Vejo aquele verbete Que me diz o que é o mundo Não me conte Não quero saber as cores Que ainda vou descobrir Fecho Descrevo o mundo Pelos meus próprios sentidos Que buscam Um Apenas um Sentido
Theu Souza
Xuebing Du
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Vejo aquele verbete Que me diz o que é o mundo Não me conte Não quero saber as cores Que ainda vou descobrir Fecho Descrevo o mundo Pelos meus próprios sentidos Que buscam Um Apenas um Sentido
Theu Souza
Há três de mim competindo por atenção Um novo, um velho e um ancião Todos sabem um pouco mais O novo me diz para ir em frente, sonhar O velho fica em silêncio, quer me ver tropeçar O ancião está quase sem cor É transparente, vejo suas veias As pupilas dilatas não combinam com o quadro Seu aspecto é de quem transita entre duas realidades Mesmo sendo irreal, como ele é Sua pele é lisa, fina Como se respirasse pela pele A pele é dura, carapaça Ele ri Sempre ri das contradições É um riso de som agudo Uma agulha arranhando a superfície Tira sangue, sim tira Seus cabelo está longo, na cintura Cor anil Os dedos acobreados e sujos se movimentam Me chamam Ao meu ouvido ele diz Que tem sede Trago para ele Dividido em dois copos O mar Enquanto bebe cada onda Ele murmura Não mais que isso Um murmúrio Que é a água do mar é doce E que somos todos apressados demais Para falar do que não sabemos
Theu Souza
Acordar é perceber o mundo Enquanto ele colide em todas as direções Em um sentido, continuamos dormindo Apagando as estrelas Ofuscados por brilho e escuridão Que orbita pouco mais de nós mesmos Mas vemos, atentos Olhos e ouvidos atentos Como se respirássemos pelas pupilas Encontramos no esplendor Sentido para essa dimensão da matéria Ensaio um bocejo Boca bem aberta Engolindo a luz e a falta de luz Sinto na ponta dos dedos a pressão do ar Se me falta algo, é tempo Um dos meus sentidos é o tempo O que tenho O tempo perdido Escorreu por meus dedos Quando sonho, é para peneirar o tempo E dele tirar Sustento Rio no meio do bocejo O mundo colide em todas as direções Eu me expando Como quem quer acreditar Que existe Em um mundo de cores Que não desbotam
Theu Souza
“Tem gente na rua. Não só na rua, mas morando lá. Gente morando na rua. Tem gente também sem casa. Com casa, mas sem lar. Tem gente, tem sim, que fica espreitando a janela dos outros, a comida dos outros, o cachorro dos outros, a grama do vizinho, mais verde que a da casa. Da casa, não lar, casa. São essas pessoas, que vivem indefinidamente suas vidinhas vazias, que nos fazem pensar se é bom ficar na cama até mais de meio dia deixando o tempo passar. Por mais que o cobertor seja quente, por mais que o ventilador faça cosquinha nos pés, a gente deveria mesmo é levantar, andar, ver o sol, fazer um bolo. Viver. A gente, tendo um lar e tendo uma rua que não é casa, tem quase tudo para ser feliz.”
— Theu Souza (via poeras)
A noite escura me diz tantas coisas que é possível ficar em silêncio. Correspondo-me comigo mesmo e sei que existo. São. Existo. Existo para que possa evadir de mim. Os sentimentos me consomem. Na parda e na escura. Na noite branda e vil.
Enquanto existirem mundos, existirei Pois tenho em mim mais que pó das estrelas Tenho em mim condensados Sonhos e gotas de chuva Que não cessam De lavar a existência Com esperança
Theu Souz
Sou todas as coisas, penso E penso, como se imaginasse, se estou em toda parte Tocando todas as superfícies, do ar à água Da terra ou do espaço O que existe entre a fina camada daquilo que existe e do que não existe mais? É como se estivéssemos no umbral Próximo à órbita do mais próximo Asteroide Sideralizo-me e colido comigo mesmo c me torno uma nova versão de destroços É como se estivéssemos nos tornando Fragmentos Fragmentos entre as estrelas De brilho quase eterno
Theu Souza
Interesso-me por todas as coisas que podem me deformar. Quase todas as coisas. Quando meus olhos fecham à noite, eu percebo o mundo. Noto o espectro que me ronda e me quer, me deseja. Sinto seu hálito quente na nuca, desfazendo todas as minhas tensões e amarrando novamente os meus nervos. Ouço seus passos e seu toque oportunista não passa impune. Vejo o seu vulto de uma por a outra, saltando de janela em janela, batendo nos vidros. Não nego que temo por minha vida, temo que o amanhã seja engolido pelo silêncio. Minha garganta não consegue expelir minha voz. Eu mesmo, meu claustro. E não há escapatória. O que me deforma além de mim? Sou meu espectro, meu duplo, que sinto emergir de minha própria carne. Sinto minha carne ser sublimada, compelida a se diluir em ácido. Não resta nada de mim. A isso que chamam liberdade eu chamo por outro nome. Perder-me na imensidão do eu me deformou. Pensei ser imune aos terrores. Mas há em mim um espectro. Um espectro me deforma. Me deforma de quase todas as formas. Ao meu lado, em mim, escorre dos lábios. Salivo, pois tenho fome. Quero-me
-Theu Souza
Fujo das pessoas Que me estendem as mãos Pois sei que elas Se forem no meu pescoço E vão Sufocarão quem eu sou Na melhor das hipóteses Sairei semivivo Como se estivesse como os outros Aturando e atraindo Energias quase sem cor Vibrações vivazes
Theu Souza
O tempo todo
Eu fui
E mesmo percebendo que era
Deixei de ser
Agora acordo
Em pesado pesadelo
Que desperto alheio
Pois me perdi de mim
E o encontro mais impossível pode me levar
Para mais longe
E me perco cada vez mais
Sendo no vazio
Um ser
Que flutua
Em vão flutua
Em líquidos
Flutua
- Theu Souza
Minha tese é que estamos todos amarrados. Mãos, pés e boca, cada um ao teu jeito, amordaçados. E, se gritamos, somos sufocados. Sufocamos. Estamos debaixo de nós, estamos debaixo de camadas de nós. Meu olho vê um por um fio menor que a menor fechadura. Nem vejo, espio. E o mundo não olha de volta para mim, pois não há o que olhar. Eles me percebem, mas não me veem. Eu fico mudo. Meu cabelo está intacto, fio por fio. Alinhado. Visto meu terno de duas cores, cortes perfeitos. Os cortes me vestem quando o sangue verte. Sangue ou terra? Em cima de mim, camadas precisas. Uma, duas. Demão de tinta. Cor azul. O verde de meus olhos, fio a fio, me desconecta. Sinto as mãos, mãos firmes em volta de mim. Eu já fui. Sou líquido. Vestem, me vertem.
Theu Souza
Passo o tempo passando em mim e navego como quem não sabe Ir Onde me perco, mergulho Submergido, levanto A pele queima com o sol Mas o sol é tão alto Alcanço seu reflexo O seu quase Debaixo da água Que me aspira
Theu Souza
Sou um pouco de mim
E isso basta
para que me ache pouco
em mim
-Theu Souza
Ando às voltas com uma ideia que circula, confunde sinapses. Vejo ou sinto os impulsos elétricos se manifestando, noto suas cores, um arco íris de ideias semivivas que corta um céu interior, feito de massa orgânica, sem estrelas. Para qualquer lugar que viro os olhos, enxergo uma cópia, um pedaço do meu próprio entendimento. E quando percebo que existo, estou só, às voltas. Danço e peregrino nas minhas vias transversais, oscilando, transbordando; sou como um líquido, inanimado, fluindo para todas as direções, como se fosse feito de uma luz que se derrama nas bordas do mundo e não chega a lugar nenhum. Uma luz cega que, cega e que guia.
Theu Souza
Moro em alguém que não conheço. Falta em mim quem diga algo verossímil. Perto do meu corpo, oprimem. Compartimentam minhas memórias e eu mesmo devaneio, eu, transmigro-me em lembranças do presente, enquanto acolho o futuro com um breve vislumbre do passado. E meus verbos, frases, fórmulas, se saem fora de ordem é porque eu mesmo estou disjuntado. O tempo tem me tornado um depósito de peças, engrenagens de mim, e eu aceitei esta condição partida, sempre incompleta e incompletável, como quem abraça uma dádiva. Sendo vários, não preciso ser eu. Estou livre para flutuar, volátil, sem culpas. Não me lembro. Não sei se já fui alguém. Hoje pareço comigo. Amanhã acordarei com o rosto mirando para as estrelas exigindo saber se há, no alto, sinal de minha essência.
Theu Souza
Sou o cosmo Sou o próprio eu Sou a verdade envolva Em minhas versões E se espio, por atrás da cortina Verei que há um espelho Que nada reflete Imagem imóvel do que me tornei Radicado na vaziez, em tom de sépia Cores mais mortas que as enterradas Em uma pintura do surreal Que é olhar para si com candura
Theu Souza
A vontade perdida deixou o corpo inabitável e, sendo casca, nada resta a não ser secar e se integrar com a terra. Reintegrar. Finquei raízes em uma amargura sem fim, cresci embebido pela seiva do talvez e meus frutos ou não passaram da fase floral - fétida, exalando odores repulsivos e atraindo moscas e outros bichos infectos - ou tiveram todos o mesmo sabor violento, a textura cortante. Sei porque provei, porque deixei que descesse pela minha garganta, depois de uma mordida afiada, um sumo doce, espesso, envolto por uma pele vegetal carcomida por vermes. Além de prematuros, foram todos deitados no chão sem carinho, sem reza, sem ritos. Lá ficaram, esperando que lhe habitassem os habitantes do subreino da decomposição; demoraram a chegar; três séculos de espera até que o primeiro se atrevesse migrar para dentro de um rebento abandonado. Morreu em seguida. Fez companhia, com as patas para o ar. Logo me juntei ao coro infernal sem almejar o céu. Como pária, aceitei minha pena e regurgitei as palavras de afeto que em mim nunca tiveram efeito. Ao longo uma vida, acumulei lamúrias, confinei quem sou, despejei formas lexicais em potes de silêncio e bebi cicuta, como Sócrates, pelo prazer de se ver perecer e voltar a vida em seguida, cumulando o tempo sacrificante e o tempo restante. Não controlo, sou casca, não quero controlar. Pois me falta vontade. Me falta ser.
Theu Souza