5 coisas que eu acho que foram machismo, mas não tenho certeza ou 5 situações sem as quais eu teria passado super bem
Eu descobri o machismo depois de “velha”. Nada contra meus tios e primos, mas as figuras fortes da minha família sempre foram mulheres. Tenho verdadeira paixão pelas minhas avós e pelas minhas tias! Em casa, tinha a minha mãe e a minha irmã, juntando comigo, éramos três mulheres, o que fazia do meu pai a minoria. Cresci me achando igual, e até superior aos meninos. Me achava melhor em tudo e às vezes eu era mesmo. Aí aconteceu, há uns 5 anos, eu acho, o machismo me alcançou. Já adulta, trabalhando. Pra mim foi muito chocante, me recusava a pensar que alguém me desprezaria porque tenho uma vagina. Essa descoberta me fez lembrar de algumas situações na minha vida, que eu acho que foram machismo, mas eu não tenho bem certeza. Eu posso estar certa, mas também posso estar errada.
1- Eu devia ter uns 6 anos, meu melhor amigo era um garoto chamado Ubaldo (nome fictício, tá gente?). Eu e Ubaldo éramos grudados, ele era o meu grande companheiro nas minhas brincadeiras de “menino”, que não eram de menino coisa nenhuma. Não havia problema nenhum no fato de que eu gostava de correr, subir em brinquedos e me pendurar de cabeça pra baixo. A não ser quando eu me machucava, isso não era legal.
Como em um programa de TV, tínhamos uma turma “rival” à nossa. Não lembro bem do nome do menino, mas lembro dele ser gordinho, não do tipo fofo, mas do tipo barrigudo, uma voz rouca, cabelos pretos, sardas, acho que tinha olhos claros, mas suas sobrancelhas eram grossas, e todos os seu amigos eram feios (claro que a minha turma era dos bonitos! Nós éramos os bonzinhos).
Um belo dia, não lembro bem qual, mas digamos que era quarta-feira, quartas são chatas. Os meninos marcaram de lutar, sim, de lutar... tipo briga, soco na cara, chute no saco e poses de lutador copiadas do Jaspion. O fato é que decidi que eu ia! Lembro que o Jiraya tinha uma parceira mulher em alguns episódios, e eu podia facilmente ser essa menina. Eu queria muito dar na cara daquele gordinho de topete, ele era o arquiinimigo do Ubaldo! Eu era a mocinha, eu ia salvar o dia!
Chegada a hora do recreio, fomos a turma e eu em direção a um espaço que usávamos para jogar queimada (que em Belém chamamos de “cemitério”), não demorou muito, lá veio o tal menino e sua gangue de feiosos. Fui à frente, e tomei o meu posto ao lado direito do Ubaldo. Nesse momento, o Feioso disse com aquela voz rouca, apontando seus dedos curtos pra mim: - Hahaha Ei! Olha! Ela é homem, ela vai lutar! –Levemente humilhada, mesmo que na época eu não tivesse ideia do que significava humilhação, saí com meus cachos louros sob o eco da risada dos feiosos!
Não entendia por que eu não podia lutar. Tudo bem que ele me salvou de possíveis contusões, de perder um dente de leite, ou apenas de uma cena ridícula, mas ele não podia ter dito aquilo! Eu podia lutar sim! E teria dado uma bela lição naquele feioso. E o Ubaldo??? Ubaldo não confiou em mim, ele disse: - É Ana, é melhor tu ires pra lá! (Ana é o meu primeiro nome.)
Tudo bem! Ele só queria me proteger. Não era uma atividade saudável, eu não devia me meter em brigas na escola, mas apenas isso me impediria de lutar e quebrar a cara daquele moleque, não o fato de eu ser menina.
2- Lá pela minha pré-adolescência, durante as férias, meus primos que moravam em outro estado chegaram para visitar. Eu esperava ansiosamente por essa época do ano! Era muito divertido passar o dia na casa da vovó, comendo as melhores comidas e brincando no quintal.
Como era de costume, tiramos um dos finais de semana para ir a praia. Lá, nós nos encontrávamos com os nossos outros primos, e ficava tudo muito mais legal. Quanto mais pessoas, mais gente pro time de vôlei, ou pra jogar bola na praia, jogar baralho, brincar de esconder, ficar acordado até tarde, inventar lanches e muitas outras coisas divertidas.
Eu sempre fui muito carinhosa, quando era criança, adorava abraçar as pessoas, tios, tias, meus avós e os meus primos. Um dia, eu, no meio de uma conversa, abracei um primo meu na frente do meu pai.
Não lembro de quanto tempo depois ele veio falar comigo. Não lembro das palavras para transcrever em sua exatidão, mas foi algo do tipo: “Você já está se tornando uma mocinha. Já percebi o quanto você é carinhosa com os seus primos e até com as suas amigas, mas você deve ter cuidado, com um tempo, as pessoas não entendem isso. Talvez seja bom você se controlar".
Antes de mais nada, não estou chamando o meu pai de machista, ele estava sendo protetor, e ele estava certo. Pessoas são ruins, maldosas! Até mesmo com uma garotinha. Que grande porcaria, uma menina de 12 anos não pode ser carinhosa com as pessoas sem ser mal interpretada. Eu diminuí as minhas demonstrações públicas de afeto com as pessoas por ter medo do que outros iam pensar.
Eu tentava não ser muito carinhosa com minhas amigas mulheres, podiam pensar que eu era lésbica. Parei de ser carinhosa com meus amigos homens, podiam dizer que eu era “oferecida”. Com um tempo, eu criei alguns problemas com contato físico. Menos com os meus melhores amigos, para eles eu posso dizer “eu não tomei o meu remédio hoje!”, e eles vão rir e me abraçar gratuitamente.
Hoje em dia, virou moda falar de afeto, distribuir flores e abraços a desconhecidos. Então, antes de você sair por aí pedindo “Mais amor, por favor”, pense em quantas vezes você julgou uma mulher que te deu abraço gratuito! Afeto é legal, afeto é só afeto, não significa que uma garota queira dormir com você, principalmente se essa garota tem 12 anos! Isso seria pedofilia, e até onde eu sei é crime! Se liga!
3- Quando eu já era uma adolescente, eu mudei de escola. Saí de uma escola na qual eu me sentia em casa para uma na qual eu me sentia um alien. Um alien que não fazia chapinha, nunca tinha ido pra Disney, e não frequentava um clube high society.
Depois dos meus 13 anos, eu não era muito boa em fazer amigos. Com quase seis meses no tal do colégio, surgiram rumores que um garoto da minha sala estava a fim de ficar comigo. Eu não sabia bem o que isso significava, só sabia que não estava me sentindo muito confortável com aquilo, alguma coisa não encaixava, aquele menino nunca tinha parado pra conversar comigo, andava com pessoas que não me dirigiam a palavra. Aquilo ali estava muito errado!
Quase uma semana e aquele menino insistindo com aquela história, e eu não tinha mais risadas tímidas para sair da situação. Uma menina que era minha amiga me disse, em segredo, que tinha escutado o menino dizer para os “odiosos amigos” que queria ficar comigo pra “pegar na minha bunda”, um príncipe né? Isso me fez perder qualquer pingo de remorso em dizer pra ele um sonoro “não”.
Contei para as minhas poucas amigas o que tinha acontecido. No dia seguinte, fui acusada de ter “espalhado” para o colégio que tinha dado um “fora” no garoto! Acusada em praça pública, no meio da sala, com direito a dedo na cara. Não basta ser nova na escola, tinha que passar por uma mini-humilhação no primeiro semestre!
Claro!!! Porque ele dizer para todo mundo (ele era bem popular), que queria pegar na minha bunda tá tudo bem! Ele é homem, faz parte do instinto da puberdade querer pegar as menininhas! Enquanto eu não podia dividir a minha patética história com as minhas amigas sem ser chamada de fofoqueira, óbvio, apenas óbvio que a culpa era minha! A culpa era toda minha! Quem eu pensava que era? Recusar o garoto popular, eu? A novata? Aquela dos quadris largos e provocadores na calça jeans? Certeza, que a culpa era minha!
Confesso que hoje eu sinto raiva daquela Carolina ali, calada, ouvindo todas aquelas acusações de uma das amigas odiosas, daquele garoto odioso! Tenho vontade de ir lá mandar ela se levantar e dar na cara daquela imbecil. Mas que bom que não o fiz, eu poderia acabar suspensa! Ia acabar sendo bem pior. Acho que, naquele momento da minha vida, eu tinha mais medo da minha mãe, do que do meu orgulho ferido.
(Nesse ponto aconselho que você faça uma pausa, ou ouça uma bela canção! Você chegou na metade! E daqui só piora!)
4- Essa aqui é bem rápida e quase indolor. Na faculdade, tive um professor conhecido por suas cantadas e braços longos. Sempre que eu lhe pedia ajuda, ele fazia “o truque do mouse”. Colocava a mão dele sobre a minha e o rosto bem próximo ao meu. O truque não era um “privilégio” meu, outras colegas reclamavam, e eu já tinha escutado relatos de outras alunas, que diziam que aquilo era um costume dele. Um homem de “tradições”.
Um dia, entrei na sala dele para usar o computador, pedi licença com um sorriso simpático. Ele estava no meio de uma aula, eu só queria baixar um arquivo:
- Licença professooor! Vou baixar um arquivo aqui, eu juro que é rapidinho.
Entrei meio fazendo graça, para aliviar o fato de que eu estava atrapalhando a aula dele. Porém eu realmente precisava daquele arquivo. Ele fez que sim com a cabeça, meio rindo da minha graça. Quando me sentei na cadeira, ouvi:
Nãããão, ele não tinha falado comigo. Não é possível que ele tenha dito aquilo para mim, na frente da sala inteira, no meio da aula, dentro de uma universidade. Achei ético, e você?
Como ele conseguiu fazer aquilo, em menos de 15 minutos que eu pretendia passar lá dentro? A cantadinha era pra mim mesmo. Então senti meu rosto esquentar, e meu corpo murchar na cadeira de tanta vergonha. Meio entre dentes, sem sorriso, respondi enquanto retirava o meu pen drive do computador e deixava a sala, em velocidade:
- Ê professor, pára com isso...
Um professor te chamar de sexy, dentro de uma sala de aula cheia e te envergonhar sem o seu consentimento! NÃO ESTÁ OK. Nem se ele fosse o reitor, o coordenador, o que seja, NÃO ESTÁ OK! Sexy ou não, não está dentro da competência dele avaliar o meu corpo ou o meu comportamento. NÃO ESTÁ OK! E antes que alguém levante esse questionamento, eu estava de saia longa, e eu sou sexy às vezes.
5- Um dos meus primeiros empregos foi em uma TV. Foi o primeiro emprego que eu gostei muito! Me dediquei muito! Por conta disso, eu fui “promovida” muito cedo. Saí de uma mesa escondida no canto de uma sala para dentro de um estúdio. Pra mim, aquilo foi muito.
As pessoas que rondavam por ali e já trabalhavam lá há mais tempo que eu não ficaram aparentemente muito contentes. É impressionante quando você muda de posto no seu trabalho, como algumas pessoas começam a tratar você diferente. Seja melhor ou pior.
Depois de alguns meses trabalhando nesse lugar, um colega me contou que surgiu um boato que eu estaria dormindo com o meu chefe (boato este propagado por uma mulher, só um detalhezinho). Quem imaginaria aquela menina de 24 anos sendo promovida tão cedo. É claro que ela estava dormindo com o chefe.
A rapidez com que fui de “prodígio” a “interesseira” foi impressionante. Não dormia com o meu chefe, não fazia o meu tipo (aqui entre nós, eca!). Ele tinha uma vibe estranha. Fiquei sabendo anos depois que ele se dedicou um período da vida dele a me demitir. Só que ele não contava que seria demitido antes. Ironia da vida, né? Chefes também têm chefes, e aparentemente ele não estava dormindo com o dele.
Fiquei pensando se eu não fosse uma mulher de 24 anos esse boato teria surgido. Ou por que os comentários nos corredores não foram sobre a minha competência, sobre como aprendo rápido, sobre os roteiros que eu escrevia ou sobre a última entrevista legal que eu tinha feito? Garanto que eram bem mais legais que a minha vida sexual, isso eu tinha bem certeza.
Depois de alguns meses eu pedi demissão, não por conta do boato, mas porque tinha encontrado outra coisa melhor na vida pra investir, e pasmem! Sem “dar” pra ninguém!
Tive outros momentos em que me senti menosprezada profissionalmente, ou tratada com risinhos divertidos a respeito da minha atitude de “gente grande”, pelo fato de ser mulher, ou muito nova. Não sei se foi machismo. Não me lembro de nada tão explícito, mas recordo de abraços, que eu não pedi, de homens que se acharam no direito de me dar. Também já trabalhei para um cara que apresentava todas as pessoas da sala que eu estava para as visitas (todos homens, claro), e me ignorava solenemente.
Às vezes eu fico irritadíssima, às vezes eu solto umas lágrimas no caminho de casa, porque injustiça é o tipo de coisa que me irrita. Na grande maioria das vezes, eu chego em casa, tomo banho, faço um sanduíche, vejo TV, e fico imaginando o quão divertido vai ser quando eles virem onde eu vou chegar. Tenho muito mais exemplos femininos incríveis a seguir do que pessoas babacas na minha vida.