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@entre-mes-reins
Crônica aos Tristes
Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida
– José Saramago
Tenho visto muita gente adoecida. E muita gente foda.
Perdi amigos, deixei de vê-los, por conta da reclusão que tive, da aversão às pessoas felizes, os likes, compartilhamentos, felicidade líquida das redes sociais.
Mas há muita gente adoecida. Muita gente que admiro: amigos, conhecidos, amigos de conhecidos, e ainda outros que nem são, assim, tão amigos de conhecidos meus.
Pelo menos quatro das dez pessoas que eu mais admiro sofrem de depressão. Isso inclui familiares bem como o autor que vos escreve. Mas tenho em mim todos os sonhos do mundo, tal qual uma espécie de Pessoa sem glória e sem destino.
Estou adoecido. Meus amigos estão adoecidos. Pessoas inteligentes. Pessoas que ‘sabem votar’. Que pagam impostos. Que pedem CPF na nota fiscal. Que entre crises de choro e de cinzas de cigarros, no meu caso, cogitam por fim a um sofrimento, aparentemente, sem causa.
Choro e sorrio, mas só aceito sair deste mundo depois de ter ouvido um artista de rua argentino cantar um tango de Carlos Gardel; um mendigo francês me cantarolar Edith Piaf; um uruguaio citar Benedetti como um chileno cita Neruda e, caso haja sorte, embriagar-me com vodca em alguma praça de São Petersburgo.
Perco e reencontro pessoas, sonhos e laços todos os dias. O coração se enche de alegria e de vontade de gritar. Os pulmões ficam à postos: AGORA VAI! Felicidade morava tão vizinha, que, de tolo, até pensei que fosse minha. E cantarolo Chico Buarque pelos cantos, em cada crônica e em todos os versos, porque eu nasci para ser feliz, de fato, como as noites deste lugar, parecem ter nascido para as serenatas.
Cuido-me para não aborrecer meus poemas. Para não aborrecer a mim mesmo e para não aborrecer os deuses que tecem mansamente o meu destino.
Como será – eu bem não sei. Mas há o brilho verde do olhar da mulher morena que me faz criar literatura; o riso das crianças que me faz sorrir e o voo livre dos pássaros que também me faz querer voar.
Os deuses têm sido generosos comigo. Com meu fígado, pois bebo; com meu pulmão, pois fumo; com meu peito, pois amo.
Nas palavras de Maiakovski, poeta russo do século vinte, morto com um tiro no coração: nunca acabarão com o amor. Nem as rusgas, nem a distância. (…) Amo firme, fiel e verdadeiramente.
Tenho visto muita gente adoecida. E muita gente foda.
Entre lágrimas de felicidade e de dor, espero que aprendam a lidar com o que eu também tenho, diariamente, aprendido. Que esta crônica os abrace; que o amor os aqueça e que os deuses os guiem.
Ainda penso na frase que, certa vez, num seriado do canal 5, foi dita pela atriz Marjorie Estiano e atribuída a Chico Buarque: não é porque o céu está nublado que as estrelas morreram.
Bom, senhoras e senhores: essa é toda a verdade.
Heitor Henrique.
há dias que não fumo, há dias que não bebo, há dias que mal como, há dias que não gozo, há dias que um tarja preta me acompanha a qualquer lugar que eu vou, há dias em que reforço com um sorriso amarelo e cada vez mais consciente a clássica mentira do “estou bem”
Strawberries, cherries and an angel's kiss in Spring My Summer Wine is really made from all these things
Look at the stars Look how they shine for you, And all the things that you do…
Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso.
JOSé SARAMAGO In Os Poemas Possíveis, 1966
(via flores-e-haicais)