Eu tenho um pedaço quebrado que retorna mais do que parte. Que, em meio a tantas fugas, ainda sabe o caminho de volta e acha os términos tão bonitos quanto os meios. Tenho uma rachadura entre as veias do pulso, uma ruína que é quase impacto ou sossego. É quase. Eu digo, nas filosofias sussurradas aos surdos, que as vozes das cidades lá embaixo não ressoam por detrás das minhas pálpebras. Que minhas poucas certezas são isolamentos acústicos impedindo-me de ouvir a opressão de sua liberdade calculada, de enxergar as grades das asas de quem possui os pés no chão. Mas não são. Minha paz é suscetível aos fins e recomeços inacabáveis que tumultuam essas avenidas. Minha calma trêmula é também o caminho pros teus becos cheios de saídas que não me levam a lugar algum, que não me coordenam nas latitudes do meu próprio labirinto. Ainda posso me lembrar das metrópoles que sempre couberam em nossa realidade pequena, os carnavais quando os ruídos das ruas lá fora pareciam distantes apesar de alcançarem a ponta dos dedos… E dançávamos sob os destroços do fim como quem constrói metáforas e casas no abstrato. Como quem é mais poesia do que linguagem, e se encontra entre suas próprias estrofes como se a direção certa fosse sempre a de dentro. Porque eu me sinto sozinha num mundo onde as pessoas colidem, se esbarram em ruas cheias de explosões cósmicas que atingem tantos e só atingem um. E, quando acordo, ainda é noite em minha janela. O mundo ainda dorme e faz frio em algum lugar do peito. Ainda é quase.