pessoas ainda enxergam o processo de estudar como processo finito, vinculado unicamente à escola, somado com a angústia de ver um menino tão novo atender essa pergunta de uma forma tão rápida e básica, me passando essa energia de ausência de perspectivas. ele quer um emprego e é isso. só isso.
ele também contou que trabalhava em eventos, não explicitou qual tipo de evento e nem o que fazia, parecia realmente ão saber onde estava, só entrou e foi entregar o currículo. pedro contou que a loja é especializada em artigos de arte quando o ramon, enquanto bisbilhotava os itens ao redor, com o olhar meio perdido disse “aqui é um tipo de livraria”, afirmou que estava buscando ser CLT pela estabilidade e que qualquer outro trabalho que surgisse ele toparia, chegou a pedir pra gente indicar ele pra qualquer bico, ou recomendar alguma coisa que ele pudesse tentar. sugeri que ele buscasse buffet de festa infantil na zona sul antes de saber que ele mora em santa cruz da serra. ele disse que está de mudança mas não ficou claro se é uma mudança pra outra região do rio ou se vai apenas trocar de casa.
sobre o pedro é interessante reparar, agora que o conheço, a sensação de que todo homem é digno de uma “sútil” investida, assim o discurso dele tá sempre cambaleando entre curiosidade e flerte, e com o ramon não foi diferente. assim que ele saiu da loja, pedro sorriu pra mim e disse que achou o garoto fofo. ainda durante a interação deles, o pedro virou e disse “você parece ser muito calmo”, numa falta de assunto, exaltando a necessidade de mostrar que o estava avaliando, construindo percepções sendo que não tinha nada ali para ser analisado. as falas foram tão rápidas e rasas que não era possível inventar adjetivos gratuitamente, tampouco era uma maneira de despertar reações. ramon respirou muito fundo, olhou pra cima, demorou uns segundos - não tô dramatizando, foi super assim mesmo - e olhou para o pedro e respondeu “é a experiência, é a experiência… a gente vai aprendendo. profissionalismo”. se não me engano, ele teria dito explicitamente que não era calmo antes de repetir a palavra profissionalismo pela segunda ou terceira vez.
fico pensando agora em perguntas que o gerente podia ter feito ou deveria fazer. e sinceramente, não é obrigatória nenhuma habilidade para exercer qualquer função ali. o ramon deixou claro que tinha experiência com o público, mas atender idosos solitários, jovens ou família nem é o nosso grande problema. o difícil ali é aturar o humor volátil do dono que tá mais interessado que a gente atenda às expectativas de comportamento dele que não fazem o mínimo sentido e que não agregam nossa formação. não há nada para aprender uma vez que os colaboradores decoram ao menos o nome de três etnias indígenas e suas respectivas localizações.
e assim vejo que ramon e pedro estavam muito bem cumprindo seus papéis nessa encenação. um aspirando uma eloquência e seriedade para ser convocado a retornar com a carteira de trabalho e o outro performando a importância de um cargo que na prática não exerce.
não tenho nada a dizer do ramon além do que já contei neste texto. se ele tiver precisando muito, espero que deus o conceda esse emprego. e se ele não estiver afim de pensar em estudar, se o único interesse for ter qualquer quantia em dinheiro, acho que a loja pode ser o lugar ideal pra ele. eu, por exemplo, estou numa luta há uma semana pra terminar de ler um capítulo de um livro. nunca mais houve silêncio e paz para pensar.
tenho escrito e-mails para alguns amigos e em um deles propus uma lista de respostas para a pergunta: DIGA ALGO INEGOCIÁVEL PARA VOCÊS A PARTIR DE AGORA. esse tema tá direcionada a nossas vidas sociais, termos que quero pôr em prática na minha vida no ano que vem e começam em mim mas se estende ao outro. decidi que essa lista de termos que não abrirei mão precisará ter pelo menos três coisas. e esse texto aqui vai servir para que eu possa salvar essa resposta e não esquecê-la.
1. quero continuar consumindo tempo com a minha companhia. quero mais momento comigo mesmo, de realizar atividades sozinho dentro ou fora de casa. quero que essas sejam absolutamente escolhas conscientes minhas. andar de bike, ir na rua comprar algo, tomar uma cerveja, almoçar sozinho, seja o que for, quero manter esse compromisso comigo. SOLITUDE
2. me abrir e manter apenas relações que eu sinta que as conversas me trazem reflexões, que são trocas mútuas, em que um aprende com o outro, que a dinâmica de conversa faça sentido, não necessariamente serão confortáveis sempre, não é sobre isso, mas é sobre haver compartilhamento e amadurecimento. RELAÇÕES DE APRENDIZAGEM
3. uma relação de escuta ativa. o que eu falo precisa ser levado em consideração e o que a pessoa me conta também precisa ser valorizado atentamente. ADMIRAÇÃO PELO FALAR E OUVIR.
4. manter a prática artística viva no meu cotidiano e na minha relação com o outro, seja através das conversas e de troca de referências ou da proposição de produção em conjunto. TRABALHAR NOSSAS ARTES.
tenho notado que estou a um passo de entrar numa micro-crise depressiva. me sinto desmotivado, meu corpo tem respondido lentamente a quase tudo, demoro horas pra fazer qualquer coisa. tudo tem sido uma luta nos últimos dias. penso um milhão de vezes antes de realizar qualquer tarefa que me proponho dentro da minha casa, enrolo tanto até começá-la, e muitas vezes tardo em concluí-las também. estou lutando contra mim mesmo para fazer coisas que quero, como um autoboicote mesmo, procuro fugas, olho pro teto mais vezes que o habitual, tudo vira uma distração maior do que já seria. é como se algo estivesse tentando me impedir de sair do lugar.
estou escrevendo este texto com grande medo de cometer um equívoco que só seria aceitável em 2002, como no episódio que acabei de assistir da querida série Lizzi McGuire: enviar e-mail para pessoa errada. não vou trazer spoiler do episódio (é o primeiro da primeira temporada) porque quero que vocês tomem a decisão de assistir e mudar de vida como eu tenho feito. o audiovisual há milênios no ensina muito e essa série comprova isso. em resumo, no episódio, Lizzi manda um e-mail errado e sofre com as consequências.
não dá pra dizer que nos tempos de faustão não aparece mais nos domingos da globo existe um medo equivalente a errar o destinatário porque acho natural ligar sem querer para alguém via whatsapp, e se mandar mensagem errada é possível apagar. é tudo de graça. nossa vida tá fácil! talvez vocês que usam instagram tenham dinâmicas mais “graves” como ver stories de alguém ou algo similar… ah, lembrei que rolou comigo no ano passado quando eu fui stalkear uma pessoa, mas meio que foda-se, zero impacto na minha vida. sim, eu vi seu stories PÚBLICO na sua conta ABERTA…. se bem que deve ter gente que deve surtar com isso… me contem depois se essa bobeira atinge vocês.
um e-mail podia ser recheado de dados, confissões, fotos íntimas. os webtextos da nossa geração não, divulgam apenas propagandas, mas agora os meus textos virtuais correm esse perigo porque carregam minhas extremas opiniões em cada linha. pretendia chamar uma professora de filha da puta e tô com medo dela receber isso. principalmente porque estaria xingando-a por antecipação, ela ainda não fez nada contra mim, provável que não o faça, mas se fizer será uma das maldades mais desnecessárias do mundo. mas se receber esse e-mail talvez ela devesse fazer alguma coisa? sei que deselegante é, mas xingar um docente poderia me colocar na cadeia? teria penalidades acadêmicas? baseado nessas dúvidas, quero perguntar até que ponto as burocracias que impomos (essa conjugação tá certa?) são sustentáveis. o que ganhamos com essas imposições e o que perdemos?
percebi que minha graduação na EBA me rendeu ótimas produções, escritas ou práticas, estou sempre entregando os trabalhos e policiando para me cobrar menos com meu perfeccionismo. No curso de letras, graduação a qual não me formei, (vocês sabem) com frequência eu desistia de entregar resenhas ou trabalhos finais porque passava por um longo momento de crise comigo quando chegava no final de período. não existia semana de provas, poucas professores utilizavam esse meio de avaliação, era sempre a produção de um artigo/monografia que exigia maior disposição e dedicação para concluir. faz mais sentido e eu concordo muito com essa maneira de lecionar, mas essa metodologia era bastante diferente das vivências por pessoas que eu conhecia que cursavam faculdade também, alguns até ingressaram na pública e era engraçado, até sobre isso eu precisava explicar que funcionava de uma maneira diferente no meu mundo: ali eu só sabia que não era assim que funcionava as disciplinas, mas não possuía essa consciência crítica que hoje carrego, se alguém me perguntasse hoje porque não há provas, eu teria uma resposta mais filosófica. voltando a parte da escrita, sabia o que eu queria dizer e não tinha a paciência ou atitude de sentar e digitar. levei muitos zeros por negligência, sinônimos da minha falta de interesse, eu não me identificava com quase nada do que me era exigido. eu era muito bom quando eu queria ser, nas aulas de espanhol e outros assuntos, e usava as demais disciplinas para adquirir respostas para as minhas questões, ouvir papos novos, conhecer gente nova. foi importante para que eu levasse a faculdade de uma forma mais social e menos conteudista-curricular, mas o preço que paguei por abandonar muitas coisas durante esse período está refletido no medo que adquiri de não finalizar tarefas mesmo quando eu estava mais disposto a vencê-las. é um problema que ainda estou enfrentando. pra vocês terem uma ideia, uma coisa que brincavam comigo na época da letras era que eu cursava Português com habilitação em Extensão, porque era a única coisa que eu realmente me dedicava muito. Na EBA rolou um pouco dessa confusão de ninguém entender qual era o meu curso por eu não me inscrever nas disciplinas de ateliê de gravura, mas isso tenho noção que foi livramento de deus.
analisando em grande escala, não sei se posso dizer que minha vivência na faculdade de letras está tão distante e discrepante com a vida acadêmica que me surgiu depois de 2021, mas eu me arriscaria a dizer que não aproveitei esse primeiro ingresso ao mundo dos adultos intelectuais, e aqui uso aproveitamento no sentido braçal mesmo, porque sei que muitos temas que ainda converso e todas as mudanças que enfrento partiram de lá da Letras. mas eu não fiz contatos acadêmicos, conheci autores novos e tive contato com literaturas diferentes, veio para me ensinar como funciona a carreira acadêmica e a faculdade pública, mas sinto que não vivi isso verdadeiramente naquela época. não mergulhei fundo em teorias, não saí de lá amando nada, fui apenas introduzido ao modo que a academia funciona. é como se fosse um segundo ensino médio com técnico em UFRJ, sei muito de como funciona a universidade em que estudo.
e se tem uma coisa muito marcante nos últimos anos é que eu nunca entreguei os trabalhos no horário certo, fruto dessa minha preguiça ou falta de organização que ainda sustento em meu respirar. juro, não teve uma vez. é habitual atrasar duas a três horas quando não escolho enviar o arquivo pela manhã seguinte pra ter tempo de revisar. nunca fingi ter esquecido, nunca inventei uma mentira que justificasse o atraso, jamais mandei e-mail corrompido, eu simplesmente envio com a maior naturalidade, sem culpa sem dor e sem dar motivos. infelizmente descobri na prática que meu método foi atrapalhado pelo ClassRoom: algumas entregas podem ter data e horário limite estabelecidos de modo que o usuário infeliz e desesperado não conclui o upload do pdf ou qualquer outro formato depois do prazo. nem se eu soubesse disso poderia ter entregado antes, pois estava ocupado tentando terminar essa merda.
o objetivo era entregar o portfólio dessa disciplina, eu precisava colocar registros fotográfico das oficinas que fizemos em conjunto (a turma foi dividida em grupos e cada grupo trazia uma oficina em uma data estipulada) e das visitações que tivemos nesse período (Pedro II, CCBB e Museu Dom João VI, esse eu não estava presente), mini-resenhas sobre a SIAC (semana de integração acadêmica) e SELIC (semana das licenciaturas da EBA), não participei de nenhuma atividades de ambas, tecer comentários sobre textos que lemos na disciplina, Paulo Freire, Ana Mae Barbosa, Vera Candau e resenhar um vídeo de treze minutos do Everson Melquiades criticando o apagamento do arte-educador no processo de expografia e produção nos circuitos artísticos institucionalizados. acho que escrevi tudo até que bem, tudo de última hora, usando minha inteligência e imersão prévia nos assuntos abordados e nesses textos que SIM, eu havia lido. acrescentei meus comentários, coloquei o material que eu tinha no portfólio, não cumprindo com todas as exigências e vamos que vamos. precisei enviar por e-mail porque já havia passado de 0h, o prazo que a Doralice inventou.
até agora não sei se ela viu, não sei se vai ver, não sei se vai me descontar pontos ou reprovar. lá no classroom, vi que muitas pessoas relataram problemas e enviaram de outras formas, isso me deixou mais seguro. mas se a querida Doralice (ela é querida mesmo) tiver acesso ao meu e-mail e ainda assim bancar a cega, ela estaria sendo hipócrita e nada Freireana. penso nisso quando questiono o limite das regras que inventamos, na educação principalmente. estamos lendo o período todo sobre uma educação que valoriza a subjetividade, então como vamos virar e dizer que não aceitaremos uma produção que foi entregue com carinho mesmo que depois? o que tem de construtivo em não abrir brechas? em não avaliar o que podemos receber, mesmo que depois? entendo a necessidade de prazos para planejamento, principalmente quem trabalha com turmas grandes, é válido manter um pouco de firmeza pra evitar bagunças, por outro lado, eu jamais quero ser o professor que vai determinar o prazo de todos. nós ufrjtianos sabemos que o lançamento de notas não é uma coisa tão inalterável e urgente, então porque não flexibilizar pra quem precisa, dando a chance do aluno entregar um trabalho autoral satisfatório?
fiquei feliz com meu resultado, só não consegui finalizá-lo antes, e me sinto meio “meh” em relação a todo esse período no campo do meu desempenho. essa foi uma disciplina que não me acrescentou quase nada, só atrapalhou minha rotina e custa 1 crédito: o que a tornaria de fato uma filha da puta por me reprovar numa matéria de 1 crédito. mas enfim, eu tô com outros estresses na cabeça, papo para e-mails do futuro, o que quero eternizar deste texto são essas perguntas, que também espero estender para todas as áreas da minha curta vida: será que eu tô rígido demais? será que não tô abrindo exceções? será que estou lendo paulo freire e bell hooks da maneira errada?
é isso.
vou pensar e volto depois
eu tenho medo de ver tudo escorrendo pelas minhas mãos de novo. tenho medo de desandar, de estar cegando ou talvez regredindo em vez de ficar atento incansavelmente ao que me tem ocorrido. a vida tá passando por mim e o que eu tenho feito? busco colecionar infelicidades ou as coisas não estão confortáveis como eu pensava que deveriam estar? preciso me mover ou só quero me mover por tédio?
nesse desencontro de respostas, fico apavorado porque não sei se estou me priorizando o suficiente, sinto que preciso me valorizar mais, mas não sei bem como, e não sei se estou fazendo algo de errado. tampouco tenho problema em colecionar erros, mas desejava estar percebendo cada sinal e analisando cada situação. queria não me frustrar com tudo que não posso solucionar, tudo, das pequenas coisas até as grandes, começando pelo o que podia ter controlado melhor até chegar naquilo que não depende de mim, das exigências chatas de uma professora de uma disciplinas que nem deveria cobrar tanto porque essa merda pesa 1 crédito no boletim, à irritação que sinto por não ter aproveitado tanto esse semestre, de não ter suportado a repetição de assuntos e convívio com gente tão mais nova e chata, o velho terrível pensamento que minha trajetória na faculdade não avança ao mesmo instante que me sinto transformado da cabeça aos pés. por fim, chegar na desastrosa superioridade e arrogância que está percorrendo meu sangue, assumindo minha pessoa ou revelando uma nova versão que não gosto, que me faz acreditar que eu não estou construindo nada, principal nos aspectos sociais. tudo teria sido descartável e talvez eu nunca tenha conseguido me relacionar saudavelmente com as pessoas, agora essa face só está mais evidente. não teria servido de nada. eu não entendo as pessoas e não me entendo muito bem para me autocompletar e descansar, infelizmente também não existo sozinho.
fico impressionado com a agilidade de alguns universitários que fazem aulas comigo. o poder de criar (E MUUITO BEM) coisas que querem numa facilidade se estende às técnicas que eles não dominam ou nem conhecem. isso me assusta. hoje não me coloco mais nesse lugar terrível de comparação, mas, meu deus, eu fico muito confuso quando me pedem para produzir algo novo, do nada, sem preparação. as referências simplesmente somem da minha cabeça, se você me pedir pra desenhar um relógio eu não vou conseguir lembrar como ele seria estruturado num papel. hoje sofri tentando pensar quais parte do corpo de uma formiga eram mais gordinhas. nada fazia sentido. consigo imitar ou criar qualquer coisa desde q eu veja uma foto antes. e fui lá checar a formiga no pinterest, não lembrava mesmo que a bunda era tão maior e tenho certeza que já olhei para muitas formigas nessa vida.
o que quero partilhar hoje são as fotos da aula de stencil que tive hoje. não foi meu primeiro contato com a técnica, já tive um brinquedo do querido buzz lightyear que consistia em assoprar uma caneta e carimbar desenhos vazados que já estavam prontos. a sensação de trabalhar pra disney dentro da minha própria casa. agora parando pra pensar, que triste que nunca fui além de desenhos chapados monocromáticos, tinha tantas canetinhas, composições que poderiam ter sido feitas, mescla de desenhos e cores, tantas invenções que não inventei… voltando ao meu conhecimento de mundo, eu já tinha visto muita gente na faculdade criando e aplicando, também conheço a lógica da serigrafia, mas nunca tinha me aventurado a fazer do início e principalmente fazer pra mim. nunca fui atrás e nunca me foi exigido até hoje. e, cara, como pensar de outra maneira às vezes pode ser muito difícil, né? eu estava ótimo e satisfeito com meu protótipo rascunhado e ainda assim não conseguia entender como que faria os recortes certos para a ideia original prevalecer na parede (usamos papel, mas aqui vamos poeticamente fingir que criamos um mural).
tinha amado tanto do meu desenho, que foi inspirado no dia que uma aranha interviu no nosso trabalho coletivo que partia de uma coleta de materiais pela trajeto de casa até a faculdade. ela se meteu no meio de um pedaço de planta e ficou dançando entre nossas artes. desenhei ela e a planta de uma forma mais geométrica, e eis que o stencil teria dado muito errado se eu não tivesse pedido ajuda pra pensar nos próximos passos. ainda não sei ensinar stencil pra ninguém. meio que fiz errado o meu. entendi de alguma forma o que precisa ser feito para pelos menos terminar a atividade, mas a construção de cada desenho é tão subjetiva que acho que eu precisaria praticar por um ano para conseguir dar conselhos do que não fazer ou como fazer. exigiria mais paciência pra experimentação. ao mesmo tempo que gosto dessa descoberta ao vivo do que pode ser modificado com os percursos não planejados, com os erros, foi meio frustrante quando cortei a patinha da aranha ou cortei uma parte que eu não queria que ficasse com tinta (figurinha da magali com a mão na cabeça gritando AAAARG!). me lembrou muito à época da xilogravura, quando me matava ter q pensar em qual detalhe ia ficar chapado e qual não, saber que isso poderia modificar toda a concepção e atrapalhar o traço, fora todo o trabalho de desenhar ao contrário, e eu sempre riscava direto na matriz e era um saco. agora considero stencil mais legal porque não preciso inverter (ou precisa?)
enfim, deixo aqui meu desenho e meu resultado e minha vontade de continuar tendo esses bugs mentais quando preciso analisar e analisar e analisar e então fazer, infelizmente ser muito visual e quadrado me atrapalha nisso, porque preciso crer/ver para entender e com certeza só vou entender na quarta ou quinta vez que eu ver acontecendo.
queria acrescentar e contar que os outros alunos começaram a desenhar (e criar sei lá o quê mais) por cima da tinta e eu só não sabia como mexer, não visualizava nada pra ser adicionado, e até queria, mas não vinha nada na minha mente pois estava me recuperando do processo. então só fiz uma rabiscadinhas. o resultado geral da turma resolvi não mostrar aqui porque preciso que vocês amem meu trabalho antes de amar o trabalho dos que me cercam, quem sabe um dia mostro pessoalmente. adeus e beijos.
- não vou saber por onde começar a cortar se me pedirem para repetir, então essa peça realmente é um modelo único, aproveitem
acordar cedo mudou minha vida. existe uma nova versão de mim que não consegue conceber a mínima possibilidade de chegar em casa num horário que eu gostaria estar levantando. talvez se eu tivesse percebido os benefícios da vida antes das 9h da manhã eu seria outra pessoa? não sei. mas meu avô sempre foi um exemplo madrugadeiro. de pé antes das 5h da manhã para fazer nada, beirando quase a uma reação ansiosa por ter que ficar muito tempo imobilizado. eu devia ter absorvido esse hábito, porque meu avô está deixando ótimos exemplos, um amor e paciência em cultivar plantas e uma generosidade enorme, gostaria de sê-lo, tirando a questão da ansiedade. também entendo que era impossível cogitar a ideia de ficar de pé antes do galo gritar quando tudo relacionado a esse turno matinal se resumiam a imposições chatas: pontualidade na escola, atividades na igreja, e depois toda necessidade de pegar ônibus duas horas antes para não perder a aula na faculdade. sinônimos do desprazer. assim, meu maior pavor era acordar antes de 11h da manhã. vivia sempre correndo contra o relógio, em cima da hora, a um ponto de me atrasar ou perder o evento, seja qual fosse. na maioria das vezes um compromisso com o outro ou para o outro. e não quero dizer que minha graduação ou qualquer realização não exercesse impactos construtivos para minha vida, mas digo o peso que essas atividades possuíam nesses momentoso passados era desproporcional e baseado em expectativas de terceiros. eu rompi com esse ciclo quando comecei a relaxar, respirar, deixar de aparecer em lugares que minha presença era “obrigatória” e também acho que fui por esse caminho de liberdade quando escolhi mudar algumas vezes de curso, desde letras pra belas artes, e dentro da belas artes mesmo, me encontrando na licenciatura depois de ter fugido tantas vezes desse destino. tem muito a ver com que tipo de discurso e conselho estamos ouvindo e quais escolheremos aceitar. tanta gente de fora me desmotivou, enquanto espiritualmente eu sabia que estava indo pra direção que eu precisava… e com o tempo tudo se concretizou de uma forma inimaginável antes. e como já venho dizendo, não tenho interesse nenhum de me fragmentar mais. minha vida espiritual está em tudo e ela é parte do meu entendimento de tempo e calma. aprendendo a paciência de aprender a ter paciência.
- um disclaimer relevante - esse semestre poucas vezes levantei antes das 6h porque meu objetivo não é me torturar ou dormir menos. a consciência de querer manter essas práticas, que julgo serem saudáveis, já me bastam por agora.
enfim, esse texto é um salve-salve à vida matinal. era o que eu queria deixar em palavras aqui, a beleza do sol antes do 12h, a satisfação de ter feito tanta coisa e tudo porque quis. aplicar uma rotina que não deve ser seguida à risca, entendê-la como algo adaptável conforme as circunstâncias, aceitar que exceções vão surgindo, e que o mais valioso é buscar estar presente no agora. no quero agora, no que posso querer por agora e o que pode esperar, quais as responsabilidades são urgentes e não atrasáveis, o que tiro disso sobre mim. aproveitar ao máximo tudo, até a experiência de andar de bike com o banco um pouco mais baixo do que eu preferiria, ou não enloquecer ao não conseguir concluir a simples atividade de arrumar minha cama antes de sair de casa por priorizar outra tarefa num dia, e às vezes me atrasar por escolher fazer um mini faxina. ter prazer na calmaria de tomar um banho lento, entender que minha disposição é infinitamente maior quando escolho acordar antes e valorizar isso, o antes. ficar em silêncio, me organizar, me escutar e pôr em vida às vontades do meu corpo para depois ir trabalhar ou seja lá onde precisar ir. reencontro encanto com a luz do dia, o vento, o meu eu em movimento em volta das pessoas que passam por mim, algumas todos os dias nos quase mesmos horários. é como voltar a brincar na infância, criando historinhas com os bonequinhos que estavam nas minhas mãos, fazendo o que era possível com os personagens e cenários que estavam sob meu comando. é assim que tenho em sentido, numa nova infância, criando meu dia de pouquinho e pouquinho, não de uma maneira fatalista como -anos atrás, em que eu tava tal mal que não via muitas perspectivas além, mas com uma certeza de que pra ficar bem no amanhã eu preciso estar produzindo meu bem estar no agora.
ontem fui na bienal da EBA com o Beto. foi legal estar num grande evento da faculdade, ver as pessoas felizes disponibilizando seus trabalhos num centro cultural grande e de fácil acesso, ver que muito dinheiro foi investido para que essa exposição pudesse acontecer. eventos desse porte são tão raros lá na universidade que não valorizar essa oportunidade seria bobeira da minha parte. tinha muito barulho, muita gente, muita agitação principalmente pela existência de um buffet com vinho, os estudantes estavam animados com a chance de beber vinho de graça, eu também estava e não consegui por causa das constantes filas de gente desesperada. sim, agora vejo o quanto é bizarro estudar na maior universidade federal do país e esses circuitos de vernissagens (existe esse plural?) patrocinadas serem episódios raros. mas vou tentar não caminhar por esse lado tão baixo astral e crítico, porque meu objetivo principal é dizer que foi lindo ver o que tá sendo produzido, apesar de muita gente eu sequer conhecer o nome. a EBA é tão grande, tem tanta produção individual acontecendo e isso é muito lindo e libertador, desperta esse anseio por novidade, essa vontade de mergulhar em mais artes. não consegui absorvi tudo devido aos excessos, e vou ter que voltar lá pra dar uma olhadinha de novo com mais calma, por mais que me custe tempo. tenho pensado nessa semana sobre o quanto preciso me aproximar de museus e das oportunidades de ver obras presencial, ver o que está sendo produzido ao meu redor, na minha escola de artes é muito importante e faz parte do futuro do meu ciclo. quero aproveitar cada entrada em museu ou em centro cultural, quero ter essas referências mais palpáveis e além da fotos que posso encontrar no google ou em qualquer outro site. quero sentir o cheiro da tinta, quero ficar curioso pela textura das peças, quero olhar mais de perto.
quero investir mais tempo escrevendo, sei o quanto isso me aproxima de mim e me deixa mais consciente de tudo. sei quando fugi e sei no que isso resultou. é engraçado porque sei que sou todo da escrita, o quanto ela só sai naturalmente, e o quanto invento limites para enquadrá-la em regras que invento e que me impedem de dizer pra mim mesmo o que preciso, sem firulas, aquilo que tanto preciso, de maneira espontânea, da mesma maneira como me comunico com a maioria da pessoas. por que será que me trato assim? por que me afasto disso, de ler sobre mim por mim? crio maneiras de transformar todo meu texto numa produção tão específica que com frequência requer mais esforço, difícil de alcançar, de tremenda dedicação e perfeição, distante do que talvez eu cobraria se fosse um produto que me trouxesse retorno financeiro. este é sim mais um desses meus lembretes que eu preciso que seja mais eu aqui. que seja mais frequente, que seja o que é, que seja o que for, que seja escrito