Escrevi a tua morada com a letra trémula, e por uns minutos pensei escrever de novo, outro envelope, outra tentativa; três já foram, acho que não vai melhorar, os “ós” e os “às” caindo na mesma esfera, os “ts” e os “ls” iguais aos “fs” e “ís”. Escrevi a tua morada de novo, logo após o teu nome, mas esse era fácil, quantas vezes já o escrevi ao longo dos anos? O envelope está manchado, notei, uma mancha de café na ponta e o suspiro que solto é mais aliviado do que devia, de novo. Teu nome, tua morada e, de novo, cada letra parece-me errada, será que o carteiro vai entender? E se a carta não chegar? Quatro, 4 envelopes jogados fora que nem se comparam à montanha de folhas A4 espalhadas pelo quarto. Demorei 3 dias a escrever a carta e um dia a ganhar a coragem para escrever o teu nome, e agora que o escrevi, de novo e de novo, parece-me errado. E eu sei-o de cor, teu nome, teu endereço, teu número, teu rosto.
Escrevi a tua morada com a letra trémula e suspirei, melhor que isto não fica, é agora, parei. Falta o selo, falta a vontade de sair e entregar, só não falta a pequena mancha da lágrima que agora enfeita o canto do envelope. De novo, cinco envelopes jogados fora e nada deste tremor passar.