O que eu mais fiz nesses últimos meses foi chorar. Eu não queria terminar com o Logan de maneira nenhuma, mas acho que essa distancia tá realmente acabando comigo.
Não teve um dia sem ele que eu não chorei. Isso é sério. Se eu tenho problemas? Tenho certeza. Se você gosta de uma pessoa, você quer passar o tempo todo com ela, certo? Quer poder abraçar, beijar, conversar... Qualquer minuto perto dela se torna importante. Pois é. Agora me digam, como eu iria ficar feliz sendo que a pessoa que eu mais amo no mundo está longe de mim? Não tem como.
Ligações e mais ligações. A voz dele me fez ter mais saudade ainda. Aquele sorriso que eu tanto amo tão longe... Ah, Logan...
Minha mãe sabia que eu estava sofrendo por causa dessa distancia, tanto que me levou numa psicóloga. Se adiantou alguma coisa? Não. Eu continuo triste e sem querer falar com ninguém. A escola? Parei de ir faz uns dois meses. Eu sei que se eu quiser voltar não vai adiantar muita coisa. "5 faltas por mês é o limite para qualquer aluno." disse uma das professoras do colégio. Sendo assim... Não tenho escolha.
Isso tá ficando cansativo, eu sei. Mas é que... não tenho sobre o que falar. Narrar o dia a dia na escola está fora de cogitação; meu melhor amigo (e ex-namorado) está longe de mim; e eu não tenho mais nenhum amigo a não ser você que está lendo isso agora.
Mesmo não sabendo quem você é, eu te agradeço por me aguentar. E aguentar tudo o que eu passo. Sério, não é fácil ser quem eu sou. Não é fácil ser um menino que gosta de outro menino. Não é fácil ser gay, não mesmo.
Não foi uma escolha, entende? Eu simplesmente nasci assim. E fui me apaixonar justo pelo meu melhor amigo, olha que legal. Não, não é legal. Não é legal ele estar em outro lugar que não seja do meu lado. Não é legal amá-lo tanto e estar longe.
Acho que eu vou pra São Paulo. É isso mesmo.
Eu sei que a minha mãe não vai gostar nada disso, mas eu nem me importo muito. Eu vou pra lá e concertar tudo.
Porque eu não pensei nisso antes? "Porque você é um idiota, Sam."
É.
[...]
Logan
Eu não queria, juro mesmo.
Não queria estar gostando de outra pessoa. Isso me machuca demais.
Se é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo? Pra mim é.
Eu amo o Sam, não vou negar. Mas as últimas semanas me fizeram perceber o quanto eu estou... Me apaixonando pela Lauren. É.
Ela é incrível. Além de minha melhor amiga (quanta sorte você tem hein Logan, já basta o Sam, agora ela), ela é uma das pessoas mais incríveis que eu conheço.
Nem preciso falar muito.
Eu sinto tanta falta de Sam... Daquele jeito irlandês, daquele cabelo estranho, da voz dele, do sorriso dele, dele pra falar a verdade.
Ah Sam... Seu irlandês filho da mãe. Eu te amo tanto e queria que você nunca se esquecesse disso.
[...]
Chuva. Muita chuva. É.
Justo na saída da escola começa essa chuva que nem guarda-chuva resolve alguma coisa.
A aula hoje foi tediosa demais. Nada de mais. Pontos positivos: Lauren. Pontos negativos: provas. A vida não é fácil pra ninguém, muito menos pra mim.
Minha mãe me mandou uma mensagem me dizendo para ir pra casa logo, pois ela tinha uma coisa importante pra falar comigo. Ok. O medo já reinou em mim. Mas com essa chuva tá impossivel.
Cadê a Lauren?
- Hey. - falei pra primeira pessoa que passou na minha frente.
- Sim? - ela perguntou.
- Você viu uma menina baixinha, com o cabelo preto e com um all star? - essa era a melhor descrição que eu poderia fazer dela.
- Acho que ela já saiu. - a pessoa disse.
- Ah, obrigada. - respondi.
Segui direto o corredor e vi Lauren toda molhada na chuva.
Ai meu deus. Não Logan, você não vai fazer isso.
Não vai. Alguém me segura.
Nem pensei em mais nada, e quando vi eu já estava com os meus lábios sobre os dela.
Quatro meses. Fazem quatro meses que eu estou em São Paulo. Minha vida não mudou muito nesse tempo, mas certos acontecimentos me deixaram aborrecidos, e outros até confusos.
Não sei bem o que aconteceu comigo. Depois da última ligação que eu recebi de Sam, meu mundo virou de cabeça para baixo. Eu fiquei completamente triste e não havia ninguém além da minha melhor amiga que pudesse melhorar o meu ânimo.
Sim, a Lauren virou a minha melhor amiga. Agradeço a ela eternamente por ter virado amiga de um louco como eu. Depois de ela insistir tanto, eu tive que contar a verdade. E não foi só porque ela insistiu. Acho que já estava na hora que contar pra ela, porque afinal, ela agora era a minha melhor amiga.
Flashback
- Conta logo, Logan! - Lauren repetiu pela milésima vez.
- Não posso.
- Porque? - Ela insistiu.
- Ok. - Suspirei pesadamente. - Não fala pra ninguém ok? É um segredo. Poucas pessoas sabem.
- Ta. Não vou contar. Mesmo porque eu só tenho mais um amigo nessa escola além de você. E ele nem fala mais comigo.
Respirei fundo novamente antes de começar.
- Bom... - parei de falar assim que ouvi um barulho vindo do meu celular. Dessa vez a culpa não foi minha.
Era uma mensagem, legal.
"Logan, vou te ligar depois. Beijos, Sam."
Senti um aperto no peito ao ler a mensagem dele. O que ele queria falar? Meu deus. Milhares de coisas ruins estão passando pela minha cabeça. Será que aconteceu alguma coisa? Ai. Meu. Deus.
- LOGAN!
Pulei com o susto.
- Oi? - eu disse ainda sem reação.
- Tô te chamando um monte de vezes e você parece que tá no mundo da lua. O que aconteceu?
- Nada... É só uma mensagem.
- Hm. Estranho.
- Sério. Depois a gente conversa.
Saí de perto da Lauren e fui para a sala de aula. Mesmo na hora do intervalo, as salas ficavam abertas, e claro, os professores ficavam vigiando.
Sentei-me no mesmo lugar de sempre e encostei a cabeça na parede. A minha vontade era de chorar. Eu estava completamente preocupado com a mensagem de Sam. Conversar? Era tão sério assim?
Preferi não pensar em besteiras pra não ter que chorar depois.
(...)
Logo o sinal do intervalo bateu, indicando que havia acabado. Lauren entrou na sala e ficou no lugar de sempre, ao meu lado. Ela ficava me olhando com uma cara desconfiada mas não disse nada.
As outras aulas foram a mesma coisa.
O sinal do término das aulas bateu e os alunos sairam da sala desesperados. Terminei de arrumar o meu material e me levante, acompanhado por Lauren.
Saímos da escola e fomos caminhando até a casa dela. Já ia conectar o fone no celular quando vejo o nome "Sammy" piscar na tela. Atendi e coloquei o aparelho na orelha.
- Oi. - Escutei a voz séria do Sam do outro lado.
- Oi Sam. - respondi. Lauren me olhou mas não disse nada, nem eu. - O que houve?
- Precisamos conversar. - ele disse. Parei e escorreguei no muro da casa de Lauren, sentando-me no chão. Respirei fundo dantes de falar noamente.
- Pode falar. - Eu disse com os olhos marejados, com medo do que ele poderia me falar.
- A gente... - ele deu uma pausa e respirou pesadamente - A gente precisa terminar. - Silêncio.
Eu mal pude respirar depois do que acabara de ouvir. Terminar? Como assim teriamos que terminar?
- Ta tudo bem? - ouvi Lauren falar ao meu lado. Eu até havia esquecido que ela estava do meu lado, pra falar a verdade. - L-logan? Ta ai? - ele deu uma pausa. - Olha, eu sei que vai ser difcil e...
- Porque? - o interrompi. Eu já havia começado a chorar e não conseguia parar. Não era possível isso estar acontecendo. Eu não queria acreditar. - Só me responde o porquê. Eu preciso saber.
- Não vai dar certo.- ele respondeu.
- O que? - minha voz saiu como um sussurro.
- É. Eu sei, deu certo todos esses meses mas... Logan, eu não aguento mais isso. Não aguento mais ficar longe de você. Não aguento saber que você não vai voltar tão cedo, e que eu também não posso ai te visitar. Não aguento ficar sem te ver, sem te beijar. Eu sinto tanto a sua falta... - ouvi sua voz de choro. - E essa distancia tá acabando comigo. Não quero sofrer. Eu te amo, Logan.
Eu não sabia o que responder. Eu me sentia exatamente igual. A única coisa que me fazia bem era o fato de eu ter a Lauren como minha melhor amiga. Ela me ajudava.
- Mas...
- Eu te amo.
Não tive tempo de responder mais nada e ele desligou. Eu chorei mais ainda. Olhei para o lado e vi Lauren encostada no muro. Assim que olhei para ela ela me puxou para um abraço.
Se não fosse por ela, nesse momento eu estaria esticado na rua porque teria esperado um carro me atropelar.
- Não sei o que aconteceu, mas te prometo que vai ficar tudo bem. Prometo. - Ela disse e me abraçou novamente.
Ela se levantou e me ajudou a fazer o mesmo. Eu já havia parado de chorar, mas sabia que os meus olhos estavam vermelhos.
Assim que entramos na casa dela ouvi a voz de sua mãe:
- Oi filha.
- Oi. - Lauren respondeu.
A mãe de Lauren apareceu na sala. Era jovem, bonita.
- Quem é?
- Logan. - eu disse. - Sou amigo dela.
- Ah sim... - ela respondeu. - Aconteceu alguma coisa? Seus olhos estão vermelhos.
- É. Eu tava chorando.
Ela nada respondeu depois disso.
Almocei na casa de Lauren e mandei uma mensagem para a minha mãe. Ela respondeu mandando um "Ok.".
Subimos para o quarto dela e eu contei tudo. Desde quando eu conheci o Sam. Eu achei que ela tinha o direito de saber, já que ela era minha melhor amiga.
Não sei se ela ficou assustada por falar que éramos namorados, já que ela mudou de assunto. Pelo menos eu fiz a minha parte.
Fim do flashback.
E foi isso.
Depois que eu contei que eu era bissexual, as coisas mudaram um pouco. Ela me tratava normal, mas sempre desviava o assunto quando ele chegava nisso. Ela me disse que não tem preconceito, mas eu estranhei essa sua atitude.
Já fazem três meses que não estou mais namorando o Samuel. Não que eu esteja chamando-o assim porque não estamos mais juntos. É que eu gosto desse nome... Sei lá. Minha mãe ficou chateada quando soube da noticia, mas também não tocou mais no assunto. Ela até parou de falar da Lauren.
Ah sim... Lauren.
Esses últimos meses foram um pouco complicados. Além do término com o Sam, eu me senti um pouco confuso.
E aqui estou eu. Entrando na Alpha School. Não tô muito animado, admito. Mas já que eu preciso estudar, eu tenho que ir pra escola. O Sam me ligou a semana inteira e disse as mesmas coisas sempre. "Tô com saudade.", "Te amo.", "Tô louco pra te ver."... essas coisas. Sempre que ele ligava, aquelas malditas lágrimas insistiam em sair.
Tá. Se eu continuar falando dele eu vou pirar.
Dei um respiro fundo e passei do portão de entrada. Como eu já conhecia a escola, era mais fácil saber onde seria a minha sala. Não que eu esteja tão animado assim. Mas ok.
Olhei em volta e vi um bando de alunos. Alguns entrando nas salas, outros no pátio, alguns sentados nos bancos...
Pelo menos nenhum olhou torto pra mim. Ainda.
Caminhei em direção a sala de Geografia, que seria a primeira aula que eu teria.
Sentei em uma das carteiras vazias bem no canto da sala. E fiquei lá.
Não estava com vontade de sair de lá nunca mais. Talvez pra não chorar ou sei lá... Pra não sentir tanta vontade de voltar pro Rio de Janeiro. Mas eu estava. Eu queria voltar, queria ver o Sam, os pais dele, queria abraça-lo, beijá-lo e repetir inúmeras vezes o quanto eu amo aquele irlandês filho da mãe.
Olhei em volta e vi uma garota vindo em minha direção. A reconheci assim que ela chegou mais perto.
– Oi. - ela disse. A Lauren, a garota da sala de informática.
– Oi. - respondi.
– Posso sentar aqui? - ela disse apontando pra carteira do meu lado, que estava vazia.
– Claro! - eu disse e ela sorriu.
Depois o professor entrou na sala e começou a falar um monte de coisas.
Nem prestei atenção quando o sinal bateu novamente.
Senti a mão da Lauren no meu braço e ela falando:
– O sinal da próxima aula já bateu - e deu uma risadinha
– Ah ta.
Levantei, arrumei meu material e segui a Lauren.
...
Não preciso contar o que aconteceu nas outras aulas porque foram praticamente do mesmo jeito que a primeira. E bom, também não foi tão diferente das aulas lá da Rio.
Logo bateu o sinal do intervalo. A Lauren perguntou se eu podia fazer companhia pra ela já que ela nunca lanchava com ninguém. Eu concordei.
A gente ficou num lugar que era perto do pátio. Ela disse que era mais tranquilho porque quase ninguém ia lá. Então ta...
Depois de um tempo ela perguntou:
– Você namora?
Olhei pra ela sem expressão nenhuma.
– É complicado.
– Eu posso tentar entender. - ela insistiu.
– Namoro. Mas... Ultimamente é a distancia porque... Não tô mais no Rio... Não sei explicar.
– Ah sim. Ela mora lá?
"Porque as pessoas sempre acham que tem que ser uma garota?" Perguntei-me mentalmente.
– Ahn... - ri fraco
– O que foi? - ela perguntou confusa
– Ér... - e o sinal bateu.
Legal, não preciso falar isso hoje.
– Depois eu falo, afinal a gente tem que voltar pra sala.
– Ta. - ela concordou.
...
O resto das aulas foram como as anteriores.
Assim que o sinal final bateu, fiz o mesmo processo dos finais das aulas. Me levantei e peguei meu material. Nem vi a Lauren na saida... Mas tanto faz. Pelo menos se ela continuasse minha amiga, eu ia ficar menos deslocado.
Vi o carro da minha mãe e entrei. Mesmo achando uma besteira porque a casa que a gente mora é perto daqui, mas ela insiste em vir me buscar. De carro.
Chegamos em casa e eu fui direto pro meu quarto pra evitar minha mãe perguntando um monte de coisas (especialmente sobre a Lauren) que eu sei que ela iria perguntar.
Depois de tomar meu banho e ajeitar as coisas no meu quarto, deitei-me um pouco.
E fiquei pensando em tudo de estranho e diferente que está acontecendo comigo. Como eu nunca imaginei que pararia em uma cidade turística, e também que achei que a escola ia ser pior. Até que não foi. Pelo menos no primeiro dia.
Eu estava deitado na minha cama quando disquei o número dele.
– Oi. - ele atendeu no primeiro toque.
– Oi. - respondi.
– Tá tudo bem? - ele perguntou
– É... Mais ou menos. - eu disse.
– O que houve? - percebi sua voz se alterar para um tom de preocupação. - Aconteceu alguma coisa? - ele insistiu.
– Eu te amo. - eu disse já sentindo as lágrimas escorrerem. Eu precisava falar isso pra ele. Já fazia uma semana da ultima vez que ele ligou pra mim. Ele tinha me mandado uma mensagem dizendo que tinha arrumado um emprego e ia ficar dificil me ligar. Mas eu não me contive e precisei ligar pra ele.
Demorou alguns minutos até que ele respondesse alguma coisa.
– Eu também te amo. - percebi sua voz embargada como a minha.
– Tô morrendo de saudade tua. - respondi.
– Eu também tô. Queria que você tivesse aqui. - ouvi-o fungar por causa das lágrimas.
– Eu também queria estar ai. Muito.
E um silencio desconfortável tomou conta de repente.
Depois de uns minutos eu perguntei:
– Tu tá no trabalho?
– Não. - ele respondeu.
Não?
– Eu achei que você trabalhasse a tarde.
– Eu trabalho sim. Mas é que...
– Que...? - eu perguntei preocupado
– Eu tô gripado.
Dei uma risada alta. Ufa, não era tão grave.
– Ah sim. Tenho que desligar.
– O.k. - ele respondeu e senti ele dar um sorriso. Mesmo não o vendo, deu pra perceber que ele sorriu por que eu ri. Ou sei lá. Eu sei que ele tava sorrindo e agora não tá mais.
– O.k. - respondi e desliguei.
Eu e o Sam pegamos essa mania de falar "o.k" pra tudo depois que eu li um livro chamado "A Culpa É Das Estrelas". Eu falei pra ele sobre o livro e ele ficou interessado.
É legal, mas ao mesmo tempo triste. Hazel, que é a personagem principal, sofre de cancer. Tireoide com metatase nos pulmões, ou algo assim.
Ela vai pra um grupo de apoio, onde conhece o Augustus, que tem osteossarcoma. Pra não enrolar muito, depois que os dois se conhecem, eles passam a maior parte do tempo juntos. E eles se apaixonam.
O fim trágico é que, não é ela que morre no final, mesmo tendo uma estimativa de menos tempo de vida que o Augustus.
É bem triste mesmo.
O fato é que, quando eles terminavam uma conversa, eles sempre falavam "o.k" que simbolizava o "sempre" usado pelo amigo deles, o Isacc, e a ex namorada dele.
De qualquer forma, era por isso que sempre falavamos "O.k".
Levantei da cama e fui pra cozinha.
Minha mãe estava preparando algo pra comermos, já que ficamos um bom tempo na escola.
Já eram cinco horas da tarde e eu resolvi ver televisão.
Como sempre, não tinha nada de interessante passando. A não ser aqueles progamas culinários ou um filme bem chato.
Voltei para o meu quarto e peguei o A Culpa É Das Estrelas.
Eu adoro esse livro. Principalmente porque me lembra o Sam. Mas acho que já falei isso.
...
Lá pelas nove da noite eu parei de ler. Já tinha lido praticamente a metade. Resolvi tomar um banho e me deitar novamente.
Não que eu estivesse com sono, mas eu preferi dormir mais cedo, já que eu levantei num horário que não estou acostumado.
No dia seguinte, acordei e não tinha ninguém em casa.
O papai como sempre estava trabalhando, e a mamãe dever ter ido fazer compras ou sei lá o que. Pelo menos ela deixou um bilhete.
"Filho, fui para Guará pra comprar algumas coisas pra você levar pra escola. Chego até a hora do almoço. Assinado, mamãe."
Minha mãe, sempre fofa.
Guará é a maneira carinhosa que minha mãe deu pra Guaratiguetá. Uma cidade vizinha de Aparecida. Diferente daqui, lá tem um monte de loja bacana, e tem um shopping. Sim, em Aparecida não tem shopping.
Se é que o Centro de Apoio ao Romeiro na basilica pode ser chamado de shopping. Pra mim, nunca.
Caminhei até a geladeira e peguei o leite. Coloquei na caneca e tomei.
Eu nunca sinto muita fome de manhã, mas já que minha mãe só ia voltar pra hora do almoço, resolvi prevenir.
Enquanto minha mãe tava fora, eu continuei lendo meu livro.
Acho que nunca vou enjoar dele.
...
Minha mãe chegou, fez o almoço e me encheu de perguntas.
– Você comeu alguma coisa? - ela perguntou reparando que eu estava só beliscando a comidaque estava no meu prato.
– Tomei nescau. - respondi.
– Tem alguma coisa errada, Logan? - minha mãe perguntou.
– Só não tô muito ancioso pra escola.
– Mas você sempre ficou ancioso. - ela disse.
– Eu sei. Mas dessa vez é diferente. - olhei pro meu prato e o empurrei.
– Diferente como?
– Não tem o Sam aqui, mãe. É isso que tá diferente. Eu liguei pra ele ontem. Ele disse que me ama e tá com saudades. Eu sinto o mesmo.
– Logan, eu já te falei sobre isso, não falei? - concordei com a cabeça - Vai ser legal esse ano. Vai viver coisas novas.
– Mãe. - respirei fundo. - Não quero brigar com você. Vou ir pro quarto antes que a gente brigue de novo sobre uma coisa que eu já cansei de falar que nunca vou aceitar. Não tô animado pra conhecer pessoas novas porque o Samuel não tá aqui. E eu amo ele e você sabe muito bem disso.
– Logan... - ela tentou falar mas eu não deixei.
– Tô indo pro quarto.
E sai da cozinha.
Não queria ouvir mais nada. Eu sei que ela ia brigar comigo. E sinceramente não tô nem um pouco a fim que isso aconteça.
Minha mãe me levou pra conhecer minha nova escola em São Paulo.
Desde que chegamos aqui, ela não para de falar disso. "Você vai gostar", "Vai ser bom", "Vai fazer novos amigos" e mais um monde de baboseiras.
Poxa, eu queria estar no Rio, na mesma escola, e junto com o Sam.
Ah, Sam. Ele me faz tanta falta. Aquele cabelo, aqueles olhos, o jeito irlandes que ele tinha de ver superstição em tudo, a voz dele... E principalmente os beijos. Como os beijos do Sam me faziam falta. Aquele garoto me deixava louco.
Ele sempre me ligava e me dizia o quanto ele me amava e sentia minha falta. Minhas palavras eram as mesmas.
Eu não culpava meus pais por termos vindo pra cá. Afinal minha mãe precisava de um emprego, e o único que ela conseguira foi na escola que estamos parados na porta nesse exato momento.
A escola não era muito grande, mas o suficiente para quase mil alunos no período da manhã. A tarde, o periodo que eu vou estudar, tinha cerca de apenas duzentos alunos. E a noite não chegava nem a cem.
A diretora veio nos receber com um enorme sorriso no rosto. Ela era alta e devia ter no máximo trinta e cinco anos de idade.
– Então você é a dona Louise? - a diretora disse olhando pra minha mãe, que assentiu - Bom, é um prazer tê-los aqui. E esse é o Logan não é? - assenti mesmo sendo óbvio. - Bem-vindos ao Alpha School. Será um prazer ter vocês aqui.
Assentimos.
– Vou mostrar as salas de aula. - ela disse e nos levou pra um dos corredores da escola. Ela foi mostrando cada sala e falando a matéria que eu aprenderia em cada uma delas, já que é sistema de sala ambiente, ou seja, o professor quem tem a sala fixa, e nós alunos ficamos trocando a cada aula. Bom, não era muito diferente da escola onde eu estudava no Rio, então não seria dificil me acostumar.
Depois ela mostrou a sala dos professores e eu me sentei num banco perto do portão da entrada, que provavelmente seria o lugar onde os alunos que chegam atrasados ficam até serem liberados para entrarem.
De longe vi uma menina entrando em uma das salas. Sei lá o porque.
Ela tinha o cabelo castanho escuro e não era muito alta. Fiquei curioso com o que ela estava fazendo na escola já que as aulas só iriam começar semana que vem.
Hm.
Olhei pro outro lado e vi a diretora e minha mãe voltando.
– Logan. - disse a diretora. - Se você quiser pode ficar na sala de informática. Sua mãe vai fazer a sua matricula e vai demorar um pouco.
Assenti levemente. É. Ia ser tediante ficar esperando minha mãe.
Podia ter dado a ideia de ir pra casa mas........
Ela me mostrou a sala de informática, que por acaso, era a mesma que aquela garota entrou.
– Vou demorar pouco, mas é só pra você não ficar entediado. - disse a minha mãe e deu um sorriso.
E ela e a diretora foram pra sei lá onde.
Entrei na sala envergonhado e, caramba, só tinha ela aqui.
– Oi. - ela disse animada.
– Oi.
– Ahn... sua mãe veio fazer sua matricula? - concordei com a cabeça - Ah... ai elas te trouxeram aqui pra você não ficar sem fazer nada? - concordei novamente e ela deu uma risadinha. - Sou Lauren. - ela disse e deu um sorriso.
– Logan. - respondi.
– Senta em alguma das cadeiras, se quiser. Quem mexer no computador? - neguei.
– Na verdade eu vim pra cá pra não fazer disfeita para a minha mãe.
– Ah, entendi. - e sorriu fraco. - Mas sentar você pode né? - rimos um pouco.
Sentei-me ao lado dela e continuamos a conversar.
– Você trabalha aqui? - perguntei com curiosidade
– É. Durante o periodo da manhã eu cuido da sala de informática com mais dois alunos. Eu acho legal já que eu curto essas coisas.
– Ah sim.
– Parece que você não tá nem prestando atenção. - ela riu. - Aconteceu alguma coisa?
Desviei o olhar pro chão e olhei pra ela.
– Só tô chateado. Mas deixa isso pra lá.
– O.k. - ela disse.
– Ahn... Você disse que curte "essas coisas"? - e eu me permiti rir um pouco. Não poderia ficar triste o tempo inteiro. Apesar de que eu não conseguia ficar totalmente bem.
– É. Informatica, sabe? Eu adoro isso. - ela disse e me deu um sorriso sincero.
– E o que você faz, especificamente?
– Além de cuidar da sala, eu ajudo os alunos que tem dificuldade. É bem legal mesmo. E ainda recebo por isso. - ela riu de novo
– Legal. - eu disse e dei um sorriso.
Ficamos conversando durante o tempo em que minha mãe e a diretora estavam lá fora. Uma meia hora depois elas voltaram.
– Logan, já terminei. - minha mãe disse entrando na sala. Ela viu a Lauren e sorriu pra ela.
– Ta. - eu respondi. - To indo, tchau. - disse olhando pra Lauren e ela me deu um pequeno abraço. Não reclamei, porque vai que ela virasse minha amiga né? Pelo menos não vou ficar tão deslocado na escola nova.
Sai da sala. Eu, minha mãe e a diretora fomos até a entrada.
– Obrigada pela oportunidade. - minha mãe falou pra diretora.
– Imagina, Louise. Já disse que será um prazer tê-los aqui. - ela sorriu pra mim.
Saimos da escola e fomos para o carro.
– Não disse, você ia fazer novos amigos. - minha mãe falou assim que entramos no carro e ela deu a partida
– Ela não é minha amiga. Só falei com ela porque não queria usar o computador.
– Hum. Mesmo assim. Já é um começo. Quem sabe vocês...
– Mãe. - a interrompi. - Não diga besteiras. Você sabe que eu amo o Sam. Não tem volta isso.
– Eu só tava dizendo que...
– Achei que você quisesse que eu fosse feliz. - eu disse um pouco desapontado com o comentário da minha mãe.
– Eu quero Logan. Já disse isso.
– Então aceita que eu amo um cara.
Disse e sai do carro assim que ela o parou dentro de casa.
Entrei na casa e fui direto para o meu quarto. Eu sentia falta da sala gigante, do corredor, das escadas... Essa casa não tinha nada disso.
Era só uma casa simples. Não reclamo disso porque pelo menos tinha um lugar pra morar.
Mas não vou cansar de repetir que Aparecida é um saco.
Não tem nada aqui. Tipo, nada.
A rua é lotada de gente, a maior parte das casas viraram comércio, e uma das ruas principais daqui é cheia de barraca de feira no Sábado e no Domingo.
Não dá nem pra andar direito, é um saco mesmo.
Não sei nem porque minha mãe me trouxe de carro aqui. A casa onde a gente mora é tipo umas três ruas da rua da escola. Uma grande perda de tempo.
Entrei no meu quarto e suspirei de desgosto.
Eu não queria estar aqui. Queria estar no Rio, com o Sam, assistindo filme juntos, depois o beijando intensamente e irmos dormir juntos.
As próximas semanas se passaram mais rapidas do que eu imaginei. Eu e Sam estávamos muito felizes, e ele ais ainda por assumir sua homossexualidade aos pais e eles se importarem somente com a felicidade dele. Assim como os meus pais que queriam que eu fosse feliz do meu jeito. Seja com o Sam ou qualquer pessoa que eu escolhesse. Seja com o Sam ou qualquer pessoa que eu escolhesse. Eu escolhi o Sam, então eles estão felizes por mim.
Estávamos na véspera de Natal e minha mãe chamou a família Foster para passar a noite e o dia seguinte conosco. É claro que o Sam estava junto.
Na noite anterior ao Natal, mamãe sempre faz um jantar especial. Nada muito caro, só rabanada e algumas comidas típicas dessa época do ano. Tudo estava maravilhoso, como sempre.
No dia 25, ela iluminava a árvore com um pisca-pisca de quase dez anos de existência, que papai comprou numa época que recebia mais no trabalho dele em São Paulo. Eu ia fazer seis anos no mês seguinte. Inclusive, foi o primeiro Natal deles aqui. Eles chegaram em janeiro, e eu acabara de fazer cinco anos. Sam completou os quatro em Maio. Do jeito hospitaleiro de sempre, minha mãe convidou os novos viznhos para passar essa época conosco, e é claro que eles aceitaram.
Ah sim, o pisca-pisca. Ele iluminava a árvore todos anos desde que foi comprado. Embaixo dela estavam os presentes do nosso amigo-secreto, que inclusive, começaria agora porque já era meia-noite.
– Eu começo! - minha mãe disse pegando o presente embaixo da árvore - Não sei como fazer isso mas... - ela deu uma risadinha - O.k. Vamos lá. O meu amigo-secreto - ela riu de novo - é uma pessoa muito especial pra mim. Essa pessoa me ajudou em diversos momentos. E eu ainda tenho muito que agradece-la. - todos nós olhávamos atentos para tentar adivinhar quem ela havia tirado. E ela olhava também para todos nós, para não descobrir-mos tão fácil. - Bom... - ela olhou pro meu pai, a mãe do Sam, e parou em seu pai. - Eduard. - ela disse. Eles se levantaram e trocaram um abraço. E minha mãe entregou um presente. Era um suéter.
Depois foi a vez do Sr. Eduard. Ele pegou o presente e começou.
– A pessoa que estava no papelzinho, também é muito importante pra mim. E eu não vou enrolar muito porque quero saber quem tirou quem logo. - ele deu uma risada alta - Enfim, James. - ele disse. Meu pai se levantou e eles trocaram um abraço também. O presente era um blusa pólo preta, que meu pai, com certeza, usaria no seu trabalho.
Meu pai pegou seu presente mas não falou nada. Ele apenas entregou para a dona Alice. Meu pai, sempre sem graça. Ela sorriu e agradeceu. Seu presente era uma caixa de sabonetes de uma marca famosa. Ela pegou o presente e se sentou novamente.
Ela olhou para o Sam e deu um abraço apertado. Ele sorriu e abriu o presente. Era um livro, cujo título é "As Vantagens de Ser Invisível, do Stephen Chbosky.
Sam se levantou novamente e pegou um embrulho pequeno. Ele se sentou novamente e comecou a falar.
– Bom, o meu amigo secreto é uma das pessoas mais importantes do mundo, pra mim. E talvez isso se torne mais óbvio quando eu falar quem é. - nossos pais exclamaram um 'ah' porque provavelmente já sabiam que era eu. - Eu posso dizer que essa pessoa sempre esteve comigo em tudo. Em tudo mesmo. Quando fui pra escola, quando tirei minha primeira nota baixa, quando assistiamos desenhos até tarde, quando tive minha primeira namorada, e principalmente, quando contei que, na verdade, eu sempre fui homossexual. Ele é o meu melhor amigo, e eu quero que seja assim pra sempre. - ele olhou pra mim e eu já não sabia mais o que fazer. - Logan. - e me entregou o embrulho. Ele me abraçou forte e fiz o mesmo com a maior intensidade que pude. Tive uma vontade inexplicavel de beijá-lo, mas apenas depositei um beijo em sua bochecha. Minha mãe, aproveitando a situação, tirou uma foto nossa. Quando me sentei novamente, abri o presente que Sam havia e dado, e quase tive um infarto quando vi um par de alianças prateadas.
Nossos pais abriram a boa em um perfeito 'o' de surpresa ao verem o presente que ganhei.
– Sinceramente eu não sei o que dizer. Só sei que eu te amo muito. - eu disse olhando em seus olhos castanhos e todos bateram palma.
– Eu te amo. - ele respondeu.
E finalmente a minha vez tinha chegado. Nem precisei fazer um descurso porque, estava na cara que eu havia tirado a minha mãe. Levantei-me e Dona Louise fez o mesmo. Entreguei-lhe o presente e ela ficou surpresa quando abriu.
– Oh meu Deus, Logan! - ela disse ainda surpresa - Eu adorei! - ela comentou sobre o frasco de perfume que eu havia lhe dado. - Eu te amo, meu filho. - e me abraçou apertado.
– Eu também te amo mãe. - respondi.
Depois da troca de presentes, subimos para nossos respectivos quartos. Minha mãe e meu pai, para o deles e os pais de Sam para o quarto de hóspides que ficava ao lado do quarto onde eu e Sam entramos.
Sentei na minha cama segurando o presente que Sam havia me dado. Ainda não acreditando. Ele se sentou ao meu lado.
– Sam... - eu disse e desviei o olhar do presente olhando pra ele - Até agora não sei o que dizer. - e olhei para o chão envergonhado.
– Não precisa dizer nada. - e ele deu um daqueles sorrisos de tirar o fôlego. - Só vamos fazer isso direito.
Olhei pra ele novamente e ele me deu um selinho.
– O.k. - respondi. Peguei a aliança que estava com o nome 'Logan' gravado no interior e segurei sua mão. - Samuel Foster, você quer ser meu namorado? - perguntei e ele me deu um beijo demorado.
– Sim. - ele respondeu sorrindo. Pegou a aliança que estava gravada o seu nome e também segurou minha mão. - Logan Stoner, quer ser meu namorado? - assenti sorrindo.
E nos beijamos apaixonadamente.
...
A festa em comemoração ao ano novo, não foi tão diferente da festa de Natal. Vou te dizer o porque.
A) Ambas as festas comemoramos juntos, minha família, e a familia Foster.
B) Sempre ficávamos acordados até tarde.
C) Ninguém brigava em épocas assim.
As únicas diferenças, eram que mamãe havia desmontado a árvore de Natal, não trocávamos presnetes, e comemoramos a data na casa dos Foster.
As casas da rua onde morávamos, eram todas tradicionais. De familias que viveram aqui no Rio a muito tempo. Eu poderia dizer que as casas eram, de certa forma, 'ricas'.
Mas a casa mais bonita, e provavavelmente mais cara, de toda rua, era a casa da família Foster. Mesmo sendo como as outras porque tinha o andar de cima, ela era realmente muito grande.
E tinha um salão, que era onde estávamos nesse exato momento.
Ouvimos os fogos que as pessoas soltavam nas ruas anunciando que o ano de 2013 já havia começado.
No momento em que isso aconteceu, eu olhei para o Sam, que estava do meu lado, e dei um beijo nele.
Diria que, o melhor beijo da minha vida. Eu não estava com vontade nenhuma de parar. Mas fomos obrigados porque ouvimos alguém dar uma tossida falsa. Eu e Sam rimos da situação.
– Acho que alguém precisa de uma cama. - meu pai falou e começou a rir novamente.
– James! - minha mãe o repreendeu dando um tapa no seu braço.
Nem me importando se minha mãe reclamaria ou falaria mais alguma coisa, olhei para a aliança em meu dedo e no quanto Samuel Foster era importante pra mim. No quanto ele me faz bem, e na vontade que eu tenho de ficar com ele pra sempre.
Senti os braços de Sam me abraçando por trás. Dei um sorriso ao ouvi-lo sussurrando, como se tivesse lido meus pensamentos.
– Quero ficar pra sempre com você. - não consegui responder. virei-me para ele e lhe dei um selinho. Ele segurou minha mão e fomos para o seu quarto, onde teríamos mais uma noite incrível.
No caminho pude ouvir a voz abafada do meu pai "Eles merecem ser felizes, Louise.". E nunca mais reclamaria do meu pai. Ele falando isso para a minha mãe foi a melhor coisa que eu o ouvi falar em toda a minha vida. Meu pai torcia por mim e por Sam, e eu não podia ter um começo de ano melhor.
Entramos no quarto e bom... vocês sabem o que aconteceu.
...
Dia doze de janeiro, é o meu aniversário.
Minha mãe sempre faz alguma coisa pra mim. Um bolo, uns salgadinhos... e me dá algum presente, que mesmo simples, vale muito pra mim. Esse ano prometi não pedir nada para a minha mãe, pois o melhor presente que eu podia receber, eu recebi a pouco tempo: o meu namoro com o Sam. E isso já era o suficiente pra mim.
A propósito, hoje é dia doze. A propósito, estou ficando mais velho.
Acordei eram quase onze horas. Levantei-me da cama ainda com preguiça e fui fazer minhas higienes. Saí do banheiro e coloquei minha caça jeans, meu all star branco, e uma blusa xadrez azul que cheirava o perfume do Sam. E eu não me importo.
Desci as escadas e fui pra cozinha. Encontrei minha mãe fazendo alguma coisa que não identifiquei o quê. E ela se assustou quando ouviu minha voz.
– Oi. - ela pulou com o susto e escondeu qualquer coisa que fosse que ela estava fazendo.
– L-logan. S-senta ai. Vou pegar o leite. - ela disse com a voz falhada. Sentei-me na mesa e esperei minha mãe.
Logo ela se sentou e colocou o leite em cima da mesa.
– Ta tudo bem, mãe? Você parece nervosa. - eu disse colocando o leito no copo.
– C-claro q-que sim. - ela disse ainda gagejando.
– Têm certeza? - insisti e ela assentiu.
– E com você? - ela pareceu mudar de assunto.
– Tô bem. - e sorri - Afinal não é todo dia que...
– Querido! - minha mãe me interrompeu olhando para a porta da cozinha, onde meu pai estava parado.
– Oi amor. - ele disse e beijou sua testa. Virou-se pra mim e me deu um pequeno abraço. - Oi filho.
– Oi.
Resolvi sair da mesa. Aquilo não estava me agradando. E eu achei que não poderia ficar pior.
O resto do meu aniversário, foi extremamente tedioso.
Ninguém me ligou para dar os parbéns (não que eu esperasse, mas mesmo assim...), nenhuma mensagem, nenhuma visita, nada. Parecia que todos estavam escondendo alguma coisa de mim. Ou fingindo que não sabiam de nada. Ou eles realmente esqueceram.
Nem Sam apareceu em casa. E isso me magoou muito.
Lá pelas sete da noite eu fui tomar meu banho. Demorei meia hora porque eu precisava de um banho longo. É deprimente você fazer dezessete anos e ninguém se importar.
Depois que sai do banheiro coloquei uma roupa parecida com a que eu estava, e recoloquei a aliança que Sam havia me dado. Sentei-me na cama e fiquei observando-a.
Era linda demais. O melhor presente que eu havia recebido.
Acho que depois disso eu dormi, porque não lembro de mais nada.
...
Acordei de repente ouvindo umas batidas na porta do quarto. Levantei-me com preguiça e me ajeitei diante do espelho. Porque mesmo que fosse minha mãe, não seria legal ela me ver com a cara amassada de sono.
Ouvi as batidas novamente. Caminhei em direção à porta e a abri.
Era meu pai.
– Logan, você pode me ajudar num negócio lá embaixo? - ele perguntou
– O.k. - respondi. - Já vou. - ele concordou e desceu novamente.
Fui em direção ao banheiro. Lavei o rosto, pentiei o cabelo e desci.
No meio do caminho ouvi a voz da dona Alice.
Será que pelo menos ela se lembrou do meu aniversário?
– Logan! - ela disse quando me viu. Dei uma olhada na sala e na cozinha à procura de Sam, mas só havia ela no local.
– Oi, dona Alice. - respondi e dei um sorriso fraco.
– Você pode vir comigo? Seu pai quer ajuda. - ela disse.
– É, ele foi lá em cima. - e apontei para as escadas. - Você sabe que tipo de ajuda? - perguntei
– Não. - ela respondeu. - Ele só me disse que precisava de você.
– Ah sim.
– Você parece triste aconteceu alguma coisa? - ela perguntou.
"Claro que aconteceu. Hoje eu faço dezessete anos e ninguém se lembrou. Ninguém mandou mensagem, ninguém ligou...E a única pessoa que veio aqui o dia inteiro foi a senhora. Nem seu filho se lembrou que era o meu aniversário." Pensei quase explodindo de desgosto.
– Nada não, tô bem. - menti.
– LOGAN! - ouvi meu pai chamando.
– Tenho que ir.
– Ta bom, vai lá. - ela respondeu.
Andei a casa inteira em busca do meu pai e não o encontrei.
Quartos lá em baixo, o banheiro, sala, cozinha e nada.
Aí eu parei no meio do corredor com esperança que ele abrisse alguma porta. Foi quando eu vi um bilhete no chão no canto da parede.
Com letras complicadas, no bilhete estava escrito:
"Na lavanderia tem uma porta que eu acho que você nunca viu. Estou lá."
E fui a caminho da lavanderia. Ela ficava depois da porta da cozinha.
Segurei a maçaneta e abri a porta com cuidado, por que afinal eu nunca soube da existencia daquele lugar na minha própria casa. Mas fazer o que...
Quando olhei lá dentro eu tive um surpresa.
Todos os meus amigos estavam lá. Pelo menos, a maioria deles. Meus pais, os pais de Sam (inclusive dona Alice que deve ter entrado enquanto eu procurava meu pai) e o Sam. Ele estava usando uma calça preta, um all star azul, e uma blusa com o nome da sua banda favorita.
Ele sorriu quando me viu, e falou junto com todos os outros convidados:
– Supresa! - e eles bateram palma pra mim sei lá porque.
– Filho, me desculpe te enganar, mas era necessário. - meu pai disse enquanto eu caminhava pra eles.
Abraçei minha mãe que disse "eu te amo" no meu ouvido; meu pai, que não disse nada; e Sam, que me eu o abraço mais apertado de todos, e repetiu os dizeres da minha mãe.
Todos olharam para nós, mas ninguém falou nada. Talvez nem desconfiassem que estávamos namorando, mas em todo caso, preferimos manter segredo durante um tempo.
Minha mãe me chamou para ficar atrás da mesa, que tinha um bolo escrito "Parabéns, Logan."
Me posicionei aonde ela pediu mesmo envergonhado, porque essa era a primeira vez que minha mãe chama tanta gente pra minha comemoração de aniversário.
E eles começaram a música do parabéns. A minha sorte foi que, ninguém cantou o famoso "Com quem será.". Não ia ser legal... porque eles iriam falar o nome de alguma menina...
– FIlho - meu pai falou e eu virei-me pra ele - Seu presente. - e me entregou uma caixa.
– Mas...
– Aceite, por favor.
– O.k. - eu disse abrindo o presente.
Fiquei feliz quando vi que era um celular novo. Já que o meu estava perdido no carro da Melanie.
– Poxa, obrigado. - eu disse com a maior sinceridade do mundo.
– Você merece. - o Sam falou e eu sorri.
Nós comemos o bolo e alguns salgadinhos. Quando eram quase onze horas, os meus amigos foram embora. A única que sobrou foi a Melanie.
Ela me olhava com uma cara de culpa, e esperou que meus pais saissem para poder falar comigo sozinha.
Mas o Sam ficou.
– Logan... feliz aniversário. - ela disse e deu um sorriso fraco.
Dei um sorriso fraco e olhei para o chão. Ela veio caminhando em minha direção e me deu um abraço. Pude ver o Sam com uma cara irritada, mas ele não fez nada a não ser olhar.
– Obrigado, Melanie. - eu disse.
– Me desculpe. - ela falou com uma cara de culpada. - Eu fui idiota demais e...
– Já passou. - a interrompi.
– Você acha? - ela arqueou a sombrancelha
– Tenho certeza. - eu disse. - Bom... e eu estou muito feliz.
– Já arrumou alguém? - ela riu fraco.
– Digamos que essa pessoa esteve sempre ao meu lado. E só agora que eu fui perceber que eu realmente gosto dela de verdade. - eu disse e ela pareceu pensativa. Dei um sorriso malicioso.
– Oh meu Deus. - ela disse e eu começei a rir.
– É. - eu disse ainda rindo.
– Então... Você e o Sam... - Sam olhou curioso. Chamei-o e ele ficou ao meu lado.
– Sim, estamos juntos. - e entrelacei meus dedos direitos nos da mão esquerda de Sam. Ele sorriu com o gesto.
– Uau. - ela disse. - Eu e Sarah... estamos namorando também.
Nem me surpreendi.
– Bom... isso é ótimo pra vocês não é? - ela concordou.
– Pra gente também. - Sam disse e olhou pra mim. Olhei para ele e dei um selinho.
– Quem diria... Logan Stoner namorando um garoto. - ela disse e riu um pouco.
– É. - nós rimos.
– Tenho que ir. - ela disse e me deu mais um abraço. - Coloquei seu presente junto com os outros, ali naquela caixa. - olhei para a caixa a percebendo pela primeira vez. Ela deu um abraço em Sam e disse mais uma coisa. - Foi legal ver vocês. E saber que vocês estão juntos.
Nós dois sorrimos e agradeçemos. E ela saiu do salão.
...
– Achei que você nunca fosse falar pra alguém. - disse o Sam depois de um tempo. Depois que a Melanie saiu do salão, e eu Sam fomos pra o meu quarto. Depois é claro, de dar boa noite para os meus pais, e minha mãe falar um monte sobre a gente dormir do mesmo quarto. Só porque estamos namorando, pura sacanagem. Mas depois de meu pai insistir muito que não teria problema e que somos responsáveis o suficiente para saber o que estavamos fazendo, ela cedeu.
Agora estavamos deitados na minha cama, um ao lado do outro. Ele que estava com a cabeça encostada no meu ombro, a levantou quando falou.
– O que? - eu disse um pouco aéreo e olhei pra ele.
Ele sorriu de uma forma encantadora e continuou.
– Sobre nós dois. - e deitou a cabeça novamente em meu ombro.
– Ué, porque? - perguntei confuso.
– Porque... - ele deu uma risada fraca - Deixa pra lá.
– Pode falar Sammy.
Ele olhou para mim novamente e me beijou.
– Amo quando você me chama assim. - ele disse e virou de lado. Virei-me também e fizemos contato visual.
– Sammy, Sammy, Sammy, Sammy. - repeti várias vezes e ele deu uma gargalhada impossível de esquecer. - Mas me fala, porque você achou que eu nunca fosse fazer aquilo?
– Porque ninguém imagina que você gosta de garotos. Ou que gosta de mim. - e deu um sorriso fraco - É estranho alguém souber e te chamar de gay. Porque você não parece gay.
– Porque eu não sou gay. - gargalhamos. - Todo mundo é um pouco gay mas... é diferente. - rimos novamente. - E eu não me importaria que me chamassem assim. Porque eu gosto de um garoto. É verdade isso. Então... não ligo muito. - sorri para ele e nos beijamos novamente.
Sem malícia ou alguma coisa parecida. Só uns beijos e dormimos depois.
*~~~~*
19 de janeiro de 2013, a noite.
Vou te contar o motivo de hoje ser o pior dia da minha vida.
Tudo começou quando minha mãe abriu a porta do meu quarto sete horas da manhã pra me acordar.
– Filho! - ouvi minha mãe falar na porta do meu quarto e batendo-a várias vezes. - Logan, acorda.
– Já vou mãe. - respondi. Olhei no pequeno relógio que estav no criado-mudo e vi que eram sete horas da manhã. Caramba, que que minha mãe quer essa hora?
Levantei com preguiça e fiz minhas higienes. Vesti um casaco qualquer que achei no quarto e desci.
Cheguei na cozinha e vi minha mãe perto de algumas malas que estavam no chão da cozinha. Uma cinco pelo menos.
– M-mãe, o q-que é isso? - eu gagejei. Eu estava nervoso, óbvio! Não bravo, mas nervoso no sentido de... Ah, você entendeu. - Pra que tudo isso? - insisti.
Ela olhou pra mim com uma cara de pena. Veio até mim e tentou me abraçar mas eu desviei.
– Pra que são essas malas mãe? - perguntei novamente. Ela olhou em meus olhos e respirou fundo antes de responder.
– Nós vamos nos mudar. - ela respondeu tranquilamente como se nada tivesse errado.
Não consegui responder.
– Eu sei que pode ser difícil pra você e...
– DIFICIL? - gritei - MÃE! QUANDO TUDO FINALMENTE DA CERTO NA MINHA VIDA VOCÊ CONSEGUE FAZER COM QUE TUDO VIRE UM MERDA. É POQUE EU TO NAMORANDO UM MENINO É ISSO? PORQUE VOCÊ TEM UM FILHO BISSEXUAL E TEM MEDO QUE DESCUBRAM? - respirei fundo antes de continuar - PORQUE MÃE? - e eu comecei a chorar.
Encostei-me na parede e escorreguei até chegar no chão.
Senti minha mãe colocar a mão em meu rosto e em seguida sussurrou:
– Me desculpe se é isso o que você pensa de mim. Eu disse que queria você feliz. E o motivo dessa mudança jamais seria o seu namoro com o Samuel. Eu consegui um emprego, Logan. E vai melhorar muito a nossa vida.
E ela parou de falar. Continuou a com a sua mão na minha e começou a acariciar os meus cabelos.
A puxei para um abraço.
– Me desculpe. - eu disse.
– Tudo bem. Sobe pro seu quarto e dorme mais um pouco. Depois eu te chamo pra arrumar suas malas. A viagem é hoje a noite.
– Mas e o Sam? - perguntei. Eu não ia deixá-lo sozinho. - Não posso deixá-lo aqui.
– Ele já sabe de tudo. Os pais dele contaram pra ele. Ele virá aqui hoje a tarde. Pra vocês se despedirem.
– Mas eu vou revê-lo novamente não vou? Eu tenho que revê-lo.
– É claro que vai. Mas por enquanto, é melhor vocês se despedirem. Não sabem quando vão se ver novamente.
Concordei mesmo com vontade de morrer.
Eu não queria deixar o Sam aqui. Ir pra outro lugar e... E o nosso namoro? Como vai ficar?
Minha cabeça estava explodindo e a única solução foi fazer o que a minha mãe disse.
Mas não consegui dormir. Fiquei rolando na cama o tempo inteiro por umas duas horas. Durante um tempo, minha mãe fiou no quarto comigo. Ela entrou e começou a falar coisas que me confortassem, mesmo achando que eu estava dormindo. Por ultimo, ela me deu um beijo na testa e disse que tudo ia ser melhor pra gente. Era o que eu esperava.
...
Sam chegou aqui as seis e meia. Ele entrou em meu quarto e não parou de me beijar durante uns cinco minutos. Quando nos separamos ele me deu o melhor abraço que eu já havia recebido.
– Eu te amo tanto. - ele repetia inúmeras vezes. - Nunca se esqueça disso.
– Não vou esquecer. - eu dizia mechendo nos seus cabelos dourados. - Nunca.
E ele selou meus lábios.
Sam estava sentado no chão encostado na minha cama. Eu estava do seu lado olhando pra ele. Ele acariciava meu rosto com um sorriso lindo estampado no dele.
– E agora? - ele disse. Provavelmente se referindo a nós dois.
– Continuaremos juntos. - eu respondi.
– Mesmo longe? - ele fez uma expressão de desgosto.
– Também não quero ficar longe de você. E não quero terminar com você por causa disso.
– Eu também não. Mas mesmo assim...
– Não confia em mim? - eu perguntei olhando em seus olhos.
– É claro que confio. - ele respondeu. - Eu te amo. Isso é tão óbvio. E clichê. - e deu aquela risada que eu ia sentir uma baita falta.
– Sabe... - comecei - Eu nunca imaginei me apaixonar por um garoto. Você sabe disso. Bom, além do mais desse garoto ser você. Mas aconteceu. A distancia não vai atrapalhar em nada. Eu vou te amar da mesma forma que eu amo hoje, e vai ser assim pra sempre.
– Você prevê o futuro? - ele brincou.
– Talvez... - eu respondi e nós rimos. - Sempre vai ser você Sam. Sempre.
Ele deu um sorriso e eu continuei:
– E sempre vai ter aquela pessoa que eu vou abraçar com todo o amor do mundo, e nunca mais querer soltar. Sempre vai ter alguém que eu vou acordar com beijos nos lábios, e sempre vai ter alguém que eu vou chamar de meu, para o resto da vida. Eu vou sempre ter o meu melhor amigo, que eu posso chamar de amor. Porque aconteceu. E eu amo você.
– Ah, mas e se... - ele tentou falar, mas o interrompi.
– E sempre será você.
E ele me beijou.
Agora você sabe. E foi isso o que aconteceu antes de eu ir pra São Paulo. E o que eu vivi no Rio, eu nunca vou esquecer.
Depois daquele dia, realmente tudo ficou melhor. Já estava fazendo uma semana que eu e Sam estávamos juntos. Mas quando digo 'juntos', infelizmente não quero dizer que estamos namorando. Eu pretendo fazer isso hoje. E também pretendo contar a minha mãe que ela tem um filho bissexual e que quer namorar o melhor amigo porque ambos então apaixonados. Minha mãe não tem problema nenhum se a opção sexual da pessoa é diferente, mas não sei qual será a sua reação comigo. Como o ultimo dia de aula já havia acontecido (acho que já falei isso, mas mesmo assim), e não tínhamos formatura porque estávamos no segundo ano, não precisaríamos voltar para a escola, a não ser se estivéssemos de recuperação, e esse não era o caso. De qualquer forma, nessa manhã, Sam veio aqui porque queria passar o dia comigo, pois daqui duas semanas ele iria, finalmente, viajar para a Irlanda. Eu ficava feliz por ele porque depois de anos ele iria visitar sua terra natal. Já era quinze pra meio dia e estávamos acabando de almoçar. Eu, minha mãe e Sam. Era agora que eu ia falar com eles. Com o Sam aqui porque eu queria que ele ouvisse tudo o que eu ia falar pra minha mãe. Terminamos de almoçar, e quando minha mãe estava saindo da mesa eu segurei de leve em seu braço.
– O que foi filho? - ela disse preocupada. - Quer mais alguma coisa?
Balancei a cabeça negativamente.
– Só quero conversar com você. - respondi. Ela me olhou com uma cara estranha, mas se sentou novamente na mesa.
– Bom, e é sobre o que? - ela perguntou meio insegura. Ela sabia que era importante, mas parecia com medo.
– Eu. - eu disse calmo. - É que tem coisas que você precisa saber.
Ela assentiu. Olhei pro Sam e ele estava apreensivo, e talvez com medo do que eu poderia falar. Mas eu iria falar tudo. Talvez até do beijo.
– Que tipo de coisas? - ela perguntou
– Lembra-se da Melanie? - ela assentiu - Então, a gente terminou porque ela tinha me traído. - ela olhou assustada porque nunca imaginou que ela seria capaz de fazer uma coisa dessas. - Com a Sarah. - eu disse e olhei pro Sam que concordou com a cabeça.
Minha mãe ficou mais abismada ainda e fez um gesto nas mãos para que eu continuasse.
– Foi horrível quando ela me contou. Eu fiquei, além de chocado, triste, porque ela era muito importante pra mim. - olhei para a toalha da mesa. Senti minha mãe pegar minha mão, e em seguida ela finalmente falou.
– Melanie é uma boa garota. Eu sempre gostei muito ela, por causa da Katy, mas nunca imaginei que ela seria capaz de fazer uma coisa dessas.
– Pois é. - Sam falou pela primeira vez na conversa.
– Ainda mais com a Sarah.
– É. - Sam concordou de novo.
– De qualquer forma, agora vocês não estão mais juntos. Não é preciso pensar nela o tempo inteiro. - ela disse como se soubesse de alguma coisa.
– Exatamente. - foi o que eu disse.
– Você precisa ser feliz. - ela queria que eu falasse algo. Conheço dona Louise. Ela sabe de tudo. Ou quase tudo.
– Mãe... - dei um sorriso fraco. - Você já sabe de tudo não é? - olhei pra baixo envergonhado e vi que Sam fez o mesmo.
– Não sei do que você está falando. - ela começou a rir e soltou minha mão. Olhou para o Sam, e depois para mim e sorriu novamente. - Se eu sei que meu filho está apaixonado pelo melhor amigo e que até já se beijaram no quarto? - ela riu de novo. - Se for isso... Sim, eu sei de tudo.
Comecei a rir porque não tinha o que falar e eu estava envergonhado. Já disse isso, mas só reforçando.
– Ahn... - olhei pra ela - Como você...
– Ouvi a conversa pela porta. - ela me interrompeu e eu olhei assustado. E o Sam já não sabia mais onde enfiar a cara de tão vermelho que ele estava. - Desculpem. Mas eu estava indo pro meu quarto quando ouvi o Sam falando "eu esperava que o meu primeiro beijo fosse com um garoto.". - ela falou a frase de Sam fazendo aspas com os dedos - Depois disso não ouvi mais nada então imaginei que vocês estavam se beijando.
– Oh. - foi o que eu consegui dizer.
– E o dia que vocês voltaram da escola, finalmente depois de muito tempo vindo separados, eu também ouvi o que vocês disseram.
– Mãe! - eu exclamei alto e ela riu novamente.
– Eu sou curiosa, você deveria saber. - ela levantou as mãos à altura dos ombros se fazendo de inocente.
– Agora eu tenho a certeza disso. - eu disse rindo. - Tá bom, e quanto a...
– Eu quero que vocês sejam felizes. - e eu fiquei quieto. Sam finalmente levantou a cabeça que estava apoiada na mesa e olhou atento pra ela. - É sério. Eu sei que vocês se amam e... Quero realmente que meu filho seja feliz. Com quem for. - pasmem, minha mãe disse que queria que eu fosse feliz com quem fosse. Mesmo que fosse um garoto. - Mesmo meu filho sendo gay e...
– Bi. - eu interrompi e ela olhou pra mim. - Sou bi, mãe.
– O.k. - ela balançou a cabeça de leve. - Mesmo que meu filho seja bi - ela corrigiu e o Sam riu fraco - e que ele queira namorar com o melhor amigo, e ele aceite... - ela deu uma pausa - Quero que você seja feliz. Seja com o Sam, ou com quem você escolher.
– Não disse nada sobre namorar... Ainda. - e nós gargalhamos. Uns dois minutos depois de rir eu continuei. - Na verdade, esse é outro assunto. E eu quero aproveitar que minha mãe está aqui e...
Não consegui terminar de falar e minha mãe começou a chorar.
– Mãe? Eu falei alguma coisa ou...
Ao invés de falar alguma coisa ela me abraçou mesmo sentada. Enxugou as lágrimas e pediu pra que eu continuasse.
– Mãe, você sabe que eu gosto do Sam. E ele sabe disso também. - olhei pra ele e seus olhos claros estavam lacrimejados. - Eu só queria um compromisso. - e olhei para o chão.
Não sabia mais o que dizer; mas pelo menos, eu disse tudo o que precisava.
– Por mim... - minha mãe disse com um sorriso. - Já disse que quero o seu bem, Logan. - e sorriu novamente. Ela olhou para o Sam, que ao invés de responder, se levantou rapidamente e roubou-me um selinho. E se sentou novamente.
Minha mãe sorriu largo, se levantou e me abraçou. Levante-me para ficar mais fácil.
– Acho que já te responderam. - minha mãe falou alegre.
Olhei para o Sam que já estava de pé. Ele veio me abraçar também. Minha mãe nem falou nada e foi para o quarto dela. Sam puxou para a minha mão e subimos para o quarto de mãos dadas e com cúmplices sorrisos. Entramos no quarto e ele fechou a porta atrás dele.
Nem preciso dizer que ele começou a me beijar não é? Pois é. Não paramos de nos beijar e ele me jogou na minha cama. Fiquei assustado com sua atitude, mas dane-se. As únicas coisas importantes nesse momento eram o nosso amor e o Sam me beijando. Ele ficou por cima e continuou me beijando. Fez uma trilha de beijos passando pelos meus lábios, meu rosto. Chegou à orelha e mordeu-me no lóbulo. E sussurrou:
– Eu te amo Logan.
Dei um suspiro alto e levei meus lábios para os seus com urgência. Depois de uns minutos nos beijando ele passou seus lábios para o meu pescoço, e ficou lá durante um tempo.
– Eu te amo. - eu disse com a respiração acelerada.
Sam deu um sorriso sacana e tentou tirar minha camisa. Eu o ajudei e fiz o mesmo com ele depois.
Beijamos-nos mais e depois tiramos o resto da roupa.
Depois disso... Bom, sem detalhes sórdidos.
...
Depois daquele momento, digamos que, intimo, cada um foi tomar banho. E não, não fomos juntos. Eu fui primeiro e fiquei pensando o tempo todo no que acabara de acontecer. Depois de mim foi a vez dele e eu fiquei pensando na mesma coisa. Na minha primeira vez, que foi, sem duvidas, o melhor momento da minha vida. Depois que ele saiu começamos a conversar e ficamos até anoitecer.
Minha mãe bateu na porta e eu abri.
– Seu pai chegou. Ele quer falar com vocês.
– Você contou alguma coisa? - eu perguntei meio nervoso. Caramba, meu pai sabe que eu sou bi e estou namorando meu melhor amigo, agora ferrou.
– Só disse que vocês precisam conversar. Não dei detalhes.
– Então... - respirei fundo - Você quer que eu conte. - ela assentiu.
– Ele merece saber. É o seu pai. E te ama do jeito que você é. - ela disse isso e deu um beijo na minha testa. Ela saiu da porta e eu respirei fundo várias vezes.
Sam me olhou preocupado.
– É melhor contar agora do que ele descobrir depois. É sério. - ele se levantou e veio até onde eu estava.
Me deu um abraço apertado e como minha mãe, deu-me um beijo na testa.
– O.k. - foi o que eu disse.
Descemos as escadas se pressa e fomos para a sala, onde meu pai estava me (ou nos) esperando.
Assim que chegamos ele virou e olhou para mim. Ele se levantou do sofá e veio me abraçar. Deu alguns tapinhas nas minhas costas antes de falar alguma coisa.
– Filho! Há quanto tempo! - ele disse um pouco animado. E fazia muito tempo mesmo. Já devo ter falado que meu pai não parava em casa por causa do trabalho dele em São Paulo. Da ultima vez que ele viajou, faz oito meses. E em oito meses aconteceram muitas coisas. Tipo uma viagem pro Hopi Hari que minha escola fez, e eu e Sam fomos obrigados a ir (digo obrigados porque nenhum de nós curtimos muito passeios escolares... mas fazer o que.); meu término com a Melanie; e agora, meu namoro com o Sam. É. Muita coisa. - Fico feliz de ver você. Sua mãe, e o Sam, é claro! - ele disse e saiu de meus braços. Foi abraçar o Sam, que só falou "oi". - Sua mãe disse que teríamos que conversar. - ele disse ficando um pouco mais sério.
Sentamos no sofá. Meu pai no sofá pequeno (de dois lugares, que ficava perto da porta de entrada), eu e Sam no outro (que ficava no meio da sala perto da parede) e minha mãe estava na cozinha. Ela ouviria tudo, e casa meu pai explodisse, ela viria correndo.
– Podem começar. - eu pai falou olhando para nós. Ele estava menos nervoso, o que facilitaria um pouco as coisas.
– O.k. - eu disse meio nervoso. Eu estava suando demais. - Pai... - ele olhou pra mim e assentiu pra eu continuasse. - Tenho uma coisa pra te contar. - respirei fundo. - Mas tenho medo de você brigar comigo.
– Não importa o que você for falar. Eu vou entender. - ele sorriu fraco. - É uma nova namorada? - ele riu um pouco e eu dei um sorriso fraco.
– Não. - ele ficou sério. - Mãe! - chamei-a. Ela entrou na sala e se sentou do lado do meu pai. - Tá. A mamãe já sabe. E ela me entendeu. E disse que se eu estiver feliz, ela vai estar também.
Ele olhou para ela e olhou pra mim em seguida.
– Você é gay? - ele olhou sério e eu fiquei sério também. Imaginei-o vindo pra cima de mim e me batendo. Mas ao invés disso só perguntou de novo. - Você é gay, Logan? É isso?
– Ahn... Mais ou menos. - dei de ombros.
– Ser "mais ou menos" gay não existe. - ele falou olhando fixamente pra mim. - Ou você é, ou você não é. A não ser que...
– É. - o interrompi. - Eu sou bissexual.
Eu esperava que ele fosse me xingar, ou se estressar e falar um monte. Mas ao invés disso ele deu um sorriso malicioso.
– É o Sam? - ele perguntou e eu assenti - Vocês estão juntos? - e eu assenti novamente. A mamãe voltou pra cozinha já que meu pai não teve reação exagerada nenhuma. - Vamos lá pra cima. Só eu e você. - ele olhou para o Sam que se levantou e foi pra cozinha.
Eu e meu pai subimos e entramos no quarto dele e da mamãe. Ele fechou a porta.
– Logan... - ele começou - estou orgulhoso de você.
Franzi o cenho. Orgulhoso?
– Orgulhoso? - repeti a pergunta que tinha feito mentalmente.
– É. Você falou pra sua mãe e pra mim, sem medo nenhum. Apesar de eu achar que ela tenha pedido pra você falar pra mim.
– Foi. - sorri - Mas eu ia ter falar de qualquer jeito. Porque ela descobriu sozinha, e eu tenho certeza que ela ia falar pra você. - olhei pro chão. - E eu achei que você fosse me xingar. - confessei.
Ele olhou pra mim e sorriu.
– Eu achei estranho o fato do meu único filho ser bissexual, mas a vida é sua. Você sabe o que faz.
– Obrigado. - respondi sincero. Eu era extremamente grato pelos meus pais não serem preconceituosos. Mesmo.
– Mas tem uma coisa que eu quero te perguntar. - assenti - Vocês já... - ele olhou pra mim com uma cara engraçada e eu ri - Você sabe...
Acho que ele não ia conseguir terminar, então eu assenti de leve.
Ele me olhou assustado, mas logo começou a rir comigo.
– Uau. - foi o que ele conseguiu dizer.
– Foi hoje. - confessei. Afinal ele era meu pai, e merecia saber.
– Hm. - ele disse. - Foi bom? - ele perguntou.
– Paaaai! - O repreendi.
– Só perguntei. - ele disse dando uma risada em seguida.
– Foi. - eu disse baixinho, mas ele escutou.
Ele se levantou da cama e me puxou junto. E me deu um abraço.
– Eu te amo, pai. - eu disse abraçado com ele.
– Também te amo moleque. - nos soltamos e ele bagunçou meu cabelo.
Descemos e fomos jantar. Quando chegamos lá vimos Eduard e Alice Foster, os pais do Sam.
Mamãe disse que havia contado a ela sobre mim e Sam e eles reagiram tão normal como os meus pais.
E eu me sentia bem. Eu estava com o Sam, estávamos todos felizes (isso inclui os meus pais e os de Sam) e nada seria capaz de estragar isso. Nada.
As duas semanas seguintes passaram voando. Não que eu me importasse. Na verdade eu estava mais aliviado porque o ano iria acabar. Isso significa Natal e férias.
Naquele dia que Sam havia me contado que era gay, me beijado e me contado que estava apaixonado por mim, não acabou da maneira que eu achei que fosse acabar.
Depois que ele disse que estava apaixonado por mim, a única coisa que eu pude fazer foi ficar em silencio. Porque veja bem, é super estranho você saber do nada que o cara que sempre foi o seu melhor amigo lhe contar que está apaixonado por você. Isso é loucura.
E isso aconteceu comigo. Eu fiquei em silencio e pensei que ele nunca mais falaria comigo. E a situação foi mais ou menos assim:
“- Me desculpe. Eu deveria ter falado isso antes ou...
– Não, tudo bem. - eu o interrompi. E não, na verdade não estava tudo bem. Mas eu estava me sentindo estranho com essa situação.
Eu não imaginava que o meu melhor amigo era gay. Muito menos que ele estava apaixonado por mim. E que ele fosse me beijar.
O pior - ou talvez melhor, não sei - dele ter me beijado, foi o fato de que eu não impedi. E mais, eu o beijei também.
Eu estava me sentindo um et. Porque eu jamais pensei que isso fosse acontecer comigo, e ainda por cima, gostar dessa situação.
Depois que ele pediu desculpas, eu disse para ele esquecer e prometi a mim mesmo que isso não iria se repetir.
E eu fora dormir pensando nisso.”
No dia seguinte ele não trocou uma palavra comigo. Nem na escola, nem em casa. E isso realmente me magoou.
Já na outra semana, os pais dele chegaram de viagem, e ai que nos falamos menos ainda.
Nesse tempo sem nos falar, eu havia percebido o quanto esse filho-da-mae é importante pra mim e o quanto ouvir sua voz me fazia falta. Seu sorriso quando me via, as conversas que tínhamos na escola na hora do intervalo, que por mais que fossem as mesmas, me faziam bem. Sem contar quando eu estava mal e vice-versa, um ajudou o outro.
Eu amo esse idiota. E dessas semanas pra cá, eu percebi que não era um amor que um melhor amigo tem pelo outro. Era um amor de verdade. Eu também estou apaixonado por ele.
Hoje é o ultimo dia de aula. Começo de dezembro e, graças a Deus, inicio das férias.
Fiz o que tinha que fazer em casa e fui pra escola.
Não tinha quase ninguém lá, a não ser os que estavam de recuperação, ou os que queriam saber as notas. E eu me encaixava no segundo grupo.
A sorte foi a que eu passei com notas boas e o Sam também.
Mandei um sms mesmo sabendo que talvez ele não fosse responder.
“Cara, tu pode ir comigo hoje? Preciso falar contigo.”
Depois daquele dia o Sam ia embora sozinho e eu tambem. Mesmo que fizessemos o mesmo caminho, ele sempre dava um jeito de chegar depois. Parando em lojas mesmo que não fosse levar nada ou saindo mais tarde da escola.
E eu precisava falar com ele. Que iria se declarar hoje, era eu.
Minutos depois recebi sua resposta.
“Posso. Mas não me faça ir na tua casa a toa.”
Eu ri desse final, mesmo porque éramos vizinhos, então não seria ‘a toa’ porque ele poderia estar de volta a casa dele em segundos.
Como poucos alunos estavam na escola, eles nos dispensaram mais cedo. Sorte, ou não.
Fomos caminhando ate em casa e no meio do caminho ele resolveu falar comigo depois de duas semanas:
– O que é tão importante assim? - ele disse olhando para mim.
– Você vai saber quando chegarmos em casa. - foi tudo o que disse.
– O.k. - ele respondeu.
Quando chegamos, ele parou em frente a casa dele e fez um gesto com as maos para eu espera-lo.
– Vou ficar na casa do Logan hoje, depois eu volto. - ele gritou para sua mae
– Ta bom, e juízo! - ela gritou de volta e eu dei uma risada fraca.
Entramos em casa e minha mãe ficou surpresa como sempre ao ver o Sam,mas dessa vez ela tinha motivos.
– Sam! A quanto tempo, querido. - ela disse e foi abraça-lo.
– Pois é. - ele respondeu.
Nós almoçamos e subimos para o meu quarto. Deixamos as coisas na cama e me sentei no chão. Mesmo Sam não entendendo o que estava acontecendo, ele se sentou na minha frente.
– Sam. – ele olhou pra mim na mesma hora.
– O que foi? – ele perguntou com uma voz manhosa e eu sorri.
– Vem aqui. – eu puxei-o e o abracei. Ele me abraçou de volta.
– O que foi? – ele repetiu.
– Não fala nada. – me soltei de seus braços e olhei em seus olhos. Antes que eu pudesse continuar o que eu estava falando, eu me aproximei e beijei seus lábios. Ele não me impediu e muito menos se afastou. Ele chegou o mais perto que pode, e continuamos a nos beijar. Até que eu resolvi parar porque não tinha terminado de falar.
– Me deixa falar, por favor. – eu disse e ele concordou.
– Precisa? – ele riu
– É. Mas eu acho que você já entendeu. – eu disse sem graça e olhei para o chão.
– Não sei se entendi. – ele riu novamente. – Me explica.
– Isso nunca aconteceu comigo. Mas acho que agora eu entendi porque eu quase tive um ataque quando você começou a namorar a Sarah, e eu não sabia o que fazer quando você ficou triste porque ela te traiu. E também quando eu comecei a namorar a Melanie. Eu senti que estava te magoando, mas achei que fosse besteira, e... Bem, também estou apaixonado por você. – só sei que depois que eu terminei de falar isso, Sam se jogou nos meus braços com um sorriso enorme no rosto.
Ele me abraçou; deu-me um beijo na bochecha e disse:
No dia seguinte, decidi não ir à escola. Mesmo que eu fosse perder a prova de Inglês, eu preferi descansar mais. Primeiro que minhas notas em inglês não são tão ruins, e segundo que eu realmente precisava descansar um pouco. Não digo dormir, mas descansar da Melanie.
Eu não conseguira acreditar ate agora que ela me traiu. Ainda mais com a Sarah, que é a ex-namorada do Sam. Era inacreditável que ela tinha feito isso comigo. E o que eu mais quero agora é esquecer.
Levantei da cama e fui em direção ao banheiro lavar o rosto. Coloquei um moletom que estava em cima do criado e vesti. Desci as escadas e encontrei minha mãe indo pra cozinha. Ela sorriu assim que me viu.
– Está melhor, amor? - ela perguntou e eu fiz que sim.
– Não quero ir pra escola hoje, tem problema?
– Claro que não! Se quiser eu ligo pra escola e aviso que você não vai.
– Obrigada mãe, mas acho que não vai ser necessário.
Ela sorriu e me deu um abraço. Tomei o café em dez minutos e subi para o quarto novamente.
Não havia percebido que o Sam ainda estava dormindo. Provavelmente não iria para a escola também.
Fui em direção a sua cama e o balancei de leve. Mesmo todo cuidado que eu tive para não assusta-lo não adiantou muito. Ele meio que deu um pulo na cama.
– Ai, que susto. Logan, o que aconteceu? - ele perguntou com dificuldade de abrir os olhos.
– Você vai chegar atrasado. - na mesma hora ele pulou da cama desesperado e foi correndo pro banheiro. Depois que ele saiu de lá ele foi procurar o celular.
– Cara! São 8 horas! Nem de ônibus eu chego na hora. - ele disse desapontado. Eu ri um pouco.
– Eu nem to preocupado com isso. - eu disse me sentando na cama. - Porque eu nem vou hoje.
Ele fez uma expressão de susto que logo foi substituída por um sorriso fraco.
– Ainda ta mal por causa de ontem não é? - ele perguntou como se fosse uma coisa obvia e se sentou ao meu lado.
– Só um pouco. - respondi. - Ela foi importante pra mim. E era alguém legal. Ai de repente ela tem um segredo e puft - fiz um gesto exagerado com as mãos - a gente termina.
Ele me olhou com uma expressão curiosa e perguntou:
– Então foi por causa desse segredo que vocês terminaram? - assenti. - Bom, e que segredo era esse?
Olhei para o chão imaginando a sua reação quando eu disse o que era. Ele provavelmente ficaria estranho porque iria se lembrar dela. Mas mesmo assim... Eu preciso falar isso com alguém. E esse alguém tem que ser o meu melhor amigo.
– Ela me traiu. - ele olhou assustado, mas pediu que eu continuasse.
– E ela disse quem foi?
– Foi a Sarah.
E o quarto ficou em silencio durante alguns minutos.
– A Sarah? - ele falou depois de um tempo - A minha Sarah? - assenti - Quero dizer, a Sarah que foi minha namorada e que me traiu também?
– É Sam, a Sarah que foi sua namorada e que te traiu. Ela mesma. - respondi
– Uau. - foi a única coisa que ele disse. E depois seu rosto se transformou em uma expressão inexplicável.
– Pois é.
– É. - ele deu uma longa pausa, mas continuou - É estranho isso. - ele disse e olhou pra mim
– O que? Ela ter me traído com a Sarah?
– Também. - ele disse - Mas é estranho que ela tenha feito isso com uma garota.
Dei uma risada fraca.
– É. Isso prova que a gente não conhece tão bem as pessoas como achamos que conhecemos. - assim que eu disse isso percebi que ele ficou abalado e com a expressão um pouco seria.
– O que foi? - perguntei e ele nada disse. Apenas foi em direção à porta e a fechou.
Ele se sentou ao meu lado de novo, mas ficou encarando o lençol.
– Sam? O que foi? - insisti.
– Tenho uma coisa pra te contar.
Minha expressão ficou pensativa e curiosa depois disso. O que será que ele queria falar?
~
– Sam? O que foi? - ele insistiu
– Tenho uma coisa pra te contar.
Agora era a hora que eu sentia que meu coração ia sair pela boca. Eu iria contar tudo pra ele. Exatamente tudo. Inclusive o quão estranho foi beijar a Sarah pela primeira vez. E mais algumas coisas. E algumas delas recentes.
Vi sua expressão ficar curiosa e pensativa. E agora eu teria mesmo que falar. Por isso fechei a porta.
– Pode falar. - ele disse com um pouco de medo.
Ajeitei-me na cama de uma maneira que eu pudesse vê-lo sem ficar com dor no pescoço e também para que eu pudesse tombar para trás e deitar se ficasse com vergonha.
– O.k. - respirei fundo antes de começar. - Lembra-se de quando eu tive aquela queda pela Sarah? - ele assentiu - E depois eu a pedi em namoro e ela aceitou? - ele assentiu novamente - Naquele dia que eu tive um encontro oficial com ela, nós nos beijamos pela primeira vez. E bom, foi o meu primeiro beijo. - ele pediu que eu continuasse - Só que não foi tão bom quanto eu achei que seria. - parei de falar. Era agora que viria a parte que ele não sabia.
– Continue. - ele me disse e eu continuei falando.
– Isso por que... Bem... - parei. Acho que eu não conseguiria falar.
– Por quê? Pode falar, eu sou seu melhor amigo. E você é o meu também. Porque não foi tão bom? - ele perguntou.
– Porque eu esperava que o meu primeiro beijo fosse com um garoto. - eu disse baixinho, mas eu acho que ele ouviu porque em seguida perguntou:
– O que?
Mas eu não disse nada. Eu apenas fiz. Aproximei-me de Logan esperando que ele se afastasse, mas ao invés disso continuou imóvel. Aproximei-me meu rosto do seu e pude sentir sua respiração. Novamente esperei que ele me empurrasse, mas ele apenas fechou os olhos. E eu o beijei.
Não fora um beijo tão longo, mas eu coloquei a minha mão direita em seu rosto enquanto o beijava. Ele não se afastou, mas eu fiz antes que eu esquecesse o que eu tinha que falar pra ele.
Sentei-me de volta onde eu estava e Logan olhava para mim ainda estático.
– Me desculpa. - foi o que eu consegui dizer.
Ele olhou nos meus olhos, e quando eu pensei que ele fosse me matar ou coisa do tipo, ele se aproximou e nos beijamos novamente.
Dessa vez eu deitei na cama e ele ficou por cima de mim. Só paramos o beijo por causa da maldita respiração que faltou.
Ele voltou ao lugar onde estava e eu ao meu. E ficamos em silencio durante um bom tempo.
...
– Então você é gay? - ele perguntou pela milésima vez umas duas horas depois. Eu havia explicado tudo para ele. Dessa vez, sem beijos.
Eu ri e concordei com a cabeça.
– Uau. - ele disse.
– Vai me ignorar agora? - ri de novo.
– Claro que não. Você é o meu melhor amigo, eu nunca faria isso.
– É. Mas tem mais uma coisa. - eu disse. Porque tinha mesmo.
Assim que sai da sala, a Melanie veio correndo se jogar nos meus braços. A única coisa que eu podia fazer era abraça-la de volta, e foi o que eu fiz. Enquanto fazia, vi Sam olhando para mim, na verdade me esperando para irmos embora juntos.
– Melanie, tenho que ir. - eu disse esperando que ela me largasse, mas não o fez. - É serio.
Ela fez uma cara desapontada e eu olhei para o Sam de novo. Ele estava escrevendo um sms, que recebi instantes depois:
“Relaxa Logan, vou sozinho mesmo.”
Quase estrangulei Melanie por fazê-lo esperar. Observei Sam virar a esquina e olhei para Melanie novamente.
– Você não fez isso de propósito, né? - perguntei mesmo sabendo a resposta.
– Você quase não passa tempo comigo. Vamos fazer algo diferente hoje. - ela disse confiante e eu a olhei desapontado.
– Vamos? - perguntei um pouco furioso. Porque eu estava. Não aceitava ate agora que por culpa da Melanie, Sam foi pra casa sozinho. Mesmo sendo quase uma hora da tarde, mamãe e os pais dele, nunca deixaram que um de nós fossemos pra casa sozinhos.
– Claro! - ela disse ainda animada e fez uma carinha fofa - Vem. - ela puxou minha mão e me levou para um carro que eu acho que era de um de seus pais. Entramos no carro e ela começou a dirigir. Peguei o celular para mandar um sms em resposta, mas ela pegou o celular da minha mão e jogou no porta-luvas.
– Ei! - disse em forma de protesto. - Tenho que avisar minha mãe!
– Você não vai precisar disso, amor. - ela disse com a voz doce. Eu já estava ficando enjoado.
– Hum. - foi a ultima coisa que eu disse.
Ela continuou dirigindo e parou em frente a uma casa que eu lembrava ser dela. Ela abriu a porta e me puxou pra dentro. Mal entramos e ela começou a me beijar. Ficamos assim durante um tempo ate que ela me jogou no sofá. Eu sabia o que ela queria, mas EU não queria o mesmo.
Ela tentou tirar a minha camisa, mas eu me levantei rapidamente recebendo uma expressão desapontada da Melanie.
– Que foi? A gente nunca faz nada Logan! – ela estava revoltada. Ela se aproximou de mim e me jogou na parede. Eu tentava empurra-la mas era em vão.
– Para – não adiantava, qualquer coisa que eu fazia só piorava – PARA, MELANIE! – consegui me afastar dela.
Sentei-me no sofá e graças a Deus ela continuou perto da parede. Ela ficou me encarando durante uns dez minutos até que falou:
– Não te contei o meu segredo ainda.
Desviei o olhar do chão e olhei pra ela. Ela estava com uma cara estranha, como se aquilo realmente fosse importante.
– Pode falar. – eu disse, mesmo porque eu estava curioso.
Ele foi se aproximando e eu recuei.
– Relaxa, não vou fazer nada.
Ela se sentou ao meu lado e olhou nos meus olhos.
– Logan, eu... – ela deu uma pausa e meu coração quase saiu pela boca. – te trai.
A única coisa que eu fiz foi olhar para o chão e pensar no quão sem reação eu estou.
– Ahn? – foi o que eu consegui dizer
– Eu te trai, Logan. – ela repetiu sem vergonha ou medo algum que eu a matasse.
– Ta. Como. Você. Teve. Coragem. De. Fazer. Isso. Comigo? – perguntei pausadamente.
– Logan eu... – ela tentava falar enquanto chorava – Me desculpa... Eu...
– Mel, eu confiei em você.
– Eu sei. - depois disso ela ficou quieta.
Meu coração batia forte e eu não sabia o que fazer. A única coisa que eu queria saber era com quem ela havia me traído.
– Só me responde... – falei um pouco nervoso – Quem foi?
– O nome dela é Sarah.
– Sarah? - não poderia ser quem eu pensava que era.
– E se você pensou que é a ex-namorada do Sam, acertou.
Levantei-me do sofá e sai correndo dali, eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.
Lembrei-me que minha mochila estava no carro dela e voltei para pedir a chave. Ela abriu o carro e pareceu que queria me tirar dali.
– Entra, eu te levo. - ela disse como se nada tivesse acontecido.
– Não. Eu vou a pé mesmo. - eu não queria a companhia dela pra nada, não depois do que aconteceu.
– Mas é muito longe e...
– Não importa. E...
– Já sei. - ela me interrompeu - Terminamos aqui.
– Exatamente. - disse e fui embora pra casa.
A sorte era que eu sabia o caminho, pois eu sabia que ia demorar um pouco pra chegar em casa.
...
Calculei mais ou menos duas horas do caminho da casa da Melanie ate a minha. Eu estava acabado. Minha namorada, agora ex, não me deixou ir pra casa com o Sam e me obrigou a ir a casa dela, pegou meu celular, me traiu, e também não me deixou comer nada. Fora que cansa andar duas horas a pé e sem parar.
Peguei a chave na mochila e abri o portão silenciosamente. Quando abri a porta me deparei com minha mãe chorando e um Sam desesperado que não largava o celular. Minha mãe foi a primeira a falar. Ou melhor, gritar.
– LOGAN! MEU FILHO, O QUE ACONTECEU? - ela disse desesperada e veio correndo me abraçar. Eu a abracei de volta e comecei a chorar no seu ombro. Ela chorou junto.
– Eu to bem, mãe. To bem. - eu disse mesmo sendo mentira, mas não queria deixa-la preocupada.
– Fiquei preocupado também. - quem falou dessa vez foi o Sammy, que em seguida veio me abraçar também.
Sentei-me no sofá e Sam e mamãe fizeram o mesmo. Eu apenas encarei o chão, que agora me pareceu interessante.
– O que aconteceu, Logan? Ficamos mandando mensagem o dia todo e nada de você responder. - minha mãe disse no mesmo tom de preocupação.
– Eu só... - enxuguei as lagrimas e tentei continuar - A Melanie pegou meu celular e... - Sam me abraçou - Ela terminou comigo. - olhei pra ele. Ele me entenderia. E me abraçou de novo.
– Vai ficar tudo bem. - ele disse tentando me tranquilizar. - Tenho certeza.
E minha mãe veio nos dar um abraço.
Levantei-me sem falar nada e fui direto para o quarto. A única coisa que eu queria fazer nesse momento era dormir. E muito.
Entrei no meu quarto e joguei a mochila no chão. Deitei-me de qualquer jeito e esperei que o sono viesse para que as lágrimas fossem embora.
Um tempo depois (acho que foram minutos), senti alguém me cobrindo melhor, era o Sam. Esperei que ele viesse para mais perto e o puxei para um abraço.
– Obrigado por estar sempre comigo. Sinceramente, eu não sei o que seria de mim sem você. - eu disse pra ele. E era verdade.
– Você é o meu melhor amigo. Sempre vou estar perto pra te ajudar, ou cuidar de você quando precisar. Amigos servem pra isso. - percebi que ele estava chorando também.
– Fica aqui enquanto eu não durmo? - eu pedi e ele assentiu.
Virei-me para o canto e finalmente consegui dormir.
...
Acordei por causa do sonho estranho que eu tive. Nele o Sam queria falar alguma coisa importante mas ele nunca conseguia porque alguém sempre atrapalhava.
Levantei-me ainda com sono e tomei um banho. Nem desci pra comer alguma coisa porque eu ate tinha esquecido que estava com fome. Apenas deitei-me e dormi novamente.
Assim que eu cheguei em casa sozinho, a Sra. Louise me encheu de perguntas. Tipo: “Cadê o Logan?” “Ué, você veio sozinho?” “É muito perigoso!” “Ele te deixou vir sozinho?”. E mais um monte. A única coisa que eu respondi foi:
– Ele ficou conversando com a Melanie na saída e eu decidi vir sozinho.
E ela continuou falando da falta de responsabilidade do filho e bla bla bla.
Eu perguntei se podia subir e ela nem precisou responder. Subi as escadas, entrei no quarto, deixei a mochila na cama e sentei no chão. E desabei. Eu comecei a chorar descontroladamente. Não me pergunte porque, porque nem eu sei direito. Talvez porque eu me senti sozinho porque o Logan não me acompanhou até em casa, ou pode ser o fato de que eu estou muito estranho ultimamente. Sei lá, qualquer coisa já me faz-me sentir vazio, como se ninguém se importasse comigo de verdade. E mesmo eu sabendo que eu tinha Logan, seus pais, e os meus pais, ainda assim eu me sentia vazio. Como se faltasse alguma coisa.
Eu sempre acho que está faltando alguma coisa. Na verdade, faltando alguém. Mas eu não me sentia seguro o suficiente para falar isso para alguém. Nem para a minha mãe. Ninguém mesmo. Porque a única pessoa que eu me sentia cem por cento seguro para falar alguma coisa, era o Logan. E agora ele estava com a Melanie. Fazendo sei lá o que.
Passei a tarde toda escrevendo num caderno que eu sempre levava pra escola. Mas não era um caderno onde eu escrevia as matérias que os professores passavam, nem nada do tipo. Era como se fosse um diário. Mas não era um diário. Era um caderno onde eu escrevia os meus sentimentos, ou o que se passava na minha cabeça, mas não como se fosse Samuel Foster. Era como se eu fosse outra pessoa. Uma identidade secreta.
Eu inventara uma história. Ele era um super herói, mas que enquanto não salvava o mundo, estava na escola e falava sobre os seus sentimentos em relação a si mesmo, as pessoas a sua volta, e ao seu namorado.
Claro que ele tinha que ser parecido comigo, apenas tirando o fato de que eu não tenho ninguém para ter um relacionamento decente. Eu posso até ter, mas acho que não a encontrei ainda. Ou nunca percebi se ela esteve o tempo todo perto de mim.
Eu já tinha almoçado, tomado café da tarde, escrito umas vinte páginas no caderno, e nada do Logan chegar. Como melhor amigo dele, ou como ele é o meu melhor amigo, eu estava preocupado. Ele nunca ficara tanto tempo fora de casa, e isso era muito estranho.
A dona Louise tinha mandado mais de dez mensagens para o filho e nada dele responder. Eu havia feito o mesmo, até que resolvi ligar.
Chamou, chamou, chamou e ninguém atendeu.
E foi quando a mãe dele estava ligando pra policia que ele resolveu aparecer em casa. Ele estava acabado.
– LOGAN! MEU FILHO, O QUE ACONTECEU? – a mãe dele estava desesperada e correu para os braços dele assim que ele passou da porta. Ele apenas a abraçou e começou a chorar muito, ela o acompanhou.
– Eu to bem mãe, to bem. – ele dizia tentando acalma-la. Mesmo que esse “eu to bem” parecesse uma baita mentira.
– Fiquei preocupado também. – disse eu pela primeira vez e fui abraça-lo.
Ele se sentou no sofá e ficou encarando o chão.
– O que aconteceu Logan? Ficamos mandando mensagem o dia inteiro e nada de você responder. – ela disse preocupada
– Eu só... – ele limpou as lagrimas e continuou – a Melanie pegou meu celular. E... – ele voltou a chorar e eu já não sabia mais o que fazer. Fui até ele sentei do seu lado e o abracei. – Ela terminou comigo. – ele disse e olhou pra mim. Eu sabia que ele tinha feito isso porque eu sabia a dor que ele sentiria. O Logan não era apaixonado por ela, ele só tinha um afeto muito grande. Mas mesmo assim, deveria ter sido horrível o momento que isso aconteceu. Eu o abracei de novo.
– Vai ficar tudo bem. – eu disse com o rosto enterrado no seu pescoço. – Tenho certeza. – mesmo não tendo tanta certeza assim.
Sua mãe veio até nós e compartilhamos um abraço em conjunto. Acho que era o que o Logan mais estava precisando nesse momento. E descansar também. Nem precisei dizer isso e ele se levantou e foi em direção ao quarto. Sua mãe o esperou subir e me disse:
– Cuida dele pra mim.
Eu concordei e dei-a um breve abraço. E subi para o quarto.
Logan já havia deitado na cama de qualquer jeito com a mochila jogada no meio do quarto. Ri dessa situação e o ajudei colocando a mochila no lugar e o ajeitando melhor na cama. Ele se virou para o lado da minha cama e me puxou para um abraço apertado. Não disse nada e o abracei de volta.
– Obrigado por estar sempre comigo. Sinceramente, eu não sei o que seria de mim sem você. – ele disse já chorando novamente.
– Você é o meu melhor amigo. Sempre vou estar perto pra te ajudar, ou cuidar de você quando precisar. Amigos servem pra isso. – eu disse já chorando também. Porque me doía muito ver o Logan assim. Doía mesmo.
Ele se deitou novamente e perguntou se eu poderia ficar sentado ali na cama dele até ele conseguir dormir. E é claro que eu fiquei.
Não demorou nem dez minutos e ele já tinha pegado no sono. Coloquei uma coberta sobre ele, apaguei a luz e me deitei. Mesmo sendo sete horas da noite, eu não iria ficar sem fazer qualquer outra coisa que não fosse cuidar do meu melhor amigo que estava mal porque sua namorada havia terminado com ele.
Duas horas depois, Logan acordou ainda sonolento, e foi tomar um banho. Depois que ele saiu, ele se deitou na cama para dormir de novo. Eu até iria perguntar se ele queria alguma coisa, mas achei melhor não perguntar nada. Ele devia querer ficar deitado pelo resto da vida, como eu quis quando eu e a Sarah terminamos. Vi que ele dormiu rápido novamente e eu decidi escrever. Peguei o caderno coloquei sobre os joelhos (que estavam levantados, e meus pés apoiados na cama) e com uma mão segurava o celular – para iluminar – e com a outra escrevia tudo o que eu estava sentindo. Dessa vez, meu personagem se lembrava de como foi difícil quando terminou com a sua primeira namorada. E eu me lembrava disso também. Foi horrível saber que a garota (que na época eu gostava) nem dava a mínima para mim. Talvez não fosse o caso do Logan, ou talvez eles terminassem por causa do segredo que ela tinha que contar.
Por falar nisso, eu só vou saber desse segredo amanhã. E se ele quiser me falar.
Depois que arrumamos a mochila, descemos pra tomar o café. E isso tudo aconteceu em exatos 8 minutos. E claro, nós não chegaríamos atrasados.
Saímos de casa tranquilamente, e caminhamos até a escola. A única parte que não me agradava era a prova de geografia que teríamos hoje. E que mesmo que tenhamos estudado o dia inteiro, eu sempre me sentia inseguro antes de uma prova. Qualquer matéria que fosse.
E bom, se você está pensando que é Logan que está narrando, está completamente errado.
De qualquer forma, eu sou o Samuel. Ou Sam. Ou Sammy, de acordo com o Logan. Então dispenso qualquer outro tipo de apresentação.
Eu só sou o cara estranho que veio da Irlanda pra morar no Rio de Janeiro, e que é gay. Ninguém falou isso pra você? Pois é. Porque ninguém sabe. Nem o meu melhor amigo. Eu só não contei pra ele porque ainda não tive oportunidade. E também eu tenho medo da reação que ele pode ter ao descobrir isso. Talvez eu seja bi, pelo fato de que eu já tive uma namorada. Que brincou comigo e me fez me sentir um lixo durante algumas semanas. E cara, eu só tinha treze anos! Tudo bem que o Logan me disse que não ia dar certo porque ela é três anos mais velha que eu, mas eu estava completamente atraído por ela. E agora não sei mais o que eu sou. Talvez eu seja bi, talvez eu seja gay (como sempre acreditei que eu fosse) e talvez sei lá.
De qualquer forma, tínhamos acabado de entrar na escola, e como já foi dito antes, foi a primeira vez que Logan não chegara atrasado. Já estava até vendo os professores olharem torto quando entrássemos pois eles adoravam brigar com ele. Alias, acho que qualquer professor adora brigar com aluno atrasado e manda-lo para a Direção, sem exceção.
Entramos na sala e não deu outra, o professor Max perguntou o que havia acontecido para Logan chegar tão cedo, e deu para perceber o tom irônico dele. Logan apenas ignorou e sentamos-nos mesmos lugares de sempre.
Ficamos conversando enquanto a aula não começava até ouvir Max dar o maior berro porque estávamos falando muito alto. A sala toda ficou em silencio.
Ele foi entregando uns trabalhos antigos que fizemos sobre Romeu e Julieta, de Shakespeare.
– Samuel Foster. – ele falou e eu me levantei para pegar o trabalho. Ele tagarelou umas coisas sobre o que eu fiz e disse que a nota foi a que eu mereci. Nessa hora eu pensei que estava ferrado até ver que eu tinha tirado um A-, uau. Eu sempre tirava um C+, porque eu era péssimo em Língua Portuguesa. Mas não vou discutir.
Voltei para o meu lugar. Depois ele entregou o trabalho do Logan, que tirou a mesma nota que eu. Provavelmente porque o Max sabe que sempre fazemos os trabalhos juntos. Mas isso não é um problema.
Ele continuou tagarelando até bater o sinal. A próxima aula seria geografia. A prova, legal. Ainda bem que eu e Logan estudamos porque se não eu já estava vendo que eu ia repetir de ano, já que eu só tiro B em geografia; e se eu não passar de ano, adeus viagem pra Irlanda nas férias.
Mas é claro que ela ia aparecer né. Melanie Fox. A garota mais irritante da escola. Sinceramente o Logan deve gostar muito dela pra suporta-la desse jeito. Ainda mais depois que ela desligou o telefone na cara dele ontem à noite. Eu desconfiava que alguma coisa ruim estava acontecendo, ou estava prestes a acontecer. Mas eu não ia falar nada porque o Logan sabe se cuidar. E ele não ia ser idiota como eu fui.
Ela agarrou ele no meio do corredor! Isso é tão, argh, irritante. Se um carro passasse por cima dela enquanto ela atravessava a rua, eu não me importaria, sinceramente. Mas eu sabia que isso ia machucar o Logan então...
Ignorei os dois se agarrando e entrei na sala. Não queria que a professora Jessie se irritasse comigo porque fiquei esperando meu amigo se agarrando com a namorada no meio do corredor. Ainda bem que Logan entendeu o recado e se soltou de Melaine e entrou na sala comigo.
Tivemos que fazer a prova em trinta minutos porque a Jessie não parava de falar. Ela não era velha nem nada disso. De longe, Jessie aparentava ter no máximo 25 anos, porque até parecia uma aluna do ultimo ano. Mas ela adorava tagarelar sobre sua família e de como preparava a prova para os alunos. Pura enrolação.
E graças à Deus, o sinal para o primeiro intervalo bateu. Até hoje não sei por que uso a expressão “graças a Deus” porque eu não vou à igreja. Não tenho uma religião, mas usar essa frase já é uma mania, então...
E mais uma vez eu fiquei sozinho na hora do lanche. Era sempre assim. A mala da Melanie obrigava o Loggie a ficar com ela no primeiro intervalo, e no segundo ele ficava comigo. E sempre fazíamos as mesmas coisas. Ele e Melanie ficaram conversando, e quase toda hora selavam os lábios. E eu ficava ouvindo musica e olhando para o vácuo. No segundo intervalo conversávamos sobre as mesmas coisas. Já era rotina.
E como eu falei o segundo intervalo não foi diferente. Exceto que ele quis falar sobre Melanie. Nós nunca falávamos sobre isso, mas dessa vez foi diferente.
– Ela tem um segredo. – ele me disse um pouco receoso. Nem me espantei porque sempre achei que Melanie fosse estranha. Fiquei curioso, na verdade.
– Você imagina o que seja? – perguntei
– Não. Só tenho medo de me decepcionar. Sei lá. Eu gosto dela. Melanie é uma boa pessoa. Por isso que não quero que seja algo que me magoe, porque eu nunca a magoei.
Assenti. É. Logan nunca havia feito nada para machuca-la. Eles estão juntos a um ano, mas me parecem apenas alguns meses. Dois ou três no máximo. Acho que penso assim pelo fato deles nunca se desgrudarem.
– Entendo. – apenas disse isso.
E assim como as outras aulas, as duas últimas estavam passando voando. E só porque era aula de artes, a minha preferida. O senhor Jones era muito bom. Não era um daqueles professores de Artes que só dão essa aula porque era o curso mais barato da faculdade ou o menos procurado. Ele tinha talento mesmo. Ele fazia desenhos que me impressionavam. E até algumas plantas de monumentos super famosos. Eu era apaixonado por arquitetura, e era exatamente essa a profissão que eu ia seguir.
Dessa vez, ele pediu pra fazermos um desenho qualquer. Desenhei um pássaro de um dos meus jogos preferidos e ele me deu A+.
Logan desenhou alguns olhos, que eram, digamos, a sua especialidade.
Depois da aula magnífica de artes, saímos da sala e fomos pro portão. Pro meu azar, a chata da Melanie encontrou Logan antes que ele saísse, e entendi que eu iria sozinho pra casa dessa vez. Antes que ele dissesse pra ele que teria que ir para casa, mandei um sms:
“Relaxa Logan, vou indo sozinho mesmo. Te vejo em casa.”
Eu nem esperei uma resposta porque ela não o deixaria responder. Não que eu me importasse. O que era verdade.
Fomos direto para a minha casa. Como é ao lado da do Sam, não teria problema nenhum ele ficar um pouco lá. Afinal ele sempre fica quando os pais dele estão viajando pelo país, como é o caso. Passei pela porta e logo vi minha mãe passando roupa. Ela olhou pra cima assim que ouviu o barulho da porta se fechando e veio me dar uma abraço.
– Filho, que bom que vocês chegaram! – ela disso sorrindo – E você Sam, como é que vai? – ela deu um abraço nele.
– Tô bem. – ele respondeu. Apesar de a minha mãe vê-lo todo dia, ela sempre ficava entusiasmada quando o via. Vai entender a dona Louise.
– Podem ir para o quarto, que daqui a pouco chamo vocês pra almoçar, tá?
Apenas assentimos. Subimos as escadas e fomos direto pro meu quarto, que ficava na segunda porta do lado direito. Nem precisei “pode entrar, fica a vontade” por que o Sam já estava acostumado a vir aqui em casa. Colocamos as mochilas na minha cama e eu sentei numa cadeira em frente ao meu computador, e liguei-o. Sam se sentou ao meu lado, e ficou apenas olhando.
Ele tinha um pouco de receio de mexer em redes sociais porque elas expunham a vida de muita gente. De certa forma ele tinha razão, mas como eu raramente postava alguma coisa, não tinha perigo nenhum pra mim.
Não passou nem dez minutos e mamãe nos chamou para almoçar. Descemos correndo até chegar na cozinha, no meio do caminho eu cai e levei o Sam junto.
– Eita, cuidado – ele disse rindo. E ele tinha caído em cima de mim.
Ficamos nos encarando, mas eu logo levantei.
– Só tropecei em um degrau. – disse indiferente
– Mesmo assim – ele repetiu.
Só dei um meio sorriso e fui pra cozinha. Mamãe tinha feito lasanha, e eu sei que essa é a comida preferida do Sam. Com motivos né.
Depois que almoçamos fomos pro meu quarto e ficamos a tarde toda estudando Geografia, que seria a prova de amanhã. Já eram quase oito horas da noite quando a Melanie liga no meu celular.
– Oi amor, o que tá fazendo? – ela disse praticamente gritando
– To estudando – gritei de volta
– Nossa porque ta gritando? – ela perguntou ainda com a voz elevada
– Desculpa, achei que não tivesse ouvindo. – assenti mesmo ela não podendo ver. Sam ficou olhando com uma cara estranha pra mim, mas depois eu pergunto o porquê. – E você sumiu hoje na saída por que? – ah ta, como se eu tivesse sumido.
– Olha Mel, não fui eu que sumi não, tá? Fiquei te esperando na saída, mas nada de você aparecer. – eu já estava irritado.
– Tanto faz, você sumiu também.
– Mas eu... – tentei falar
– Depois te ligo, tchau.
E ela. Desligou. O telefone. Na. Minha. Cara.
Argh.
– Que aconteceu? – o Sam perguntou
– Nada Sammy. Só a Mel que ligou, mas depois desligou na minha cara.
– Nossa! Ela nunca fez isso com você. – ele disse e eu concordei – Estranho.
Foi a ultima coisa que ele disse.
Fui direto ao banheiro e tomei um banho rápido. Depois escovei os dentes a fim de finalmente dormir. Mas pensar muito antes de fazer isso. Pensar no quanto a Mel estava estranha nesses últimos dias, e também no que está acontecendo comigo. Porque afinal eu estou um pouco estranho também. Eu também estou muito a fim de descobrir o porquê.
Sai do banheiro e sentei em minha cama me cobrindo com o edredom que estava lá em cima, que minha mãe provavelmente colocou caso eu sentisse frio. Minha mãe é incrível mesmo.
A minha cama ficava do lado esquerdo perto da porta do banheiro, e a onde o Sam estava ficava encostada na parede do outro lado.
Ele estava me observando até que se levantou e se sentou na cama. Até que ele disse:
– Você está muito estranho. – e fez uma cara estranha, mas como se estivesse certo.
– Só to pensativo. Mel disse que tinha um segredo, mas não me contou até agora. Depois ela sumiu na hora da saída e depois me ligou e desligou n minha cara. Tenho medo do que pode estar acontecendo.
Achei que ele fosse falar mais alguma coisa, mas só levantou da cama e veio me dar um abraço. Que eu realmente estava precisando. E eu quis nunca mais sair dali.
– Sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa não sabe? – ele disse com o rosto na curva do meu pescoço. – Você sabe que é o meu melhor amigo, e eu espero que assim seja pra sempre.
Soltei-me de seus braços e afirmei com a cabeça.
– Dorme bem.
Essa foi a ultima coisa que eu ouvi antes de dormir.
...
No dia seguinte acordei com o barulho da porta do banheiro sendo fechada com força. Era o Sam, mas eu sabia que ele não tinha feito de propósito porque ele nunca faz barulho pra nada. Sentei-me na cama, abracei os joelhos e fiquei encarando o lençol. Cinco minutos depois ele saiu do banheiro apenas com uma calça jeans, a toalha pendurada nas costas, e seus cabelos rebeldes e loiros molhados.
– Bom dia! – ele disse animado – Dormiu bem? – sempre preocupado. Dei um sorriso fraco.
– Dormi sim. – e comecei a rir do fato dele estar sem camisa, porque ele nunca fazia isso.
– Que bom então. – ai ele me observou rindo e logo descobriu o porque. – Ai, me desculpe, eu me esqueci da blusa – ele falou envergonhado e com pressa. Pegou uma blusa na minha gaveta (que depois ia ficar com o seu cheiro, mas eu não me importava) e a colocou com pressa. Levantei-me e fui em direção ao banheiro. Diferente do Sam, eu tinha levado uma blusa pra colocar, e a calça também. Ri internamente.
Sai do banheiro depois que coloquei a roupa e fui em direção à cadeira que ficava no canto do quarto para arrumar meu material, mas ainda pensando no porque da Melanie ter feito aqui comigo. Só que eu era muito pessimista, e isso acabava com tudo.
E pela primeira vez eu não chegaria atrasado à escola. Graças ao Sam.
Ficamos uns dez segundos nos beijando, porque eu achava que era uma falta de respeito beijar na escola. Me julgue, eu não ligo, mas eu penso assim.
Na saída, tudo bem, alias, a maioria dos alunos fazem isso quando saem da escola. Mas dentro, na verdade, pode até dar expulsão. É.
Quando me afastei ela me abraçou forte, como se estivesse com medo de alguma coisa. Olhei para ela e perguntei:
– Aconteceu alguma coisa?
Ela desviou o olhar do chão, olhou em meus olhos e respondeu:
– Eu tenho um segredo pra te contar, mas estou com medo.
– Se-se-gredo? – gaguejei – Pode falar, você sabe que pode confiar em mim.
Eu estava com medo do tipo de segredo que ela poderia estar escondendo de mim. Eu esperava que não fosse tão grave.
– Você espera o tempo certo pra eu poder te falar? – ela perguntou com receio
– Claro. – assenti com a cabeça
– Obrigada. – e me abraçou de novo.
Ouvi o sinal bater e me levantei do banco, ajudando a Melanie logo em seguida.
Entrelacei minha mão na dela e andamos em direção à sala cinco, onde ela teria aula. Dei um beijo em sua bochecha e fui em direção á sala de filosofia.
...
As próximas duas aulas passaram voando, e logo tivemos outro intervalo. Fiquei conversando com o Sam dessa vez. Acho que falei pouco sobre ele. Então vamos lá.
Sam é o meu melhor amigo (acho que já disse isso, mas só estou relembrando). E a pessoa mais incrível que eu já conheci. Ele é calmo, e é daqueles que tá contigo pro que der e vier. Ele sempre sofria bulling na escola quando era menor por causa dele ser irlandês. Uma sacanagem. E ele é um cara de personalidade incrível e muito rara de encontrar. Ele não tem preconceito pra nada. Tipo, nada mesmo. Ele aceita a pessoa do jeito que ela é. Mesmo que ela tenha um gosto musical diferente, ou seja, de outra religião, país... Seja o que for. Ele vai te respeitar pro resto da vida. E essa é uma coisa que eu admiro muito nele. Eu tenho tipo, muita sorte de ter sido vizinho dele desde os cinco anos de idade. E eu sempre vou agradecer por isso ter acontecido. O fato de que ele é um ano mais novo, não influencia nada, pois ele é um ano adiantado na escola, e está na minha sala. Então nossa amizade é bem verdadeira mesmo. E bom, ele é o meu melhor amigo. E eu o amo.
Sentei-me no chão ao lado dele perto da porta de uma das salas. E então começamos a conversar sobre diversos assuntos. Tipo as provas, que começariam na próxima aula; alguns sonhos, tipo o que ele tinha de visitar a Irlanda mais uma vez na sua vida; sobre arrumar um emprego (mesmo ele tendo ainda quinze anos); videogames; nossas lembranças de quando nos tornamos vizinhos... Mas menos amor. A gente nunca falava sobre isso. Porque eu tinha uma namorada e isso meio que o desapontava por causa de uma ex-namorada dele. Eu me lembro de quando isso aconteceu. Foi à dois anos atrás. Sam tinha apenas treze anos. Digo apenas porque acho que ele era muito novo pra namorar, é. Ela era três anos mais velha. Eu o avisei que seria meio que “perigoso” ou “errado”, mas ele não quis aceitar esse fato porque estava completamente bobo por ela. Digo bobo, porque ela fazia ele de bobo. Tudo o que ela pedia pra ele fazer ele fazia, como um cachorrinho. Até que eu descobri que ela estava o traindo. Claro que eu contei pra ele assim que cheguei em sua casa, ele começou a chorar tentando não acreditar. Até que ele viu a filha-da-mãe se pegando com um outro cara no meio da rua. Eles estavam encostados na parede perto de um bar, e ele passava sua mão boba pelas curvas da Sarah (o nome dela). Nem preciso dizer que o Sam desabou né? Pois é. Eu não sabia o que fazer pro meu melhor amigo parar de chorar. Foi pior de que quando ele descobriu que Papai Noel não existe de verdade. Puxei ele pela mão pra voltarmos pra casa correndo antes que ele visse coisa pior. E senti uma coisa estranha ao fazer isso. Um arrepio ou coisa do tipo. Mas deixa pra lá.
Mas é melhor deixar essa parte de namorada pra lá, antes que eu sinta remorso e pense que estou deixando o meu melhor amigo solitário. Mas creio que isso não vai acontecer.
Já estávamos indo para as duas ultimas aulas e nem mal via a hora de acabar. Entrei na sala e sentei no mesmo lugar de sempre, perto do Sam. A professora tagarelou por uns vinte minutos antes de entregar a avaliação. Sorte que era matemática, porque é a minha matéria favorita.
As questões não estavam muito difíceis também. Tinhamos que calcular o valor do radiando de vários círculos, achar o valor da tangente, seno e cosseno de alguns ângulos, e no final teve uma pergunta dissertativa cuja a mesma era responder quais foram as dificuldades e facilidades que tivemos o ano passado e o que esperávamos para esse ano. Eu respondi que não tinha dificuldade pois era a minha matéria favorita ( e a Sra. Stuart sabia muito bem disso) e o que eu esperava era... Bom, eu não sabia o que eu esperava então fui sincero e disse o mesmo.
Terminei a prova em uma hora e tive que esperar mais vinte minutos para poder sair.
O fato estranho foi que eu não vi a Melanie na hora da saída. Talvez ela tenha ido mais cedo com os pais (porque são eles que levam e na maioria das vezes buscam a filha mimada da escola) ou sei lá. Não quero ser pessimista e depois pensar ou imaginar coisa ruim e ficar se lamentando depois. Não estou culpando o Sam. Pois eu nunca faria isso. Só estou dizendo que não quero ter consequências ruins depois.
Parei de pensar nisso e fui caminhando com Sam para casa. No meio do caminho paramos numa lojinha de conveniência e comprei um Twix para a minha mãe. Eu sempre fizera isso então... Aproveitei que estava com fome e comprei um pra mim e para o Sam. Ele ficou discutindo comigo que era ele que ia pagar, mas eu nunca deixava. E não ia ser diferente dessa vez. Saímos mas nem conversamos no caminho. As vezes eu ria do fato do cabelo meio loiro do Sam ficar bagunçado pelo vento e ele olhava com uma cara brava pra mim. Ninguém mandou ter cabelo compridinho né. E eu ri mais ainda.
Sam e eu nunca brigamos feio. Sempre tivemos algumas discussões, mas que eram raras. Ele era meu amigo de verdade, e eu sabia, ele sabia; todo mundo sabia disso. E isso é uma coisa boa. Aliás, sempre vai ser.
– Logan, levanta já ta na hora da escola! – uma voz alta ecoou pela porta.
Legal, já é segunda-feira, isso significa ir pra escola. O que significa que o próximo fim de semana vai demorar pra chegar, e também que eu tenho prova a semana toda. Incrível isso.
– Já vou! – gritei pra ela de volta.
Desenrolei-me das cobertas ainda sonolento e fui para o banheiro do meu quarto. Tirei a roupa e fui direto pó chuveiro. Pelo menos, meu dia ia começar melhor com um banho gelado. Lavei o cabelo, me enxuguei e coloquei minha roupa. Geralmente, uma camiseta branca qualquer, calça jeans, minha blusa xadrez vermelha e meu all star. Dei uma leve penteada no cabelo até que ficasse legal. Porque tipo, odeio ficar desarrumado. Não é frescura. É coisa de nerd. Não que eu seja nerd. Mas poderia ser. Ou não.
De qualquer forma, desci correndo pra tomar o café antes que minha mãe gritasse mais uma vez.
– Bom dia. – eu disse indo em direção à ela e depositando um beijo em seu rosto.
– Oi, filho. – ela deu um sorriso e também me deu um beijo no rosto – Toma seu café que você já esta atrasado.
Sentei-me na mesa da cozinha, que apesar de ser pequena, era super confortável para almoço em família. Que acontecia geralmente apenas comigo e com minha mãe, já que meu pai não parava em casa por causa do trabalho.
Terminei em menos de cinco minutos porque eu tinha que correr pra escola. Eu estava atrasado, MESMO.
Despedi-me da minha mãe, peguei a mochila e fui pra escola.
...
Cheguei atrasado e a diretora quase me mandou de volta pra casa. Tive que pedir desculpas e prometer que isso não ia se repetir. Ela acreditou e eu apenas concordei com a cabeça.
Passei pelos corredores até chegar à minha sala. Queria entrar sem que ninguém me notasse, mas não foi possível, pois uma guria da minha sala, Natalie, quase gritou para que a escola inteira soubesse que eu havia chegado atrasado.
– SR. BAKER, O LOGAN CHEGOU ATRASADO! – olhei pra ela com os olhos semicerrados com vontade de mata-la, é.
– Ora, ora, senhor Stoner. – ele se virou pra mim – Por favor, sente-se.
Agradeci-o mentalmente por não ter me dado uma bronca e sentei na minha carteira.
A sala era grande, com capacidade para uns 30 alunos, e eu acho que minha sala continha maios ou menos essa quantidade.
Enfim, eu sempre sentava ao lado do meu melhor amigo, Samuel.
Ele era, simplesmente, incrível.
Pra falar a verdade, eu o conheço desde que eu tinha cinco anos. Sua família veio da Irlanda para morar aqui no Rio de Janeiro. Eles viveram uns meses no centro e depois se mudaram para Ipanema, onde eu e minha família sempre moramos. Logo que chegaram, foram pedir ajuda para os vizinhos para não ficaram deslocados. E por sorte, esses vizinhos foram meus pais.
Digo sorte porque, ganhei um melhor amigo.
Nós costumávamos sempre brincar que a gente estava em um acampamento. Teve uma época, que os pais dele foram visitar a Irlanda, mas ele não quis ir junto, então ele passou duas semanas aqui. Foi hilário.
A gente ficava vendo o canal de desenho até três horas da manhã e assaltávamos a geladeira de casa para não passar fome.
Eu tenho muita sorte mesmo de ter um amigo como ele. Mas talvez eu não possa dizer o mesmo de Melanie Fox.
Melanie é o tipo de garota que é mimada e ganha tudo o que pede pros pais. Ela é supervaidosa e popular também. E acho que isso é o que me irrita mais. E ela não sabe separar as coisas. Por exemplo, uma vez, eu disse para ela que tinha que fazer um trabalho com uma garota da minha sala, a Jullie. E ela me obrigou a ir a uma porcaria de festa na casa dela. Ela não consegue aceitar o fato de eu ter outras amigas mulheres. Porque como ela sempre fala “EU, sou a sua namorada, Logan. Você é só meu.”. Ah é, ela é muito possessiva também. Mas não com objetos tipo livro ou roupa. Sua possessão acontece mais com pessoas. E no caso, essa pessoa sou eu.
...
A aula passou voando e eu nem percebi. Levantei-me da carteira junto com os meus materiais e finalmente pude dizer um oi para o Sam.
– Hey cara, como é que tá? – perguntei dando-lhe um aperto de mão.
– Tô bem – ele esboçou um sorriso – E como sempre você chega atrasado – ele deu uma risada fraca e eu o acompanhei.
– Não tenho culpa se sinto um sono pesado de manhã.
– Tem sim – ele riu de novo e saímos da sala
Caminhamos até a sala 4, onde a aula era de História. Mais um motivo pra eu odiar segundas-feiras.
Antes mesmo de eu pensar em entrar, Melanie veio correndo e abraçou no meio do corredor. Quase fiquei sem ar, sem brincadeira.
– Ahn... Mel... Você... Ta... Me... Sufocando... – consegui dizer com dificuldade e ela me soltou.
– Oh, desculpe. – e selou meus lábios.
– Tudo bem, tenho que ir pra sala agora, te vejo depois. – disse e depositei um beijo em sua testa.
Não sei se eu disse antes, mas eu não odeio a Mel. Só acho irritante algumas atitudes dela. E a maioria delas é comigo. Mas é detalhe.
...
E mais uma aula passou voando, e o sinal que havia batido significava que era a hora do intervalo. Não estava correndo como os outros alunos corriam para a cantina porque eu geralmente não comia nada no intervalo, então nem me dei ao trabalho.
Sentei em uma das mesas do refeitório apenas fitando a tela do meu celular. Eu estava muito pensativo, e nem sabia o porquê.
Do canto do olho pude ver Mel abraçando um jogador do time de futebol. Ela sempre fazia isso. Sempre ficava abraçando vários garotos, e nunca me deixava nem chegar perto de outra garota. Olha só a injustiça. Mas eu não sentia ciúmes dela. O que eu sentia por Melanie, era apenas um carinho e afeto muito grande, porque ela é filha de uma amiga da minha mãe, então sempre nos conhecemos e nos demos bem. Até que eu resolvi a pedir em namoro. Meus pais explodiram. De felicidade.
Mas voltando a mim, escolhi uma musica no meu celular, conectei o fone e comecei a escutar. A sensação era maravilhosa.
Fiquei uns cinco minutos no meu mundo sem escutar nada da escola. Nada até ela aparecer na minha frente e me abrigar a beija-la.
Talvez não fosse uma obrigação, se eu não achasse isso. E não sei porque eu acho isso.
É complicado, você nunca entenderia. Infelizmente.
Quando Samuel conhece Logan, mal sabe ele que sua vida pode mudar.
Quando se mudou para o Rio de Janeiro, não fazia ideia do que era ter alguém ao seu lado que pudesse, verdadeiramente, chamar de amigo.
Certo dia seus pais decidem se mudar para um bairro mais afastado do centro. Sem querer, ele vira vizinho de Logan, um ano mais velho que ele, que na época, tinha cinco.
O Senhor e a Senhora Foster, logo se tornaram próximos dos pais de Logan, Louise e James Stoner, contribuindo ainda mais para uma futura amizade entre os dois.
A vida lhe dá varias oportunidades bastam apenas aproveita-las.