Transformações do NetAtivismo: Do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) à Primavera Árabe.
Por fim a conclusão da série de três posts sobre as transformações do NetAtivismo ao longo dos últimos 15 anos, do ponto de vista das principais conexões de rede que orientam a internet.
Se a sociedade industrial do século XIX e XX, utilizava-se da técnica mecânica para criar sistemas analógicos comunicacionais de massa, por sua vez, a sociedade contemporânea utiliza-se de uma série de algoritmos, conexões e linguagens criativas, articuladas com grandes bases de dados e dispositivos tecnológicos, capazes de reorganizar, inclusive, a forma como atuamos politicamente.
Michael Löwy (2009) considera que o princípio fundamental das revoluções que existiram nos séculos XIX e XX, consistia na derrubada de uma antiga ordem, que após ter abalado fortemente o conjunto de suas sociedades, deu inicio a uma nova ordem, mesmo que esta ainda não estivesse consolidada e sendo lentamente construída.
De tal maneira, no final dos anos 90, no México, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) inaugurou a utilização da Internet em seu esforço de organizar por e-mail os movimentos contra o neoliberalismo, deslocando as formas tradicionais de ativismo político vistas nas ruas, e que continuam nas ruas, para coexistir com elas na rede.
A Batalha de Seattle, em março de 1999, nos Estados Unidos, durante a cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as transações econômicas globais, reuniu diversos manifestantes indignados em torno de um projeto chamado de Indymidia[1]. Os ativistas alegavam que a depauperação acelerada dos recursos e do desequilíbrio do planeta não passava de uma conjugação de políticas de interesses particulares e a mídia televisiva não transmitia a real gravidade do problema.
Dessa maneira, para tornar compreensíveis a sociedade as razões dos protestos e oferecer com clareza um formato da cobertura das manifestações, que não se via nos canais de televisão da época, os ativistas criaram um site colaborativo. O projeto chamado Indymedia previa a exibição de relatos, imagens, entrevistas e comentários de manifestantes, dando autenticidade ao ato, beneficiando-se dos recursos de comunicação livre, originais da Internet.
Entretanto, as conexões de rede estabelecidas entre os terminais de acesso a Internet dos ativistas do EZLN e os servidores de e-mail, envolvem de modo geral somente interações entre um usuário (seja ele o remetente ou o destinatário) e um banco de dados. Ou seja, uma conexão fixa entre um cliente e um servidor de e-mail. Protocolada, claro. Da mesma maneira ocorre com as manifestações em Seatlle, 1999. O acesso ao site do projeto Indymedia envolve apenas uma relação bilateral e hierárquica entre um cliente e um servidor.
Esse tipo de conexão inviabiliza a horizontalidade e a capilaridade da informação na rede, ao contrário dos recursos de compartilhamento de conteúdo com tecnologia de rede P2P, utilizado amplamente nas manifestações políticas, muito mais numerosas, de nosso tempo, sobretudo a partir da chamada Primavera Árabe, no final de 2010. Leva-se em consideração pequemos movimentos no Irã, em 2009, que utilizaram o canal do Twitter, mas que não tinham a proporção de manifestantes organizados através das mídias sociais na rua, como é o caso dos países do norte da África.
Na Tunísia, em 2010, a pobreza, o desemprego, a desigualdade social, as violações de direitos humanos e as restrições a liberdade de expressão serviram de pano de fundo para as manifestações que eclodiram posteriormente em diversos países vizinhos. O estopim da crise que se desdobrou na revolução e alcançou o Oriente Médio, aconteceu com o suicídio de Mohamed Bouazizi, um jovem pobre de 26 anos, vendedor ambulante de frutas na cidade de Sidi Bouzid.
O rapaz que ganhava $ 5 dólares por dia, não conseguia uma licença do governo para trabalhar na rua e foi por anos, assediado por autoridades de seu país a pagar subornos, por vezes maiores que o resultado de um dia de trabalho. Impossibilitado de continuar pagando propinas aos fiscais, o jovem teve sua mercadoria confiscada e frustrado ateou fogo ao próprio corpo. A ressonância do suicídio de Mohamed desencadeou uma série de protestos pela Tunísia que somados ao abuso dos preços de alimentos, as altas taxas de desemprego, as más condições de vida da população tunisiana e a corrupção no governo, eclodiram na revolução do mundo árabe amplamente repercutido nas mídias sociais[2].
Segundo informações publicadas no site Internet World Stats, em dezembro de 2011, o número de pessoas conectadas a Internet na Tunísia ultrapassou a marca de 3.856.984 milhões de pessoas. Do total de conectados no país, 2.799.260 milhões são assinantes do Facebook, que corresponde a uma taxa de penetração de 26,3% dos acessos a rede mundial de computadores. Quando comparado ao total de 3,6% de usuários com acesso a rede social em todo o continente africano, a Tunísia representou o maior indicador de aderência.
A evolução das conexões cliente e servidor na direção de conexões mais dinâmicas e descentralizadas, como as conexões P2P, promoveu uma revolução na forma como nos comunicamos na rede. Os servidores deixaram de ser uma figura central na distribuição da informação com o aumento das inter-redes e a partir do crescimento de usuários conectados, tornou necessário o desenvolvimento de tecnologias que fossem capazes de conter o fluxo de informações que estavam sendo solicitadas aos servidores que não paravam de crescer. Tais implicações favoreceram a elaboração de tecnologias que permitiram a descentralização e troca de dados diretamente entre os usuários das novas redes.
Apesar de sermos um terço de conectados no mundo, somos a primeira geração de pessoas com acesso a Internet na história, a experimentar em estado de movimento utilizando dispositivos móveis, uma conexão direta com várias pessoas simultaneamente em estado de movimento, em qualquer lugar do planeta se tivermos conexão adequada a Internet. Se havíamos experimentado movimentar dinheiro pela Internet e informações através de hiperlinks nos anos 90, agora somos capazes de movimentar pessoas.
Sobre vários aspectos, não se via, desde a Comuna de Paris, em 1871, coberturas midiáticas de manifestações políticas tão bem exploradas como as que ocorreram nos países de língua árabe, no norte da África, no final de 2010, através dos recursos de compartilhamento das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube.
Um deles é a simultaneidade de protestos ocorridos em diferentes continentes. Em um só ano, os países do norte da África, Oriente Médio e sudoeste asiático como o Egito, Tunísia, Líbia, Irã, Síria, Turquia, Jordânia, Iêmen, Arábia Saudita, Omã, Qatar, Emirados Árabes e Bahrein, e outros como os Estados Unidos e Chile, nas Américas do Norte e Sul, além de Islândia, Espanha, Grécia, Inglaterra e Rússia, na Europa, foram tomados por movimentos contestatórios. Com ressalvas no Chile, em que o movimento estudantil e os sindicados estavam ligados aos protestos em Santiago, as demais ondas revolucionárias de 2011, desdobraram-se de forma horizontal. Sem núcleos estruturantes ou dirigentes específicos, as manifestações eclodiram uma após outra, com atuação coordenada de forma descentralizada, solidária e colaborativa, fora do aparato político partidário, sindicalista ou estatal.
Entre os desafios que nos impõe essa revolução tecnológica, um deles é entender qual o sentido da técnica, como atividade humana imaginária que serviu ao desenvolvimento do capitalismo, ter se transformado em mecanismo de propagação de vozes contra o próprio sistema que a requisitou, originando conflitos de grandes proporções entre Estados e sociedades?
Essa contradição aponta para a necessidade de uma reflexão sobre os conflitos que teremos diante de um mundo, que já ultrapassou a marca de sete bilhões de pessoas. Que implicações para a democracia podem ocorrer quando questões complexas como o desemprego, a fome, as epidemias, as transformações no clima e os antagonismos sociais avançam da mesma maneira que as formas tradicionais de sociabilidade e de se fazer política se modificam com esta revolução tecnológica?
[2] Disponível em < http://www.guardian.co.uk/world/2011/jan/20/tunisian-fruit-seller-mohammed-bouazizi>
[1] Disponível em Disponível em http://seattle.indymedia.org/about-us
LÖWY, Michael (org). Revoluções. São Paulo: Editora Boi Tempo, 2009.