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[ flashback ]
Ouvi-la discorrer amenidades era como um respiro de ar fresco, algo que o distraía de si mesmo enquanto Emmeline ia dando conta de seus ferimentos com uma agilidade incomum. Por um momento conseguiu até se divertir com a imagem da garota rodeada por quatro meninos, correndo em torno dela, puxando-a pelas vestes e rindo das próprias brincadeiras enquanto testavam sua paciência. Imaginar-se naquele cenário tinha conseguido abafar um pouco o peso de tudo, mesmo que só por um momento.
── Eles parecem ótimos.
E é verdade que tinha passado os últimos minutos desesperado para se esconder, mas de repente a necessidade disso se tornava um pouco fosca e Remus só conseguia prestar atenção nas suas últimas palavras. Mesmo agora, o efeito que a garota exercia sobre si era incontornável e aquela confissão, apesar de vir na forma de palavras simples, tinha um peso quase inconcebível para Lupin. O beijo de horas antes tinha sido uma surpresa inesperada, mas com a qual ele tinha conseguido se entender até que bem, atribuindo parte da culpa pela iniciativa ao álcool e ao calor do momento. Mas agora estavam verdadeiramente sozinhos e conscientes de tudo, talvez até demais. Nesse contexto, a revelação de que Emmeline sentia mais do que simples atração por Remus elevava as coisas a outro patamar, um que ele ainda não conseguia compreender muito bem. Pensava mal demais de si mesmo para conseguir se entender naquela posição.
Subitamente sem saber o que fazer, levou ambas as mãos às dela, aquecendo a pele gelada com a sua. Nem se deu conta que não tinha vestido a camisa, esquecida sobre a banheira.
── Eu... não sou quem você pensa que sou, Emmeline ── murmurou, baixinho, olhando-a de baixo. Ter o corpo dela tão próximo da altura de seu rosto era uma distração que ele só estava vencendo com muita força de vontade, mas precisava concentrar-se em ser honesto. Tão honesto quanto fosse possível, pelo menos. ── Todas essas coisas boas que você vê... são você. Não são eu. ── Finalmente se levantando, Remus usou a mão machucada para trazer a dela para perto de si, até fazer com que a palma dela pousasse sobre seu peito. ── Não precisa de desculpas para ficar perto de mim, Emmeline. Não mesmo. ── O pequeno sorriso que surgiu em seus lábios não era bem para ela, mas uma espécie de divertimento solitário de quem se via descrente das próprias palavras. Não conseguia entender que precisasse lhe dizer isso. Emmeline era muito mais do que ele algum dia tinha sonhado para si; se alguém ali precisava encontrar atalhos para manter-se por perto, esse alguém com certeza não era ela. Mas não sabia como dizer isso, então apenas deixou que a garota sentisse os batimentos acelerados de seu coração, mantendo a mão ferida sobre a dela. Tinha desistido de uma vez por todas da ideia de se esquivar do que quer que fosse aquilo entre eles. ── Things just won't do without you ── concluiu, apenas parte da letra de uma das várias músicas que tinham se transformado desde a chegada de Emmeline. ── Matter of fact.
Não sabia muito bem o que esperar como resposta à sua confissão, mas confiava seus sentimentos a Remus, segura de que eles seriam poupados. Independente de quais fossem as afeições de outrem a seu respeito, ele certamente lidaria com a situação com o mesmo cuidado e a classe apresentada em todas as suas interações até então. Se não bastasse as conversas honestas, o empenho investido em aprimorar suas habilidades como duelista, o companheirismo durante momentos de solidão, os risos e confidências trocadas… o rapaz havia agora também lutado ao seu lado, demonstrando preocupação durante sua ausência e se arriscado para protegê-la. Momentos de risco, como os vividos anteriormente, serviam também para evidenciar o que existia de mais bonito - ou no caso de alguns, o de mais pútrido - nas pessoas e era exatamente este o vislumbre que seu coração havia captado.
Ter suas mãos envolvidas pela pele quente do rapaz lhe dava uma deliciosa sensação de alento, e o gesto também confirmava suas suspeitas. Estava, literalmente, em boas mãos. Estranhou a declaração, mas deixou que prosseguisse sem interrupções. Tendo em vista que ele parecia novamente confortável, o bastante para se abrir um pouco mais, não podia arriscar colocar aquela conquista a perder. Achava besteira que concedesse a ela o mérito por suas qualidades, as mesmas que foram responsáveis por cativá-la de uma forma tão súbita e imprevisível. Talvez não soubesse tanto quanto gostaria a respeito dele, mas tinha acesso à sua essência, ao que o tornava fascinante e, por ora, isso bastava para si. Mas não era o suficiente para aquele que encontrava dificuldade em reconhecer as próprias virtudes.
Não recuou ao vê-lo se levantar, pois não tinha a menor intenção de se afastar. Ficou surpresa quando sua mão foi conduzida até o peito alheio. Por alguns instantes, lhe faltou o ar. Se não bastasse o contato com seu corpo, que despertava dentro de si o mais puro desejo, ainda contava com o delicado reverberar das batidas de seu coração ecoando contra a palma de sua mão e as palavras que sintetizavam tudo aquilo que desejava ouvir. Apreciava a visão de Remus despido de suas amarras. Foi inevitável que um sorriso iluminasse seu semblante. ── Então, você está me dizendo que eu sou um garoto inteligente, sensível, talentoso, companheiro, generoso, encantador, atraente…? ── A observação era feita com jocosidade, acompanhada pelo sorriso astucioso que adornava os lábios. Poderia dar continuidade aos adjetivos, mas acreditava já ter esclarecido seu ponto de vista.
Avançando um passo na direção de outrem, repousou a mão livre também em seu peito, então arrastando ambas para trilharem um caminho por sua pele, até que os braços envolvessem o pescoço, deixando seus rostos próximos um do outro. ── Porque é exatamente assim que eu te vejo. ── Os olhos permaneciam focados nos dele, reforçando a sinceridade derramada através das palavras. ── Me entristece você não enxergar toda a beleza que carrega dentro de si, mas tenho todo o tempo do mundo pra te ajudar a reconhecê-la. ── O digitos foram de encontro à sua têmpora, afagando a região. ── Pretendo te fazer companhia até o dia que se cansar de mim.
Encontrava-se em um estado emocional frágil, o que facilitava o surgimento de lágrimas que se acumulavam em seus olhos, bastava que qualquer situação a tirasse dos eixos. E foi exatamente o que aconteceu quando escutou uma parcela da letra de uma de suas músicas favoritas sendo recitada como confissão. Estava aliviada por poder voltar a chorar de felicidade. ── I'm on your back. ── Sussurrou, deixando que o complemento da canção falasse por si, pois as simples palavras bastavam. Eliminando de vez a distância entre eles, selou o entendimento com um beijo carinhoso contra os lábios dele.
flashback — emmeline vance •
Já com mais controle sobre as próprias emoções, Emmeline empenhava-se nas rondas que fazia pelo estabelecimento, onde abordava cada pessoa oferecendo seus cuidados, mesmo que superficiais. A maioria delas parecia satisfeita com a premissa, mas também encontrara aquelas que preferiam a busca pelo isolamento momentâneo como uma fuga para seus tormentos, assim como Vance fizera há poucos minutos. Sendo assim, era cautelosa com as palavras e sempre solicitava autorização antes de iniciar qualquer ação. Seu objetivo era ajudar, não contribuir para o desconforto geral.
Foi durante a vigia que observou a figura parada diante da janela, que apresentava uma pequena fissura, recém adquirida, próxima à nuca. Identificando-a como alguém que precisava de atenção, caminhou em sua direção. Primeiramente, a cumprimentou, assim anunciando sua chegada antes de comunica o que havia a levado até ali. Mas não pôde culpar o rapaz por estar distraído demais para atentar-se ao que dizia.
Ofertou um sorriso contido quando seus olhares se encontraram. Com esforço, conseguia transparecer muito mais serenidade do que o seu interior tinha a oferecer para si mesma ao lidar com as questões que aterrorizavam a todos ali. ── Eu perguntei se está se sentindo bem. ── Repetiu-se, interpretando a dúvida como uma abertura para aproximar-se com alguns passos. ── Você tem um corte na parte de trás da cabeça. ── Com o indicador, exemplificou o local ferido apontando para o próprio crânio. ── Uma batida nessa região pode ser perigosa, então achei melhor perguntar. ── Continuou, dando a ele o pretexto para conversar sobre o ocorrido. ── Também posso tratar o ferimento, se quiser. ── Contextualizando a proposta, ergueu a pequena caixa de primeiro-socorros que carregava consigo.
ele estava se sentindo bem? melhor, alguém ali estava? a pergunta o pega desprevenido, pondo-o em reflexão, enquanto olhava analiticamente a expressão calma de emmeline. ela sim parecia bem— calma. chegou perto mais alguns passos, o suficiente para que sua figura cobrisse um pouco mais do plano de fundo que se formava com chamas de fogo e pessoas espalhadas.
❝ eu— ❞ um corte? isso explicava a ardência na parte de trás da cabeça; mas ele imaginara ser apenas um arranhão ou impressão. não necessariamente um corte visível. a mão vai até a região e os dígitos voltam com um rastro quase seco de sangue. ele não se sentia mal, então o primeiro instinto que teve foi de expressar isso, negando a oferta de vance com um aceno da cabeça. mas francamente, que mal lhe faria deixá-la ajudar?
❝ tudo bem, tudo bem, não quero que essa besteira infeccione de repente, ❞ e aquela foi sua maneira contrariada de aceitar a ajuda. virando mais uma vez de costas para a garota, ele abaixa um pouco o rosto, para deixar a ferida em evidência. ❝ e lá se vai minha chance de fingir que não participei disso tudo, huh? até cicatriz vou ter por um tempinho. ❞
Em expectativa, Emmeline aguardava pacientemente pela decisão do rapaz, acompanhando sua relutância em tomá-la. Cada pessoa tinha seus motivos pessoais para estar ou não de acordo com seus cuidados, e todas elas eram respeitadas, pois seu objetivo não era ultrapassar os limites de ninguém. Nem todos estavam prontos para assumir uma posição de vulnerabilidade após o episódio vivido e ela compreendia bem o sentimento. Nada do que recebia em troca era levado para o âmbito pessoal e muito menos interpretado como uma ofensa. Com a proximidade entre eles, pôde ver o sangue transferido para os dígitos, então voltou a observá-lo, sem saber o que esperar como reação. Conhecendo pessoas que ficavam nervosas e chegavam a perder a consciência, manteve-se em alerta, pronta para acudi-lo caso aquilo viesse a acontecer. Mas, para o seu alívio, foi apenas o suficiente para convencê-lo a aceitar a ajuda.
Feliz pela escolha mais saudável ter sido tomada, ofereceu a ele um sorriso singelo. ── Vai ser rápido, eu prometo. ── O tranquilizou antes de abrir sua maleta e recolher o material necessário para a assepsia do ferimento. Por não se tratar de nada grave, a promessa não era vazia. ── Se quiser dizer que se machucou caindo no banho, posso apoiar sua versão. ── Brincou sem muito humor, perguntando-se o motivo alheio para querer omitir seu envolvimento com o ocorrido. Podia questioná-lo a respeito, mas a atitude lhe parecia indelicada. Com o toque delicado, usou o algodão embebido em poção para limpar a região superficialmente lacerada, tentando ser o mais ágil possível. ── Ninguém precisa saber a verdade.
[ FLASHBACK ]
emvcnce:
Procurar por aqueles que estiveram ao seu lado em meio à confusão era quase um dever para Emmeline, que desejava agradecer pela coragem e retribuir a ajuda oferecida durante a busca pela segurança. Assim sendo, buscou por Longbottom entre os diversos rostos conhecidos ali, para encontrá-lo sozinho com os próprios pensamentos. Hesitou em dar continuidade ao plano, pois não gostaria de incomodá-lo com a interrupção de sua solitude, mas foi notada antes mesmo que pudesse avaliar as opções. ── Eu nem tentei, pra ser sincera. ── Respondeu, suspirando baixo em seguida. Seu corpo encontrava-se completamente exausto, mas a mente agitada não permitia que o mesmo repousasse. Certamente o faria assim que estivesse em Hogwarts, mas, por ora, suas esperanças eram nulas. ── Por hoje, me dei por vencida nessa batalha. ── Deu de ombros, então caminhando até poder se sentar ao lado do rapaz. ── Estou te atrapalhando? Vi que está bem acompanhado. ── Comentou com um tom de brincadeira, indicando o copo que segurava entre os dedos. ── Mas, só vim aqui pra saber como você está. ── Foi direta. Assim que obtivesse uma resposta, não precisaria estender sua presença, se assim o outro preferisse.
frank assentiu às palavras dela. estavam naquele mesmo limbo de emoções e agitações que impediam que o sono viesse, mesmo com a exaustão que se instaurava; isso fazia da escolha de descansar algo que mais parecia uma recompensa não merecida para o longbottom. “acho que o importante é que estamos todos bem… ou quase todos.” exibiu um sorriso, mesmo em meio às feições cansadas. era mentira. não se sentia daquela forma nem um pouco. para ele, a ideia de ser incapaz era algo que o atormentava, se pegava pensando que se fosse seu pai ali, ele teria encontrado uma forma de salvar bem mais pessoas e de capturar aqueles que iniciaram o caos; perto dessa imagem, ele era fraco. o olhar do garoto foi ao copo que girava em seus dedos, já vendo os gelos derreterem em meio ao dourado aveludado. “ah, não. não está atrapalhando.” um riso escapou, leve. “eu estou bem… vou sobreviver. acho que tem muita gente aqui pior que eu.” assegurou-a, olhando ao redor brevemente, antes de se esticar para frente, pegando outro copo atrás do balcão e preparando-o com o whiskey e os cubos de gelo. “-e você, como está?” questionou, deslizando o copo no balcão para ela.
❪ 𝐟𝐥𝐚𝐬𝐡𝐛𝐚𝐜𝐤 ❫ Talvez o incidente ainda fosse recente demais, o que dificultava suas diversas tentativas de enxergar a situação presente através do olhar mais otimista, que possibilitaria focar nas coisas boas a serem valorizadas. Agradecia por ainda ter todos os seus amigos ao seu lado, sãos e salvos - possivelmente, mais salvos do que sãos - mas nada aliviava a angústia crescente diante da cruel realidade que se esgueirava, cada vez mais próxima de alcançá-los. ── Sobrevivemos… ── Era tudo o que tinha a oferecer naquele momento, e um sorriso que parecia mais sincero do que sua fala. Cada vez que olhava ao redor, avistava um pouco de si nos semblantes assustados que se espalhavam pelo local, procurando por qualquer sinal de esperança entre o caos. Ao menos ainda contavam uns com os outros para arrancar alguns sorrisos frouxos, assim alimentando o que ainda havia de bom entre eles. Assentiu, feliz por receber uma resposta positiva. ── Eu estou bem… vou sobreviver. ── Propositalmente repetiu suas palavras, demonstrando sentir-se da mesma forma que ele, usando o humor com leveza ao expressar-se. Na realidade, não estava nada bem, mas ainda erguida sobre os próprios pés. Cambaleante, mas ainda decidida a continuar. ── Queria te agradecer por hoje. Você foi muito bom em ajudar quem encontrávamos pelo caminho. ── O agradeceu, enaltecendo os feitos que surgiam em sua memória. Era sempre admirável encontrar alguém que sabia usar a magia com tanta destreza e talento. ── Deu pra notar que todos aqueles snacks te deram muita energia.
Remus fazia seu melhor para não deixar transparecer, mas estava precisando se concentrar muito para não deixar que sua respiração entrecortada ficasse evidente para Emmeline, especialmente quando ela dedicava tanta atenção às suas costas. Eram tantas sensações lhe tomando pela garganta ao mesmo tempo que, mesmo quando ela pareceu se preocupar em tranquilizá-lo, Lupin não conseguiu fazer nada além de comprimir os lábios em uma tentativa de sorriso que não convencia ninguém, simplesmente assentindo com a cabeça como se de fato estivesse escutando, notando o ponto em que a mão dela se espalmava contra sua pele e mal dando atenção à sensação de ardência.
Agora já não sabia se tinha mais medo de que Emme sentisse repúdio ou pena dele.
── Você realmente não precisa fazer isso ── disse, por fim, a voz atordoada saindo em um fiapo rouco e baixo de quem não sabia ao certo quais palavras usar. Mais uma vez era atingido por uma percepção muito clara de quem Emmeline era, da pessoa por quem estava se deixando partir aos poucos. Tinha esperado uma expressão de pavor, uma pergunta de todos os “por que” e “quem” possíveis, mas tudo que recebera no lugar fora uma tentativa das mais bem-intencionadas de simular alguma indiferença naquela situação que evidentemente não carregava qualquer normalidade real. Ele agora já não sabia dizer se o aperto que se formava em seu peito vinha da súbita consciência do quanto gostava dela ou do quanto temia que as coisas entre eles mudassem a partir dali; que a bondade dela, sempre tão evidente, já estivesse sendo maculada por camadas e mais camadas de pena ou condescendência. ── E suas mãos estão mesmo sempre frias, mas não me importo.
Encarando o ladrilho do piso, Remus não conseguia encontrar mais formas de se esquivar daquela aflição a não ser deslizando os dedos de uma mão sobre a outra, tomando o cuidado de não desfazer o velho curativo na palma machucada durante a lua cheia. Ávido para distraí-la de si mesmo, voltou a falar, ainda com muito medo do que ela poderia estar pensando dele agora. Talvez apenas devessem ter ido dormir desde o princípio.
── Nunca perguntei sobre seus irmãos... ── observou, refletindo sobre o assunto. Como era possível que soubessem tanto e tão pouco um do outro? Queria perguntar a ela a respeito, conversar sobre banalidades e irrelevâncias, mas não sentia que aquele era o espaço para isso. Não quando sua mente dava tantas voltas em torno de si mesma. ── You know... Mesmo que estivéssemos treinando para a eventualidade de algo assim acontecer... De alguma forma, eu nunca achei que aconteceria mesmo. Até hoje, era só... ── "Uma forma de ficarmos sozinhos sem parecer estranho"? "Uma desculpa para te ver"? "A melhor hora do meu dia"? ── ... um hobby.
❪ 𝐟𝐥𝐚𝐬𝐡𝐛𝐚𝐜𝐤 ❫ O sorriso oferecido por Remus não foi convincente, colocando-a mais uma vez em uma posição de culpa. Seu único objetivo era ajudá-lo, mas talvez estivesse piorando ainda mais o desconforto que já acometia a todas as vítimas do ataque daquela noite. O inferno estava repleto de boas intenções, afinal. Repensando o próprio toque e o quão acuado acidentalmente o fazia se sentir, recolheu a mão que acariciava seu ombro, usando-a como um reforço para acelerar o curativo já encaminhado, assim antecipando o alívio alheio. A voz fraca que a reprimia fazia doer seu coração, ressentida por ser a responsável por afugentá-lo. Passava a errar cada um de seus movimentos.
Eu não estava brincando quando disse que sou boa nisso. ── Momentaneamente abandonou a complacência, agora se expressando com mais firmeza, ainda que mantivesse a doçura na voz. Obviamente nutria um carinho especial por Remus, mas não o deixaria com a impressão de que se divergia dos demais, caso isso lhe causasse desalento. Também não mentia com a afirmação. Cuidar das pessoas ia muito além da satisfação de estar ajudando, era uma verdadeira realização pessoal. ── Pode me achar esquisita, mas eu gosto de cuidados como esse. Não sei, faz eu me sentir útil. ── Também apreciava o lembrete de que todos eram feitos de carne, com as mesmas vulnerabilidades e fraquezas. ── Inclusive, já que estamos aqui, posso dar uma olhada na sua mão também. ── Ofereceu-se, só então se dando conta de que a origem daquele ferimento podia ser a mesma dos demais. A percepção pairou sobre sua cabeça, enquanto prendia a respiração por alguns segundos. O que estava acontecendo com ele? A angústia pesava em seu peito. ── Sobre as minhas… Não tem muito o que eu possa fazer para controlá-las nesse ponto. ── Disfarçou com naturalidade, guardando suas dúvidas para um momento mais oportuno.
Compreendia exatamente o sentimento compartilhado. Acreditava que todos os soldados se preparavam para uma guerra, desejando que esta nunca se concretizasse. Suspirou baixo, assentindo. Considerando que ainda não haviam tido a oportunidade de falar sobre o assunto citado, Emmeline julgou apropriado compartilhar alguns detalhes sobre sua família. O que era belo encontraria uma maneira de florescer, independente da desordem. ── Tenho quatro deles, sou a mais velha e pareço ter sido a única que nasceu com o gene da responsabilidade. ── A lembrança dos irmãos a fez sorrir. Enquanto isso, finalizava a bandagem que protegeria o ferimento. ── Eles sempre acreditaram ser invencíveis e inabaláveis, por isso tenho tanta prática com ferimentos. Sabe quantos joelhos ralados já foram curados por essas mãozinhas geladas? ── Reafirmou a narrativa compartilhada anteriormente, justificando-a através dos fatos. Fez uma pausa, contemplando mais um pouco as palavras do rapaz. ── Eu também nunca acreditei que isso fosse mesmo acontecer. ── Admitiu, então recuando com a cabeça para avaliar o trabalho feito. ── E acho que, mesmo se não existisse um confronto iminente, eu ainda encontraria uma desculpa pra continuar passando um tempo com você todos os dias. ── Não apresentava pudor algum em revelar seus anseios. Quase havia cometido erros demais e colocando a perder aquilo que mal tivera tempo de desenvolver e aproveitar, mas também aprendera uma valiosa lição: não podia desperdiçar o tempo que lhe restava. ── Prontinho. Acabei aqui, pode se vestir. ── Ao falar, quase podia sentir o alívio que a frase de libertação causaria em Remus. Erguendo-se, posicionou-se diante dele, oferecendo um sorriso acanhado. Certo, revelar seus sentimentos era muito mais fácil sem precisar encará-lo de frente.
Sleeping With Other People (2015)
@emvcnce
closed: @emvcnce
ambiance: hog’s head inn, late at night.
depois dos eventos que seguiram o festival, a mente de frank já estava uma bagunça com o tanto de fumaça que acabara inalando. sentia que não conseguia focar no que havia acontecido desde aquilo e, como uma forma de tornar tudo um pouco mais fácil, tinha consigo a garrafa de whiskey que remetia aos hábitos de seu pai. com um copo gélido por conta do cubo que derretia em meio ao líquido dourado, o cenho de frank estava franzido, como se pensativo.
saiu daquele estado de transe apenas quando ouviu passos próximos de onde estava, voltando-se para encontrar ali emmeline vance. tinham conseguido sobreviver a tudo aquilo juntos, então, já estava bastante confortável com a presença dela. “oi. não conseguiu dormir?” perguntou, girando o copo em seus dígitos, ainda intocado.
Procurar por aqueles que estiveram ao seu lado em meio à confusão era quase um dever para Emmeline, que desejava agradecer pela coragem e retribuir a ajuda oferecida durante a busca pela segurança. Assim sendo, buscou por Longbottom entre os diversos rostos conhecidos ali, para encontrá-lo sozinho com os próprios pensamentos. Hesitou em dar continuidade ao plano, pois não gostaria de incomodá-lo com a interrupção de sua solitude, mas foi notada antes mesmo que pudesse avaliar as opções. ── Eu nem tentei, pra ser sincera. ── Respondeu, suspirando baixo em seguida. Seu corpo encontrava-se completamente exausto, mas a mente agitada não permitia que o mesmo repousasse. Certamente o faria assim que estivesse em Hogwarts, mas, por ora, suas esperanças eram nulas. ── Por hoje, me dei por vencida nessa batalha. ── Deu de ombros, então caminhando até poder se sentar ao lado do rapaz. ── Estou te atrapalhando? Vi que está bem acompanhado. ── Comentou com um tom de brincadeira, indicando o copo que segurava entre os dedos. ── Mas, só vim aqui pra saber como você está. ── Foi direta. Assim que obtivesse uma resposta, não precisaria estender sua presença, se assim o outro preferisse.
Remus ergueu o queixo para que pudesse olhar para Emmeline, ainda tentando se situar diante da pergunta. Queria pular para o momento em que finalmente se deitariam e descansariam, provavelmente o único pensamento que tinha conseguido trazê-lo um pouco de paz naquela noite, mas não podia simplesmente se esquivar de seus olhos tão atentos ou se negar a oferecer o mínimo de conforto depois de perceber como ela tinha se culpado por não ter lhe dado atenção antes. Queria dizer a ela que não precisava pedir desculpas, que não precisava se preocupar e que ela nunca deveria se colocar na responsabilidade de cuidar de alguém como ele. Que ela jamais poderia magoá-lo ou se colocar em dívida por qualquer razão, que ele sempre a enxergaria por todos os pontos em que se excedia e jamais por aqueles em que faltava.
Mas, como em inúmeras outras ocasiões, não conseguiu encontrar forças para fazer qualquer coisa além de concordar lentamente com a cabeça. Levando as mãos à barra da camisa, Remus conseguia sentir a mandíbula travada em tensão e já ouvia mil vozes lhe dizendo que aquilo era um erro quando finalmente desvencilhou-se da peça. Dessa vez já não conseguia mais olhar para ela, encarando um ponto distante do chão conforme ia ouvindo ao pé da orelha tambores que muito se pareciam com o som de seu coração. Remus já tinha pensado em mil e uma desculpas diferentes para as cicatrizes em seu rosto, linhas finas e esbranquiçadas, mas não tinha como explicar os retalhos que se somavam como tramas de diferentes desenhos ao longo de seus ombros e coluna, linhas e mais linhas brancas de cicatrizes antigas de algumas de suas piores noites.
Tinha sentido muito medo naquela noite, mas o pavor que agora o acometia conseguia ser quase pior. Era como se estivesse se colocando sob um holofote depois de uma vida inteira escondido no escuro. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não conseguiu. Só podia esperar alguma vantagem da fraca iluminação, que Emmeline se atentasse ao machucado mais recente e que não lhe passasse pela cabeça qualquer vislumbre do que ele realmente era. Tinha lidado razoavelmente bem com os acontecimentos daquela noite, tinha passado uma vida inteira se acostumando a perder as coisas aos poucos, mas não estava pronto para o baque de ser visto por Emmeline pelo que realmente era e finalmente vê-la se afastar, tomada de pavor e repúdio.
Ainda não.
Deixando um pouco de lado o desamparo que a acometia, e que até aquele momento não poderia ser revertido, Emmeline focou toda a sua atenção no rapaz e nos cuidados que necessitava, encontrando conforto na atividade, mas principalmente na companhia acalentadora de Remus. Devido à intimidade que construíram e o intuito do pedido, não esperava que a resposta para sua indagação demorasse a vir, muito menos vê-lo hesitante diante dela. Entretanto, também conhecia muito bem o sentimento de insegurança, por isso apenas respeitaria o tempo e vontade do outro. Encontraria uma alternativa para o tratamento do ferimento, caso ele se negasse a livrar-se da peça de roupa danificada. Enquanto isso, mantinha-se ocupada para aliviar o constrangimento, focando na tentativa de aquecer as mãos e mantê-las ocupadas, para assim também evitar causar ainda mais desconforto através do toque gelado de seus dedos. Sempre agia com bastante atenção ao desempenhar aquela função, mas mostrava-se ainda mais zelosa ao se tratar do bruxo.
No momento em que Remus concordou em despir-se, sentiu-se lisonjeada com a confiança depositada sobre si, o que fez nascer um pequeno sorriso em seus lábios. O mesmo oscilou assim que seu olhar encontrou as diversas marcas espalhadas pela extensão das costas e ombros alheios, meramente iluminadas pela luz fraca que banhava o ambiente. Durante alguns instantes, chegou a pensar se tratarem de ferimentos recentes obtidos durante o ataque, mas não demorou a constatar serem cicatrizes antigas, já reparadas pelo tempo. De repente, a hesitação dele começava a fazer mais sentido e o nó retornava à sua garganta. A mente de Vance sequer conseguia conceber uma hipótese do que podia ter causado todas aquelas marcas, muito menos a dor experienciada pelo rapaz ao adquiri-las.
Para que a própria hesitação não fosse notada, agiu com imediatismo, voltando a acomodar-se sobre o espaço na borda da banheira ocupado anteriormente, levando consigo apenas sua varinha, algumas gazes embebidas com poção medicinal e outras que serviriam para proteger o mais recente corte. Com a proximidade, pôde observar melhor a dimensão das fissuras antigas e se espantar com os mesmos. Algumas delas pareciam mais recentes do que outras, o que implicava um detalhe estarrecedor. O que havia acontecido com ele? E quem havia feito aquilo? Eram as principais indagações que lhe gritavam ao pé do ouvido, deixando-a atônita. Não era prudente que tais questionamentos fossem reproduzidos, porém. Não em um momento tão delicado como o que viviam. O presente já mostrava-se assustador o suficiente, sendo assim, não era justo fazê-lo reviver as lembranças atreladas àquelas cicatrizes, principalmente quando decidira confidenciar a ela aquele segredo. O melhor a se fazer era manter a discrição, dando a ele privacidade, e continuar com o plano inicial: acolhê-lo e confortá-lo.
Não me parece tão grave assim. ── Quebrou o silêncio, agora voltando toda a atenção para os cuidados sobre a pele lacerada, limpando-a delicadamente para livrar-se do sangue seco acumulado ali. ── Imaginei encontrar um corte mais profundo, mas vai ser rapidinho e indolor, Remy. ── Sua voz era suave como uma doce brisa ao tranquilizá-lo, deliberadamente fazendo uso do apelido carinhoso como forma de afago. Remus precisava saber que nunca seria julgado por seu passado e pelas marcas deixadas por ele, assim como sua importância para Emmeline. Depois de tudo ser devidamente limpo, foi o momento de esterilizar a lesão. Ciente de que o contato com o medicamento causava ardor, repousou a mão livre sobre o ombro do bruxo, acariciando-o com o resvalar do polegar. Não era obra do acaso que o carinho era deixado sobre uma de suas cicatrizes. ── Se minha mão estiver gelada demais, é só dizer. Meus irmãos sempre reclamaram disso. ── O distraiu com o fato real, então inclinando-se para frente, procurando o olhar que a evitava. ── Mas, no seu caso, eu não vou mandar você se danar se fizer isso. ── Brincou, oferecendo a ele um sorriso, em seguida retomando a tarefa.
𝐨𝐧𝐝𝐞. cabeça de javali, hogsmeade;
𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨. madrugada, após o ataque;
𝐪𝐮𝐞𝐦. gideon prewett & emmeline vane ( @emvcnce )
quanto tempo até que o sol nascesse? gideon estava olhando para fora do cabeça de javali, através de uma janela coberta em poeira e um esfumaçado envelhecido que ele não saberia dizer bem qual a procedência. ainda estava escuro e dali, hogwarts e sua cama quentinha no dormitório da grifinória pareciam a uma eternidade de distância. eles não podiam voltar, ainda não era seguro— e se durante a travessia do vilarejo para os terrenos da escola houvesse uma emboscada? os alunos remanescentes podiam estar em menor número do que os bruxos das trevas, caso voltassem com reforços. era sábio se esconder. terrivelmente chato e desconfortante, mas sábio.
o prewett estava focado em alguns pontinhos de luz, vindas dos postes para além da rua da estalagem quando sentiu uma presença de pé, logo atrás. ele não se sobressaltou; não girou a cabeça veloz, porque algo dentro de si não despertou aquele ímpeto urgente de defesa, afinal, só haviam rostos conhecidos e confiáveis por ali. e a voz. a voz que lhe chegou aos ouvidos era feminina. questionava algo, ao que ele esteve distraído demais para captar;
❝ mhm, o que você disse? ❞ ele murmura, olhando por cima do ombro para encontrar a figura de emmeline vane, de olhos bem abertos e fixos nele— em algo em sua cabeça.
Já com mais controle sobre as próprias emoções, Emmeline empenhava-se nas rondas que fazia pelo estabelecimento, onde abordava cada pessoa oferecendo seus cuidados, mesmo que superficiais. A maioria delas parecia satisfeita com a premissa, mas também encontrara aquelas que preferiam a busca pelo isolamento momentâneo como uma fuga para seus tormentos, assim como Vance fizera há poucos minutos. Sendo assim, era cautelosa com as palavras e sempre solicitava autorização antes de iniciar qualquer ação. Seu objetivo era ajudar, não contribuir para o desconforto geral.
Foi durante a vigia que observou a figura parada diante da janela, que apresentava uma pequena fissura, recém adquirida, próxima à nuca. Identificando-a como alguém que precisava de atenção, caminhou em sua direção. Primeiramente, a cumprimentou, assim anunciando sua chegada antes de comunica o que havia a levado até ali. Mas não pôde culpar o rapaz por estar distraído demais para atentar-se ao que dizia.
Ofertou um sorriso contido quando seus olhares se encontraram. Com esforço, conseguia transparecer muito mais serenidade do que o seu interior tinha a oferecer para si mesma ao lidar com as questões que aterrorizavam a todos ali. ── Eu perguntei se está se sentindo bem. ── Repetiu-se, interpretando a dúvida como uma abertura para aproximar-se com alguns passos. ── Você tem um corte na parte de trás da cabeça. ── Com o indicador, exemplificou o local ferido apontando para o próprio crânio. ── Uma batida nessa região pode ser perigosa, então achei melhor perguntar. ── Continuou, dando a ele o pretexto para conversar sobre o ocorrido. ── Também posso tratar o ferimento, se quiser. ── Contextualizando a proposta, ergueu a pequena caixa de primeiro-socorros que carregava consigo.
Remus franzia as sobrancelhas com tanta força que estava formando um vinco no espaço entre elas. Nem percebia que o fazia, mas era um hábito que tinha desde pequeno: quando não tinha o que dizer, seus olhos assumiam todo o peso de seus sentimentos e falavam sozinhos. Rendido, foi ouvindo Emme falar com paciência, lábios comprimidos e olhos cheios de mágoa, raiva e mais um novo sentimento, desconhecido e muito diferente dos demais. Alguns anos mais tarde, Lupin perceberia que fora ali, naquele banheiro gelado e escuro, que seu coração passara a responder por uma única voz, um único nome; mas agora ele era só um rapaz de dezoito anos e não tinha como saber disso ainda. Não de forma tão consciente, pelo menos.
Quieto, manteve os dedos calejados firmemente em torno dos joelhos de Emmeline, como se com isso pudesse impedi-la de se quebrar por inteiro. Ajoelhado ali, vendo-a chorar, já não conseguia encontrar meios de negar o que lhe era pedido e por isso simplesmente assentiu com a cabeça, permitindo que ela desse uma olhada em seus ferimentos mesmo que, com isso, estivesse assumindo um risco sem precedentes e deixando que ela visse uma parte expressiva de tudo aquilo que ele tinha passado tanto tempo tentando esconder.
── Não... ── murmurou, erguendo-se para se sentar ao seu lado novamente. Com cuidado, envolveu seu rosto com ambas as mãos, limpando as lágrimas ali. Vê-la sofrer estava acabando com ele. Antes de voltar a falar, se inclinou apenas o suficiente para dar um beijo sobre a linha brilhante das lágrimas ali. ── Não quero isso, não quero desculpas. Você não precisa se remendar para mim, Emmeline. Não tem nada que você possa me atirar que eu não esteja preparado para pegar.
A ideia de que ela estivesse sofrendo pela possibilidade de perdê-lo naquela guerra que estava para começar não apenas parecia insana por natureza, já que Lupin não se sentia digno disso, como também estava pouco a pouco o corroendo por dentro. Era realmente uma grande ironia que fosse Remus a confortá-la naquele contexto quando, para ele, parecia muito evidente que, se um dos dois corria o risco de perder ao outro, esse alguém certamente não era ela.
── Seja lá o que isso for... Eu não vou a lugar algum, Em. Não vou a lugar algum e também não vou deixar nada de ruim acontecer com você.
Remus comprimiu os lábios, deslizando uma das mãos para a parte de trás de sua cabeça e afagando os cabelos ali. Parecia impressionante que, apenas algumas horas antes, tivesse feito aquele mesmo movimento para dar o beijo mais feliz de sua vida. Agora, não conseguia ver além dos olhos dela, da tristeza escancarada ali e do sentimento de revolta que começava a lhe subir pelo peito, ofuscando até mesmo a tristeza. Essa era mais uma coisa que só perceberia depois de mais velho: o ponto de virada. O ponto em que começara a se perder.
── Você pode dar uma olhada... ── cedeu, por fim, notando a atenção dela sobre os pontos em que seu corpo apresentava as marcas de lacerações recentes. Já podia sentir o próprio coração reagindo por antecipação, acelerando pela ansiedade, pelo medo do que ela poderia ver além delas. Mas já estava afundado naquilo até o pescoço para voltar atrás agora. ── Mas depois quero encontrar um lugar para você descansar. Está bem?
De forma prática e desoladora, era revelada para Emmeline sua postura ante a ameaça real, que a desapontava de maneira imensurável. Como alguém que se orgulhava de sempre ter oferecido apoio incondicional e suporte para os irmãos mais novos, alarmava-se com a ideia de que sucumbiria a desolação caso precisasse protegê-los durante uma situação como a vivida naquela noite. Este era um raciocínio incoerente, que desvalidava toda a sua luta até alcançar abrigo no pub, mas que ia de encontro com qualquer tentativa de racionalização feita por ela. A verdade era que seus sentimentos estavam à flor da pele e em controle de qualquer discernimento presente, por isso se desatava na presença de Lupin, que lhe oferecia a segurança de ser acolhida ao desabar.
Assumindo ter perdido o controle, restava a ela apenas deixar que o acúmulo de tensão se esvaísse, dando espaço para que seu reerguer recomeçasse. Tinha tido a falsa ideia de que recuperara o equilíbrio durante o isolamento, isso até ter que enfrentar parte daquilo que quase havia sido arrancado de suas mãos de maneira súbita. Com as lágrimas secadas e o beijo depositado sobre seu rosto, encontrou uma nova justificativa para seu pranto: a felicidade de ainda ter Remus ao seu lado. Sentia-se abraçada por suas palavras de aceitação e conforto, assim colocou um sorriso trêmulo nos lábios, sem saber o que dizer para agradecer tamanha bondade. Assentiu, concordando com não se esconder mais, mesmo que jamais fosse capaz de sobrecarregá-lo com os próprios fardos a serem carregados.
Não era seu desejo ver qualquer um de seus amigos confrontando aquelas figuras mascaradas, mas ainda se atinha ao conforto de tê-los ao seu lado, fortalecendo um ao outro na resistência contra o desconhecido. Nada aliviaria o sentimento de revolta que a corroía, mas ao menos encontrava forças para enfrentar o medo que a enfraquecia. Sentia o afago sobre a cabeça, que mais servia como um consolo para a alma afugentada. ── Eu estou assustada, mas… ── Um novo sorriso atravessou os lábios, dessa vez um pouco mais confiante. O rapaz oferecia a ela tudo que nunca soubera como pedir, assim amansando o que a inquietava. ── Também não vou a lugar algum. ── Firmou a promessa. Como poderia fugir? Tinha muito de valioso a proteger e pelo qual lutar. Estar abatida não significa que permaneceria no mesmo estado para sempre e ainda restava a esperança de conseguir se adaptar à possível nova realidade.
A dificuldade para respirar parecia diminuir à medida que a névoa em sua mente se tornava menos densa. O propósito de ajudá-lo também funcionava como uma emenda para suas fissuras internas. A condição imposta não era nada absurda, mas apresentava uma pequena falha, que justamente seria apontada por Vance. ── Para nós descansarmos. ── Não implicava que o fizessem juntos, apesar de também não se opor à ideia, mas apenas o lembrava de que também deveria dar atenção ao próprio bem-estar. Antes de colocar-se de pé, tomou a mão que a segurava na própria, apertando-a carinhosamente. ── Você também precisa de repouso. ── O conselho foi dado com doçura e, assim que se levantou, um beijo longo foi depositado sobre a testa do rapaz como gesto de gratidão.
Durante os instantes que levou para se recompor, esfregou o rosto com as mãos, agora livres, aproveitando a pausa para respirar fundo e se concentrar na tarefa que desempenharia em seguida. Antes de se munir de qualquer medicamento ou gaze, avaliou a figura do bruxo, procurando por ferimentos que necessitassem de atenção. Não ignorava o corte já limpo em seu rosto, que receberia um cuidado especial em seguida. E foi em suas costas, próximo a omoplata esquerda, que encontrou um rasgo no tecido de sua camiseta e rastros de sangue que indicavam a possível existência de um machucado na região. ── Parece que alguma coisa te arranhou aqui. ── Indicou. Suspeitava que tivesse trombado contra algum objeto afiado durante a confusão. ── Pode erguer a camiseta para eu ver melhor? ── Foi sua maneira de pedir consentimento, pois não queria vê-lo desconfortável com sua avaliação.
with @chamaleondiggle
"I think I'm losing my mind now."
Em uma sala empoeirada e mal iluminada, localizada no porão do estabelecimento, Emmeline vasculhava algumas prateleiras, seguindo os conselhos de Tresorin. Contando com o apoio do homem, continuava a oferecer seus cuidados para aqueles que necessitavam, precisando apenas das ferramentas certas para ajudá-la com o processo. Como se houvesse a mínima chance de encontrar-se completamente sozinha dentro do pub que refugiava diversas das vítimas dos ataques naquela noite, sobressaltou-se ao notar a presença de Ophelia ali, revivendo o medo vivenciado anteriormente. ── Me desculpe. ── O riso baixo causado pela reação era baixo e doloroso. ── Eu sinto que estou perdendo a cabeça. ── Justificou-se, ainda que a atitude não fosse necessária. Outro sentimento compartilhado pelo grupo era o da complacência. ── Eu vim aqui pegar algumas coisas para tentar esterilizar os ferimentos mais profundos que encontrei por aí. Precisa de algo?
Remus fechou os olhos, sentindo o calor dos dedos de Emmeline sobre sua pele. Não percebeu que franzia as sobrancelhas e comprimia os lábios, como se o mero toque dela tivesse trazido à superfície todos os sentimentos que ele tinha tentado abafar com tanto afinco nas horas anteriores. Ainda afundado no breu, Lupin de repente se tornava muito ciente da própria respiração, do silêncio, do corpo dela próximo ao seu. Levando a mão machucada até o ponto onde Emmeline o tocava, deslizou sua palma sobre as costas da mão dela e se manteve assim por um momento, regulando a própria respiração e tentando ignorar qualquer coisa além da sensação da pele dela contra a sua. Estava sendo difícil manter a postura, especialmente quando Emmeline parecia ter uma certa facilidade para trazer à tona tudo que ele reprimia, mas estava decidido a não se partir em pedaços diante dela. Não era disso que qualquer um dos dois precisava agora.
── Vou ficar bem, Em ── respondeu, abrindo os olhos novamente. Com os dedos apoiados sobre os dela, Remus trouxe a palma de sua mão para perto dos lábios e beijou a pele ali, um gesto que lhe pareceu tão natural que, diante de tais circunstâncias, nem parou para pensar se de fato tinha precedente para isso. Seria simplesmente juvenil se preocupar com esses pormenores agora. ── O melhor que você poderia fazer por mim você já está fazendo agora. Está aqui comigo.
Sabia que eram poucas palavras, mas eram também mortalmente sinceras e talvez dissessem até mais do que ela deveria saber. Devolvendo a mão de Emmeline para seu colo, Remus logo voltou sua atenção aos machucados ali e permaneceu em silêncio durante o restante do tempo, muito compenetrado nas lesões que encontrava, às vezes limpando até mais de uma vez a mesma ferida. Incapaz de falar muito, ia se comunicando através dos gestos, que evidenciavam o quanto tinha precisado se segurar para não procurá-la antes. Talvez fosse egoísmo de sua parte, mas naquele momento só conseguia se preocupar com ela. O mundo lá fora podia esperar.
Terminados seus braços, agachou-se para dar uma olhada em seus joelhos. Foi impossível não perceber os frangalhos indistintos que tinham sido sua saia, a sujeira no tecido transparente através do qual podia ver mais escoriações e pequenos cortes se entremeando pela pele. Não era assim que Remus tinha se imaginado descobrindo seu corpo, não era assim que tinha imaginado qualquer coisa naquele fim de festival, mas ali estavam os dois e não havia mais nada a se fazer além de dançar conforme a música. Todos tinham sido roubados de muitas coisas naquela noite, desde as pequenas até as mais importantes.
── Foi incrível o que você fez hoje. Lá no festival e aqui ── voltou a falar, ainda sem levantar os olhos para ela. Emmeline tinha mesmo lhe oferecido uma ajuda com seu curativo, horas mais cedo que pareciam uma vida antes, mas ele não tinha realmente compreendido o que ela quisera dizer com “sou boa com essas coisas” até então. Terminando de fixar a última gaze, finalmente levantou o rosto para olhá-la. O silêncio ali era quase palpável, mais denso até do que aquele que tinha notado na roda-gigante. ── Por que não vai dormir um pouco...? Logo deve amanhecer.
O gracioso beijo deixado sobre sua mão e as doces palavras de reconforto, foram o suficiente para desestruturar a frágil barreira construída nos momentos de isolamento depois do caos, desarmando o que lhe restava de domínio sobre os próprios sentimentos. Em meio ao frio de desolação, uma debilitada fagulha nascia em seu peito, aquecendo o gélido desamparo. Lágrimas começavam a se acumular nos olhos que acompanhavam cada movimento do rapaz, admirando todo o cuidado demonstrado através deles. Como era possível que, o mesmo destino que a agraciava com a fortuna de conhecer alguém tão especial como Remus a tempo de desfrutar de sua companhia com tamanha sublimidade, pudesse ser aquele que a arrastava para encarar a morte de frente instantes depois? Tudo o que acreditava saber sobre a vida, agora parecia refutado, uma enorme ilusão concebida por sua mente desavisada.
As lágrimas silenciosas e solitárias percorriam seu rosto e, por ventura, o bruxo encontrava-se compenetrado demais em seus cuidados para notá-las. Não se importava de ser vulnerável em sua presença, mas pouco gostaria de preocupá-lo com elas. ── Nem me recordo do que fiz. Estava tão desesperada que… Acho que agi no impulso e deixei a adrenalina me guiar. ── Combatendo o nó presente na garganta, conseguiu justificar as próprias ações, ainda que as lembranças do que acontecera tivessem se tornado uma grande névoa confusa em sua consciência. Mesmo assim, lidava com a insatisfação causada pela inevitável impotência perante o perigo real. ── Talvez eu pudesse ter feito mais ou algo diferente, mas… Eu nem entendi direito o que estava acontecendo. ── Analisava a si mesma enquanto se desculpava por qualquer deslize despercebido. Se tivesse se arriscado mais, talvez tivesse feito a diferença, talvez tivesse destruído alguma daquelas figuras mascaradas ou ajudado mais pessoas a se protegerem, evitado o ferimento em algum inocente ou que algum incêndio se alastrasse. Talvez, talvez, talvez… O questionamentos e o medo martelavam sua cabeça.
Apertou os olhos, estancando o choro desenfreado que ameaçava se manifestar. Quando voltou a abri-los, encontrou os do rapaz a observando de volta. Neles, enxergou os últimos momentos de felicidade vividos ao seu lado, que agora pareciam tão distantes e descolados da realidade. Um sonho dentro do pesadelo. Emmeline respirou fundo, ainda que soubesse que, mais uma vez, seria incapaz de inibir o inevitável. ── Duvido que consiga dormir hoje, mas daqui a pouco vou me deitar e tentar descansar. ── O voz soava trêmula, assim como os dedos das mãos que se tornavam inquietos, se comprimindo em agonia. Sentia-se culpada. Havia negligenciado a principal pessoa a procurá-la com consideração. Sem encontrar resposta para o que acontecia, uma enxurrada de sentimentos varria seu equilíbrio. ── Mas, antes, eu posso dar uma olhadinha em você? ── O olhar reluzente lançado a ele era de súplica, também um pedido de desculpas. Precisava retribuir a gentileza recebida, não por obrigação, mas porque era assim que demonstrava o quanto se importava. Havia sido assim durante toda a sua vida.
Este era o grande problema em reprimir seus sentimentos. Cedo ou tarde eles alcançavam a superfície, quase sempre de forma turbulenta. Podia ser tarde demais para tentar ajudar cada alma assolada naquela noite, mas ainda tinha a chance de corrigir aquele pequeno erro, que para ela tinha uma imensa importância. ── Me desculpe por não ter te procurado antes é que… Eu precisava me remendar. ── Desconfiava que aquela não era a palavra ideal para descrever todo o trabalho interno necessário para tentar evitar despedaçar-se por completo, para não sucumbir à desesperança que se alimentava de cada momento bom vivido, em uma época onde todo o terror do mundo ainda lhe era desconhecido e que permanece guardado na lembrança com enorme afeição, mas bastava. O silêncio cortante a atingiu como um golpe sobre a boca do estômago, assim como a compreensão de algo novo. ── E eu fico pensando em tudo que podia ter perdido hoje… ── Desprendida de qualquer constrangimento, abertamente se referia a ele. ── Eu estava tão feliz com você, Remus. ── Magoada, soltou as rédeas que a prendiam. Seus olhos desaguavam, desafogando o coração sufocado, que parecia pesar toneladas. Eles mereciam mais tempo.
Sua dor era muito mais profunda do que o mero pesar pela noite arruinada, pela oportunidade perdida de finalizar o último dia de festival com um beijo de Lupin para, então, retornar ao castelo com lindas lembranças intactas que a acompanhariam pelo restante de sua vida. Tinha medo de que nunca mais fosse a agraciada com a oportunidade criar boas memórias, que o mundo se tornasse apenas uma vastidão de trevas daquele momento em diante e lamentava por todos aqueles que a acompanhariam na caminhada pela imprecisão. A realidade a devastava sem piedade.
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O caos havia se instaurado de um instante para o outro, de modo que Emmeline sequer conseguia acompanhar ou compreender o que acontecia. Por puro impulso, empunhara a varinha no momento em que o aterrorizante grito ecoou por todo o festival, perfurando os tímpanos e disparando arrepios pela espinha de cada bruxo presente, seguindo o instinto que sussurrava ao pé de seu ouvido. Todos os momentos bons vividos durante o fim de semana havia a ajudado a se distrair, a momentaneamente se esquecer dos problemas que ainda a acompanhavam, mas seria ilusão acreditar que o fim dos mesmos seria tranquilo como desejava. Cedo ou tarde a realidade a alcançaria.
A mágoa da desilusão enevoava sua mente e seus movimentos continuavam automáticos. Não tinha consciência do que fazia, para onde ia ou o que procurava. Observando as pessoas que corriam de um lado para o outro, parecendo tão atordoadas quanto ela, se dava conta de que não conhecia a maioria daqueles indivíduos e não sabia em quem confiar. Naquele momento, eram almas perdidas buscando por respostas. Os pensamentos vagavam por territórios que pouco a agradavam, mas felizmente foram interrompidos por Frank e Alice, a quem encontrara em meio a confusão. Com o olhar os avaliou, apenas se certificando de que estavam fisicamente intactos. ── Não, não está. ── Seu tom de voz expressava pesar. Nem mesmo tentava vender a falsa narrativa de que estava bem ou que o cenário era menos caótico do que aparentava. Não havia vantagem na ilusão. ── Estejam preparados para se defenderem ou atacarem. ── Aconselhou, gesticulando rapidamente com a própria varinha. @rxmlpin
Remus puxou o ar pela boca, sentindo o gosto de fuligem que ia pouco a pouco envenenando seus pulmões. Levando o braço até a frente do rosto, tossiu algumas vezes enquanto tentava enxergar além da nuvem de fumaça e das labaredas adiante, a mão livre ainda com a varinha em riste sem apontar para qualquer inimigo em especial.
Ele já havia vivenciado desespero muitas vezes antes, mas aquela sensação era diferente, era pior. O desespero de procurar pelo rosto dos amigos meio ao fogo, de ouvir suas vozes sem conseguir identificar de onde vinham e de não saber se eles estavam bem era algo infinitamente mais cruel. No início da confusão, a comoção de pessoas apavoradas tinha forçado seu distanciamento de Emmeline, cuja mão ele não conseguira segurar com força o bastante antes de ser arrastado pela massa de gente que corria para longe do palco.
Perder Emmeline de vista tinha sido o primeiro golpe. Ficar sozinho meio ao fogo foi o segundo. Gritar por James, Sirius e Peter, sem receber resposta, foi o terceiro. Para alguém tão acostumado a nivelar as próprias emoções, Remus estava sentindo o próprio coração doer tanto que parecia prestes a explodir.
Foi quando ouviu a voz de Frank e viu o amigo não muito longe dali, abraçado junto a Alice. A descarga de adrenalina moveu suas pernas já muito cansadas para correr em direção a eles, onde seu peito se encheu de mais um alívio sem precedentes quando divisou a silhueta de Emmeline se juntando ao casal. Parando de supetão, Remus apoiou uma mão no ombro de Vance e a outra no de Alice enquanto seus olhos corriam pelo rosto de cada um dos três amigos, tentando identificar se estavam todos bem.
── Nunca pensei que ficaria tão feliz por te ver, Longbottom ── disse, esbaforido e genuinamente grato. ── Alice, que bom que está bem ── cumprimentou, fazendo um meneio agitado de cabeça para a morena. Depois, lançando um olhar para Emmeline, sobrancelhas franzidas e lábios comprimidos, esperou que ela conseguisse entender em seus olhos tudo que não ia conseguir dizer agora. ── Pensei que tinha perdido você. ── E aquilo não chegava perto de exprimir seu real alívio, mas Remus estava já quase sem ar e não tinham tempo a perder. Foi quando sua atenção foi atraída por gritos agudos e Remus identificou no mar de fumaça à distância um grupo de alunos do quinto e sexto ano tentando fugir das chamas lançadas pelas figuras de capuz. ── Filhos da puta. Precisamos fazer alguma coisa. @ohmurphy
O coração de Alice aliviou-se com a visão de Frank e seus amigos. Era egoísta aquele sentimento de ‘pelo menos não estou sozinha?’ Alice Murphy sentia-se daquele jeito, no entanto também pensava que juntos poderiam ser mais fortes. Sozinha, o medo mal deixava que se movesse, as pernas tensas, a mente confusa… Mas com seus amigos, a situação era diferente. Sentia a necessidade de ser útil e proteger, um impulso de coragem e certa ousadia lhe dominava, ainda que as mãos tremessem um pouco. Ela assentiu para os colegas, cumprimentando com a cabeça, concordando com as palavras deles.
“Estamos fisicamente bem.” Acentuou Alice, soltando a mão de @slccpylixn apenas para sacar a própria varinha. Seu primeiro instinto fora apenas ficar parada, chocada e negativamente impressionada. O segundo, felizmente, era lutar. “Podemos fazer alguma coisa então. Remus está certo, precisamos fazer alguma coisa.” Ela respirou fundo, embora a ideia não tinha sido tão boa. A fumaça entrava em seus pulmões ao mesmo ritmo que as pessoas se espalhavam desornadas ao seu redor, esbarrando em suas costas e ombros. “Temos que tirar essas pessoas daqui. Tem bruxos jovens demais.” E estão todos desesperados demais, pensou ela, criando o cenário perfeito para uma tragédia maior ainda. “Temos que proteger essas pessoas.” Concluiu, olhando para o alto, procurando por qualquer um que pudesse ter começado o incêndio. Achava que se pudesse encontrar algum culpado e combatê-lo seria a medida perfeita. No entanto, a visualização de qualquer coisa se tornava cada vez mais complicada. Os olhos voltaram-se para os amigos, com certo desespero, buscando qualquer tipo de ajuda. Tergeo? Protego? Ou simplesmente guiar todo mundo em direção a uma saída? “Podemos usar lumos para direcioná-los a saída?” Parecia fazer sentido, já que a fumaça bloqueava o céu e a luz. “Ou procurar quem possa ter feito isso?”
o semblante de frank era calmo, como sempre, mas em sua mente corriam milhares de pensamentos de uma só vez; o que poderia fazer naquela situação? qual seria a resposta mais adequada? queria poder ajudar mais pessoas, no entanto, não desejava fazer com que os outros três juntos dele corressem qualquer perigo adicional por irem com ele em sua aventura heróica desnecessária. o cenho levemente franzido enfeitava suas feições sérias e se manteve em silêncio num primeiro momento, mas logo sua atenção se desviou do grupo para onde remus havia olhado, em resposta aos mesmos gritos. não tinham tempo para ficar pensando muito sobre o assunto numa situação como aquela, principalmente com a fumaça cada vez mais densa invadindo o espaço, aos poucos os confinando aos poucos corredores de ar em que ainda conseguiam respirar relativamente bem.
frank suspirou, focando sua mente para resolver os problemas que tinham agora. “podemos usar o lumos para tentar chamar a atenção, mas com as chamas e a fumaça pode ficar um pouco difícil… talvez se usarmos a azaração ventus tria podemos dispersar um pouco da cortina mais densa…” sugeriu, já sentindo a respiração começar a se alterar devido à inalação da fumaça. ainda assim, restava o problema das figuras encapuzadas causando mais e mais danos às estruturas e às pessoas ao redor. “-mesmo assim… não acho que conseguiremos fazer muita coisa se não derrotarmos aqueles caras.” apontou mais à frente, onde podia enxergar chamas sendo lançadas em meio à multidão. tinham que cortar o mal pela raiz ao invés de focar em suas ramificações. “agora acho que seria bom decidirmos se vamos lutar ou tentaremos evitar um embate direto…” @emvcnce
Quando seus olhos encontraram a figura de Remus, uma onda de alívio a atingiu, um breve respiro antes de precisar retomar a luta pela sobrevivência. Em instantes se comunicaram com o olhar, expressando aquele sentimento contido. Para complementar, correspondeu com um breve aceno de cabeça à declaração alheia. A ideia de perdê-lo daquela forma era tão irreal e abstrata, que sequer havia sido uma concepção em sua mente. Usando aqueles reencontros como combustível, tentou oxigenar o cérebro entre toda a fumaça que a sufocava, reorganizando os pensamentos de forma a poder agir logicamente. O olhar permanecia vidrado em um ponto qualquer, enquanto escutava as ideias jogadas pelos amigos, procurando por um caminho que as unissem.
Quase agiu fisicamente, impedindo Alice de agir, quando pensou na pior conclusão possível para o que havia proposto. ── Usar lumos pode ser perigoso, podemos acabar chamando atenção e colocando um alvo em cada um de nós. ── Depois voltou-se para Frank. ── Detesto soar pessimista, mas duvido que sairemos vitoriosos de um embate, principalmente iniciado por nós. ── Aceitou a dura realidade, engolindo-a a seco, mas sem deixar-se perder no derrotismo. Estavam lidando com bruxos mais experientes e encontravam-se em um número menor de pessoas, por isso era necessário manterem-se realistas. A única chance que tinham de derrotá-los era agruparem-se com mais pessoas. ── A gente se defende e ajuda quem estiver precisando.
Depois de um breve pausa, ordenou suas coordenadas. ── Usar Ventus é perfeito! Podemos limpar um pouco o ar, visualizar melhor o caminho e ainda derrubar algumas coisas em cima desses desgraçados. ── Agora havia um pouco mais de luz em sua expressão. Ainda restava esperanças. ── Mas, antes... ── Gesticulou com a varinha na direção de cada um dos colegas, originando um pequeno facho de luz que flutuava sobre suas cabeças, os quais apenas Emmeline enxergava. ── Eu estou rastreando vocês. No caso de nos separarmos, consigo encontrá-los novamente. ── Assegurou. ── Vocês sabem de algum lugar seguro por aqui? Um esconderijo? O ideal seria direcionar o máximo de pessoas pra segurança o quanto antes. ── Ainda não tinha a menor ideia de como colocar o rascunho de seu plano em prática, mas expressá-las era uma maneira de talvez chegar a uma solução, principalmente se conseguissem pensar em conjunto. @rxmlpin
You believe there's something else / To relieve your emptiness / And you dream about yourself / And you bleed and breathe the air / And it's on and on / I just kinda died for you / You just kinda stared at me / We will always have the chance / We can do this one more time ──── ⋅⋅⋅ ── ᴀᴜʀᴏʀᴀ; ꜰᴏᴏ ꜰɪɢʜᴛᴇʀꜱ
Remus estava apoiado contra a parede, mãos nos bolsos e os olhos muito atentos a cada um dos movimentos de Emmeline, que mais uma vez lavava as mãos sujas de sangue seco na pia do banheiro. Desde que tinham chegado ali, o que já fazia algumas horas, não tinha visto a garota parar por um segundo sequer. Tinha passado praticamente a noite toda prestando ajuda aos demais, improvisando curativos e murmurando feitiços de alívio enquanto migrava de grupo em grupo até se certificar de que todos estavam bem.
Mas agora já era alta madrugada e não tinha passado batido por Remus o fato de que Emmeline tinha passado praticamente a noite toda cuidando dos outros sem sequer dormir. Ele tinha se mantido distante até então, tomando o próprio tempo para digerir tudo que havia acontecido e dando a ela espaço para fazer o mesmo; mas agora a noite já começava a se desfazer, a maioria das pessoas já estava dormindo e ele não conseguiu vencer o impulso de finalmente se aproximar dela quando a viu se esgueirando pela escada até o segundo andar do pub, que servia de pousada e onde havia um banheiro que os estudantes estavam usando como uma espécie de enfermaria improvisada.
── Eu disse... ── repetiu, aproximando-se dela e apoiando uma mão sobre seu pulso, que ela já tinha começado a secar com uma toalha. ── Que talvez seja hora de você desacelerar um pouco e deixar alguém cuidar de você, pra variar. Deixa eu dar uma olhada nisso.
Com cuidado, Remus pegou ambas as mãos dela e trouxe para perto de si, forçando um pouco a vista para enxergar melhor. Ao lado deles, apenas uma bolha de luz flutuava sobre a pia, distribuindo um brilho amarelo e melancólico sobre suas silhuetas. Analítico, observou o corte extenso em seu antebraço e as variadas escoriações que se distribuíam sobre sua pele. Comprimindo os lábios, fez um sinal com a cabeça como se pedisse para que ela se sentasse sobre a beirada da banheira ali perto e, quando enfim se acomodou ao seu lado, começou a trabalhar em cada um dos machucados dela com um zelo que jamais tinha dedicado a si mesmo.
── É uma sorte que esse aqui não precise de pontos ── disse, indicando um dos cortes: extenso, mas superficial; ainda assim, o bastante para fazer uma raiva aguda lhe tomar o coração. ── Aqueles filhos da puta ── sibilou, mais para si mesmo do que para ela. A força do hábito tornava seus gestos precisos enquanto ele seguia trabalhando em sua pele, limpando-a da poeira que se acumulava sobre o sangue seco. ── Fiquei apavorado hoje ── admitiu, ainda sem erguer o olhar enquanto firmava uma gaze sobre o ferimento com algumas fitas de esparadrapo. ── Quando te perdi de vista, achei... ── Balançando a cabeça em negativa, Remus voltou sua atenção para o curativo e deixou a frase morrer pela metade no ar gelado.
Distraída pela melancolia, pela angústia de precisar lavar das próprias mãos o sangue de seus colegas, Emmeline não havia notado a aproximação do rapaz e sequer sabia apontar por quanto tempo ele estivera ali, a observando. A presença de Remus a levava a acreditar que, talvez, inconscientemente, havia o evitado durante as últimas horas. Era a ele quem mais desejava reconfortar e ofertar seus cuidados, mas não poderia fazê-lo como gostaria, se permanecesse em frangalhos. Não era correto ou justo que tivesse apenas o pessimismo que a corroía a oferecer. Ele merecia algo melhor. Recompor-se seria um trabalho árduo, que não se concluiria em uma única noite, mas esperava ao menos retomar a plena consciência de seus sentimentos antes de se aproximar daquele que protagonizara seus últimos momentos de felicidade que antecederam o desastre.
Sem mostrar resistência ao conselho recebido, voltou-se para o bruxo após o toque sobre o pulso, nutrindo-se do calor gerado pelo encontro, que se propagava pelo corpo cansado. Talvez fosse mesmo o melhor momento para desacelerar e repousar, antes de enfrentar as consequências que os esperavam do lado de fora. O olhar acompanhou o dele, recaindo sobre a lesão que cortava o antebraço. Pela primeira vez desde que encontrara abrigo, Emmeline se atentava aos próprios ferimentos, que eram vistos com certa irrelevância por ela. Não fazia ideia de como cada um deles havia parado ali, pois no calor do momento somente focava na sobrevivência própria e de seus amigos. Observar aquelas escoriações, certamente, deveria alimentar a revolta já existente contra os responsáveis por elas, mas não era assim que se sentia, pois seu temor ia muito além. A dor que sentia era muito mais profunda do que o latejar da carne lacerada.
Nenhum som deixava os lábios enquanto se dirigia até a banheira, sentando-se na beirada da mesma como indicado. Naquele momento, faltavam-lhe palavras e a companhia também lhe bastava. Enquanto os ferimentos eram tratados, seus olhos focavam somente no rosto alheio, tentando ler o que suas expressões comunicavam. Ficou aliviada em vê-lo livre de marcas de fuligem e sangue, mas incrivelmente sentida em encontrar ferimentos ali. Agora culpava-se pela própria ausência. As palavras ditas causaram um baque em Vance, que mastigava as próprias palavras, cogitando mantê-las para si. ── Não sei se posso atribuir à sorte qualquer coisa que tenha acontecido esta noite, Remus. ── A fala não soava como reprimenda, mas como um desabafo contido. Detestava o rancor que escorria de sua boca, com potencial para intoxicar quem a escutasse, mas pouco conseguia evitá-lo. Hesitava em deixar-se agir com vulnerabilidade diante do rapaz, mas também achava injusto esconder-se dele.
O que recebia em retorno era a mais límpida fragilidade, que a comovia em meio a desilusão. Saber que havia alguém que compartilhava do mesmo medo e que procurara por ela, alimentava o sentimento de coletividade que a mantinha de pé. E saber que este alguém era Lupin, tornava este sentimento ainda mais especial. ── Também foi desesperador não saber onde você estava. ── Não havia porquê descrever em detalhes todos os pensamentos apavorantes que a acometeram quando viu-se distante de Lupin, por isso foi concisa com as palavras. Ao invés disso, pôde finalmente oferecer seu reconforto. ── Mas nunca deixei de acreditar que iríamos nos reencontrar. ── Com a mão livre, afastou os fios de cabelo que cobriam parte da face de outrem, então emoldurando-o com ternura. Silenciosamente o convidava a fitá-la de volta. ── Como é que você está? Tem algo que eu possa fazer por você? ── Mostrou-se preocupada, com os olhos que o analisavam atentamente. Contava com uma resposta sincera e aprofundada para a primeira indagação. O mal-estar era universal, mas dava a Remus a oportunidade de expressar seus sentimentos e ser ouvido por alguém que se importava. Se importava muito.
𝐬𝐭𝐚𝐫𝐭𝐞𝐫 𝐟𝐨𝐫: @rxmlpin 𝐰𝐡𝐞𝐫𝐞: hogsmeade - cabeça de javali
Incrivelmente abalada com o ocorrido, Emmeline experienciava um estado quase catatônico, onde sua alma parecia desprender-se do corpo para observá-la a distância, como um abutre sobrevoando seu alimento. A mente compreendia que a dor que sentia era real, mas a perversidade dos acontecimentos a deixavam com a estranha sensação de que não passavam de um verossímil pesadelo. Era indescritível a dificuldade que enfrentava para aceitar a realidade que vivia. Como aceitar a existência de pessoas tão cruéis e empenhadas em espalhar a desolação e o medo por onde passavam? O corpo exaurido clamava por descanso, mas a mente não parava de trabalhar por um segundo sequer, martelando-a com indagações e imagens marcadas a ferro e brasa na memória. Encontrava-se tão absorta em seus próprios pensamentos, que apenas a voz familiar de Remus, possivelmente após diversas tentativas, foi capaz de despertá-la do torpor. Emergindo do fundo burcado no qual se encontrava, piscou os olhos inúmeras vezes, então voltando-os para o rapaz. ── Me desculpe. ── Disse com a voz fraca. Independente de como se sentia, ainda era preciso manter-se alerta para o que ocorria ao seu redor. ── O que foi que disse?
@emvcnce, flashback.
── Imagina aquela ampulheta do Slughorn aqui? A hora passaria tão devagarinho que a areia ia acabar subindo ── riu baixo, visivelmente alterada, enquanto mordia um biscoitinho. A decoração da casa de chás estava mais colorida do que o normal, que costumava já ser bastante chamativa. Empurrou o restante do biscoito na boca e passou a mão pelos babados da toalha de mesa, pensando se deveria forrar mais o estômago antes dos últimos shows começarem. Talvez passasse no Sarmale quando saíssem dali. ── Eu não quero que acabee... ── choramingou meio de súbito, o rosto contorcido numa expressão de frustração. ── Dá pra acreditar que já é o último dia? Uh, seu chá é de quê?
❪ 𝐟𝐥𝐚𝐬𝐡𝐛𝐚𝐜𝐤 ❫ Emmeline estaria rindo da sugestão, caso não tivesse a julgado tão boa e começasse a cogitar a possibilidade de colocá-la em prática. Seus planos não sairiam do plano hipotético, claro, mas era incrivelmente tentadora a ideia de poder desacelerar o tempo e aproveitar um pouco mais o festival e as memórias que ele oferecia. ── Por que não teve essa ideia antes? Acha que ainda dá tempo de roubá-la? ── O pequeno sorriso nos lábios delatava a brincadeira com a pergunta. Pensar sobre o fim que se aproximava lhe causava angústia, por isso evitava sofrer antecipadamente. ── Eu também queria mais alguns dias por aqui. Só de pensar em ter que voltar pra rotina me dá um desânimo. ── Desabafou a contragosto, bebericando sua bebida com a esperança de que pudesse lavar a própria tristeza com ela. ── É de hortelã-pimenta. Ouvi dizer que dá energia e ajuda a aliviar o cansaço do corpo. Quer experimentar?
“We’re lost in a cloud | With too much rain…”
@slccpylixn, @rxmlpin & @emvcnce
Em um momento, havia apenas mágica. Claro, Alice Murphy já estava acostumada a livros imensos, palavras de poder e poções poderosas, mas sentia o ar crepitar com magia enquanto o fantasma de Elvis Presley surgia era diferente. Incrível. Bem, ela nunca fora tão fã do cantor, mas não podia deixar de negar sua importância. Can’t help falling in love embalava seus sonhos dom Frank e sua avô ainda guardava alguns discos dele. Portanto Alice sorria para o alto, feliz, os olhos desviando rapidamente do espectro apenas para procurar por Frank em meio aos demais. Porém tudo mudou rapidamente. Fora como despertar de forma abrupta de um sonho. De repente tudo estava escuro demais e a temperatura pareceu cair alguns bons graus, criando um choque térmico que fez Alice embalar os próprios braços, buscando se esquentar. No alto, outra figura brilhava e embora a francesa não conhecesse, sentia em seu interior que não era uma coisa boa. Não tinha como ser. Um grito apavorado a fez se sobressaltar e por um instante Alice teve uma dúvida: havia sido outra pessoa ou ela mesma? O cheiro característico invadiu seu nariz e Alice por fim notou as chamas e a fumaça em todas as direções.
Alice sabia que deveria fazer alguma coisa. Um impulso furioso de coragem e ousadia pulsava dentro da jovem, mas seu corpo não correspondia exatamente da mesma forma. As pernas pareciam pesar mais do que de costume, enquanto os braços pareciam de… borracha? Não conseguia se mover, intimidada pela marca no céu, ainda que seu coração batesse forte e ela quisesse fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Se mexer seria o ideal. Um esbarrão de uma das pessoas em caos fora o bastante para despertá-la. Frank! Precisava encontrar Frank. Finalmente se movimentou, procurando pelo seu namorado na multidão. Não demorou até encontrá-lo, as mãos pelos braços dele, os olhos fixados no rosto, certificando-se de que estava tudo bem, pelo menos fisicamente. “O que está acontecendo? O que é aquilo?!” As palavras eram frenéticas. Não sabia se Frank sabia, mas era a pessoa mais inteligente que conhecia. Ao lado dele, se sentia um pouco mais segura.
frank marchava em direção ao fogo que parecia se alastrar pelos arredores, apagando da história as faixas com os dizeres de paz que haviam sido penduradas por hogsmeade. seu olhar incessantemente em busca de figuras conhecidas, desejando ver os rostos de seus amigos bem, mas, mais importante, e talvez um pouco egoísta de sua parte, ver alice a salvo. com sua varinha em mãos, tentava dispersar a fumaça para longe do público para que não atrapalhasse o fluxo em direção oposta à que seguia, tentando ajudar como podia as pessoas que vez ou outra tropeçavam a se levantar e seguir para longe dali. vez ou outra, via novos feitiços sendo lançados, hora em direção às construções ainda restantes, hora em direção à multidão, e os gritos o guiavam em busca de novas pessoas que poderia ajudar.
em meio a esse escândalo e ao estresse, sentiu seu braço ser envolvido pelas mãos de alguém e, por um instante, achou que era alguém tentando tirá-lo dali, e já ia começar uma discussão, pois, em sua mente, seu trabalho ainda não havia acabado, mas logo escutou a voz de sua namorada e seu coração se acalmou. “estamos sob ataque, alice.” respondeu. não sabia se suas palavras eram verdadeiras, mas não conseguia imaginar outro cenário a partir do que via de seus arredores e do pânico e medo que se instauraram com o surgimento da caveira ao céu. “temos que encontrar os nossos amigos… não vou deixar ninguém pra trás…” a última frase foi dita num tom mais baixo, mas logo avistou @rxmlpin mais à frente e @emvcnce não muito distante dali. “ei!” apressou-se a chamar, acenando com a mão. “está tudo bem?”
O caos havia se instaurado de um instante para o outro, de modo que Emmeline sequer conseguia acompanhar ou compreender o que acontecia. Por puro impulso, empunhara a varinha no momento em que o aterrorizante grito ecoou por todo o festival, perfurando os tímpanos e disparando arrepios pela espinha de cada bruxo presente, seguindo o instinto que sussurrava ao pé de seu ouvido. Todos os momentos bons vividos durante o fim de semana havia a ajudado a se distrair, a momentaneamente se esquecer dos problemas que ainda a acompanhavam, mas seria ilusão acreditar que o fim dos mesmos seria tranquilo como desejava. Cedo ou tarde a realidade a alcançaria.
A mágoa da desilusão enevoava sua mente e seus movimentos continuavam automáticos. Não tinha consciência do que fazia, para onde ia ou o que procurava. Observando as pessoas que corriam de um lado para o outro, parecendo tão atordoadas quanto ela, se dava conta de que não conhecia a maioria daqueles indivíduos e não sabia em quem confiar. Naquele momento, eram almas perdidas buscando por respostas. Os pensamentos vagavam por territórios que pouco a agradavam, mas felizmente foram interrompidos por Frank e Alice, a quem encontrara em meio a confusão. Com o olhar os avaliou, apenas se certificando de que estavam fisicamente intactos. ── Não, não está. ── Seu tom de voz expressava pesar. Nem mesmo tentava vender a falsa narrativa de que estava bem ou que o cenário era menos caótico do que aparentava. Não havia vantagem na ilusão. ── Estejam preparados para se defenderem ou atacarem. ── Aconselhou, gesticulando rapidamente com a própria varinha. @rxmlpin