Hoje uma das primeiras coisas que li na internet foi o post de uma amiga querida, comentando o fato de terem postado um vídeo de um estupro coletivo. 30 homens estuprando uma mulher inconsciente. No post, ela pedia que esses vídeos não fossem abertamente divulgados e sim denunciados à polícia, porque isso expõe a vítima e pode causar reações desconhecidas em quem vê. Eu me peguei rezando - literalmente rezando - pra não saber mais dessa história. Eu não queria saber dessa história mais e isso é muito egoísta da minha parte, mas tudo que eu sentia era ódio, dor e ânsia de vômito simplesmente por ter ouvido falar. Não dava. Minhas preces foram devidamente ignoradas e eu tive acesso a fotos do vídeo (não o assisti) e os posts dos homens envolvidos, celebrando o ato. Já aviso que será um texto difícil de ler. Eu raramente escrevo no meu estado de espírito do momento. Esse texto é sobre humanidade. Mas nele eu vou narrar um estupro com detalhes e pode ser muito forte para algumas pessoas. Tenham prudência. A mulher é desconhecida. Não sabemos seu nome, sua idade e qual a sua relação - se é que existe alguma - com seus estupradores. Ela está desacordada e sua vagina e ânus sangram. Homens ao fundo riem e fazem piadas do seu corpo mutilado e invadido. Filmam seus orifícios machucados. Aos risos e gargalhadas. Eu gostaria que você pensasse nas mulheres ao seu redor. Pense na sua mãe, na sua irmã, sua melhor amiga, sua chefe. Não pense somente nas mulheres que você gosta. Pense em todas as mulheres que você conhece, pense nos seus defeitos, pense na maneira como elas riem. Pense nas coisas que elas dizem, suas ambições, seus medos, nos elogios que elas te fizeram, nas críticas. Pensa naquela garota escrota que te perseguia na escola. Mas lembra do jeito que ela sorria, lembre dela cantarolando uma música, mexendo no cabelo, tirando alguma dúvida com o professor. Pense em mulheres existindo na sua plenitude. E agora pense no vídeo e no acontecido com a mulher desconhecida. Imagine aquilo acontecendo com alguma delas. Imagine aquelas mulheres, cheias de vida, que cometem erros, que acertam, que tem defeitos e virtudes: qual delas merece algo assim? Para qual delas voce reservaria esse destino? Imagine um momento de consciência daquela mulher desacordada do vídeo. Imagine que ela podia ouvir - ou pior, sentir - o que faziam com ela. O que ela pensou? Como ela se sente agora? Será que ela sentia enquanto era penetrada repetida e violentamente por homens desconhecidos que o faziam rindo da sua dor? Como é pra você imaginar que isso poderia acontecer com algumas das moças que você pensou antes? Dói né. É difícil lembrar disso o tempo inteiro, porque estamos acostumadas com a pornografia e a sociedade inteira DESUMANIZANDO NOSSOS CORPOS, mas nós somos seres humanos, completos, cheios de dúvidas, acertos, certezas e sonhos, pode acreditar. Você é um ser humano. Aquela moça sem nome nem sorte também. E muitos sonhos daquela moça, que tem um prato favorito, que chora em um filme, que tem alguém que gosta muito, que já fez alguem feliz, que já ajudou alguém, que já contribuiu positivamente nesse mundo, alguns dos sonhos dessa moça morreram da forma mais desumana e nojenta do mundo. ELA É UMA DE NÓS. Comece a enxergar a você mesma nas outras mulheres e pode acreditar: só assim nós sobreviveremos. Faça isso por mim, por você, pelas moças que vc pensou, pelas moças que você não conhece, pela moça do vídeo. Seu corpo, sua alma e coração foram despedaçados em meio a risos de homens. E homens normais. Saudáveis. Homens que estão à nossa volta. Esse vídeo foi compartilhado. Por outros e outros. Nossa dor é motivo de piada, nossos corpos sendo mutilados, nosos orifícios sendo invadidos, nossa humanidade sendo destruída é MOTIVO DE GRAÇA. EDIT: Esse texto é destinado às mulheres porque a questão de imaginar o horror dessa moça para nós pode ser uma experiência aterrorizante e que nos faça refletir. Mas para a classe masculina se chama entretenimento. Duvida? Pesquise sobre as categorias mais acessadas nos sites de pornografia do mundo. Homens, o que nós os fizemos?
Juia Fernandes











