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Hoje faço 14 anos de Tumblr! 🥳
as pessoas deviam pedir permissão
para deixar o cheiro na fronha
como quem entra num quarto
e tira os sapatos
antes de tocar o chão que era gélido
deviam assinar um termo
antes de sorrir na sala
como quem acende uma vela
num cômodo que não é seu
devia haver um aviso prévio
de que a pele tem boa memória
e que o corpo, distraído,
guarda sinais como se fossem
segredos ou cartas não enviadas
as pessoas deviam pedir licença
para deixar marcas no coração
como quem risca um nome
num banco de praça
ou num tronco de árvore alheia
porque depois vão embora
com a leveza de quem nunca ficou
e a gente fica —
com o lençol cheirando um nome
com o peito cheio de dedos
devia haver fronteiras,
formulários, registros,
avisos em voz baixa:
“posso te deixar saudade?”
“te dói se eu for?
um byte de Notas - 16/05/25
há dias em que é preciso conspirar
adentrar os meandros do que se cortina
traje ou brisa irregular de pensamentos
por onde andarão as tantas versões antigas de mim?
aquela reprovada e publicada no diário oficial
gentil motorista a quem uma senhora hoje cedo acenara
há que se perder a consciência em meio a tantas
abandonar ao mundo uma versão ferida
só para encontrá-la na cabeça de um alfinete
plano irregular e pontiagudo, ora com súbito uso
tenho corpo usado a ferir e remendar
parte com afago e parte com cicatriz
há em mim um quê desejo de verbo
que costura palavras à pele,
um retalho que a dor não devora
se tudo em mim é retorcido,
ainda há quem leia o bordado
e entenda que, por detrás do pano,
há vida que se recusa a dobrar
é preciso, sim, conspirar com o vento
ser folha solta que, ao cair, dança,
pois, no fim, sou feito de linhas quebradas
que se entrelaçam e encontram sentido
(uma sentada no Mac - 16/08/2024)
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she has a flower for you!
a violência carregada na relação entre a chuva e os carros
o toque duro do pneu no asfalto
gotículas ao ar salteiam
solidão captada no intervalo entre roda e buraco
interstício do amarelo até vermelho
o cisco no olho que cai
o pára-brisa que vai
mas volta só para
lembrar que partir é intervalo
agora sou tantos menos o teu
e de alguma forma menos do que éramos
sobra dentro de mim desejo culpa
linguagem que aprendemos a tratar com o outro
estalar de referências amarradas em intimidade
lugar de possibilidades de repente inacessível
renomeado fim, clama por gratidão
sentimos bons e pacíficos oceanos de distância
devo voltar nesta memória, confessá-la a alguém?
agora, parece amargo o amor
não doce, distante de ser sinônimo de dor
filete de solidão a repousar no descompasso
sobretudo amargo e violento
foi o vento oculto e vazio que ouviu
meu silencioso pranto na beira mar
(um byte de Notas - 15/06/2023)
aprender a ler
sinais sentimentos coisas trejeitos
preparar minha reação para aquela ou próxima
vez que desviarás o olhar de mim
queria aprender a ler o vento
o barulho das folhas, cortes de papel
manchas de sangue no travesseiro ou vazio do peito
aprenderia algo ou coisa qualquer
um afã de sabedoria se faria presente e assim
toleraria, sem anestesia, o que ontem ria ou tinha
mas hoje não mais
agora tenho outras coisas, algumas são escombros
da maioria eu tirei o pó e então passaram a brilhar
encaro o relógio e o riscar do calendário
rostos me atravessam com um quê passageiro
nessa viagem só de ida, de um só tripulante
em uma bela ilha decidimos nos magoar
como é verde a cor dos nossos olhos
como é grande o espaço que agora há
(um byte de Notas - 26/07/2023)
Manassas, Virginia
photo: David Castenson
The Henry House, Manassas, Virginia
photo: David Castenson
o que dirias a mim?
agora, que estou pegando fogo
aceso em saudade, preso num vapor melancólico
hoje encontro familiar melancolia, retenho
às vezes distraio, embora uma vez não
lembrei de quando lá de cima o céu brilhava para nós
durante uma das poucas vezes em que pensei ser teu
presença indispensável no lindo mundo que construímos
éramos divindades e também duas crianças
eu quero tudo que hoje ainda represa meu coração
como memórias que são, acesas
escombros que também são, esquecidos
contemplo tudo isso aqui nesse lugar em que assovio
rodoviária ou estação da luz já ocupada por nós
estranhos por aqui passam, gentis-homens
por fim, comentam:
ficas bonito até quando choras, não vês!?
há de existir poder na vulnerabilidade
(um byte de Notas - 03/07/2023)
não posso ser salvo
não posso ser salvo
é o que tenho dito
nesta torre arranha céu
digo enquanto espero alguma
coisa alguém não específico ou
tu, que tanto me tira do sério
lágrimas falecem em lugares que ocupamos
lugares físicos de ir mas também de estar viver
restaurantes recintos festivos meu próprio corpo
nesta mão que ressente a ilusão do toque na tua
será que algum dia nós sentimos? sentiremos?
não sei se fui, se fostes de verdade
queria mesmo é ser salvo de mim
das manhãs e domingos pouco esperançosos, estes
que passei a enfrentar contigo
do tilintar da expectativa quebrada, naqueles dias
especialmente aqueles dias sem força
aqueles mas também estes de enfrentar o próprio reflexo
imagem própria, quebrada acesa inteira
lembrança de uma certa inadequação
persistente lembrança de quem nunca pude ser
e agora todo o amor lembra
eu fui feito para quebrar
recolher e ver o que ficou
e disto eu sei
não pode me salvar
é o que tenho dito
(um byte de Notas - 13/06/2023)
cê jura que a gente pode se amar depois de sangrar um ao outro?
eu sim
(um byte de Notas - sem data)
resoo a mesma melodia
quebro pratos já rachados
corto as únicas mãos que tenho
deploro meu corpo, triste
esculpo meu corpo, vai que voltes
habito meu corpo, hoje só e de alguma forma menor
desde que fostes, imensidão assusta conceituar
o mundo e seu jeito de ganhar contornos maiores
de repente esqueço que foi nela que te encontrei
amor que sonhei habitar
sinuosa residência conjunta ali
três viradas depois da segunda curva da tua mão
morada hoje à venda abandonada
recinto jamais ocupado anúncio imobiliário do fim
em letras tão pequenas como bilhetes promessas que deixou
disfarço bem aos outros distraídos como
minha recém descoberta inabilidade em começar pequenas quaisquer tarefas
reflete tão bem o fim que nunca aceitei
(uma sentada no Mac - 02/06/2023)
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