Atividades Praticas Supervisionadas
APS
Janaina Moura de Oliveira RA: C7400I7 Bianca Machado da Silva RA: C726IA0 Leticia Casotti Zambroci RA: C6353B3 Atividades Praticas Supervisionadas Textos Reflexivos sobre Literatura Brasileira Prosa São Paulo 2017
Modulo 1
A carta de Pero Vaz de Caminha
Durante a elaboração de nossa pesquisa foram encontrados diversos trabalhos de cunho acadêmico sobre a carta e o estilo de padre Vieira. Porém para essa tarefa escolhemos o TCC: “ A carta de Pero Vaz de Caminha: breve estudo das palavras gramaticais” e o Trabalho de Mestrado: “ O Sermão da Sexagésima: Uma arena de Vozes”.
TCC: A carta de Pero Vaz de Caminha: breve estudo das palavras gramaticais”
Centro Universitário de Brasília – UNICEUB
Fauldade de Ciencias da Educação – FACE
Curso de Letras
Brasilia, Novembro de 2005
O Trabalho é voltado para estudos diacrônicos onde a intenção é compreender a evolução da língua portuguesa. A carta é escolhida como objeto de pesquisa por ser considerada pelo autor como o primeiro texto português escrito em território brasileiro. Nos séculos posteriores a sua escrita a carta não foi valorizada porem a partir do século XIX começou a ser considerada como a “certidão de nascimento do Brasil”.
Desde então a carta ganhou uma grande importância nos estudos históricos brasileiros, tornando-se objeto de estudo inclusive na evolução da língua. De acordo com o autor deste TCC a escrita de caminha era muito próxima da língua falada na época, ou seja, ele escrevia como falava, assim o autor faz uma comparação com o modo de escrita das crianças que estão na fase de alfabetização, pois ambos são rodeados de uma escrita intuitiva e sem padrão pré-estabelecido, mantendo assim uma certa naturalidade.
Para explicar o seu estudo da melhor forma possível o autor dividiu o trabalho três capítulos, onde o primeiro é totalmente dedicado a carta, falando sobre seu contexto histórico, o segundo capitulo é voltado para a gramatica em si, e o terceiro é direcionado para análise das palavras gramaticais na carta.
Modulo 2
Til
Com base nas obras já lidas de José de Alencar, podemos perceber que muitas de suas obras possuem mulheres como protagonistas, essas normalmente são heroínas, são seres puros e angelicais que muitas vezes podem até errar, mas futuramente irão se redimir. Porém trata-se de um escritor homem falando sobre mulheres, muitas vezes ele as empondera, mostrando que são mulheres fortes, destemidas e guerreiras, mas esse emponderamento possui um certo limite, pois no final elas sempre voltam para o papel da mulher de acordo com a visão patriarcal, onde esta é submissa a algum homem (normalmente o marido); nessa visão, o homem evolui, tem suas conquistas e sua fama na sociedade, enquanto a mulher deve estar em casa com os braços abertos esperando para recebê-lo e sempre acatar a suas ordens. A ideologia patriarcal comum nas obras de Alencar pertence à burguesia, pois era assim que a sociedade funcionava na época, além disso, ele escrevia para a burguesia, onde existia a idealização da mulher perfeita que atrai o homem, o redime e o conquista.
Em Til a protagonista é a Berta, uma garota de 15 anos que vive no interior de São Paulo, ela é filha abastarda e órfã de mãe, é uma pessoa extremamente altruísta e caridosa, leva luz as pessoas (e até mesmo animais) marginalizados ou doentes, é uma garota pura, porém com uma personalidade forte e uma certa leveza. Esta é a típica heroína romântica, além disso, ela também possui traços da visão patriarcal de como a mulher deve ser, pois Berta podia ter aceitado ir para São Paulo com seu pai biológico, mas ela sede seu lugar a Miguel para que ele e Linda sejam felizes juntos enquanto ela permanece no interior cuidando dos mais necessitados.
Além desta visão geral da personagem, podemos ver a visão que Miguel tem de Berta:
“Alguma vez deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanhá-la com a vista. De braços cruzados sobre a coronha da clavina de caça, fitava os grandes olhos pardos com tal possança d’alma, que mais parecia absorver e entranhar em si o gracioso vulto, do que enlevar-se em sua contemplação.” (capítulo 1, página 8)
No trecho acima, podemos ver o modo louvável como Berta é descrita por um observador, a pureza irradiando dela, colocando-a como alvo de contemplação, como uma obra de arte pura.
Resposta de Berta a Miguel:
“Acaso, em uma dessas ocasiões, voltou-se de chofre a menina para ver onde ficara o companheiro e deu com ele a fitá-la daquele modo estranho.
- Que me está olhando aí? Nunca me viu? Exclamou com surpresa, mas travada sempre de petulância que animava-lhe todos os movimentos.” (capítulo 1, página 8)
Nesse trecho o autor nos acrescenta mais características de Berta, colocando-a não só como uma mulher pura mas também como alguém forte, exatamente como toda boa heroína romântica deve ser. Quando Alencar escolhe a palavra “petulância” para descrever o modo como Berta fala, ele transforma seu sentido, a petulância deixa de ser um defeito ou algo negativo, pois o modo como ele coloca apenas confere um efeito atrativo a personagem, fazendo-a ser ainda mais interessante para o sexo oposto.
No primeiro capítulo o autor cria todo um ambiente descrevendo a campina em que Berta e Miguel estão, e como efeito de seu estilo, a descrição do ambiente se reflete na própria Berta. Ele descreve um lugar belo, natural, sereno e tranquilo como a própria Berta; com essa técnica ele envolve o leitor e forma em sua mente a personagem protagonista com um ideal feminino.
Além de todas essas técnicas, Alencar também constrói as outras personagens de uma maneira que resalta as qualidades da personagem principal, podemos perceber isso fazendo uma breve comparação entre o modo como o autor descreve Berta e Linda.
Linda é uma garota educada aos moldes da corte, é gentil, amiga, possui um bom coração e é apaixonada por Miguel. Alencar coloca Linda como uma típica moça da sociedade cortez; aquele tipo de mulher que você acha simpática e boa mas não fica arrebatado por ela. E é exatamente nesta descrição que podemos perceber a diferença entre Linda e Berta, pois Linda é o tipo de mulher padrão da sociedade da época, a mulher feita para ser esposa, aquela que os homens casam mas raramente amam com ardor. De certa forma, o modo como esta personagem é construída deixa Berta ainda mais em evidência, pois esta sim é envolta com algo a mais que atrai os homens.
Modulo 3
Memórias de um Sargento de Milícias
O grupo selecionou como objeto de pesquisa uma apostila do Objetivo que trata especialmente sobre o livro Memórias de um Sargento de Milícias e ao final contém cinco questões de vestibulares sobre esse —uma da UNICAMP-SP, duas da FUVEST e duas da UFLA-MG, respectivamente.
No enunciado da primeira questão é utilizado um trecho de Antônio Candido para mostrar os aspectos históricos da obra e para dizer ao aluno que a história é composta por pequenos relatos, com o intuito de posteriormente pergunta-lo quem é o personagem principal da trama e pedir para ele descrever um dos pequenos relatos. Esta questão é dissertativa e espera-se que o estudante tenha os conhecimentos básicos adquiridos ao ler um livro que trata-se de compreender o enredo e identificar as personagens.
A segunda questão exige do aluno um conhecimento interpretativo do livro para que esse escolha a alternativa que melhor contenha uma caracterização do comportamento do personagem principal, dos secundários e das situações que estes enfrentam no local em que vivem, o intuito aqui é que o estudante tenha assimilado que o segmento da narrativa procede nas camadas populares do Rio de Janeiro no período de D. João VI, tendo isso em mente chegará mais facilmente a resposta correta.
A questão número três requer a análise da posição do narrador de acordo com a interpretação de um trecho do livro em que ele expõe o caráter imoral do protagonista anti-herói através de uma narração cômico- irônica, a exigência para com o aluno muda de patamar, já não é uma análise das personagens e do enredo, mas sim uma análise sobre o narrador, seu tom neutro e como este dispõe uma escrita que mostra a oposição à tradição heroica e galante do romantismo, os tipos do Rio Colonial, a ordem e desordem, os tons caricaturais e os tons irônicos.
A quarta questão traz um trecho de análise de Antônio Candido sobre Sargento de Milícias, e por meio dele requer do aluno a atenção para o modo como o autor desenvolveu o livro e o que ele quis evidenciar da sociedade da época ao criar os seus personagens como “tipos Fixos”, isto é, de acordo com Candido, Manuel Antônio de Almeida escreveu sobre as normas, e não sobre as singularidades, portanto seus personagens não tem profundidade psicológica.
E a quinta questão solicita ao estudante uma comparação do livro com as características da prosa romântica, espera-se que o estudante saiba que em Memórias de um Sargento de Milícias desfilam personagens extraídas das camadas populares, designadas, muitas vezes, apenas pela profissão ou grupo social, ao contrário do que acontece comumente em romances românticos.
Podemos constatar que há questões de vestibulares que avaliam todos os aspectos de conhecimentos possíveis sobre uma obra literária. Em uma primeira camada, avalia-se o enredo e as personagens. Em uma segunda, como se caracteriza a narrativa. Em uma terceira, no que implica escolhas do autor feitas sobre a maneira de escrita. Em uma quarta, o valor sócio-histórico da obra. E em uma quinta, a relação da obra literária para com as outras que também pertence à mesma literatura.
Assim sendo, buscou-se com a escolha destas cinco questões para uma apostila, atingir os diversos níveis possíveis de conhecimento que um estudante precisará desenvolver para compreender uma obra literária e ser bem sucedido em uma prova de vestibular.
Modulo 4
O cortiço
O cortiço trata-se de uma habitação coletiva localizada no bairro do Botafogo no Rio de Janeiro, onde vivem pessoas pobres. A obra é escrita com base nas estratégias naturalistas, que ao descrever a ambientação, mostram como o meio influencia os indivíduos corrompendo-os. O romance mostra, de modo fictício, como eram as ideologias e as relações sociais no Brasil do século XIX.
O método naturalista é utilizado na intenção de fazer uma crítica contundente e coerente sobre uma realidade corrompida. Aluísio combate, como princípio teórico, a degradação causada pela mistura de raças. Por esse motivo os romances naturalistas são constituídos de espaços nos quais vivem pessoas desvalidas de várias etnias; esses espaços acabam tornando-se personagens do romance. Podemos perceber isso em algumas partes do romance como quando o narrador compara o cortiço a uma estrutura biológica (floresta), um organismo vivo que cresce e se desenvolve, aumentando as forças daninhas e determinando o caráter moral de quem o habita.
Outros grandes exemplos dessa personificação do espaço podem ser encontrados nos seguintes momentos: quando o narrador diz “os olhos do cortiço se abrem”, ao invés de dizer “as janelas do cortiço se abrem”; e também quando a esposa de Jerônimo culpa o sol por todas as desgraças que acontecem em sua vida.
Podemos dizer que “O Cortiço” não é apenas um romance naturalista, mas também uma alegoria do Brasil, pois nos mostra situações recorrentes da época, como a questão do capitalismo incipiente, o explorador vivia muito próximo ao explorado, como no livro temos a estalagem de João Romão junto aos pobres moradores do cortiço; e ao lado, temos a projeção social mais elevada que a de João Romão, que é o palacete com ares aristocráticos do burguês Miranda, que teme o crescimento do cortiço.
Aluísio se propõe a mostrar questões pertinentes no Brasil, algumas são bem atuais, como a questão da imensa desigualdade social; além disso, ele também mostra que a mistura de raças em um mesmo meio desemboca na promiscuidade sexual, moral e na completa degradação humana.
A obra explora dois espaços diferentes, o primeiro é o cortiço, um amontoado de casebres mal-arranjados, onde viviam os pobres; esse espaço representa a mistura de raças e a promiscuidade das classes mais baixas, o cortiço funciona como um organismo vivo onde todos que ali vivem ou passam a viver são corrompidos. Junto ao cortiço estão a pedreira e a taverna do português João Romão. O segundo espaço a ser explorado, fica ao lado do cortiço, que é o sobrado aristocratizante do comerciante Miranda e de sua família; este cenário representa a burguesia ascendente do século XIX.
Podemos encontrar algumas marcas de tempo na obra, sabemos que esta se passa no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro do Botafogo, no Brasil século XIX; além disso, é possível perceber que a obra possui uma trajetória linear com princípio, meio e desfecho. E também temos a noção de tempo a partir do desenvolvimento do cortiço e do enriquecimento de João Romão.
A obra é narrada em terceira pessoa, com narrador onisciente que tudo sabe e tudo vê (característica típica naturalista). O narrador possui total poder na estrutura do romance, pois ele entra na mente dos personagens, faz julgamentos e tenta comprovar, como se fosse um cientista, as influências da raça, do meio e do momento histórico.
Devido à animalização dos personagens, característica típica do Naturalismo, as ações das personagens são baseadas em instintos naturais, como os instintos sexuais e de sobrevivência; podemos perceber isso na obra, pois esta trata de duas linhas de conduta, uma que trata das questões sociais, e outra que trata das questões individuais e sentimentais. Em relação às questões sociais temos como exemplo o personagem João Romão que passa por cima de tudo e de todos para se tornar um grande comerciante, mostrando um interesse individual e também uma crítica social. Já em relação às questões individuais e sentimentais temos o personagem Jerônimo que se casa com Rita Baiana não por amor, mas sim porque ele se sente atraído sexualmente por ela, o que mostra claramente a influência dos instintos sexuais, típicos do naturalismo.
A descrição do ambiente e das personagens é feita através de relatos de seus hábitos e ambições, bem marcados pelo uso de elementos auditivos, olfativos e visuais, evidenciando o relato fiel que o autor fez da realidade social daquele período. Além disso, a descrição dos ambientes é feita através do ponto de vista das personagens, descrita de modo que dê mais verossimilhança.
É importante ressaltar que os interesses iniciais do escritor eram o desenho e a pintura; ele trabalhou como caricaturista e, em 1876, viaja ao Rio de Janeiro para estudar Belas Artes. Este talento é sem duvida refletido em “O Cortiço”, pois o autor mostra o ambiente como uma pintura, tornando assim o próprio cortiço a personagem principal do livro. Azevedo age como desenhista e pintor ao escrever o livro, justapondo cenas que evidenciam o caos que se afundam as personagens do cortiço dirigido com autoritarismo por João Romão.
A linguagem utilizada no livro é repleta de vocabulário científico, como se o autor descrevesse os fatos partindo desta ótica, o que faz total sentindo, pois a obra de Aluísio Azevedo foi inspirada em “L’Assommoir” do escritor francês Émile Zola, que prescreve um rigor científico na representação da realidade. Por ser uma obra naturalista, a intenção principal era fazer uma crítica à realidade corrompida da época.
Modulo 5
Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Caso da Vara
A criatividade de Machado manifesta-se logo no início do livro com a famosa passagem que virou clichê “não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor”, afinal, mesmo quem não leu o livro conhece esta frase. A partir daqui conhecemos então este defunto autor que decide principiar a sua história pela própria morte, ele, dessa maneira, revoluciona a estrutura cronológica do Romance brasileiro ao criar um tempo psicológico onde o mesmo escolhe a ordem em que nos apresentará os eventos.
Cubas, por trabalhar suas memórias no outro mundo, já tem justificado o uso da sua ironia, pois lá está além do julgamento do leitor que está cá no mundo dos vivos, em vista disso aquele se sente livre para contar as suas memórias da forma como melhor lhe convir. A ironia faz o leitor desconfiar das construções do narrador, uma vez que essa prevê sempre outros sentidos para o que é dito.
Essa duplicidade de sentidos pode ser exemplificada no capitulo “Óbito do autor” onde um amigo do defunto profere o seguinte discurso “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade” e, logo após, Brás diz “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei”, inclinando-nos assim a pensar que existe por trás desta amizade um interesse, já que esse amigo recebe uma herança vinda de Brás.
Brás não tem um pudor ao revelar o que se passa por trás dos panos da sociedade da época, a maneira como o faz traz até um certo humor. Como no capitulo “Um episódio de 1814” no qual sua família oferece um jantar a membros importantes da sociedade (o juiz de fora, oficiais militares, comerciantes, letrados e funcionários da administração), onde, no decorrer do evento, o pequeno Brás de 9 anos é expulso da mesa de jantar e planejando sua vingança põe-se a espreitar o Dr. Vilaça, “quarenta e sete anos, casado e pai”.
Durante um passeio pela chácara, Dr. Vilaça penetra em uma moita com a D.Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues, e beija-a, o pequeno Brás aproveita-se da situação e sai pela chácara a gritar “O Dr.Vilaça deu um beijo em D. Eusébia!”, o pai de Brás demonstra irritação com a indiscrição, entretanto no dia seguinte diverte-se com tal alvoroço. O humor dá-se pela traquinagem aprontada pelo menino que acaba por expor um ato criminoso, o adultério.
Este excerto é um exemplar das críticas feitas por Machado à elite da época, no decorrer do livro ele aborda muitos outros casos. Tal como o romance entre Virgília e Brás Cubas, os dois concretizam o amor adultero encontrando-se em uma casa alugada e tendo como cumplice a Dona Plácida, a narrativa deixa claro que a prática do adultério é muito mais vergonhoso para a mulher, ao passo que para o homem é uma conquista seduzir a mulher de outrem.
Ou como na história de Prudêncio, na qual a ironia encabe-se de propor que a estrutura social se incorpora ao indivíduo. Prudêncio fora escravo de Brás na infância e sofrera espancamentos do seu senhor, depois de alforriado, um dia Cubas o encontra, se espanta por vê-lo batendo em um negro fugitivo, pede que ele pare com aquilo e Prudêncio o atende. Prudêncio, que tinha passado a ser dono de escravo, nessa situação apenas repete a forma de tratamento a qual foi anteriormente exposto.
Levando em consideração que os Romances tradicionais sempre terminam com um final feliz e com o sucesso da personagem principal, o próprio Brás Cubas é uma grande ironia, ele é um membro da alta sociedade que teve a fortuna de não comprar o pão com o suor do próprio rosto, no entanto termina a sua vida com muitas negativas, não se casa, não consegue concluir o emplasto (medicamento que lhe traria glória na sociedade), não foi ministro e não teve filhos. Todas essas negativas demostram um insucesso diante da sociedade.
O caso da vara:
A história de Damião até nos distraí do verdadeiro foco ao qual o título aludi, a vida eclesiástica foi-lhe imposta pelo seu pai e padrinho, este último foi quem o levou ao reitor, “Trago-lhe o grande homem que há de ser [...] —Venha, [...] venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom.”, entretanto Damião está a fugir do seminário, pois não quer ser padre. Ao longo do conto pode-se ver a ironia posta nesse personagem que de humildade e bondade não tem nada.
Damião logo recorre a Sinhá Rita com a intenção de que essa persuada seu padrinho para livrar-lhe do seminário. É na trama entre esses três personagens que Machado brinca com o psicológico e com a moral, em razão de inferirmos que Damião sabe que Sinhá Rita e seu padrinho tem um caso, e por isso resolve recorrer a ela.
Enchendo-lhe as mãos de beijos e suplicando-a Damião amacia o ego de Sinhá Rita para depois lançar lhe o desafio “Meu padrinho? [...] duvido que atenda a ninguém... — Não atende? Interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não...”. Sinhá Rita aceita ajudar Damião mais para reafirmar sua autoridade sobre João Carneiro, ela o faz ir à casa do pai de Damião negociar com este.
Enquanto Damião aguarda a resposta chegamos ao foco da história e conhecemos a Lucrécia, cria de Sinhá Rita que rira ao ouvir uma anedota de Damião, e por isso é ameaçada “— Lucrécia, olha a vara!”. Pelo andar da narrativa podemos ver que a negrinha de onze anos já apanhou muito de Sinhá Rita e por ter sido ameaçada a levar o castigo de costume caso não terminasse sua tarefa, Damião sente pena dela e resolve apadrinha-la, afinal foi ele quem a fez rir.
Entretanto quando cai a noite e Sinhá Rita segurando Lucrécia pela mão pede a vara para Damião, este sem ter a resposta de ter conseguido ou não se livrar do seminário, hesita, e mesmo ouvindo as suplicas da menina, ele entrega a vara para Sinhá Rita com medo de que esta não o ajude a sair do seminário. É neste final que vemos a amoralidade do personagem que até o final preocupa-se apenas com os próprios interesses, mostrando não ter virtude alguma para participar do seminário.
E muito característico de Machado, o final do conto fica em aberto para que o leitor o imagine. O narrador nos conta que Damião entrega a vara à Sinhá Rita e para por ai, nos levando a pensar que Lucrécia apanhou, e nos deixando sem saber o desfecho da situação do Damião.
As críticas de Machado são sutis, elas são voltadas para a burguesia, mas olhando-a por dentro, isto é, ele costuma partir de um ponto psicológico, focando sua ironia e humor na moral dos personagens.
O Machado combate ao romantismo expondo a amoralidade e os defeitos dos seus personagens, que em sua maioria fazem parte da alta sociedades, estes que no romantismo eram heróis agora ficam à mercê do julgamento do leitor.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado quebra os padrões da forma, o comum era um Romance ter cerca de 30 capítulos, e ele ultrapassa fazendo mais de 100 capítulos, sendo alguns extremamente curtos.
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