NĂłs estĂĄvamos casualmente um ao lado do outro quando senti sua mĂŁo disfarçadamente deslizar nas minhas costas para dentro do meu jeans, que era um pouco folgado demais. Ele encaixou a mĂŁo morna na minha lombar, com o polegar para fora, algo como os namorados adolescentes fazem no bolso da calça das suas namoradas, mas mais Ăntimo. Ăntimo demais, como se a gente estivesse acostumado com o corpo do outro. Eu sĂł sabia que nĂŁo estava por aquela corrente enĂ©rgica subindo a minha coluna, alcançando meu coração, que parecia ter acordado de um longo descanso e batia freneticamente de encontro ao meu peito. Dentro de mim, foi como se a vida tivesse começado, mas, por fora, eu continuava impassĂvel.
Foi um gesto tĂŁo discreto, somente entre mim e ele, que imaginei que nĂŁo fosse para ninguĂ©m mais saber. Era uma intimidade, algo que significava muito mais para nĂłs do que poderĂamos explicar a qualquer um que perguntasse. Fomos caminhando, entĂŁo, com nossos amigos pelos corredores do shopping, eu em uma ponta que ninguĂ©m pudesse ver decerto o que estava acontecendo, sĂł entendesse que algo realmente estava acontecendo por ver aquelas duas figuras lado a lado perto demais, como num abraço que nĂŁo se via. A cada passo que eu me afastava um pouco, ele usava sua mĂŁo no meu quadril com força para me trazer ao encontro dele, num toque sutil entre os Ălios, que significava tanto quanto uma assinatura de um contrato.
Conforme a caminhada foi progredindo em tempo e em conforto conosco prĂłprios, um com o outro depois de tanto tempo e com os nossos amigos, sentĂamo-nos mais livres para andar juntos como se fĂŽssemos exatamente o que querĂamos ser. A mĂŁo dele nĂŁo deixou o meu quadril nem por um instante, nem quando ele teve que fazer contorcionismos para alcançar o celular no bolso e mostrar uma foto. Depois de algum tempo, parecia que aquela mĂŁo e o resto dele faziam parte de mim. Eu me posicionei um pouco Ă frente dele, deixando o braço dele menos esticado, mais como um abraço. O nosso passo era perfeitamente sincronizado e tudo seria perfeito mesmo se nĂŁo fosse. AgĂamos, ainda, como se nada estivesse acontecendo. NĂłs nos olhamos apenas pelos nossos olhares furtivos que o leitor a essa hora jĂĄ reconhece. Eu nĂŁo tinha coragem de encarĂĄ-lo tampouco ele tinha a mim. Olhares dizem demais, sĂŁo convites para a alma. Assumir a grandiosidade de tudo aquilo tambĂ©m era difĂcil demais.
Chegando ao nosso destino, encontramo-nos num corredor estreito, andando em fila, esbarrando em outra fila do lado, eu na frente, ele atrĂĄs. No final desse corredor, havia um corredor algo mais amplo. Encontramos, entĂŁo, as trĂȘs responsĂĄveis pela conversa da noite anterior. Seus olhares foram diretamente para o abraço dele em torno de mim. A de vermelho abriu um sorriso provocativo.
        - Quer dizer, entĂŁo, que vocĂȘs se acertaram depois daquilo? â ela disse provocativamente, como se ela estivesse muito feliz consigo mesma por ter operado um milagre.
Ninguém respondeu. Demos uns risinhos nervosos que poderiam significar qualquer coisa. As pessoas atrås queriam passar e, por isso, desfizemos os nossos abraços e encostamos na parede. Estava frio e eu tinha colocado um casaco pesado de inverno azul escuro, daqueles de espuma.
NĂŁo satisfeita, a mulher de vermelho provocou:
        - VocĂȘs estĂŁo juntos entĂŁo?
Senti meu rosto queimar. NĂŁo sabia dizer o que nada daquilo significava. NĂŁo queria dizer coisa demais e afastĂĄ-lo por medo da grandiosidade que existia para mim. Minha vontade era de me esconder e foi o que eu fiz. Dei uma risada e dobrei um canto, onde encostei e respirei, praguejando-a por fazer perguntas tĂŁo indiscretas naquele momento. Voltei e fiquei distante dele sem saber o que fazer.
        - VocĂȘs estĂŁo apaixonados?
Minha vontade era de gritar que eu nĂŁo sabia o que estava acontecendo, nĂŁo sabia o que eu estava sentindo e certamente nĂŁo sabia o que ele estava sentindo. Dobrei de novo o canto, dando um rugido baixo de pura frustração por nĂŁo ser capaz de responder nada daquilo e pelo medo que tudo aquilo estava me gerando: o medo de que, se tudo se tornasse real demais, ele desistiria. Era a Ășltima coisa que eu queria naquele momento.
Voltei para o meio deles completamente desconsertada e busquei-o no meu olhar furtivo.
Para minha surpresa, ele me olhava diretamente, atentamente, com as duas sobrancelhas levantadas, como se estivesse muito interessado no que eu tinha a dizer sobre aquilo. Como se tudo dependesse de mim.
Seu olhar fez meu coração saltar novamente e a prĂłxima coisa que vi foi eu me dirigindo a ele como uma palha de ferro faz em direção a um ĂmĂŁ. Completamente incapaz de me parar. Quando cheguei perto o suficiente, ele me abraçou. Eu ainda estava algo de lado e minha cabeça, fora de controle, descansou em seu peito. NĂŁo havia nada que eu pudesse fazer para segurar o quanto eu estava entregue naquele momento.
A mulher de vermelho fez a sua Ășltima pergunta.
        - Ela é sua namorada então?
Foi quando eu ouvi a voz dele pelo que parecia a primeira vez em muito tempo. No seu tom mais suave, ele disse:
Eu nĂŁo sei dizer o que meu coração pensou. Parecia que o mundo estava acabando. Ele pulava e batia tĂŁo forte, como se eu nunca tivesse sentido nada mais forte em toda a minha vida. Como se aquela fosse a maior emoção que eu jĂĄ sentira, talvez uma sensação parecida de ter acabado de morrer no apocalipse e chegado no paraĂso. Meu coração batia nervoso como se quisesse que eu fizesse alguma coisa e eu nĂŁo conseguia fazer nada.
Por um impulso, decidi olhar para o rosto dele para saber se tudo aquilo era verdade. Ele me olhava com a maior seriedade do mundo, como se nunca tivesse falado tão sério na vida dele. Eu sentia meu peito por dentro queimando e dando piruetas, tudo ao mesmo tempo. O abraço dele naquele momento era o melhor abraço da minha vida, a coisa mais confortåvel, quente e acolhedora que jå existiu no mundo. Levantei a mão e toquei de leve o lado do rosto dele. Senti os pelos da barba mal-feita pinicarem os meus dedos como se estivessem inoculando em mim um carinho maior do que eu jå tivera sentido por qualquer outra coisa na minha vida. Tocando nele, olhando em seus olhos, eu sentia a plenitude. A maior coisa do mundo, o que quer que fosse.
Pensei em beijĂĄ-lo. Era tudo que eu mais queria. Estaria tudo maravilhoso e em paz.