Já era esperado que CAPITOLINA DE PÁDUA SANTIAGO viesse para a Ilha de Treatan, afinal, ela é uma PRINCESA vinda de ANGOLA. Não que seja elegante perguntar, mas sei que ela já conta com seus VINTE E OITO, e não esconde a fama de TEIMOSA, mas é sabido que seu lado CURIOSA compensa. Se não tivesse sangue azul, eu diria que é uma descendente direta de ANOK YAI, porque não poderiam ser mais idênticas!
✧ stats
name: Capitolina de Pádua Albuquerque
also known as: Capitu, a menina do véu
age: 28 anos
orientation: supostamente hetero
height: 178 cm
eneagram: 2w3 – The Hostess
mbti: INFJ
moral alignment: true neutral
clorocinese: possui a habilidade de criar e manipular plantas e a vegetação, permitindo que ela controle e manipule plantas, madeira, raízes, frutos, flores e até musgo.
inspos: ana do véu (sinha moça) ; capitu (dom casmurro) ; isabela (encanto) ; rapunzel (enrolados) ;
✧ biografia
Capitolina nasceu uma criança franzina e fraca, quem presenciou o parto era capaz de afirmar que o primeiro choro da bebê mal passava de um sussurro, que se não prestassem muita atenção podia ser confundido com um filhote de ratinho. Diante dos problemas de saúde da filha mais nova, e com medo de perdê-la, Dona Glória, Rainha de Angola, mãe e acima de tudo devota fiel de Santa Irenne, fez a promessa de que a filha só revelaria o rosto para o mundo no dia do seu casamento, caso fosse a vontade da santa que ela chegasse à vida adulta.
E assim foi feito. Fosse pela promessa ou por uma casualidade do destino, fato é que a garota cresceu saudável e forte, como poucos pensavam ser possível tendo em vista os problemas de saúde da menina quando bebê. Infelizmente, não é possível dizer se cresceu também bela, uma vez que a promessa feita é seguida à risca e desde criancinha, ninguém além da família da moça tem permissão para ver o seu rosto.
Por muito tempo o Príncipe Herdeiro da Suíça apresentou a única esperança para a garota, que viveu por muito tempo enclausurada no próprio palácio por falta de um pretendente. Por causa de um acordo político entre os dois reinos a garota foi prometida em casamento para o príncipe que herdaria o trono. Infelizmente o casamento nunca chegou a acontecer, uma vez que seu prometido a noivo acabou falecendo em um acidente misterioso há cerca de cinco anos.
Para Capitu, o reality show representa sua última esperança de escapar da promessa da mãe e levar uma vida normal, sem ser mandada para um convento, como a segunda parte da promessa afirmava.
✧ headcanons
𝔦. tendo sido criada a maior parte do tempo sozinha, Capitu teve muito tempo para se dedicar em aprender milhões de habilidades e se dedicar a dezenas de hobbies ;
𝔦𝔦. ela odeia a promessa feita pela mãe, mas apesar disso é bastante devota e acredita muito que vai se livrar da promessa de alguma forma ;
𝔦𝔦𝔦. mesmo tendo sido criada isolada do mundo, nunca foi tímida e sempre gostou de fazer amizades, mesmo que muitos a acham esquisita ;
𝔦𝔳. por conta da religião da mãe é obrigada a se vestir de forma modesta e recatada, mas desde muito moça se encanta com tecidos brilhantes e roupas extravagantes, embora não tenha a oportunidade de usá-las;
𝔳. é uma leitora ávida e uma estudante exemplar, a sagacidade de capitu sempre foi um ponto de orgulho para seu pai e um lugar de preocupação para a mãe;
A voz soando entre o silêncio e a partida de Emir, foi o que bastou para fazê-lo parar no meio do movimento. Com os pés firmes ao chão, não ousou mover-se, fosse no encontro da princesa ou em seu sentido oposto, apenas ficou parado, observando-a se aproximar, observando o toque sobre suas mãos e as palavras que tentavam amenizar o desconforto que havia se instaurado entre eles. Emir amoleceu. ━━ Tudo bem. Reconheço que foi um tanto invasivo. Considerando a situação como um todo, talvez tivesse sido mais prudente procurá-la na manhã seguinte. ━━ quanto a poeira teria baixado, quando todos já tivessem refletido sobre o que aconteceria daquele instante em diante, dentre tantas outras coisas, a escolha de tempo de Emir poderia ter sido tão melhor que aquele. Inevitavelmente, o pensamento de Karam se afundava em todos os caminhos destintos que poderia ter tomado. Caminhos infinitos, de resultados variáveis. Respondeu-lhe o pedido com um aceno de cabeça, mecânico ao que a mente ainda se ocupava por hipóteses, sendo a única coisa capaz de tirá-lo daquele transe, a ausência do véu que cobria as feições de Capitu. Estático, os olhos de Emir arregalaram-se ao fixar nos contornos e detalhes da feição alheia. Por tanto tempo havia ouvido rumores sobre a persona atrás do véu, todos caindo por terra naquele instante. As palavras lhe faltaram por mais tempo do que poderia ser considerado normal. ━━ Sim. Celestial. Extremamente adequado. ━━ mas Emir não se referia aos doces naquele instante.
— muito pelo contrário, foi extremamente atencioso na verdade. com toda a loucura desta noite eu nem tive tempo de pensar em comer qualquer coisa! é realmente bom que você tenha vindo. — comentou, levando mais um dos chocolates aos lábios, sem conter o pequeno som de prazer que escapou ao saborear o doce. só então capitu percebeu o quanto estava sendo rude, sem nem ao menos oferecer qualquer um deles a emir, mesmo sendo ele quem a proporcionou a chance de experimentar da comida da festa. — por todos os santos, eu estou sendo rude novamente, venha, sente-se comigo e coma também. você merece depois de tanta gentileza! — comentou, batendo no sofá ao seu lado em um convite. capitu aproveitou o movimento para apagar os rastros de suas lágrimas do rosto com as costas da mão. por mais chateada que estivesse com a sua situação, a sua educação jamais permitiria que seus sentimentos fossem problema de qualquer outra pessoa. tentava fingir normalidade ao ser observada sem a barreira do véu escondendo suas feições. surpreendendo a si mesma, sentia pouca diferença, talvez por ser emir, alguém que jamais seria rude com ela. independentemente de como fosse sua aparência. o coração da princesa batia forte em seu peito mesmo que ela mantivesse sua expressão neutra. capitu arriscou erguer os olhos, finalmente estudando a expressão do guarda, sem saber exatamente o que ler nela. respirando fundo e se enchendo de coragem capitu finalmente perguntou. — então, os rumores tinham razão? eu sou tão monstruosa quanto você imaginava? — a princesa fez questão de sorrir, um sorriso discreto, quase malicioso, como se a resposta não fosse capaz de quebrá-la em pedacinhos.
ᘛ featuring : @eucapitu
ᘛ prompt : encontro às cegas
quando a porta se fecha às suas costas, os olhos atentos de romanov percorrem o ambiente instintivamente, com a mesma precisão de quem avalia um percurso. o espaço não é grande, mas é decorado de modo que transmite aconchego, com luzes indiretas trazendo vida sutil pelo mobiliario em tons de azul e dourado, revelando detalhes que cintilam discretos sob a penumbra. no centro, um sofá amplo é um convite óbvio, posicionado diante de uma tela que se estende pela altura da parede —— a verdadeira estrela daquele encontro. ao observá-la, o moreno não esconde o arqueio da sobrancelha, e nem o riso abafado que sacode discreto seu peito largo enquanto é soprado pelas narinas. alek não pode dizer que está particularmente animado com a proposta de sigilo —— sobretudo quando não descarta a possibilidade de sair da althara com uma noiva, e joguinhos como aquele parecem um desperdício de tempo. mas há de concordar que há algo de interessante na ideia. diferente. o tapete persa amortece seus passos ao que se encaminha até o meio. deixa o blazer repousar sobre o braço do sofá, serve-se do uísque disponível numa bandeja de cristal e, só então, se acomoda. no instante em que suas costas fazem contato com o estofado, a tela se acende em cores e formas abstratas, sinalizando o início da atividade. ❛ olá. alguém ai? ❜ a voz preenche o local num ronronar confortável. ❛ será que posso perguntar se você tem alguma experiencia falando com paredes? creio que isso já diga muito sobre alguém. ❜
mesmo com a sua mais nova realidade, sem o véu, o anonimato daquela dinâmica em específico ainda era a mais confortável das experiências que capitu vivenciou no programa. ainda assim, as mãos dela estavam suando em seu colo. sentada no sofá pequeno, que cabia apenas ela talvez mais uma pessoa, caso estivessem muito próximas. sua mãe chamaria uma mobília como aquela de namoradeira, capitu sorriu com a memória, sentindo as bochechas se aquecerem levemente. a voz desconhecida soou pelos alto falantes na sala, envolvendo capitu, a tela brilhante em sua frente mostrando imagens sem forma combinando com o som. — olá, é um prazer… — a voz diminuiu de volume ao não saber como complementar a cordialidade que estava prestes a dizer. — creio que conhecê-lo não seria o termo correto. talvez ouví-lo seja mais apropriado? — um riso leve escapou da mulher, melódico e delicado como o de costume. capitu pensou um pouco antes de responder a pergunta. tendo passado a maior parte de sua vida com o rosto coberto, não é como se a experiência fosse totalmente desconhecida para ela. — creio que não tenha conversado com paredes muitas vezes. no entanto posso dizer que a sua experiência não está sendo muito diferente do que seria caso estivéssemos frente a frente. pelo menos não até pouquíssimo tempo atrás, acredito que este motivo foi um dos fatores determinantes para que eu aceitasse fazer parte deste experimento. e você já conversou com paredes antes? eu prometo não julgar.
uma das atividades favoritas de capitolina, desde muito nova, era caminhar descalça sobre a grama. se divertia com a sensação de cócegas causadas pela planta sob seus pés, e segundo a teoria de sua mãe era o seu dom de fazer com que as plantas se abrissem por ela, buscando agradá-la. capitu já não sabia o quanto de verdade aquilo carregava, mas sua recusa de atender qualquer contato de sua família desde o ultimo desastroso evento a impedia de ter qualquer resposta. o sol batendo direto em seu rosto, fazia com que gotas de suor se acumulassem em suas têmporas. a mulher riu ao ver gaspar ser seguido por diversos animais que pareciam ter urgências a tratar, talvez fosse uma sorte que seu suposto poder a conectava diretamente com plantas, que eram bem mais silenciosas do que parecia ser a vida de gaspar. ao ser notada, se aproximou com cautela, tentando não invadir muito o espaço da conferência. — então, quais são as demandas do dia? — a voz dela soava melódica e no momento em que começou a falar um dos pássaros que rondavam gaspar pousou em seu ombro, e os animais se silenciaram por um momento. capitolina riu, fazendo carinho embaixo do bico da ave, como se fosse um gatinho. — olá, amiguinho, eu aposto que você tem assuntos urgentes a tratar, sinto muito interromper a reunião. — seus irmãos sempre fizeram comentários sobre o fato de animais pararem para ouvi-la e ela sempre levou como uma brincadeira, afinal como mais nova, e única menina, tinha a tendência a ser bastante mimada. naquela época seus irmãos faziam de tudo para que a princesinha da família se sentisse como a protagonista de um conto de fadas. aproveitou o momento de silêncio para se dirigir a gaspar diretamente. — eu posso fazer alguma coisa para te ajudar? você parecia sobrecarregado, posso ajudar a fazer anotações, talvez organizar uma fila para que cada um deles faça um pedido por vez? — embora duvidasse que fosse ajudar de fato, mas parecia ser uma atividade tão boa quanto qualquer outra para ocupar o seu dia.
— você precisa parar de ficar olhando para mim, drew — capitu comentou sem abrir os olhos, relaxando na cadeira enquanto a cabeleireira cuidava de seus cabelos com esmero. — não foi para isso que eu te convidei, se for desperdiçar meu dinheiro por favor me avise logo, eu posso achar jeitos melhores de fazer isso. — se fosse ser honesta, capitu não sabia exatamente o porquê de tê-lo convidado. desde a noite quando, no meio do desespero, rasgou cada um de seus inúmeros véus, fechando as portas para voltar para o mundo como conhecia. do alto de seu orgulho, capitu se recusava a voltar para as amarras que a prendiam. por mais que detestasse a pessoa que a fizera chegar naquele ponto, ela não voltaria atrás agora. era teimosa a este ponto. ela jamais daria a ele o braço a torcer e se encolheria ao ser apresentada com um desafio. e drew estava ali para ajudá-la a abraçar sua nova normalidade, embora não estivesse sendo de grande ajuda naquele momento. sendo uma das poucas pessoas a tratarem capitu, com véu e tudo, com normalidade, era a melhor companhia que podia pensar naquela situação. — fale sobre o seu dia, ou qualquer coisa do tipo. por favor, apenas me distraia com algum absurdo, você é bom nisso.
pov: funny how true colours shine in darkness and in secrecy
avisos: um pouco angsty e face reveal no final finalmente!!!!!
a maquiagem escorria pelo rosto de capitu, junto com as lágrimas que já rolavam pela pele negra desde que deixara o baile. a noite que havia começado como um sonho, com ela sendo apenas mais uma entre inúmeros rostos desconhecidos, acabou em um pesadelo. o homem havia arrancado o seu véu sem a menor cerimônia. o véu que era sua armadura. o véu que era a sua prisão.
capitolina se lembrava claramente do momento em que o tecido passou a fazer parte de sua vida. tinha apenas onze anos, e havia acabado de retornar dos jardins, onde brincava com outras crianças que moravam no palácio real de angola. filhas de servos ou de outros líderes políticos, capitolina não fazia qualquer distinção, desde que seguissem as regras inventadas pela cabeça da menina, todos eram bem vindos na diversão. e ninguém jamais contrariava a princesinha.
fosse entre seus pares, familiares ou mesmo completos desconhecidos, qualquer palavra saída dos lábios da menina eram lei, dentro e fora dos muros do palácio. e a garota sabia bem aproveitar o efeito que tinha. se era fruto de seus profundos e encantadores olhos castanhos ou o sorriso angelical que conquistava os favores, ela não sabia, mas suas vontades eram atendidas e aquilo era tudo que importava.
aquele dia no entanto, a brincadeira havia aborrecido a princesa. por causa do desconforto na base da coluna, ou talvez a personalidade dos amigos que causou a irritação, de qualquer forma capitu abandonou os jogos mais cedo do que de costume, surpreendendo dona glória, que ergueu os olhos, e as sobrancelhas, ao ver a filha mais nova passando pela sala com passos pesados, resmungando sobre como garotos eram completos selvagens, com uma mancha de lama nos tecidos finos da saia.
ao se despir para um banho quente, que desde aquela época era para ela a única forma de limpar o corpo e mente, o dia de capitu apenas piorou. o grito ecoou pelas paredes do palácio, chamando a atenção de todos nas redondezas dos aposentos luxuosos da princesa. a rainha invadiu afobada a sala de banho, e a cena que encontrou partiu seu coração e o encheu de orgulho ao mesmo tempo.
capitu olhava, horrorizada, suas vestes íntimas manchadas do próprio sangue.
a mãe a ajudou entrar na banheira, com água escaldante como ela preferia, e com a mesma delicadeza que a banhava quando era apenas um bebê, ajudou a filha a se lavar. — você é uma mulher agora, capitu. — sua voz era suave, enquanto os dedos habilidosos desmanchavam as tranças dos cabelos da garota. — muita coisa vai mudar a partir de agora.
e sem maiores explicações o véu passou a ser parte do vestuário da princesa. assim nasceu a promessa, conhecida por todos: o rosto de capitolina só voltaria a ser visto quando ela subisse ao altar.
e assim foi. até aquela noite, quando um homem armado de audácia e nada mais havia arrancado o véu em meio a festa, na frente de todos. capitolina se encarava em frente ao espelho, olhando no fundo dos olhos, que apenas ela tinha a permissão de ver. a raiva aquecia suas veias, o sangue que corria por elas fervendo.
era irracional, e parte de sua consciência sabia disso, mas alguns sentimentos são viscerais demais para serem experienciados de forma polida. e dando vazão ao que sentia, capitu rasgou o véu que por tanto tempo a manteve enjaulada. o tecido delicado parecia gritar cada vez que ela o dilacerava. quando não tinha mais como destruir em sua coleção de véus, capitu começou a arrancar, com violência as roupas, sua respiração pesada, como se cada uma das peças de roupa fossem uma prisão.
o sentimento de claustrofobia só aumentava, até que nenhum pedaço de tecido prendesse o seu corpo. só quando estava nua, sobre uma pilha de trapos, que antes eram belíssimas peças, tesouros em forma de vestimenta, só então a respiração de capitu começou a se regular novamente. a exaustão instaurou em seus ossos, deixando os olhos da princesa pesados.
com apenas a lua como testemunha, capitu adormeceu sobre o seu ninho de tecidos finos. antes de se entregar completamente ao topor do sono, a princesa imaginou se era assim que lagartas se sentiam ao se despir de sua própria pele, destruindo cada célula de seus corpos dentro de seus casulos antes de se transformarem em borboletas.
Odiava admitir, mas reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Não importava a máscara, a pose, o tom ensaiado, ele sabia a identificar de longe. Capitolina. Metida, intocável, sempre envolta em luxo como se o mundo fosse feito para os pés dela. E o pior de tudo? Ela o rejeitara. Não apenas a ele, o “grão-duque impostor”, mas ao garoto de rua que ainda residia em si. Rejeição não doía mais — ele tinha aprendido cedo a engolir o orgulho e seguir em frente. Mas dela, com aquele ar de superioridade, tinha se tornado uma ferida que latejava toda vez que ele a via sorrindo por trás do maldito véu.
O salão parecia congelar ao redor quando os olhos dele a encontraram outra vez. O tecido púrpura leve cobria o rosto, escondia o que devia ser perfeito. E por que escondia tanto? Medo? Vergonha? Ou só mais uma maneira de se manter inalcançável, intocada, como o tipo de coisa que nunca seria para gente como ele? Arsen sorriu. Aquele sorriso cheio de ironia, que não tinha nada de verdadeiro, mas que ele sabia usar. Os passos foram lentos, quase preguiçosos, como se não houvesse nada de errado em atravessar o salão inteiro com os olhos cravados na princesa angolana. A cada movimento, o coração batia um pouco mais rápido, não de ansiedade, mas de raiva. Porra, por que ela conseguia provocar aquilo nele?
A mão dele se ergueu sem pressa, dedos firmes, calejados da rua, agora enfeitados por um anel que não significava nada. Segurou a beira do véu, o tecido macio queimando entre os dedos. Por um instante, o mundo pareceu segurar a respiração com ele. ❛ Acabou o teatrinho, alteza. ❜ O murmurou foi baixo, apenas para ela ouvir. E então, ele puxou. Um gesto simples, mas carregado de toda a fúria de um garoto que se recusa a ser diminuído. O véu deslizou, leve como ar, caindo entre os dois. Arsen sentiu o coração socar contra o peito, o estômago virar de dentro pra fora. Um arrepio atravessou-lhe a espinha. E então... o rosto dela. Porra. Ele não estava preparado. Nem mesmo ele sabia o que ia encontrar — perfeição? cicatrizes? algo humano demais, ou divino demais?
era a primeira vez, em toda a sua vida adulta, que capitu se sentia completamente pertencente em um baile. acostumada a ser excluída para as margens dos eventos, o encanto que despia a todos de suas faces, de forma democrática e igualitária, ela finalmente podia aproveitar a uma festa como acreditava ser o seu direito: dançando no meio da pista de dança, como se o evento, e o mundo inteiro, fosse o seu palco. como se todos fossem planetas orbitando o sol que era a sua presença. a final, essa era a verdade em sua realidade mais íntima: entre seus familiares.
dançando, da forma que aprendeu a fazer ensinada não apenas pelos melhores professores de dança de angola, mas também na segurança de seus aposentos, onde o véu se tornava apenas um pedaço de tecido fino entre as pilhas e pilhas de outros como ele. no conforto de ser só mais uma capitolina deixava que a música guiasse seus movimentos, como se nada pudesse a atingir. infelizmente, ela não poderia estar mais errada. mal pode processar as palavras ditas pelo marionete, quando sentiu o véu, que a separava do mundo, fosse arrancado com certa violência, revelando para o mundo a expressão de choque que pintava o rosto da princesa de angola.
corpo de capitolina congelou, lágrimas fazendo os olhos escuros como onix arregalados em horror, travados no rosto pintado de forma grotesca do homem que arrancou o véu. a música já não era uma fonte de conforto, mas sim um barulho incômodo que nublava seus pensamentos, e os corpos que antes se moviam em sincronia com ela se tornaram sufocantes. os lábios volumosos tremeram, mas o nó na garganta impedia que qualquer palavra escapasse, não que ela soubesse o que dizer naquela situação.
em todas as inúmeras e cansativas aulas de etiqueta, nada havia a preparado para uma situação como aquela. então, capitolina de pádua santiago, estimada princesa de angola soberana foi obrigada a recorrer a algo que jamais precisou usar antes: seu instinto. e a ação veio antes mesmo que a mulher pudesse processar completamente o que estava prestes a fazer. a mão, de dedos longos e delicados, se ergueu, fazendo as luzes da festa refletirem de um jeito particularmente encantador nas joias delicadamente bordadas em cada centímetro da luva que a enfeitava. e antes que pudesse se conter, deferiu um golpe, com toda a força que tinha, sobre o rosto do homem que tivera a audácia de quebrar a promessa de dona glória.
há muito tempo capitu não se divertia tanto em um baile. desde que podia se lembrar, sua experiência naquele tipo de evento era sempre distante, mas como uma espectadora do que como uma participante de fato. mas graças ao feitiço, que escondia a identidade de todos era como se, finalmente, estivesse no mesmo nível que os seus pares. e o sorriso que estampava em seu rosto, ainda que encoberto pelo véu, não deixava esconder. — isso é tão divertido! é como se estivéssemos conhecendo a todos pela primeira vez, você não acha? — comentou com uma moça que parou ao seu lado, antes de dar um gole em sua bebida. — eu nunca me diverti tanto em uma festa, vou precisar parabenizar aos organizadores depois!
‧₊˚ ❀ ‧₊˚ noite dos pecados — capitolina de pádua santiago
era de se esperar que a fantasia de capitolina fosse o que ela vive diariamente: o véu que cobria seu rosto. seu maior medo é de permanecer eternamente sob as amarras da promessa feita por sua mãe, como uma marionete. capitu teme não ser vista como uma pessoa e de passar o resto de seus dias escondida do mundo, como é desde que se entende por gente. a cor da roupa também revela algo que nem capitu sabe sobre si mesma, que por mais que se porte como a mais devota das fiéis, muitos dos dogmas impostos pelo magisterium lhe parecem completamente ridículos e arcaicos, como é o caso da segregação entre azuis e vermelhos.
Mais uma vez, Emir não queria ser invasivo, não queria intrometer-se assim na vida alheia sem que tivesse sido requisitado para tal. Mas, foi um tanto difícil ignorar o momento partilhado durante o baile, um dos poucos onde o guarda conseguiu ser autentico e leve. Era obvio que tinha levado a sério quando se propôs a guardar alguns aperitivos para a princesa, mais sério ainda, quando pensou que ela poderia aproveitá-los naquela mesma noite, ou manhã seguinte, caso não estivesse com cabeça depois do anuncio, afinal, tinham sido pegos de surpresa, assim como ele parecia pegar a princesa, outra vez. ━━ Desculpe, não queria assustá-la. ━━ muito pelo contrário, era o que diria se conseguisse ter focado em algo além da voz tremula da princesa. ━━ Estava chorando? Você está...━━ teria continuado, perguntado se estava bem, se tinha algo que pudesse fazer para ajudá-la, quando a pergunta sobre os aperitivos roubou a cena. Os próprios olhos desviaram para o prato que tinha em mãos, coberto pelo guardanapo. ━━ Brincando... claro. ━━ não teve como conter o leve descontentamento na voz. O que achou ser uma aproximação genuína foi apenas gentileza da princesa então? Para que ele não se sentisse mal, ou tivesse um dia de lord? ━━ Mas sim, os trouxe para que comesse algo antes de dormir, ou pela manhã. Já estão aqui, de qualquer forma. Mas se não os quiser, posso levá-los. Não queria ser intrometido, alteza, desculpe se confundi algo.
— emir espere! — capitu ergueu o tom de voz levemente, como se aquilo fosse o suficiente para fazê-lo ficar. se aproximou do guarda, colocando suas mãos sobre as dele para receber os doces. — foi muita gentileza sua se dispor a trazê-los para mim. eu não quis ofendê-lo com o que acabei de dizer, a verdade é que eu não esperava por isso, não queria causar qualquer incômodo. — as palavras eram sinceras e, se fosse capaz de corar capitu com certeza estaria o fazendo naquele momento. mas era de fato muito auspicioso que emir tivesse decidido levar os quitutes até os seus aposentos, com as emoções da noite, ela simplesmente havia se esquecido de comer, só notou naquele momento o quão faminta estava. — você se importa em me fazer companhia? eu realmente não quero ficar sozinha agora. — seu tom de voz beirava a uma súplica. a aparição de emir a sua porta havia sido uma grata surpresa, interrompendo os pensamentos que espiralavam de forma catastrófica em sua mente. em um lapso de rebeldia, talvez o primeiro de sua vida, capitu ergueu o véu, sem se importar que ele visse seu rosto. selecionou um dos doces, o primeiro que emir havia provado mais cedo, levando aos lábios. — você estava coberto de razão. isso aqui está celestial de tão bom! — comentou, ainda de boca cheia, deixando todo o decoro e etiqueta de lado.
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"Um pouco dramático, não?" revirou os olhos, em desprezo às tradições do Magisterium. Não que estivesse ali como um participante real - ninguém esperava, realmente, que ele fosse se casar um dia, muito menos sob os ritos anis usuais. "Que mensagem estavam querendo passar com aquilo? Que se não escolhermos eles vão escolher por nós? Eu não vou me casar com a sua prima feia só porque o Sumo Sacerdote disse que eu tenho que"
o coração de capitu ainda não havia deixado de palpitar. o respeito e temor que sentia pelas figuras de autoridade do magisterium era um fato conhecido, mas mesmo ela tinha suas dúvidas sobre o que exatamente aquela demonstração tão aberta do poder da instituição significava. — um pouco? — a pergunta retórica escapou antes mesmo que ela pudesse tecer algo mais apropriado a dizer. — eu acredito que seja exatamente essa a ideia. — respondeu, o comentário sobre a aparência de uma possível noiva não passou batido por capitu, que começava a se sentir farta do quanto aquela parecia ser uma característica inegociável para todos com quem conversava. depois de tanto tempo sob a vigilância câmeras sem formar uma conexão romântica com nenhum dos outros participantes, capitolina começava a achar que o problema era com ela. e mesmo se fosse da vontade dos santos ou do magisterium, capitu se recusava a ter seu noivado decidido por ela. — você acha que isso se tornará uma prática comum? eu deveria ir falar com martina, ela deve estar se sentindo terrível com essa exposição, — no momento em que a ideia surgiu em sua mente, o peito da mulher se encheu de culpa por estar tão consumida por suas próprias inseguranças que nem havia considerado como a amiga estava se sentindo.
‘ acredite , senhorita ... diferente da maioria dos nobres desse salão , eu não tenho motivo para mentir . ’ uma meia-lua se formou no canto dos lábios dele , como quem acabara de cometer uma pequena heresia , mas tinha certeza de que não seria punido por isso . era quase engraçado ele se colocar como exemplo de honestidade — o maior mentiroso que conhecia — , mas ali não tinha porque dourar a pílula . se tem uma coisa que a aristocracia sabia fazer , era gastar fortunas com comida que realmente valia a pena . quando ela justificou o não comer ali por questão de praticidade , drew apenas assentiu , educado por fora , mas pensando consigo que se tivesse que escolher entre conforto e estética , o conforto venceria dez vezes seguidas . ‘ claro ! comer na frente de alguém exige um certo grau de intimidade . tipo foder com a luz acesa . ’ era nítido que o callahan não tinha o mínimo de decoro . e a risada abafada comprovava que ele não se importava . ‘ mas , com todo respeito , alteza … ’ como se ele tivesse tido algum até agora . ‘ o mistério , depois de um tempo , perde a graça . fica maçante . principalmente pra você . imagino que viver atrás de um véu seja tão cansativo quanto tentador para quem olha . ’
flashback. capitolina assentiu de leve com a cabeça, como quem demonstrava atenção no que ouvia, tendo suas expressões faciais constantemente ocultas ao olhar público, ela havia se condicionado a manifestar sua atenção de outras formas. a conversa com drew se provava a cada segundo que passava um pouco mais fascinante, despertando a curiosidade dela para ver qual seria a próxima atrocidade que escaparia daqueles lábios. e ela não estava errada, quando sentiu o sangue subir as faces, com a vergonha das palavras proferidas, com a naturalidade de quem comenta o clima. — vou ter que acreditar nas suas palavras sobre este assunto. mas imagino que seja uma analogia coerente. — foi o que conseguiu comentar sobre, sem que as palavras ficassem travadas em sua garganta. embora tenha sido criada com dois irmãos mais velhos, era raro que vulgaridades como aquela chegassem aos seus ouvidos, uma vez que era superprotegida por todos em seu convívio. mais uma vez, desde que entrara em althara, capitu se perguntava o quanto aquele modo de viver representava mais uma prisão do que a proteção pregada por seus pais. com um suspiro profundo deixou de lado os questionamentos. quando achava que não teria mais surpresas naquela conversa, capitu foi mais uma vez atacada pelas palavras dele. — você pode ter razão sobre o mistério, mas este não é o principal motivador para o véu no final das contas. minha mãe teve seus motivos para tomar esta decisão. — embora ela não soubesse exatamente quais eram, e começava a se cansar de se prender a uma superstição que não acreditava completamente. — além disso, já estou tão acostumada com o véu que não saberia o que fazer caso este fosse tirado de mim. — comentou, tentando resgatar o bom humor, mas o sorriso mal tingia seus lábios e era ainda menos convincente em suas palavras.
onde: aposentos de capitu??? sei lá, pode inventar aí
embora tivesse se divertido durante o baile com as amizades que havia conquistado durante o reality, o evento não havia deixado um gosto amargo em sua boca. após ser arrematada, por um príncipe que aos seus olhos mal tinha idade para participar do programa, tinha certeza que havia sido uma piada com a condição da promessa feita por sua mãe anos atrás. por muitas vezes, quando se encarava no espelho com um tecido escondendo suas feições, capitu sentia a raiva queimar em suas veias. “eu acho muito esperta a mãe dela. se tivesse uma filha que parecesse uma bruxa eu também deixaria a menina escondida até um pobre desavisado decidir fazer o sacrifício de se casar com ela.” capitu não sabia quem havia sido o autor de comentários tão cruéis, mas as palavras rasgavam seu interior, assim como ela desejava fazer com o véu que a separava do mundo. tão distraída com suas próprias lamúrias, que quase não notou a presença do guarda. — emir, eu não te vi aí. você me assustou! — sua voz não escondia o fato de que estava chorando, e capitu se agarrou ao pouco de dignidade que lhe restava, arrumando o véu sobre o rosto para esconder melhor o rosto e as evidências das lágrimas. — não me diga que realmente trouxe os petiscos que estávamos provando juntos. você sabe que eu estava brincando, né?
O guerreiro ouviu riso por debaixo do véu que fez com que sorrisse discretamente também enquanto escolhia a própria comida, mesmo que não houvesse graça, propriamente, na situação. "Ótimo. Seria desperdício de boa comida" não entendia a obsessão de algumas mulheres em se privarem de alimentação quando isso apenas as tornava mais fracas e sem músculos, algo inconcebível para alguém que tinha crescido em terras como Gorven, onde a comida era também um símbolo de comunhão com pessoas queridas. Como estava alheio à história por detrás do véu, foi obrigado a perguntar, assim que ela gesticulou. "Por que só quando estiver em seus aposentos? Você não está autorizada a mostrar o rosto?" arqueou uma das sobrancelhas, tentando decifrar o que havia por detrás do pano. Algumas cortes tinham hábitos estranhos, mas vindo de Durmoren, ele não estava em posição de julgar. "Ou... quer que seu futuro marido te escolha por suas outras qualidades, e não só pela beleza estonteante?"
flashback. as sobrancelhas de capitu se ergueram, surpresa com o palpite acertado de valdan. o véu era uma parte tão natural de sua vida que ao seu ver todos já sabiam do que aquilo significava. a parte mais surpreendente para ela era a naturalidade com que ele falava sobre o assunto, sem qualquer estranheza ou julgamento de sua parte. — exatamente. minha mãe fez uma promessa há muito tempo atrás que só revelaria meu rosto no dia do meu casamento. — explicou com a naturalidade de quem fala sobre o clima. a verdade era que capitu não fazia ideia do motivo da promessa, mal se lembrava do dia em que o véu se tornou parte do seu vestuário diário. tinha por volta de onze anos quando a mãe inventou aquela ideia e capitu nunca pensou em questionar. a hipótese de que o motivo por trás do mistério fosse uma beleza deslumbrante arrancou uma gargalhada intensa da princesa, que surpreendeu até mesmo ela. — sinto muito, não estava esperando por essa teoria. preciso confessar que é o primeiro a levantá-la, ao menos em minha presença. geralmente a teoria é oposta, que o véu é para evitar que se assustem com a minha aparência.
não podia negar que ver alguém coberta dos pés à cabeça era , no mínimo , incomum . não num sentido negativo , mas … curioso . era impossível não notar . e ainda assim , martina nunca perguntou nada . não por descaso , mas exatamente porque sabia que todo mundo devia perguntar . o tempo todo . ela própria estava sempre usando luvas , e cada vez que alguém perguntava o motivo , ela precisava inventar uma desculpa nova . então ela não fazia com capitu o que odiava que fizessem com ela . o silêncio , às vezes , era a forma mais elegante de respeitar alguém . ‘ quando eu ver o paspalhão de novo por aí , pode deixar que eu te aviso . ’ verificou se ele ainda estava em seu campo de visão , mas não estava . ‘ não sei o nome dele , mas honestamente ? nem quero . ’ ela apoiou o cotovelo no braço da poltrona , inclinando-se ligeiramente para capitu , mas sem invadir o espaço da outra . ‘ essa lareira é o ponto alto da noite , sem dúvidas . ’ como se o universo quisesse provar o ponto dela , uma voz exaltada se ergueu mais adiante , interrompendo momentaneamente o burburinho constante da sala . um herdeiro erguia a voz em protesto após alguma pergunta que , claramente , tocara num nervo exposto . a cadeira dele arrastou com violência quando se levantou , disparando algo em sua língua antes de sair em passos pesados . martina nem disfarçou o riso . ‘ e mais um eliminado . ’
flashback. uma das coisas que capitu admirava sobre martina era o fato dela não transparecer se afetar com o véu. o cuidado fazia com que ela se sentisse quase normal, o que era uma brisa de ar fresco. capitu sorriu consigo mesma, era bom ter alguém a quem chamar de amiga após tantos anos afastada do olhar público. — eu serei profundamente grata. — comentou, sem esconder o fato de que sempre divertia com a sessão de fofocas. sabia que a sua participação no reality show tinha um objetivo específico, encontrar um marido. mas, a cada dia que passava, capitu se via encontrado algo ainda mais precioso: conexão com outras pessoas e consigo mesma. ela levava muito a sério a promessa da mãe, e era evidente, no entanto começava a se questionar o que realmente aquele tecido que escondia seu rosto significava. o barulho da cadeira tombando removeu capitolina de seus devaneios, levando a mão ao peito surpresa com o movimento brusco do conde. — por todos os santos, eles fazem isso toda a vez? — perguntou, mais para si mesma do que para alguém em específico. podia ouvir pouco do que a lareira murmurava, mas tinha a convicção de que não era ruim a ponto de causar aquele tipo de reação. quase fazia com que ela quisesse descobrir o que a lareira teria a dizer para ela. antes que pudesse cair em tentação voltou se para martina, rindo do comentário. — você não estava mentindo quando disse que estes eram os melhores lugares da festa. é um ótimo exercício para descartar pretendentes com um temperamento ruim.
Arsen não precisou de mais que dois segundos para reconhecê-la. Claro que o véu a denunciava e, para ele, reforçava a postura de princesa intocável. Ele já tinha visto fotos demais dela nas redes para saber o tipo. Vestidos caros, joias pesadas, um cenário diferente a cada semana… como se a vida fosse um catálogo interminável de luxo. E o mais engraçado? Ela achava que isso era normal. ❛ Aposto que você fala isso de tudo que vem servido numa bandeja de prata, alteza. ❜ Ele se aproximou o suficiente para que a diferença entre eles fosse quase palpável, um sorriso enviesado reforçando o ligeiro deboche. Ele, com o perfume mais barato que sabia usar bem, e ela, com aquele aroma que provavelmente custava mais do que o aluguel de um mês inteiro no bairro onde ele cresceu. Não que qualquer pessoa ali soubesse que ele vinha do cortiço. ❛ Posso adivinhar… vai provar só depois que alguém experimentar antes, né? ❜ Provocou, o olhar fixo, como se conseguisse ver através do véu — mas não conseguia.
— nem sempre, às vezes o que está apresentado em bandejas de ouro me parece melhor. — comentou, com um sorriso secreto. o tom de voz beirava a seriedade, o senso de humor de capitu era discreto e sofisticado como tudo que a entornava, era evidente para ela a graça em seu comentário. a presença do duque causava certo desconforto, embora ela não soubesse exatamente explicar o porquê do sentimento. Suas mãos entrelaçadas em frente ao estômago, um hábito antigo que costumava aterrá-la ao momento presente. a aproximação do homem a forçou a dar um passo incerto para trás, seus sentidos sendo atacados pelo cheiro de seu perfume. incapaz de conter, levou as mãos ao rosto, como mandava a etiqueta, abafando o som do espirro que precisava ser liberado, discreto e mínimo, quase cômico dadas as circunstâncias. — sinto muito por isso, senhor. não sei o que houve, algo deve ter afetado minha alergia. do que falávamos mesmo? — a pergunta calculada para ganhar tempo e retomar o assunto de onde havia sido interrompida. o incômodo ainda persistia em seu nariz, mas capitolina já estava pronta para ignorar. — ah sim, me lembro agora. não é uma má ideia ter alguém provando antes. afinal as aparências podem enganar, não é mesmo? por acaso está se oferecendo para ocupar esta posição?
✽ gaspar concordou com a cabeça, analisando o que podia na expressão corporal de capitu, buscando algo que pudesse entregar o que ela estava sentindo. com o véu, isso se tornava uma tarefa quase impossível. um dia conheceu o rosto dela. hoje? não mais. ela era quase que uma estranha depois de tantos anos. gaspar se isolou em outro continente e ela debaixo de um véu. motivações diferentes, mas resultados parecidos. “espero que seja isso mesmo, senhorita. o ódio não merece nossa atenção. somos... somos como esta pequena salamandra. existem pessoas que querem pisar em nós, mas sempre haverá uma mão amiga para nos acolher.” não era sempre, mas gaspar era poético e esperançoso, então se permitiu a alusão. ele sabia muito bem que ele era a mão amiga na maioria das vezes e isso nem sempre seria retribuído, mas ele acreditava. em que era difícil apontar, mas gaspar acreditava. “na verdade ele não tem nome.” por que nenhum animal sem dono tem nome antes de conhecer gaspar. era sempre assim. dar nomes, depois de tantos anos, se tornava uma tarefa árdua, mas normalmente isso cabia a ele e sem delegação. ele olhou para o animal, que retribuiu o olhar e lhe disse que queria um nome. todos sempre queriam. “você acha que ele tem nome de que, capitu?”
capitu respirou fundo, escondendo os sentimentos de frustração. por mais chateada que estivesse, não era culpa de gaspar e não era justo amolá-lo com suas sensibilidades. uma única lágrima escapou de seu olho, e mais uma vez ela agradeceu aos santos pelo véu que oferecia mais uma camada de proteção entre ela e o julgamento do mundo. — tem total razão, gaspar. você sempre foi mais sábio do que eu. — a voz dela passando pouco de um sussurro. pensando sobre o que gaspar havia dito, capitolina refletiu se o problema que a incomodava era tão grande quanto parecia em sua mente. a aquela altura da sua vida, já estava acostumada com as especulações sobre sua aparência, era natural que as línguas mais ferinas presumirem que não fosse das mais agradáveis. a verdade é que, todo o tempo que passava escondida, nem ela mesma saberia dizer se sua aparência era bela ou não. ela tinha suas vaidades e muito do seu tempo sozinha era gasto com tratamentos de beleza. uma das dificuldades em não poder ser vista era que capitolina era obrigada a executar qualquer alteração em sua aparência que desejasse com suas próprias mãos. era um esforço pouco reconhecido, uma vez que as únicas pessoas que viam as mudanças eram seus pais e irmãos, e as reações eram sempre as mesmas, de forma que não a indicavam para qual lado da escala sua beleza inclinava. capitu se afastou de seus devaneios, focando na pergunta de gaspar. talvez ela fosse mesmo como a salamandra que ele carregava, ao primeiro olhar parecesse estranha, mas com um pouco mais de gentileza conseguia despertar certa simpatia. — deixe me ver, — a princesa se inclinou em direção ao animal, nivelando o olhar com ele em busca do nome ideal para a criatura. — o que você acha de guapito? — o riso lhe fugiu, mesmo antes de terminar a sugestão feita diretamente para a salamandra, mesmo que precisasse da mediação do príncipe para saber se sua sugestão teria sido aprovada ou não.